Desaforismos

“O corpo é o templo onde  a natureza pede para ser reverenciada.”

“Livrez-vous, Eugénie; abandonnez tous vos sens au plaisir; qu’il soit le seul dieu de votre existence; c’est à lui seul qu’une jeune fille doit tout sacrifier, et rien à ses yeux ne doit être aussi sacré que le plaisir.”

“As paixões humanas não passam dos meios que a natureza utiliza para atingir os seus fins.”

La Philosophie dans le boudoir (1795) de Donatien Alphonse François, marquis de Sade

“De todas as taras sexuais, não existe nenhuma mais estranha do que a abstinência.” Millôr Fernandes Revista Veja 155 (25 de agosto de 1971)

9435._SX312_QL80_TTD_

Elixir dos Gnósticos: a existência da alma humana em Mullā Ṣadrā

Resumo da dissertação de Mestrado de Nathalia Novaes Alves, sob orientação de Michel Attie Filho e defendida no Departamento de Letras Orientais da Universidade de São Paulo (USP)

            Figura-chave da chamada “Escola de Isfahān”, Mullā Ṣadrā (979 H. / 1571-2 d.C ) ocupou papel de destaque durante a renascença safávida do reinado de Abbās I (d. 1039/1629). Acredita-se ter sido ele o principal responsável por revitalizar a filosofia da iluminação de Sūhrawardi naquele contexto, além de consolidar a junção entre sufismo e neoplatonismo. Foi responsável, ainda, pela elaboração de metodologia própria para a compreensão da realidade, tendo por base fontes filosóficas, teológicas e místicas, além de mesclar raciocínio lógico, inspiração espiritual e meditação profunda. Ṣadrā aplicou tal metodologia às principais obras da tradição xiita duodécima. Do ponto de vista filosófico, Ṣadrā percebe o conceito aristotélico de “substância” como processo, em constante mudança; nesse aspecto, o filósofo aproxima-se da leitura de traço neoplatônico, já presente em al-Fārābī e Ibn Sīnā. O modo como Ṣadrā relaciona as noções de “essência” e “existência” deu novas feições à discussão metafísica de tradição árabe-islâmica. Em sua doutrina, Ṣadrā acaba por transformar a metafísica construída a partir da primazia das substâncias, como elemento primordial da existência, em outra, fundada e movida por atos de existência. Apesar de perpassar esses e outros temas, a principal contribuição d’O Elixir dos Gnósticos diz respeito à ênfase do autor no autoconhecimento. Como Ibn Ἁrabī, Ṣadrā acredita que o conhecimento da alma / nafs – ou seja, o conhecimento de si mesmo – e o conhecimento de Deus estão interligados. Por esse motivo, o presente trabalho se preocupou principalmente em analisar a relação entre os existentes, a alma e a inteligência primeira, pois é a partir dessa relação que se torna possível vislumbrar e compreender as questões fundamentais da origem e do retorno à fonte doadora de existência. Do ponto de vista histórico, vale destacar que à fundação do império safávida acompanhou-se a conversão em massa da população ao xiismo. Para responder à demanda por instrução da multidão de novos convertidos – e igualmente firmar as bases da nova religião oficial -, grande número de religiosos foi trazido de áreas xiitas respeitadas pela doutrina e pela ortodoxia, tais como Líbano e Iraque. Esse clero árabe recém chegado, que teve Ṣadrā como herdeiro, foi responsável por incorporar novos elementos ao pensamento religioso vigente em terras persas e, assim, conformar ambiente propício para o desenvolvimento do pensamento filosófico de Ṣadrā.

Para ler a dissertação:  http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8159/tde-12052015-101441/pt-br.php

Entrance_of_Mulla_Sadra's_House_in_Kahak_Qom
A porta de entrada da casa, onde Mulla Sadra costumava viver durante o seu exílio em Kahak. Há uma frase acima da porta escrita em persa que diz “A casa do sábio, Mulla Sadra”.

Juventude perdeu o medo do capitalismo

Filósofo contesta mitos sobre “geração despolitizada”, propõe intensificar choque de valores e sugere que é preciso hackear instituições conservadoras

Entrevista a Beatriz Macruz, Guilherme Zocchio e Rute Pina* 

safatle-mov

Que caracteriza o comportamento da geração que, ao chegar à faixa dos vinte anos, começa a sondar seus papéis políticos? Por que ela não adere a hábitos valorizados no passado, como o engajamento num partido ou a leitura de um jornal diário? Como expressa seus desejos de transformação, que parecem desdobrar-se em múltiplas causas e campanhas, às vezes fragmentadas? Que atitudes assumirá, no futuro próximo?

O filósofo Vladimir Safatle é um dos que têm dedicado parte de seu tempo a refletir sobre estas questões. Conhecido de muitos pelas colunas que publica em “Carta Capital” e “Folha de S.Paulo”, ele é, muito mais que isso, um estudioso profundo da herança (e presença…) da ditadura brasileira; e um pensador que, à maneira de Slavoj Zizek, procura articular marxismo renovado com teoria psicanalítica.

Suas reflexões têm produzido interpretações instigantes sobre a nova geração. Ele rechaça, é claro, os pontos de vista superficiais, segundo os quais o fato de não haver “povo saindo às ruas” indicaria uma fase de despolitização. É preciso ir mais fundo, examinar os valores que mobilizam e os que já não encantam; a partir deles é que será possível fazer previsões de longo prazo.

Safatle anima-se, quando se dedica a esta sondagem. Ele destaca que aspirações como ascender socialmente, ser “bem-sucedido” segundo as regras e critérios do sistema, “fazer curso de publicidade ou entrar no departamento de marketing” já não cativam. Há sinais de desconforto social. Busca-se outros encantos e prazeres: talvez, participar em redes de colaboração, contribuir para uma distribuição menos desigual das riquezas produzidas por todos, construir novas relações entre o ser humano e a natureza.

Mais: segundo o filósofo, já é possível vislumbrar o momento em que desaparecerá a cultura do medo disseminada pelo capitalismo após a queda do (mal-)chamado “socialismo real”. Está em xeque, diz ele, a ideia de que “se quisermos grandes mudanças, provocaremos catástrofes” e “só estaremos seguros no presente – por mais que o detestemos e o julguemos insuportável”…

É natural, diz Safatle, que a nova geração busque organizar-se de forma não-tradicional. “Os grandes partidos já não têm força alguma para mobilizar as pessoas. E os pequenos, cobram caro pela mobilização: um tipo de adesão que boa parte dos jovens não está disposta a dar, pelas melhores razões. Eles não querem virar instrumentos para uma lógica partidária”.

À falta de instrumentos eficazes para expressar vontades coletivas, seria o caso de optar exclusivamente pela micropolítica, ou pela ação à margem das instituições? Safatle pensa que não. Ele rejeita fórmulas como a de John Holloway, que propõe uma esquerda totalmente afastada do Estado. Alfineta: “se tal postura prevalecer, os donos do poder irão atrapalhar todas as nossas tentativas de mudar o mundo: não conseguiremos fazer nada”.

Mas propõe-se a sondar saídas. “Há algo no meio do caminho [entre as lutas e as instituições], que você opera pressionando de fora (…) O Estado, os partidos e o parlamento não vão desaparecer. No entanto, você pode operar as estruturas políticas em outras chaves. Forçar a democracia plebiscitária, esvaziar atribuições do parlamento, ativar processos de democracia direta”. Operar o que outros pensadores chamam de “hackeamento das instituições”.

Safatle falou sobre todos estes temas numa longa e preciosa entrevista, feita por três estudantes de jornalismo da PUC – São Paulo. “Outras Palavras” tem a satisfação de publicá-la a seguir (A.M.)

