Refugiados

Você, que é tão erudito,

recite-me versos suaves, por piedade,

para recuperar de viver a vontade!

 

Você, você que é tão ajuizado,

Por misericórdia, me dite os santos escritos,

Nos templos ouvidos,

Para alimentar desgraçados proscritos!

 

Você, que é tão são,

por compaixão, reze-me uma oração

para alentar a quem vive ao relento;

a quem se negou a terra de onde tirar o sustento;

a quem nunca recuperou seu pródigo rebento.

DT200203

Duas notas sobre a Palestina

MATERIALISMO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO

Deixo abaixo duas notas que fiz em minha página do facebook sobre a Palestina.

Sobre a “questão palestina”

Apenas acordo e, viciadíssimo nas redes sociais, abro a página do facebook onde encontro um post da “Eurasia – Rivista di Studi Geopolitici”, divulgando um número especial sobre a Palestina (edição n. 2, 2009). Nada mal, sabendo usar, até que as redes sociais podem contribuir para o nosso esclarecimento acerca deste “mundo grande e terrível”.

Único texto livre de pagamento, o editorial (Palestina, Provincia d’Eurasia) é bastante completo, até mesmo em termos de reconstituição histórica, e logo me põe a conhecer dados demográficos realmente aterradores. Vamos a eles.

Em 1880 a comunidade judaica na Palestina — que por esta época era uma estável província do Império Otomano, gozando mesmo de um importante desenvolvimento econômico, social e cultural — era de apenas cerca de 24 mil indivíduos; de 1880 a 1908 passa…

Ver o post original 669 mais palavras

À Palestina

À Palestina,

o sangue, que jorra das veias de seu povo,
É esquecido, é ignorado.
Até quando fingiremos que tudo é normal?
Até quando viraremos as costas àqueles que sofrem
de um grande mal?

“Assim caminha a humanidade”, uns dizem.
Outros permanecem calados,
Enquanto seus filhos se esquivam da morte sem
Saber se seus passos serão lembrados.
Todos eles serão só números quantificados?
Alguns ainda virarão teses de doutorado,
Mas sem nome, sem lar, nem água nem chão,
Todos seus filhos serão prisioneiros em seu próprio torrão?
E todos nós sem a vergonha de deixar
que isso aconteça a um irmão?

Godoy
11-07-À Palestina,2012

 

 

“Carece de ter coragem”

“Carece de ter coragem”¹

In memoriam de Faris Odeh, morto com apenas 14 anos, no dia 8 de novembro de 2000, por um sniper israelense

Sempre repetia minha madrinha: “O medo não é de Deus”

Olhos arregalados, completava ainda:

“O medo é a ausência de fé em Deus. Falta de uma fortaleza interna.”

Mesmo que minha fé me abandonasse vez ou outra, quando conseguia

Reconhecer minha covardia, lembrava: “O medo não é de Deus!”

Tememos muitas coisas: “Hesito, logo existo” é o bordão modernizado,

Por isso nos surpreende o gesto heroico.

Num átimo, o ser não duvida de nada.

Não duvida do que tem de fazer imediatamente,

Mesmo que isso seja irracional

Mesmo que isso seja loucura

Porque naquele instante,

Mesmo o mais vacilante,

passa a ter certeza do que deve, precisa e deseja fazer.

Ergue-se nele aquela fortaleza.

De onde ela vem?

Nem sempre da fé em um Deus,

Mas simplesmente da fé.

Fé na mudança

Fé no fim da injustiça

Fé em si mesmo

Fé em poder mudar o mundo.

Mesmo que seja apenas um menino e sua única arma, uma ingênua pedra

diante de um tanque,

diante de toneladas de ferro,

diante  de incalculável ódio

E, finalmente, diante do Medo.

1- Fala de Diadorim, personagem de Grande Sertão Veredas de Guimarães Rosa.

