Belo belo

Manuel Bandeira

Belo belo minha bela
Tenho tudo que não quero
Não tenho nada que quero
Não quero óculos nem tosse
Nem obrigação de voto
Quero quero
Quero a solidão dos píncaros
A água da fonte escondida
A rosa que floresceu
Sobre a escarpa inacessível
A luz da primeira estrela
Piscando no lusco-fusco
Quero quero
Quero dar a volta ao mundo
Só num navio de vela
Quero rever Pernambuco
Quero ver Bagdá e Cusco
Quero quero
Quero o moreno de Estela
Quero a brancura de Elisa
Quero a saliva de Bela
Quero as sardas de Adalgisa
Quero quero tanta coisa
Belo belo
Mas basta de lero-lero
Vida noves fora zero.

Petrópolis, fevereiro de 1947

A voz dos Botequins

VERLAINE

A voz dos botequins, a lama das sarjetas,
os plátanos largando no ar as folhas pretas,
o ônibus, furacão de ferragens e lodo,
que entre as rodas se empina e desengonça todo,
lentamente, o olhar verde e vermelho rodando,
Operários que vão para o grêmio fumando
cachimbo sob o olhar de agentes de polícia,
paredes e beirais transpirando imundícia,
a enxurrada entupindo o esgoto, o asfalto liso,
eis meu caminho _ mas no fim há um paraíso.

(A voz dos botequins e outros poemas, trad. Guilherme de Almeida)

20g et une convulsion

Alfredo Leão

20g et une convulsion
la vie est toujours mieux que la mort?
(a vida é melhor que a morte?)
blanc est mieux que le noir?
(o branco é melhor que o preto?)
la journée est mieux que la nuit?
(o dia é melhor que a noite?)
le soleil est mieux que la lune?
(o sol é melhor que a lua?)
la clarté est meilleure que la folie?
(a lucidez é melhor que a loucura?)
et l’amour est meilleur que la haine?
(o amor é melhor que o ódio?)
réveil est mieux que d’être endormi?
(estar acordado é melhor que dormindo?)
être sage est mieux que d’être ignorant?
(o sábio é melhor do que o ignorante?)
changement est mieux que de rester la même?
(mudar é melhor permanecer o mesmo?)
dans le fond, c’est toutes les variantes?
(no fundo, é tudo variação?)
être bon est mieux que d’être mal?
(ser bom é melhor que ser mal?)
être belle est préférable d’être laid?
(ser bonito é melhor que ser feio?)
alors, être riche est mieux que d’être pauvre?
(então, ser rico é melhor que ser pobre?)
et Dieu est meilleur que le diable?
(e Deus é melhor que o diabo?)
et votre vie est meilleure que la mienne?
(e sua vida, é melhor que a minha?)
vivre ensemble n’est-il pas préférable de vivre seul?
(viver acompanhado não é melhor que ser solitário?)

 
Vous devez avoir quelqu’un pour le reste de votre vie?
(é preciso ter alguém para o resto da vida?)

 
donner le jeu, il est préférable d’essayer de gagner?

(entregar o jogo é melhor que tentar ganhar?)

 
la tricherie est mieux que d’essayer d’être fidèle?
(trair é melhor que tentar ser fiel?)

 
Je vous dévore avec du sable et du feu!
(eu te devoro com areia e fogo!)

 

Je suis attaché entre un réseau de trois étoiles.
(Estou numa rede atada entre três estrelas.)

São Paulo, 13 de dezembro de 2013

Schaudenfrewde

Com uma gilete na jugular,

O encanto acabou.

A euforia acabou.

Acabou-se a alegria.

Acabou-se a folia.

E tudo que poderia e deveria ter sido

_ por força de lei,

por decreto, por magia legítima,

formando uma absoluta rima,

criando simetria no que antes

era uma metade distorcida

_ agora se suicida!

Sonho

Ninguém se torna iluminado por imaginar figuras de luz, mas por tornar consciente a escuridão. Jung

 

Sonho com o diabo se contorcendo,
Ensanguentado  dos pés à cabeça,
Como se tivesse saindo de uma placenta.
Ora corcoveia ora se estica,
Tentando ser liberado!

Bem perto de mim.Bem longe de mim.
E alguém me diz:
_Pegue-o e leve-o a boca!
Eu me imagino fazendo isso
E, assim, o diabo se torna
Pequeno como um canapé
Para um único bocado

_Se quer ser grande, deve engoli!
Repetia a voz, não sei de onde.
Mas o nojo me fez regurgitá-lo.
"Do aflito reino o imperador eu via", Divina Comédia de Dante
“Do aflito reino o imperador eu via”, Divina Comédia de Dante

Pico do Jaraguá

Assim fala a lenda:

Quando as bandeiras balançavam rumo ao sertão,

Mulheres subiam ao cume

Dos joelhos do gigante adormecido

Para, de lá, despedirem-se de seus amados, brandindo lençóis,

Até que eles sumissem de suas vistas no horizonte.

 

Esperançosas de avistá-los ao longe,

Ali, elas regressavam sucessivamente,

Para dispor-se a receber cada qual seu sertanista,

Se um dia eles voltassem ao Planalto Paulista.

 

Até hoje,  porém, sobre a barriga e os joelhos do monstro,

Os lençóis surgem, em forma de nuvens que choram,

Porque as esposas e filhas e irmãs vêm ali lamentar

Eternamente a saudade dos que não puderam regressar.

Godoy. Jacareí, 03-01-2013

 

 

"Jaraguá" gravura de Evandro Carlos Jardim
“Jaraguá” gravura de Evandro Carlos Jardim

Sombra

Cada vulto que surge

Chama você ao meu pensamento,

Aparição assustada e assustadora!

Eu canto o canto de criança que chora baixinho

Para não acordar os irmãos.