Você consegue imaginar por que é a geração da juventude de hoje, e não a que viveu ou ainda pegou o resto da ditadura, que está promovendo os esculachos contra agentes do regime militar?

Safatle: Porque esta é uma das gerações mais politizadas que tivemos nos últimos trinta anos. Contrariamente ao que algumas pessoas querem nos fazer acreditar, não vivemos num processo irreversível de despolitização juvenil. Acredito exatamente no contrário. Acho que a geração que hoje tem vinte, vinte e poucos anos, é muito mais politizada do que a minha, de pessoas que hoje têm quase quarenta. A minha era de pessoas que tinham como maiores preocupações ascender socialmente no mercado, fazer curso de publicidade, entrar no departamento de marketing… As preocupações políticas eram nulas. Existia todo um discurso de que as ideologias haviam terminado, havíamos chegado ao fim da história e não havia outra forma de vida possível, a não ser a institucionalizada pelas sociedades capitalistas avançadas.

A atual, é uma geração que vive a experiência da crise social, de uma crise econômica mundial (mesmo que o Brasil seja um caso à parte). Há um esgotamento da confiança na democracia parlamentar, a ascensão da extrema direita, o retorno do racismo e da xenofobia: são questões de profunda natureza política. É muito normal que uma parcela de jovens, no Brasil, volte-se para o que resta da ditadura, seu legado, a impossibilidade de saber que há um acerto de contas com os crimes do passado; e que faça mobilizações como as que começamos a enxergar.

Isso também demonstra algo interessante: as sociedades nunca esquecem. Até hoje, fala-se no genocídio armênio, há mais de cem anos. As experiências das ditaduras podem ser simbolizadas, quando você encontra uma inscrição simbólica adequada para este tipo de experiência. Como isso não existiu no Brasil, dá-se um fenômeno descrito por Lacan: o que é expulso do simbólico, retorna no real, e de forma violenta. Como nunca tivemos uma inscrição simbólica da violência da ditadura, ela volta agora sob a forma do desprezo, que várias parcelas da juventude têm a figuras que cometeram crimes contra a humanidade. Estamos falando do uso do aparato do Estado, da tortura, assassinato, estupros, ocultações de cadáver e coisas desta natureza.

Mas esta manifestação civil não chega em uma instância oficial do Estado. Você acha que ela também pode contribuir para que surja um debate sobre o tema?

Safatle: Acho que demonstra claramente a existência de um desconforto social – e é o primeiro passo. O argumento de quem quer esquecer a qualquer custo é que a sociedade já se pacificou e reconciliou, não haveria nenhuma razão de o Estado intervir em um processo resolvido. Essas manifestações demonstram que tudo isso é falso, uma mentira, a reconciliação foi extorquida. A própria Lei da Anistia é um exemplo claríssimo: foi votada só por membros do partido do governo. A oposição não se reconhecia de no projeto. Que tipo de acerto é esse? Conseguiram extorquir a reconciliação, e querem fazer passar a ideia que ela resultou de ampla negociação por debate. Sem contar que as instâncias de justiça de transição, no mundo inteiro, são completamente contrárias à de uma anistia autoconcedida. Os militares concederam anistia para si mesmos. Isso é, em qualquer situação, uma aberração jurídica.

Você acha que o fato de isso aparecer no momento que o estado brasileiro está se organizando para instaurar uma Comissão da Verdade revela um desconforto?

Safatle: É uma maneira de pressionar o debate, tentar impedir que a Comissão da Verdade seja uma farsa, como tudo indica que pode ocorrer. É uma comissão esvaziada, tem apenas sete membros. Vai operar sem poder de mandar material para a Justiça, pois, a princípio, sua função é descobrir o que realmente aconteceu. Essa é uma questão importantíssima: não sabemos o que aconteceu. “Existem quatrocentos e poucos mortos”. Quem disse que foram quatrocentos e poucos? Isso foi o que a gente conseguiu descobrir.

Num processo de Comissão da Verdade, os crimes vão aparecendo. Quem nos garante que não aconteceu no Brasil algo como na Argentina: sequestro de crianças, essa brutalidade que é, para mim, o pior dos crimes. Entrega-se os filhos dos torturados para os torturadores. Corta-se a possibilidade de memória da dor. Esse lado maquiavélico da ditadura argentina coincide com a pior experiência do nazismo. Primo Levi dizia que a pior frase que ouvira, quando estava no campo de concentração, era a de um oficial nazista: “tudo o que a gente fez é tão inacreditável, que ninguém vai ouvir ou acreditar no que você disser. E a gente vai apagar todos os rastros”.

Você percebe uma mudança na forma, na estética dos esculachos para os movimentos na época da ditadura?

Safatle: Com certeza. Você tem a identificação clara de um indivíduo e uma pressão, um movimento claro de desprezo. É um recado: “você pode conseguir segurar algumas coisas na imprensa e escapar de tudo, menos do o desprezo social”. É completamente distinto das manifestações que ocorreram no período militar, de luta contra um aparato repressivo. Temos agora consciência de como o reconhecimento social é central na vida política. Retira-se o reconhecimento social ao dizer: “Você não pode ser um cidadão de plenos direitos. Você é um criminoso”.

Você enxerga uma relação entre a mudança de ativismo no Brasil e o movimento Occupy, que propõe uma nova forma de se manifestar?

Safatle: Há algo em comum: todos estes movimentos são feitos à margem de partidos. As estruturas partidárias – pelo menos as grandes – não têm mais força alguma parra mobilizar as pessoas. E os pequenos partidos cobram caro pela mobilização: um tipo de adesão que acredito que boa parte dos jovens não está disposta a dar, pelas melhores razões. Eles não querem virar instrumentos para uma lógica partidária. Essas mobilizações se fazem em torno de temas: você se organiza para certos objetivos, cria estruturas ou fóruns ligados a eles; depois, eles se dissolvem. É bem provável que isso seja cada vez mais utilizado.

O Occupy forneceu um modelo para este tipo de processo. Mas… o que eles conseguiram? Francamente, não é esta a questão. O ponto de vista por trás de tal pergunta é muito rasteiro. “ – Deu um resultado logo em seguida? – Não. – Então, não deu resultado algum”.

Não faz sentido: às vezes os resultados precisam de anos. Um primeiro movimento produz um desdobramento aqui, outro ali… Lá na frente, anos depois, você vai enxergar resultados mais concretos. Essa visão de ato e reflexo, bate aqui e vê se acontece alguma coisa ali, é a antipolítica por excelência. Acho que os movimentos foram muito bem-sucedidos. Eles tensionaram um acordo que parecia intocável, forneceram o modelo de um processo de mobilização e isso não terminou.

No Chile há, até hoje, grandes manifestações sobre a educação, 400 mil pessoas nas ruas contra o governo, por uma escola pública de qualidade. O processo é mesmo lento, ninguém ache que vai conseguir modificar o tabuleiro do xadrez do debate político de um dia para a noite, mas toda grande caminhada começa com um passo – e ele foi dado.

Penso numa frase de Deleuze, segundo a qual os jovens necessitam muito ser motivados. Nossa geração pede isso. Você não acha que falta uma noção maior do que tudo isso representa?

Safatle: Isso é muito normal, porque tivemos um esgotamento das grandes explicações. Não porque estivessem completamente erradas, mas estavam parcialmente erradas. Não deram conta de uma série de processos ocorridos nos últimos vinte, trinta anos. É normal que você precise reconstruí-las agora, em novas bases. Aquilo que um dia Jean-François Lyotard chamou das grandes metanarrativas. Tem um lado certo e um errado, da crítica que fazia. Ele disse que as grandes metanarrativas, a ascensão proletária, o movimento revolucionário, a teleologia histórica, isso tudo era um grande equívoco.