A limpeza étnica da Palestina

DANIEL AVELAR
DE SÃO PAULO
27/04/2017 07h00

Israel não conseguirá manter o sistema ideológico que o sustenta para sempre. Quem faz o prognóstico é o historiador israelense Ilan Pappé.

Estamos em uma encruzilhada: as pessoas em Israel sabem do que o país fez no passado e faz no presente, mas a maioria ainda aceita isso e parece não se importar”, afirma o historiador, para quem pressões externas e “novas gerações” provocarão mudanças em Israel.

Pappé, 62, é um dos principais nomes dos chamados “novos historiadores israelenses”, grupo que analisa criticamente os eventos que levaram à fundação do Estado de Israel, em 1948, a partir do estudo de arquivos militares mantidos em sigilo até a década de 1980.

Ele escreveu o livro “A Limpeza Étnica na Palestina”, no qual argumenta que houve um processo planejado de expulsão e massacre de milhares de palestinos que viviam no território que viria a ser o Estado de Israel.

Sua hipótese contradiz a narrativa tradicional sobre o tema, segundo a qual os palestinos fugiram da região devido à guerra iniciada pelos países árabes contra Israel.

O historiador sofreu pressões e ameaças desde que publicou a obra, em 2006, e por isso hoje vive exilado no Reino Unido, onde é professor na Universidade de Exeter. Pappé, que está no Brasil para uma série de palestras de lançamento da edição brasileira da obra (ed. Sundermann), conversou com a Folha.

Leia, abaixo, trechos da entrevista.

*

Folha – Em seu livro, você defende a tese de que Israel foi fundado com base na limpeza étnica dos palestinos que viviam ali. Como seus compatriotas reagiram a essa ideia?

Ilan Pappé – No início, tentaram ignorar o livro e eu fui muito criticado, o que causou muitos problemas para mim. Aparentemente, para a academia israelense, falar que nosso país cometeu crimes contra a humanidade é cruzar uma linha vermelha.

A verdade é que as pessoas olham para os mesmos fatos com lentes diferentes. Se você vê o que aconteceu na Palestina em 1948 de uma perspectiva humanista, só se pode chegar a uma conclusão: as forças sionistas expulsaram milhares de pessoas e demoliram centenas de vilas palestinas, o que configura limpeza étnica.

Os israelenses não são os únicos a colonizar uma terra estrangeira, várias nações europeias fizeram isso no passado. Mas os israelenses são os únicos a negar o que fizeram.

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Você acredita que a sociedade israelense mudou a percepção que tem sobre si mesma nos últimos anos?

Atualmente, há mais conhecimento do que nas últimas décadas sobre os acontecimentos de 1948. A grande maioria dos israelenses sabe que milhares de palestinos foram expulsos de suas casas e que 500 vilas foram apagadas do mapa. Estamos em uma encruzilhada: as pessoas em Israel sabem do que o país fez no passado e faz no presente, mas muitos ainda aceitam isso e parecem não se importar.

Eu acredito que uma resposta global dura e mudanças de percepção na comunidade judaica ao redor do mundo são fundamentais para que Israel deixe de cometer atrocidades.

Falo com muitos israelenses jovens e vejo uma atitude diferente, mais crítica do que as gerações anteriores. Por isso, sou otimista. Penso que Israel não conseguirá manter o sistema ideológico que o sustenta para sempre.

Donald Trump já indicou possíveis mudanças na política dos EUA para Israel, como transferir a embaixada para Jerusalém. O que seu governo pode representar?

Honestamente, creio que a política dos EUA para Israel não é apenas baseada na personalidade de um presidente. Todos pensavam que Barack Obama era pró-Palestina, mas na prática ele não mudou em nada as diretrizes da política americana. Há outros fatores em jogo, como o lobby pró-Israel e o as pressões do complexo militar-industrial, que ainda vê Israel como um ativo.

Por outro lado, a sociedade civil e a comunidade judaica nos EUA nunca foram tão críticas a Israel quanto hoje. Penso que muitas coisas vão mudar nos EUA, e Trump não é a causa dessas mudanças. Talvez seja um sintoma.