Escondo o rosto com as mãos pequeninas,

Querendo que a sombra atrás do móvel

Logo passe, não toque, não fale.

Engula o nó da garganta, se for capaz!

Nenhum passe vai tirar essa sombra de meu calcanhar!

16-06-2012

a sombra que me persegue

Assassinato culposo

Fiquei tão feliz por, após tantos anos, te reencontrar.

Surgiste como que por geração espontânea

Em meu humilde lar;

A ostentar tuas coloridas

E pintalgadas e aladas partes

Produzidas com delicada arte.

 

Se daí do teu céu _ se ele há _ puder me anistiar,

Talvez, eu mesma consiga me perdoar por assassinar-te.

Sem intenção, vejo que tu partes,

Senhora dos insetos, Joanhinha-ladybug!

Que essa notícia não se divulgue,

Para que tuas irmãs eu não assuste!

 

30-12-2012

Joaninha
Joaninha

Apenas palavras

As palavras são nada.
Em si, carecem de sentidos, se não as escoltar os gestos.
Assim o silêncio é louvável a alguns algures.
Imprudência fiar-se no verbo, já que quem mente mergulha a todos em fantasia?
Sonha que a todos ludibria? Para si, ciladas cria?
Mas não ilude plenamente: há uma gota de verdade em cada mentira.
Há um dizer exato em cada calada!
Mas a palavra não poderá ser sempre friamente refreada,
Pois que liberta quem a profere de sentimentos inconfessáveis.
As palavras libertam os tímidos de si mesmos, desconfiados de revelar seu ser ao universo.
Libertam um povo da opressão.
Libertam seres de sua invisibilidade.
Libertam ao revelar a descoberta e afirmação de si, a si mesmo e à humanidade.

No Norte, quantos tons de branco conhecem os esquimós?
Para cada branco, uma palavra.
Para nós, só há um branco e mais nada…
Para cada coisa que há e sabemos que há, há uma palavra.
A tudo que nasce, damos um nome.
Mas para quem nunca viu tantos brancos, se ouvir seus nomes diferentes, nem precisa se mudar para lá.
A enxergá-los, em algum momento, passará.
Assim os nomes nascem das coisas, mas o saber também nasce das palavras.
O que pensamos que é sabido de todos, mas nunca foi divulgado verbalmente, pode também deixar de haver e ser olvidado na próxima temporada.
Se o amor verdadeiro está implícito em amostras de sentimentos, também provas perdem seu sentido no automatismo dos gestos habituais.
Então, a elegância contemporânea, que, com demonstrações de afeto, se acanha, acaba por enregelar a todos de todo.

Você não pode mais me ouvir,
Então falo para mim mesma,
Para saber que sinto o que sinto,
Para lembrar e me aquecer
E me libertar do não-dizer:

“Não enxergamos os brancos dos esquimós nem temos nomes para eles…
Nunca pensei que talvez você não enxergasse em quantas cores era amado.
Hoje não cansaria de dizer de todas as formas possíveis,
Com quantas palavras existem: Persy, eu amo você!”

28-07-2012

Thaís319

Por quê?

desespero

 

 

 

 

 

 

Por que não ligo mais?

Por que não ligo para minha honra?

Por que perdi sonhos,

Perdi a vergonha?

Por que fujo de alcançar os fins,

Se ainda estou no começo?

Sei que posso, sei que sou capaz.

Só preciso querer o que eu quero…

Querer o que quero, quando quero

E quando já não quero mais.

Vivo a dor e o mal-estar

De suspender a vida

Enquanto afundar.

 

Abril de 2012.

ONE

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Para ninguém mais neste mundo tal imagem tem sentido e sentimento igual!
 

 

Homenagem à minha irmã Alcyone em seu aniversário.


One, one, meu Deus! Quanto amor!

Nem sei ter palavras para abarcar.
Só me resta com seu nome brincar
E assim recordar sua infância.
All- começa com A de amigos
que tinham preguiça de, a palavra inteira, pronunciar!
Mesmo assim: por todos os olhares,
Que atrai em todos os seus dias, é All!

Cy – só esse pedaço é igual
Ao da amada de Macunaíma:
Cy - que também virou a estrela mais
brilhante, como o todo do seu nome.

One - no final é uma, única, una,
Embora em outro idioma.

Seu progenitor quis que fosse chamada assim,
nos dias em que, com o dom da vida, nos uniu!

Thaís GM

Bem-te-vi

Bem-Te-Vi (Kiskadee/Qu´est ce)
Bem-Te-Vi (Kiskadee/Qu´est ce) (Photo credit: giumaiolini)

Bem-te-vi, vieste cantar

À minha janela e brinco

em meus pensamentos:

_Por que nunca criaram

Outros nomes semelhantes

Para te fazer companhia?

Para não ficares aí solitário,

Passarinho sem irmãos

Pelo nome e sobrenome?

 

Bem-te-vi, tu poderias

Ter um amigo bem-te-ouvi

E, para uma história se contar,

Bem-te-vi;

bem-te-toquei;

bem-te-provei;

E, por fim, bem-te-esqueci.

 

Ou para teu círculo aumentar,

Passarinho sem parentes,

Mal-te-vi, mal-te-toquei, mau-te-provei

E, por fim, mau-te-esqueci.

 

Da ardósia

 Da ArdósiaAdiantaria lhe dizer

Que o mais raro perfume

É oferecido nos menores frascos?

Ou que um bruto diamante,

é reduzido ao ser lapidado,

Até libertar seu lume

E virar brilhante?

Adiantaria falar que você é constituída

Pela mesma matéria das estrelas?

Que o macro contém o micro?

Ou que até os maiores astros

São formados por elementos

tão pequenos, que estão em todos

os lugares neste momento?