Eu diria que não foi um pequeno equívoco. Você não pode abandonar perspectivas de largo desenvolvimento histórico. Do contrário, os acontecimentos ficam completamente opacos, você torna-se incapaz de enxergá-los. Os fatos parecem vir no ritmo do acaso, da completa contingência.

No entanto, existe o espaço da contingência. Ou seja, há acontecimentos completamente imprevisíveis, que exigem uma reformulação ampla dessa perspectiva de análise histórica. Isso não aconteceu. Eu diria que uma tarefa atual é compreender o lugar da contingência no interior de uma dinâmica onde a necessidade vai se construindo. Ninguém enxerga muito bem o que está acontecendo, isso só é possível depois. Em certos momentos da história, algumas pessoas conseguem mobilizar mais e dizer: “vejam, existe uma abertura, um desfiladeiro. A gente consegue passar por aqui”.

Falta acreditar que os processos abertos não necessariamente terminam em catástrofe. A gente absorveu muito essa ideia: se quisermos grandes mudanças, provocaremos catástrofes. Segundo tal lógica, só estaríamos seguros no presente – por mais que o detestemos e o julguemos insuportável. Espero que esse raciocínio desapareça o mais rápido possível. Ele expressa a cultura do medo: você não projeta nada para frente. Você se rende ao presente.

Nos momentos de crise, há tanto busca de novos referenciais, quanto retorno do autoritarismo. Num país como o Brasil, em que as correntes conservadoras são muito fortes, não há risco de que esta segunda posição prevaleça?

Safatle: Essa é uma luta que existe no Brasil hoje. Nosso debate político é hoje cultural. Os projetos econômicos são mais ou menos iguais. Existem distinções, mas não são enormes, reais. Ninguém prega grandes reformas. Nenhum partido importante sugere: “vamos fazer uma democracia plebiscitária”. Há um grande consenso.

Onde está o debate político? Está no campo da cultura, dos costumes, dos hábitos. O aborto virou um dos temas mais importantes do Brasil. Casamento homossexual, todos os outros problemas ligados à modernização dos costumes.

Isso tem um lado bom. A gente está brigando por formas de vida distintas. Mas isso também demonstra que o debate centrado na cultura sempre tocou muito mais os jovens e sempre é um debate da esquerda. Hoje, há uma direita cultural, um pensamento cultural de direita forte, conservador, que consegue mobilizar camadas da juventude. Julgo isso algo muito grave, mas lembro que é característica de todos os processos históricos ricos: a juventude dividindo-se ao meio. Há uma ala conservadora, outra progressista. Na época da ditadura militar, esse processo era muito claro.

A França viveu uma eleição agora. Um partido de extrema-direita ficou em terceiro lugar – e em primeiro, nos votos dos jovens entre 18 e 25 anos. Por que? Eles trazem questões culturais: imigração; nossos valores; nossa forma de vida; nossa religião contra a religião “atrasada” dos “outros. São debates que estão, de uma maneira ou de outra, chegando no Brasil. A gente precisa se preparar para isso, também. Para uma divisão que vai ocorrer, de maneira cada vez mais forte. Não há como escapar dela.

Você conseguiria apontar quais são alguns agentes dessa direita cultural?

Safatle: Existe uma proliferação de blogues de extrema-direita no Brasil, que a juventude lê. São colunistas de jornal, que se assumem claramente como conservadores. Isso não deve ser negligenciado: é um fenômeno que veio para ficar.

Significa o quê? Que o debate cultural deve ser feito com toda a força. A discussão sobre a memória é um aspecto decisivo. Que tipo de sociedade queremos? Uma sociedade que acredita que, esquecendo crimes do passado, você tem um presente melhor? Uma sociedade que tem medo de fazer memória? Onde você publica um artigo sobre a ditadura na internet, e surgem 150 pessoas comentando como era fantástica a vida naquele tempo, como pelo menos não tinha corrupção?

Há um preceito liberal que se chama “Direito de Resistência”. Não está em Lênin, mas em Locke, que era a favor do tiranicídio. Dizia: “se um tirano usurpa os seus direitos, as liberdades individuais e as liberdades sociais, ele merece a morte”. Isso está também no Rousseau – ou seja, na tradição liberal do pensamento político. Se algumas pessoas têm a coragem de usar a famosa teoria dos dois demônios,segundo a qual havia terroristas de esquerda e de direita, elas colocam-se aquém da perspectiva liberal de política.

Que tipo de sociedade essas pessoas procuram realizar no presente? Penso que não é mais possível admitir mais esse tipo de situação. Eles querem dizer que, mesmo numa ditadura, a violência contra o Estado não é aceitável. Para mim, é uma das proposições mais antidemocráticas que se possa imaginar. Na década de 1920, greve era um crime. Mas foi graças a esse crime que os direitos trabalhistas foram universalizados.

Uma esquerda mais clássica, organizada em partidos, fala numa disputa entre hegemonia e contra-hegemonia – e sugere disputar instituições como a mídia, o governo, o parlamento. Este tipo de opinião pode enfraquecer os movimentos da juventude que procuram uma saída não-institucional e novas formas de política?

Safatle: Acho que não – e é um ótimo tema. Há momentos em que você precisa saber como se organizar institucionalmente. A Primavera Árabe demonstra isso claramente. Começou, sempre, com movimentos jovens: na Tunísia, diplomados desempregados; no Egito, o movimento 6 de Abril, composto por jovens de várias tendências políticas. Conseguiram resultados imediatos mas, na hora de gerir o processo, não existia uma estrutura institucional, uma organização. Quem colheu todos os frutos do processo foram  os partidos islâmicos, mais organizados e com capilaridade popular.

Qual o modelo de organização para grupos que não admitem o partido como a figura clássica de organização? Uma nova estrutura política? Frentes mais flexíveis? É algo que precisaremos, em algum momento, responder. Do contrário, todas as estruturas institucionais serão dominadas por aqueles que já sabem operá-las. E elas não vão desparecer. O Estado, as eleições, os sindicatos não vão desaparecer.

Novas instituições poderiam superar as que existem agora? Poderíamos imaginar a fundação de um novo Estado e uma nova forma sociedade? Ou é muita pretensão?

Safatle: Sempre fui firmemente contrário ao slogan “mudar o mundo sem tomar o poder”, de John Holloway. Os donos do poder agradecem: se tal postura prevalecer, irão atrapalhar todas as nossas tentativas de mudar o mundo: não conseguiremos fazer nada.

Não existe política completamente à margem da estrutura institucional, da mesma maneira como não se pode fazê-la só dentro das instituições. Há uma região limítrofe, que é necessário saber operar. Precisamos ir além do pensamento binário, do “ou  totalmente fora, ou totalmente dentro”. Há algo no meio do caminho, que você opera pressionando de fora. Isso, ainda não conseguiu constituir. Só há um grupo que conseguiu fazer isso: os lobistas. Os lobbies estão semi-institucionalizados. Operam de fora, forçando a estrutura institucional. É necessário uma espécie de lobby popular, que seja contraponto ao lobby econômico.

Pensei no texto “O que é ser contemporâneo?”, do Giorgio Agamben. Ele sugere reconhecer a época em que vivemos, assumir que ela tem instituições, e ao mesmo tempo negá-la, querer deixá-la. É isso que inspira a juventude?

Safatle: Sim, com certeza existe essa região limítrofe que é necessário saber operar. Volto a insistir: o Estado, os partidos e o parlamento não vão desparecer. No entanto, você pode operar as estruturas políticas em outras chaves. Forçar a democracia plebiscitária, esvaziar atribuições do parlamento, transferir decisões para a população, ativando processos de democracia direta.