2017 marca o 50º aniversário da Guerra dos Seis Dias. Qual a relação desse evento com o processo que você chama de limpeza étnica?

Há uma continuidade histórica. Os judeus foram para a Palestina porque precisavam fugir do genocídio na Europa, mas implementaram um projeto colonial. Para o sionismo, que considero ser o último movimento colonial, é preciso ter o máximo da Palestina com o mínimo de palestinos possível, caso contrário o projeto não consegue se concretizar.

Em 1948, expulsaram a maioria dos palestinos para, ironicamente, criar uma democracia judaica em parte do território. Em 1967, resolveram ocupar o resto da Palestina, incorporando muitos dos palestinos que haviam sido expulsos em 1948. Isso criou um problema demográfico.

Para resolver esse problema, não houve expulsões sistemáticas, mas se fez algo tão ruim quanto a limpeza étnica. Israel implementou uma ocupação militar sem conceder cidadania, negando aos palestinos o direito de decidir sobre o próprio futuro.

Isso criou o que eu chamo de “megaprisões palestinas”, com graus diferentes de liberdade. Em algumas partes da Cisjordânia se é mais livre, como se fosse uma “prisão aberta”, mas Gaza, por exemplo, é tão fechada que nem se entra mais lá, só se bombardeia.

Quando, e por que, você passou a se opor ao sionismo?

Foi um processo longo, com várias etapas. Eu queria virar um historiador e percebia que as evidências que via não batiam com a narrativa sobre Israel que era apresentada para mim.

Na universidade, eu tive um orientador árabe e, quando estudei em Oxford, pude conversar com palestinos de igual para igual. Penso que o divisor de águas nesta travessia foi a invasão israelense ao Líbano em 1982. Pela TV, eu podia ver o que meu país estava fazendo e não tinha como justificar todas aquelas atrocidades.

Eu não tenho problemas com a ideia de um Estado judeu, mas isso se torna moralmente inaceitável quando depende da expulsão e opressão sistemática dos palestinos. Tenho lutado contra isso minha vida inteira.

Penso que existe uma alternativa para essa situação. Judeus e palestinos podem viver juntos em um Estado democrático, não precisam viver em um sistema de apartheid.

Por que você apoia o BDS (campanha de boicote, desinvestimento e sanções contra Israel)?

Eu acreditava que a diplomacia e o processo de paz poderiam resolver o problema, mas passaram-se anos e a ocupação continuou. Também comecei a perceber que o problema não era a política do governo, mas a ideologia do Estado.

Por isso, passei a apoiar o BDS. Como israelense, aceitar isso era difícil para mim no começo, era o mesmo que dizer “por favor, me boicote”. Os israelenses contrários à campanha a acusam de ser antissemita ou, no caso do boicote às universidades israelenses, dizem que é um ataque à liberdade de expressão. Repetem que a solução é dialogar.

Mas a verdade é que as tentativas de diálogo anteriores fracassaram e o BDS, de algum modo, nos obriga a conversar, ainda que não seja uma conversa agradável.

Acusar o BDS de ser antissemita não é um argumento bem pensado, embora possa convencer pessoas inteligentes. Não há qualquer paralelo entre uma forma de preconceito que está aí há milhares de anos e os pedidos para que um grupo —que diz agir em nome de todos os judeus– pare de cometer violações de direitos humanos.

Eu acredito que precisamos mudar todo o vocabulário que usamos para nos referir à questão Israel/Palestina. Em vez de falar em processo de paz, devemos começar a falar em descolonização.

Isso é um grande desafio pois sabemos como ocorreram descolonizações no passado, mas não fazemos ideia do que isso significa no século 21. Palestinos vivem situações muito diferentes em Gaza, na Cisjordânia e em Israel, e também é preciso pensar no retorno dos refugiados.