Qual é a estratégia de desmobilização? É dizer: “ou você está dentro do Estado de Direito, ou você está fora; ou aceita a estrutura institucional tal como ela é hoje, ou está completamente fora e portanto faz apologia da ditadura”. Não existe isso.

Você pode perfeitamente admitir que algumas estruturas vão continuar e, ao mesmo tempo, construir processos de transferência direta de poder. Esse me parece o grande desafio ao pensamento político atual. Como a gente constrói, como dá figura para as demandas de democracia real? Há muitos exemplos. Um deles: a Islândia foi um dos primeiros países a mergulhar na crise econômica europeia. Bancos islandeses tomaram dinheiro emprestado nos Países Baixos e Inglaterra. Quando quebraram, a Inglaterra e os Países Baixos apresentaram a conta ao governo islandês: os bancos eram privados, mas a conta foi para o Estado. O parlamento se dobrou, aceitando a conta bilionária. A população – pequena, em torno de 250 mil habitantes – teria de pagar durante cinquenta anos a dívida dos bancos.

Bem, havia um presidente, um pouco mais sensato, que lembrou uma regra da Constituição islandesa, segundo a qual os presidentes têm o direito de consultar a sociedade, antes de promulgar leis. Convocou-se um plebiscito: o povo foi chamado a votar se queria ou não pagar a dívida. Pode-se imaginar o terrorismo: em caso de não-pagamento, dizia-se, o país iria converter-se em pária internacional.

Mas o povo disse não. Hoje, a Islândia está melhor do que todos os outros países que entraram na crise à mesma época: Portugal, Espanha, Grécia, Irlanda. Isso ensina que é possível politizar a economia, tirar poderes indevidos. Alegar que um parlamento sozinho não pode decidir uma questão tão central como essa. Um parlamento é composto de pessoas que têm as eleições pagas por bancos… O parlamentar deve para o banco: há uma nova eleição daqui a quatro anos e ele sabe que, se votar contra, não tem mais financiamento, não vai ser reeleito. Como uma pessoa dessas pode tomar esse tipo de decisão?

Mas no caso da Espanha, por exemplo, os indignados não conseguiram construir alternativas como essa. O movimento caminha nessa direção?

Safatle: Na Islândia, já havia o mecanismo institucional. Tiveram a sorte de contar com um presidente um pouco mais sensato, que deu realidade ao processo. Mas é um dado extremamente interessante, porque pode ser transformado em bandeira: “quero que na Espanha a lei islandesa seja aplicada”. É possível fazer o mesmo em várias outras situações. Você tensiona o debate. Os conservadores reagirão: “a população não pode decidir sobre essas coisas, são muito complexas, só tecnocratas têm que decidir”.

“Mas, então, fala, fala na nossa frente: só tecnocrata de banco vai decidir o que vão fazer com o nosso dinheiro?” Vamos ver o que vai acontecer. Este é um recurso muito importante: você obriga o poder a falar os seus absurdos, que ele normalmente não tematiza. Todo mundo sabe que quem decide é tecnocrata, mas ninguém fala. Quando certas coisas são ditas, algo acontece, mesmo que exista um acordo tácito entre as pessoas. Por isso, uma questão política central é obrigar o poder a falar, colocá-lo contra a parede.

 

*Estudantes de jornalismo da PUC-SP e colaboradores de Outras Palavras

O apagão da era tucana

O apagão da era tucana

O Blog da Boitempo recupera este artigo de Paulo Arantes publicado em 2001. O contexto é o da crise do apagão, ocorrida no final do último mandato de FHC.

Blog da Boitempo recupera em seu Especial Eleições 2014 este artigo de Paulo Arantes publicado originalmente no suplemento Mais! do jornal Folha de São Paulo em 27 de maio de 2001Intitulado “Extinção” – título do livro que arantes publicaria seis anos depois pela Boitempo –, o texto parte de uma carta de um leitor da Folha ao “Painel do leitor” para refletir sobre o que chama da “bancarrota do modo paulista de pensar”. O contexto é o da crise do apagão, ocorrida no final do último mandato de Fernando Henrique Cardoso, pouco antes da eleição de Lula, que daria início ao ciclo petista no Governo Federal.  Hoje, às portas da crise hídrica de São Paulo que não obstante viu a reeleição, no primeiro turno, do governador Geraldo Alckmin, do PSDB, e da disputa entre Dilma Rousseff e Aécio Neves, que já tem como pano de fundo a realidade de um congresso eleito mais conservador desde 1964, cabe repensar, através da releitura feita por Arantes da análise do pós-guerra empreendida por Adorno e Horkheimer, o que resta hoje das lições da era de Hitler, e da era de FHC.
 

[Aviso aos navegantes: O paralelo polêmico estabelecido por Arantes busca dar conta sobretudo da relação entre a autodestruição de certa tradição intelectual progressista uspiana consolidada nos anos 60 em torno do sociólogo tucano e o colapso do projeto de modernização conservadora do país posto em marcha por ele a partir da tomada do poder em 1995. Cabe ao leitor, enfim, julgar a atualidade deste “capítulo terminal” da inteligência crítica paulista, sua experiência no poder e a investida neoliberal no país.]

***
 

“Tenho 65 anos e sempre estive com a situação, com o governo. Há uns três anos, comecei a questionar o meu posicionamento. Hoje não tenho mais dúvidas: sou oposição e tenho muita vergonha deste governo. O Brasil não merece este castigo”.

Benedito M. Andrade Neto (Taubaté, SP)
 

Folha de São Paulo, “Painel do Leitor”, 12/5/2001

“Uma das lições que a era Hitler nos ensinou”, escreviam há mais de meio século Adorno e Horkheimer, “é a de como é estúpido ser inteligente”. Pensavam nos bons europeus, modernos e civilizados, que durante uma década pavimentaram a ascensão do Terceiro Reich com argumentos de lógica impecável acerca da inviabilidade de tamanha aberração. Lembravam-se por exemplo de uma conversa com um brilhante economista que lhes demonstrara por a b, com base nos interesses objetivos dos cervejeiros bávaros, que uma uniformização da Alemanha era impossível. “Depois os inteligentes disseram que o fascismo era impossível no Ocidente. Os inteligentes sempre facilitaram as coisas para os bárbaros, porque são de fato estúpidos. São os juízos bem informados e perspicazes, os prognósticos baseados na estatística e na experiência, as declarações começando com as palavras: ‘Afinal de contas, disso eu entendo’, são os statements conclusivos e sólidos que são falsos.”1

Pois bem. Noves fora os calafrios de praxe – sem falar na modesta envergadura dos pigmeus envolvidos, tanto os bem-pensantes quanto os facinorosos – , estamos em casa. Falo é claro dos inteligentes de São Paulo e de suas ramificações nacionais e internacionais de alto nível. Digamos que a estupidez da inteligência foi se tornando nos últimos tempos uma original contradição paulista. Não ignoro que a transformação da inteligência em estupidez parece ser um traço tendencial da evolução histórica e que, assim sendo, não se poderia honestamente atribuir à índole singular de um agrupamento humano o que é puro efeito de relações sociais.

Pelo sim, pelo não, até por mero instinto de sobrevivência e na condição de criatura dessa elite bem-falante e escrevente, acharia prudente, nessa quadra turbulenta da nacionalidade, pelo menos um solene pedido formal de desculpa aos brasileiros e brasileiras que há sete anos aturam entre tantas outras delicadezas de atenção social o estribilho da referida pedantocleptocracia, entoado por impressionante massa coral: Afinal de contas, disso nós entendemos! E como!