Para mim, é muito inspiradora a forma como o processo de descolonização se deu na África do Sul. Esse exemplo nos mostra exatamente o que buscamos: não queremos vingança, mas reparação.

*

RAIO-X
ILAN PAPPÉ

Nascimento
Haifa (Israel), 7 de novembro de 1954

Formação
Graduação em história na Universidade Hebraica de Jerusalém e pós-doutorado na Universidade de Oxford

Ocupação
Professor da Universidade de Exeter

Principais obras
“História da Palestina Moderna: Uma Terra, Dois Povos”, “Os Palestinos Esquecidos: A História dos Palestinos em Israel” e “A Limpeza Étnica da Palestina” (ed. Sundermann)

 

G1 – Entra em vigor o primeiro acordo entre Vaticano e Palestina

O histórico primeiro acordo do Vaticano com a Palestina entrou em vigor neste sábado (2) depois de concluídas as formalidades de procedimento, anunciou a Santa Sé.

O acordo foi assinado em junho passado, dois anos depois que a Igreja católica romana reconheceu os Territórios Palestinos como Estado soberano, em fevereiro de 2013.

O acordo versa sobre as atividades da Igreja em zonas da Terra Santa sob controle palestino, mas seu significado é visto em termos mais amplos, como símbolo do crescente apoio internacional ao Estado palestino.

“Com referência ao acordo global entre a Santa Sé e o Estado da Palestina, assinado em 26 de junho de 2015, a Santa Sé e o Estado da Palestina notificaram à outra parte que os requisitos de procedimento para sua entrada em vigor foram cumpridos”, assinalou o Vaticano em um comunicado.

“O acordo consiste em um preâmbulo e 32 artigos, aborda os aspectos essenciais da vida e da atividade da Igreja na Palestina, ao mesmo tempo em que reafirma o apoio a uma solução negociada e pacífica para o confito na região”, acrescenta o texto.

A preparação deste texto por uma comissão bilateral levou 15 anos. Embora o Vaticano se refira ao “Estado da Palestina” desde o início de 2013, os palestinos consideram que a assinatura do acordo equivale a um reconhecimento de fato de seu Estado, o que irrita Israel.

Na ocasião, Israel lamentou o acordo e advertiu que isso pode ser nocivo para os esforços para a paz na região.

O acordo foi assinado no Palácio pontifício pelo secretário para as relações com os Estados (ministro das Relações Exteriores), pelo prelado britânico Paul Richard Gallagher e pelo ministro palestino de Relações Exteriores, Riyad al-Maliki.

O acordo expressa o apoio do Vaticano a uma solução “do conflito entre israelenses e palestinos no âmbito da fórmula de dois Estados”, havia explicado em maio o monsenhor Antoine Camilleri, chefe da delegação da Santa Sé.

Para a Organização para a Libertação da Palestina (OLP), este acordo converte o Vaticano no 136º país a reconhecer o Estado da Palestina.

A Santa Sé tem relações com Israel desde 1993 e negocia desde 1999 um acordo sobre os direitos jurídicos e patrimoniais das congregações católicas no Estado hebreu, mas cada reunião semestral termina com um fracasso.

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Destaque

“Carece de ter coragem”

In memoriam de Faris Odeh, morto com apenas 13 anos, no dia 8 de novembro de 2000, por um sniper israelense

 

Sempre repetia minha madrinha.

“O medo não é de Deus”

Olhos arregalados, completava ainda:

“O medo é a ausência de fé em Deus.

Falta de uma fortaleza interna.”

Mesmo que minha fé me abandonasse

Vez ou outra, quando conseguia

Reconhecer minha covardia, lembrava:

“O medo não é de Deus!”

Tememos muitas coisas.

“Hesito, logo existo”

É o bordão modernizado.

Por isso surpreende o gesto heroico.

Num átimo, o ser não duvida de nada.

Não duvida do que tem

de fazer imediatamente,

Mesmo que isso seja irracional

Mesmo que isso seja loucura

Porque naquele instante

Mesmo o mais vacilante

passa a ter certeza do que deve,

precisa e deseja fazer.

Ergue-se nele essa fortaleza.

De onde ela vem?

Nem sempre da fé em um Deus,

Mas simplesmente da fé;

Fé na mudança

Fé no fim da injustiça

Fé em si mesmo

Fé em poder mudar o mundo.

Mesmo que seja apenas um menino

e sua única arma uma ingênua pedra

diante de um tanque,

diante de toneladas de ferro,

diante  de incalculável ódio

E, finalmente, diante do medo.

“Isso é só o fim”

* In memoriam das crianças assassinadas em Sabra e Chatila

 

Quando atos ignóbeis são perpetrados inda

É mais abominável que o mundo não pare,

É mais infame que tudo não se acabe,

que as vozes não se calem

E que não voltemos todos

Cabisbaixos ao barro do qual fomos forjados.

Todos os sons do universo,

Desde a explosão primordial,

Deveriam silenciar-se de vergonha,

Deveriam recolher-se dizendo

Que nada, nunca, ninguém,

Deveria ter surgido de coisa alguma

e que, se surgiu, deveria

Esvanecer-se prontamente

Sepultada sobre sua própria infâmia,

Soterrada em gritos abjetos.

O nada seria melhor que um só humano

Testemunhar a evitável

interrupção da vida de curumim.

O vazio silencioso seria um alento,

Se era para macular,

Abominavelmente, a vida, assim.

Quando algo tão vergonhoso sucede,

Como o mundo pode seguir seu curso?

Depois dessa febre assassina,

Que nos leva à carnificina,

Deveria o mundo estacar!

O fim não pareceria tão ruim.

Sem nem lembrar que os homens

Vieram um dia a vida execrar,

A bonança reinaria sem par!

18-09-2012

*Marcelo Nova, Camisa de Vênus

Iniciado em 16 de setembro de 1982, o massacre de Sabra e Chatila foi o morticínio de refugiados civis palestinos e libaneses indefesos perpetrado pela milícia maronita liderada por Elie Hobeika após o assassinato do presidente eleito do país e líder falangista de extrema direita, Bachir Gemayel. O evento ocorreu nos campos palestinos de Sabra (صبرا, Sabrā) e Shatila (وشاتيلا, Shātīlā), situados na periferia de Beirute, a sul da cidade, área que se encontrava então sob proteção das forças armadas de Israel. Na época, a revista Veja tinha como seu correspondente no Líbano o repórter Alessandro Porro, judeu nascido na Itália e naturalizado brasileiro, que desmontou a alegação de que o exército de Israel não percebera a ocorrência do massacre. Porro chegou mesmo a contar os 183 passos que separavam os campos de refugiados e o quartel israelense, no que foi considerado um furo jornalístico. “Segundo o testemunho de um major do Exército libanês, confirmado pelo guardião da antiga Embaixada do Kuwait, uma unidade israelense com três tanques Merkava e pelo menos cinco blindados estava aquartelada a menos de 200 metros daquelas primeiras casas do setor sul de Chatila.

                         

Atenção recomendo prudência pois contém imagens fortes:

http://bigdogdotcom.wordpress.com/2012/09/17/remembering-sabra-and-shatila/

Em memória das crianças assassinadas em Sabra e Chatila

Ontem tentei criar um poema em memória das crianças assassinadas em Sabra e Chatila, mas isso foi demais para mim. Por isso, cito o discurso de Ivan Karamázov, (personagem do romance Os irmãos Karamázov, de Fiódor Dostoiévski)*, sobre o sofrimento das crianças. Uma, especificamente, é estraçalhada por uma matilha a mando de um general, por ter ferido com uma pedra a pata de um de seus cães preferidos, enquanto sua mãe é obrigada a assistir a carnificina:

“Penso que se o diabo não existe e foi por conseguinte criado pelo homem, este deve tê-lo feito à sua imagem.” 