Os hierarcas do império nazi eram bárbaros e naturalmente inimigos mortais da vida do espírito. Mas há também um outro tipo de espírito que é anti-humano, insistiam nossos dois filósofos fracassomaníacos. Podemos reconhecê-lo pela sua marca de origem: a “superioridade bem-informada”. Não há por certo termo de comparação entre os grandes chefes fascistas de ontem e os comparsas tropicais de agora, de sorte que acabamos nos conformando com o tamanho bem paulista a que se reduziram antigos sonhos de suprema elegância, alta cultura e poder – este último, “sans phrase“. Assim, no lugar da tremenda camarilha teutônica, ocupa a cena o cortejo mambembe que se está vendo: o fotogênico Eduardo Jorge, o lombrosiano Jader, o schumpeteriano Mendonção e seu ídolo, o beato Serjão (que Deus o tenha no Paraíso que escolheu), o galante Ricardo Sérgio, o majestoso ACM, o brejeiro delfim de Hanover etc. etc. 2

Mas e onde se lê “espírito”, ainda por cima em alemão? Aqui sim a transposição local nos favorece plenamente. Os senhores hão de convir que, pelo menos em matéria de superioridade bem-informada, a Escola Paulista de Pensamento na qual me formei e que não posso renegar praticamente não tem rival. Pois então é isso, vistas as coisas aqui da capital do FHnistão 3.

Ingratidão maior nunca se viu: como pode o Brasil totalmente esclarecido pelos “intelligenti” de nossa escola ousar resplandecer sob o signo de uma calamidade triunfal? Além do mais, às vésperas de um apagão. Só pode ser obscurantismo. Afinal de contas, disso vocês não entendem nada! Prova disso, o iminente colapso energético do país, o qual precisa entender de uma vez por todas que acabou a fase de energia farta e barata no Brasil, que vivemos um processo de pós-industrialização, pelo qual já passaram economias mais modernas, conforme anunciou o diretor-geral da Agência Nacional de Petróleo, sem que ninguém tivesse chamado a polícia4. Alguma coisa no entanto estamos começando a entender. Estamos enfim reaprendendo com a era fernandina como de fato ficou brutalmente estúpido ser inteligente. Com uma diferença notável, como tudo nessa terra de varões sabedores e que vem a ser propriamente a contribuição original brasileira para o processo mundial de corrosão da inteligência. Na estupidez terminal do espírito superior com que se depararam a seu tempo Adorno e Horkheimer, quando redigiam com resignação filosófica a declaração de falência da civilização européia, explodia em todo seu esplendor a contradição inaugural da razão que comandara aquele processo em colapso, a inteligência liberal, a um tempo universal e particularista, numa palavra, “o instrumento do privilégio na igualdade”.
 

Dosagem homeopática

Na hora do apocalipse, era a ela que o fascismo estava apresentando a conta. Um ciclo histórico depois e a correspondente derrocada da era do crescimento, o pensamento que ora se extingue é de uma outra espécie. Digamos, para encurtar, da espécie que nos habituamos durante dois séculos a chamar de “progressista” ou, para ser mais específico, o lado oposto, o lado propriamente esquerdo daquela matriz original de evolução e reforma do mundo. Aqui entramos nós, o breve porém substancioso capítulo paulista do atual processo de autodestruição da inteligência brasileira, que vai assim arrematando o seu “ajuste” ao padrão global da estupidez bem-pensante. E por mais que a analogia nos repugne, é bom não esquecer a lição do apocalipse nazi, desta vez por uma autora insuspeita de fracassomania, Hannah Arendt: a descoberta da mais aterradora crueldade social germinando no processo aparentemente banal de corrupção da inteligência 5. É claro que a analogia é estritamente filosófica, apenas uma meditação acerca de um caso catastrófico de inibição da reflexão. De qualquer modo, embora a escala mundial do desastre em curso atualmente seja de meter medo, por aqui a dosagem ainda é homeopática, pelo menos do ângulo de um homem branco de classe média, constatação cujo simples enunciado já é uma ameaça. Voltando aos efeitos letais da inteligência paulista no poder, o fato intrigante é que deve ter saído de cena algo essencial que nos fazia pensar, se não for presumir demais. Seja como for, o fato é que toda uma tradição outrora crítica não só foi sugada pelo moinho satânico da estupidez inteligente, mas também passou a acionar-lhe a manivela, com o deslumbramento característico da supracitada superioridade bem-informada. Numa palavra, o que a era cardosista do esclarecimento está mostrando neste momento de glória da malandragem nacional é como se tornou apenas “bête et méchant” procurar ser inteligenterrimamente de esquerda, e isso depois de decretado pelos mesmos altos personagens o colapso da modernização, sem a qual, justamente, fica muito difícil distinguir uma explosão criativa de forças produtivas de meros serviços de corretagem. Cochilo grave para um crime ideológico quase perfeito, esse da lavagem de conceitos. Mas são derrapagens sem sujeito, diria algum espectro althusseriano, relançando a espiral do auto-engano.

Por exemplo, diante da piranhagem que foi o episódio Telebrás, algum incorruptível veterano do leninismo poderia muito bem replicar que mais vale um salto econômico arrancado a fórceps do que a grita moralista das camadas sociais sem futuro etc. Homens de ferro para os quais sou o primeiro a tirar o chapéu. (Muitos deles, com o peito coberto de medalhas, estão no governo. Continuo tirando o chapéu, desde que não me penhorem as antigas medalhas.) Nem por isso menos empulhados pela inércia de um raciocínio cujo nervo histórico se extinguiu, mas sobretudo mesmerizados pelo teatro de sombras dos operadores da nova classe que, justamente afiançados pela nobre estirpe da finada teoria crítica, vão tocando o violento trivial do “big business” como quem toma o Palácio de Inverno, agora sim, literalmente de assalto, acossados, é claro, pela guerrilha impatriótica dos atrasados. Assim se constituem os fundos secretos para uma eterna segunda rodada bolchevique, algo como foquismo na Sociedade Hípica. Aqui a matriz operacional de outra formidável invenção ideológica da era fernandina, a chamada “rebeldia a favor”. É assim que a mais crassa estupidez dos inteligentes vai fazendo a cama dos novos bárbaros, parceiros estratégicos que ingratamente caluniam em momentos de troca da guarda como agora. Nessas horas o sangue-frio materialista da velha-guarda costumava recomendar que se aprendesse com quem se vende, no que tinha toda razão. A nova hegemonia sempre anunciava a sua chegada arrematando cabeças, no geral inconformadas com o estado das artes. Pelas razões erradas, quem se vendia estava à frente dos obtusos e incorruptíveis. Estudando o caso, como numa cena brechtiana, os amigos de esquerda do progresso aprenderiam a encarar as coisas novas e ruins a partir das quais se deveria recomeçar. Estamos vendo nestes tempos cardosistas que já não é mais o caso. Não deve ser apenas por algum defeito de fabricação do personagem – o imortal inventor da rebeldia a favor – que não aprendemos nada com as suas genuflexões, embora não se possa negar a audácia de seu enorme passo adiante. Simplesmente não há mais chão para tal passo, quem nos compra não está mais desbravando nenhuma fronteira da valorização. Portanto já não faz mais diferença nenhuma distinguir, como exigia um clássico do materialismo paulista: vendeu-se, está criticando, ou vendeu-se criticando. No seu devido tempo, veremos por que a transformação histórica da inteligência em estupidez – esse o ponto, já que estaremos interessados em pesquisar a gênese paulista da “bêtise” na origem da atual derrocada da inteligência brasileira – diz respeito primordialmente ao toma lá, da cá das operações elementares de compra e venda. Mas não será preciso remontar à pré-história. Pode-se reconhecer a mesma lógica ancestral – girando como os ponteiros de um relógio no pulso de um morto – observando a espécie de reflexo condicionado daqueles que têm resposta para tudo. Amostragem relâmpago: 1) Política de terra arrasada com os petroleiros em greve? É claro, precisam aprender que estamos trocando capitalismo velho por capitalismo novo; 2) Previdência Social? Totalmente inviável, como um simples cálculo atuarial pode demonstrar, fulano traga os números; 3) Sim, nomeou um antigo torturador chefe da Polícia Federal: certamente precisou negociar coisa mais graúda. E por aí afora.
 

Física paulista dos interesses

E para trás também, caso recuemos até os primeiros sintomas dessa bancarrota do modo paulista de pensar. Vejamos por exemplo o que dizia um filósofo e colunável, enquanto transcorria em Brasília a CPI que desembocaria no impeachment do antecessor: “Ninguém é movido por interesses universais e não se pode pedir aos políticos que abdiquem do esforço pessoal de buscar o poder […]. Em vez do discurso moralista, cabe aceitar que os políticos agem por interesse privado, mas, como só podem fazer em nome do bem comum, que ele calcule seus riscos de ser pilhado em público toda vez que atuar exclusivamente em nome de seu bem particular […]. Desse modo constitui-se uma moralidade pública que comporta a infração nos seus interstícios” 6.

E ainda dizem que a coruja do filósofo só alça vôo ao fim do dia, pois esse mocho paulista madrugou com uma década de antecedência! O estudo da amostra requer entretanto o escrutínio objetivo do naturalista. Trata-se afinal de um processo sem sujeito, a rigor mecânico, como sugere o curioso símile que arremata o raciocínio: “Mesmo quando os indivíduos agem em nome do bem comum, a luta pela obtenção e manutenção do poder implica o exercício dum empuxe individual” 7. A fome de imanência que parece caracterizar esse singelo cálculo de custo/benefício parece fornecer uma excelente ilustração para aquilo que o iberista carioca Luís Werneck Vianna vem chamando de “física paulista dos interesses”, por oposição à irrazoável tendência metafísica do povo brasileiro a achar que é possível vida para além do mercado8. Além de ilustrar, é claro, no andar superior da cadeia alimentar dos bem-informados que têm resposta para tudo o vínculo arcaico entre a inteligência e as raciocinações do poder acerca das vantagens que consegue obter quando se resigna a seguir as regras do jogo. Na opinião descalibrada de Adorno e Horkheimer, que por certo andaram gazeteando os cursos de lógica.

Recordo a propósito, para voltar mais uma vez aos dois catastrofistas de Frankfurt, que talvez o sinal de alarme deles tenha começado a soar quando perceberam o que Chamberlain entendia por “ser razoável” ao reclamar das exigências de Hitler, a seu ver “unreasonables“. Numa palavra, parece que o Führer não respeitava muito a equivalência entre dar e tomar. Se oferecesse um preço justo para os territórios e populações que estava prestes a abocanhar, tudo bem. Essa a rota suicida da estupidez dos inteligentes e elegantes, cujo espírito se apaga “tão logo o poder deixa de obedecer à regra do jogo e passa à apropriação imediata”. De um ponto de vista histórico-mundial, como se dizia na esquerda hegeliana, tanto faz se se trata de um “Gauleiter”, um bicho solto de boca de fumo ou, enfim, um “investidor” atuando no ramo das privatizações. Assim sendo, se a fórmula “vendeu-se” choca e ofende, não seja por isso, troca-se por uma outra equivalente, “ajustou-se”. Por exemplo: ajustou-se gemendo (virou estadista) ou ajustou-se, está gemendo (virou existencialista).

Digamos então que a derrocada se consumou quando uma certa tradição crítica bem paulista se adaptou. Mas aí nossos incorrigíveis fracassomaníacos alemães completariam o raciocínio, lembrando que, na história natural da inteligência, sua extinção na estupidez vem a ser justamente “o dernier cri da adaptação”. E nada mais feroz que a predação dos adaptados (ainda mais quando procuram apenas sobreviver) 9. A violência pré-histórica da “globalização” em curso nada mais é do que a expressão, banalizada pelos notáveis do espírito, de mais uma rodada dessas “adaptações” próprias da derradeira civilização baseada na crueldade bem calculada do trabalho excedente 10.

Em tempo. Certamente o processo de extinção que está nos interessando identificar não é nem poderia ser unilateral. Ele também se espraiou pelo campo oposto, o mundo do trabalho, onde havia igualmente vida inteligente. A fundação absolutamente inédita de um recurso emancipatório inestimável como um Partido dos Trabalhadores que o diga. Juntamente com o “Solidarnosc” polonês, a única iniciativa anti-sistêmica em ascensão durante a década de 80, quando o império deflagrava sua contra-revolução mundial. O movimento polonês, como se há de recordar, foi o primeiro a sumir no ralo da nulidade social, e o nosso já vai apresentando sintomas alarmantes de decomposição dourada.

Com toda a razão o mesmo Luís Werneck Vianna costuma incluir na física paulista dos interesses o movimento browniano das grandes centrais sindicais aqui do pedaço – e, podemos agora acrescentar, o tipo de inteligência esperta das trocas simbólicas e materiais que lhe constitui a razão dominante. Enfim, quem não se lembrará, entre tantos outros, do lance mais do que meramente retórico de um líder sindical excluindo de uma “reforma” da Previdência, ainda por combinar com os de cima, os que nela nunca estiveram incluídos, e por isso mesmo. Faz sentido. Trata-se de uma simétrica opinião-espelho da convicção sociológica da alta tucanagem, segundo a qual o povo miúdo que descola uma aposentadoria na boca do caixa sem nunca ter integralmente contribuído durante as décadas em que se virou da mão para a boca é o primeiro fraudador da Previdência. Dialética da malandragem “oblige“? Como diria um grande lógico paulista, diante de um grafite no banheiro “todo lógico é idiota/ o professor X é lógico/ logo, o professor X é idiota”, pelo menos formalmente está correto. Seja dito em homenagem à neutralidade epistemológica que sempre distinguiu a Escola Paulista de Pensamento, o professor X era ele mesmo. Conosco é assim mesmo, os conceitos, quando são bons, como os nossos, são muito democráticos, não fazem distinção de classe.
 