“Se todos devem sofrer, a fim de concorrer com seu sofrimento para a harmonia eterna, qual o papel das crianças?”

“Acredita-me, Aliócha, pode ser que eu viva até esse momento ou que ressuscite então, e exclamarei talvez com os outros, vendo a mãe beijar o carrasco de seu filho: “Tu tens razão, Senhor Deus!”, mas será contra minha vontade. Enquanto ainda é tempo, recuso-me a aceitar essa harmonia superior. Acho que não vale ela uma lágrima de criança, daquela pequenina vítima que batia no peito e rezava ao “bom Deus”, no seu canto infecto; não as vale, porque aquelas lágrimas não foram redimidas. Enquanto assim for, não se poderá falar de harmonia. Ora, não há possibilidade de redimi-las. Os carrascos sofrerão no inferno, dir-me-ás tu. Mas de que serve esse castigo, uma vez que as crianças tiveram também o seu inferno? Aliás, que vale essa harmonia que comporta um inferno? Quero o perdão, o beijo universal, a supressão do sofrimento. E, se o sofrimento das crianças serve para perfazer a soma das dores necessárias à aquisição da verdade, afirmo desde agora que essa verdade não vale tal preço. Não quero que a mãe perdoe ao carrasco, não tem esse direito. Que lhe perdoe seu sofrimento de mãe, mas não o que sofreu seu filho estraçalhado pelos cães. Ainda mesmo que seu filho perdoasse, não teria ela o direito. Se o direito de perdoar não existe, que vem a tornar-se a harmonia? Há no mundo um ser que tenha esse direito? Por amor pela humanidade é que não quero essa harmonia. Prefiro conservar meus sofrimentos não redimidos e minha indignação persistente, mesmo se não tivesse razão! Aliás, deram realce excessivo a essa harmonia, a entrada custa demasiado caro para nós. Prefiro entregar meu bilhete de entrada. Como homem de bem, tenho mesmo obrigação de devolvê-lo o mais cedo possível. É o que faço. Não recuso admitir Deus, mas muito respeitosamente devolvo-lhe meu bilhete.” 251

*Ивана Карамазова, (персонаж романа Братья Карамазовы Федор Достоевский

À Palestina,

o sangue, que jorra das veias de seu povo,

É esquecido, é ignorado.

Até quando fingiremos que tudo é normal?

Até quando viraremos as costas àqueles que sofrem

de um grande mal?

“Assim caminha a humanidade”, uns dizem.

Outros permanecem calados,

Enquanto seus filhos se esquivam da morte sem

Saber se seus passos serão lembrados.

Todos eles serão só números quantificados?

Alguns ainda virarão dissertação ou teses de doutorado,

Mas sem nome, sem lar

Nem água nem chão,

Todos seus filhos serão

prisioneiros em seu próprio torrão?

E todos nós sem a vergonha de deixar

que isso aconteça a um irmão?

11-07-2012

Na Palestina: O velho, a árvore, o ônibus

À Abd Al-Hasib Atta Zaloum

Sobre o solo, jaz a carcaça do que um dia fora um ônibus.

Hoje, tornou-se abrigo do velho sem lar.

As estrelas no céu velam por eles à noite.

O frio passa pela vidraça estilhaçada,

Vem sorrateiro lhes acompanhar.

Assim que ficou pronta,

sua antiga morada foi demolida;

sua terra, por colonos, roubada.

Converteram-na em área de segurança.

Segurança para quem,

se o velho agora vive ao relento?

Não é o velho, de humanos, rebento?

Não necessita de segurança também?

É menos humano que as crianças da escola ali próxima?

Já que delas só recebe desdém?

Sob o sol escaldante, a sombra vem de uma árvore solitária.

A árvore de dia e o ônibus à noite são o seu reino,

Que nem o rei da Jordânia igual tem.

Como a vida que poderia ter tido foi interrompida,

Nesse solo só quer seus olhos cansados plantar

Para não mais ver tantas guerras sua terra assolar.