Precarização do trabalho

Continuando. Numa tese recente, mostrou-se como a contribuição dos assalariados para os antigos IAPs da famigerada era Vargas financiaram as estatais originárias, torradas agora para fazer o caixa do populismo cambial do primeiro mandato11. Entre elas, a Vale do Rio Doce, arrematada a preço de banana nas condições que se sabe, como compete a um Estado-corretor de “big business“12. Pois não é que também ouvi outro dia um líder sindical, com imponente folha de serviços prestados durante o auge do sindicalismo de combate do período anterior, saudar o “companheiro Benjamin” (Steinbruch mesmo) como “parceiro de primeira hora” num louvável empreendimento de “charity business“? Outro louvável “parceiro de primeira hora” (idem, ibidem) o companheiro BankBoston. Num ensaio recente, Francisco de Oliveira dá uma boa pista para rastrear, no chão material dessa outra metade da física paulista dos interesses, o correspondente processo de extinção mental, nesse caso, por motivo de extenuação na base social da espoliação 13. Com efeito, contrariando o besteirol corrente sobre a perda da centralidade do trabalho, Francisco de Oliveira não só também constata uma espantosa extensão do assalariamento, no sentido amplo do termo, sem paralelo mesmo considerando-se os anos dourados do fordismo, ampliação que se estende da mais cruenta extração de mais-valia absoluta até o trabalho não-pago do cliente de serviços que também labuta ao consumir, mas um igual aprofundamento da privatização do trabalho, entendendo-se com isso a privação de sua dimensão pública, tanto por motivo de precarização e informalização galopantes como de predação do tempo privado de “não-trabalho” pelo emprego on line da massa crescente de trabalhadores à disposição. A seu ver, esses dois movimentos tornam o velho conceito marxista de exército industrial mais atual do que nunca, desde que devidamente reinterpretado, na medida em que “praticamente todos os trabalhadores converteram-se em seus membros intermitentes/latentes pela permanente desqualificação e informalização”. Assim sendo, a fração propriamente ativa tornou-se minoritária, enquanto a fração estagnada ou lúmpen tende a crescer. Mais importante, o fundo público que se origina da relação contratual de compra e venda de força de trabalho e, quando se constitui, perde seu antigo poder de veto sobre o capital. Com isso, continua Oliveira, a mera “gestão” dos fundos públicos, tais como FAT, PIS, Pasep, FGTS, e não a sua “apropriação pública”, torna-se objetivo maior dessa fração ativa do exército industrial. Nessas condições, os membros desse núcleo preservado (e olhe lá!), convertidos em sujeitos monetários privatizados, não podem nem querem saber da massa sobrante do seu exército. Deve passar por aqui a base material dos dois lances de idiotia social referidos acima. Sobre tal base se ergue a mesma derrocada da inteligência no mundo do trabalho. É claro que Francisco de Oliveira empregou deliberadamente a expressão de Robert Kurz “sujeitos monetários”, fórmula que nesse meio tempo acabou ganhando novo conteúdo, à medida que seu autor foi reabrindo o dossiê do mundo do trabalho que precipitadamente julgara abolido. Pois, comentando o argumento bem conhecido de Richard Sennett sobre a corrosão do caráter dos indivíduos flexibilizados pela desqualificação do trabalho sob o novo capitalismo, Kurz também realça o impulso autodestrutivo que consome tais mônadas “universalmente exploradas e solitárias”, um novo universo da espoliação em que os empregados vão se tornando “manhosos e sem coesão social, que só sabem lograr seus superiores, os clientes e seus demais colegas” 14. Aqui o outro foco do ponto cego em questão. A anulação mental induzida pela privatização do trabalho atroz – como alguns autores franceses chamam a coisa – vem a ser o reverso de uma tolerância crescente com o intolerável – no caso, a injustiça abismal na sociedade polarizada de hoje. Algo como uma reação defensiva igualmente cruel ante o sofrimento que se é obrigado a infligir a si mesmo e aos outros, os que se vêem passar nas levas sucessivas de precarizados e enxotados, pelo sistema, é claro, como nos falsos juízos de atribuição que acompanham esse encasulamento no medo 15. É neste momento que se dá a esterilização da faculdade de pensar e prospera o cálculo dos experts em sobrevivência, deserto mental onde cresce apenas a crueldade social que caracteriza todo o eclipse da reflexão. Aqui voltamos ao topo dos esclarecidos. Ao niilismo da “viração” dos que embaixo moem no aspro corresponde o “saco de maldades” ou a “Wall Street quer sangue” de dois imortais mentecaptos da pedantocleptocracia fernandina.
 

O reino animal

Com uma diferença, seja dito, por assim dizer, em favor das vítimas. Como o nome indica, “bêtise” algo terá a ver com o reino animal. Refletindo sobre sua gênese, nossos dois fracassomaníacos frankfurtianos lembraram que o símbolo da inteligência é a antena do caracol.

“Diante de um obstáculo, a antena é imediatamente retirada para o abrigo protetor do corpo, ela se identifica com o todo e só muito hesitantemente ousará sair de novo como um órgão independente […]. Em seus começos, a vida intelectual é infinitamente delicada […]. O corpo é paralisado pelo ferimento físico, o espírito pelo medo. Na origem as duas coisas são inseparáveis […]. Esse primeiro olhar tateante é sempre fácil de dobrar, ele tem por trás de si a boa vontade, a frágil esperança, mas nenhuma energia constante. Tendo sido definitivamente afugentado da direção que queria tomar, o animal torna-se tímido e burro. A estupidez é uma cicatriz […]. Essas cicatrizes constituem deformações. Elas podem tornar as pessoas estúpidas no sentido de uma manifestação de deficiência, da cegueira e da impotência, quando ficam apenas estagnadas; no sentido da maldade, da teimosia e do fanatismo, quando desenvolvem um câncer em seu interior. A violência sofrida transforma a boa vontade em má” 16.

São esses os pontos cegos que no interior de um indivíduo justamente, como estamos vendo, “designam as etapas em que a esperança se imobilizou”. Porém o que se aplica aos condenados da terra – ao mesmo tempo em que reconhece a massa bestificada pela hipnose fascista na história das frustrações da espécie – não pode evidentemente valer para a indigência histórica do reino animal do espírito que se instalou na capital cultural do FHnistão. Para tal reino não haverá filosofia que encontre circunstâncias atenuantes.
Como o ser em Aristóteles, corrupção também se diz em muitos sentidos, inclusive na acepção brasileira do termo, como a seu tempo veremos, caso este folhetim continue. Ao falar em corrupção da inteligência brasileira, não me passa pela cabeça sugerir que até os maiorais de nosso falido espírito crítico estão criando rã no quintal. Primeiro porque acho que ainda não estou maluco a esse ponto, segundo, e principalmente, porque, sendo moralista, pelo menos com essas coisas não costumo brincar. Como não tive berço dialético, minha mãe estudou no “Des Oiseaux” e meu pai era udenista, peço que me relevem a estreiteza de espírito. Falha de formação, sem dúvida.

Mesmo tendo sido aluno aplicado da Escola Paulista de Pensamento, ainda não consigo encarar a corrupção com suficiente isenção sociológica. Azar, estou agora morrendo na praia. Vejam só, deixei escapar na undécima hora a Astúcia da Razão em pessoa, a manobra radical do genial estadista, na formulação não menos inspirada do filósofo Ortega y Nassif: “Utilizar as armas da fisiologia para derrotar a fisiologia!”. Aplicando esse teorema do materialismo histórico em reconstrução, o fotogênico E.J. definiu-se com toda razão um lobista ao contrário17. Mas também não é dessa corrupção literal – na verdade uma metáfora fóssil – que estou falando, embora não ignore que a dita cuja é antes de tudo um sistema sem sujeito, é claro, porém com cadastro na Receita Federal. A corrupção que me interessa – a extinção da inteligência pela estupidez “crítica” – é muito mais assustadora (afinal tenho interesses profissionais no assunto), pois concerne à decomposição de uma tradição que se vai desmoralizando conforme apodrece. (Avisei que sou moralista.) Sendo assim, o estrago não é nada trivial, de fato uma hecatombe que no limite independe de eventuais traficâncias nas altas paragens do pensamento e do poder. Ou melhor, por isso mesmo interessa investigar conceitualmente, é claro… o lugar do “broker” intelectual na hora pesada em que se encontram o dono do dinheiro e o dono do poder. Ali onde circulam, nas palavras famosas de Braudel, os grandes predadores e vigora a lei da selva, deve a inteligência se corromper na forma gloriosa da mais estupenda e cruel burrice.
 

Cada vez mais do mesmo

Dada a calculada irreversibilidade das políticas de ajuste permanente como fim em si mesmo e o correspondente dano social irreparável que produzem, tudo indica que teremos cada vez mais do mesmo. Diante de uma tal escalada autodestrutiva, a constatação de que a tradição crítica brasileira não tem mais futuro é uma catástrofe menor.

Não sei se estou me fazendo entender, afinal não sou nenhuma exceção e a minha própria capacidade de pensar já deve ter se apagado faz tempo. Os paulistas no poder não são quaisquer, tampouco a desgraça mental que patrocinam. À sua própria revelia, bem entendido, conforme aprofundavam o ponto final em que chafurdamos, iam avançando, com fins apologéticos os mais rasos, nos fundos críticos acumulados pela referida tradição e, por esse caminho de autodestruição do saber herdado, convertendo ponto por ponto o que antes esclarecia e prometia libertação, no seu exato oposto conformista, como se quisessem demonstrar numa derradeira pirueta, cínica ou asnática, vá lá saber, que de fato cedo ou tarde toda Aufklärung, central ou periférica, acaba se convertendo no seu contrário.

A nova mitologia dos fatos se expressa então no autodeslumbramento com que a feroz burrice dos inteligentes se congratula consigo mesma. Porém, o espírito crítico saqueado e barateado parece se vingar quando a antiga teoria crítica passa a funcionar como uma chinfrinzinha teoria tradicional de coisa nenhuma e ainda por cima mobilizada com a pompa e circunstância dos grandes acacianos para os fins da mais trivial dominação de classe.

via O apagão da era tucana – Carta Maior

“Lista” dos dez livros mais difíceis do “Mundo” ignora o Oriente

Listas sobre os livros mais relevantes do século, os mais criativos, os melhores do ano e os mais importantes de se ler antes de morrer. As relações são infinitas, embora muitas vezes bastante duvidosas, mas sempre populares no mercado editorial.
A mais recente foi divulgada esta semana pelo jornal britânico The Guardian. O site literário independente The Millions elegeu, após uma pesquisa de três anos, as dez obras consideradas por eles como as mais difíceis do mundo.
Para chegar a essa relação, o site teve como critério livros complicados de ler por conta de sua extensão, ou pelo estilo ou estranheza estrutural do texto, pela experimentação, além da abstração da linguagem.
Na lista, nada de Guerra e Paz, de Liev Tolstói, nem o tão aclamado Ulysses, de James Joyce. O autor irlandês até aparece, mas desta vez com Finnegans Wake. A escritora inglesa Virginia Woolf também está na relação. Desta vez, não foi citada pela brilhante (e difícil) obra A Viagem, por exemplo. Mas está na lista do The Millions com Ao Farol (título original To the Lighthouse).
No geral, apenas trabalhos europeus e norte-americanos foram relacionados. As outras obras consideradas como as mais difíceis do mundo, segundo o website, foram: Nightwood, da escritora norte-americana Djuna Barnes; A Tale of a Tub, de Jonathan Swift; A Fenomenologia do Espírito, de Hegel; Clarissa, de Samuel Richardson; Ser e Tempo, do filósofo alemão Martin Heidegger; The Faerie Queene, do inglês Edmund Spenser; The Making of Americans, de Gertrude Stein; e Women and Men, de Joseph McElroy.
Os organizadores da lista ignoraram totalmente obras monumentais como o Mahabarata dificílima quer por sua extensão,  quer pelas diferenças culturais, distanciamento temporal e significado esotérico. “A Grande História dos Bharatas”, como se traduz seu título, é o principal épico religioso da civilização indiana – e também o maior poema de todos os tempos, com cerca de 200 000 versos. Só para ter uma ideia, isso equivale a sete vezes a soma da Ilíada com a Odisseia, os dois épicos atribuídos ao poeta grego Homero que inauguraram a literatura ocidental.
Kurukshetra
Insira uma legenda

Manuscrito ilustrado da batalha de Kurukshetra, onde se vê o deus Krishna manejando o carro de combate do arqueiro pandava Arjuna, que dispara suas flechas contra os Kuravas

O passado, essa grande nebulosa indiferenciada…

Recomendo

Hum Historiador

OS JOVENS QUE ESQUECEM A MEMÓRIA E A HISTÓRIA
por Umberto Eco – publicado em Geledés | 09 mai. 2015

umberto_eco Umberto Eco é um filósofo, semiólogo, linguista e bibliófilo italiano. Atualmente é diretor da Escola Superior de Ciências Humanas da Universidade de Bolonha. 

É um truísmo que os jovens carecem de conhecimento histórico geral. Mas, na minha experiência, para muitos jovens o passado se achatou em uma grande nebulosa indiferenciada. É por isso que, em uma carta aberta publicada recentemente na revista italiana “L’Espresso”, aconselhei meu neto adolescente a exercitar sua memória aprendendo de cor um longo poema.

Eu temo que as gerações mais jovens de hoje corram o risco de perder o poder da memória, tanto a individual quanto a coletiva. Pesquisas revelaram os tipos de enganos que persistem entre jovens ostensivamente educados: por exemplo, li que muitos universitários italianos acreditam que Aldo Moro foi líder da organização militante…

Ver o post original 616 mais palavras

Proposta concreta

18/06/2013 – 03h30

Há várias maneiras de esconder uma grande manifestação. Você pode fazer como a Rede Globo e esconder uma passeata a favor das Diretas-Já, afirmando que a população nas ruas está lá para, na verdade, comemorar o aniversário da cidade de São Paulo.

Mas você pode transformar manifestações em uma sucessão de belas fotos de jovens que querem simplesmente o “direito de se manifestar”. Dessa forma, o caráter concreto e preciso de suas demandas será paulatinamente calado.

O que impressiona nas manifestações contra o aumento do preço das passagens de ônibus e contra a imposição de uma lógica que transforma um transporte público de péssima qualidade em terceiro gasto das famílias é sua precisão.

Como as cidades brasileiras transformaram-se em catástrofes urbanas, moldadas pela especulação imobiliária e pelas máfias de transportes, nada mais justo do que problematizar a ausência de uma política pública eficiente.

Mas, em uma cidade onde o metrô é alvo de acusações de corrupção que pararam até em tribunais suíços e onde a passagem de ônibus é uma das mais caras do mundo, manifestantes eram, até a semana passada, tratados ou como jovens com ideias delirantes ou como simples vândalos que mereciam uma Polícia Militar que age como manada enfurecida de porcos.
Vários deleitaram-se em ridicularizar a proposta de tarifa zero. No entanto, a ideia original não nasceu da cabeça de “grupelhos protorrevolucionários”. Ela foi resultado de grupos de trabalho da própria Prefeitura de São Paulo, quando comandada pelo mesmo partido que agora está no poder.

Em uma ironia maior da história, o PT ouve das ruas a radicalidade de propostas que ele construiu, mas que não tem mais coragem de assumir.

A proposta original previa financiar subsídios ao transporte por meio do aumento progressivo do IPTU. Ela poderia ainda apelar a um imposto sobre o segundo carro das famílias, estimulando as classes média e alta a entrar no ônibus e a descongestionar as ruas.

Apenas nos EUA, ao menos 35 cidades, todas com mais de 200 mil habitantes, adotaram o transporte totalmente subsidiado. Da mesma forma, Hasselt, na Bélgica, e Tallinn, na Estônia. Mas, em vez de discussão concreta sobre o tema, a população de São Paulo só ouviu, até agora, ironias contra os manifestantes.

Ao menos, parece que ninguém defende mais uma concepção bisonha de democracia, que valia na semana passada e compreendia manifestações públicas como atentados contra o “direito de ir e vir”. Segundo essa concepção, manifestações só no pico do Jaraguá. Contra ela, lembremos: democracia é barulho.

Quem gosta de silêncio prefere ditaduras.

Vladimir Safatle é professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às terças na Página A2 da versão impressa.