6 poemas de Jacques Prévert

Silviano Santiago

O bailado velado

Na encruzilhada impossível da imobilidade
uma turba de objetos inertes
não consegue parar de se mover fremir dançar
E os carteiros do vento
como os do mar
espalham a correspondência aqui e lá
Cada coisa sem dúvida se destina a alguém
       ou a alguma coisa talvez
A pluma da ave
como a concha da ostra
a cruz da legião de honra
como a estrela do mar
ou a pinça do siri e a âncora da fragata
a perereca verde de lata
e a boneca de som
e a coleira do cão
E nesta paisagem onde nada parecia se mexer
exceto a vela do náufrago na lanterna em ferrugem
é o bailado velado
o bailado dos objetos inanimados.

La fête secrète

Au carrefour impossible de l’immobilité
une foule d’objets inertes
ne cesse de remuer de frémir de danser
Et les facteurs du vent
comme ceux de la marée
éparpillent le courrier
Chaque chose sans doute est destinée à quelqu’un
       ou à quelque chose peut-être
La plume de l’oiseau
comme l’écaille de l’huître
la croix de la légion d’honneur
comme l’étoile de mer
ou la patte du crabe et l’ancre du navire
la grenouille de fer vert
et la poupée de son
et le coller du chien
Et dans ce paysage où rien ne semble bouger
sauf la bougie du naufrageur dans la lanterne rouillée
c’est la fête secrète
la fête des objets.

(in Fatras)

Traduções de Adriano Scandolara.

Fonte: 6 poemas de Jacques Prévert

“Literatura não é Teoria, é Paixão”

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Tzvetan Todorov

O filósofo Tzvetan Todorov afirma que o excesso de “ismos” afasta os jovens da leitura, e diz que a principal função de um professor é ensinar o aluno a amar os livros
por Anna Carolina Mello e André Nigri

Nascido em 1939 em Sófia, na Bulgária, e naturalizado francês, o filósofo e linguista Tzvetan Todorov é um dos mais importantes pensadores do século 20. Traduzida para mais de 25 idiomas, sua obra inspira críticos literários, historiadores e estudiosos do fenômeno cultural do mundo todo. Em seu mais recente livro publicado no Brasil, A Literatura em Perigo, Todorov faz um mea culpa raro entre intelectuais. Ele diz que estudos literários como os seus, cheios de “ismos”, afastaram os jovens da leitura de obras originais – dando lugar ao culto estéril da teoria. De Paris, ele falou a BRAVO! por telefone:

BRAVO!: Gostaria que o sr. falasse sobre o seu primeiro contato com a literatura quando criança, e como ela se transformou em uma paixão.

Tzvetan Todorov: Eu cresci na Bulgária durante a Segunda Guerra, quando quase ninguém vivia em Sófia, sob constante bombardeio. A maior parte da população vivia fora da capital, em apartamentos divididos por várias famílias. Dentro da coletividade em que habitávamos, havia um especialista em literatura. Foi ele que me ensinou a ler, antes que eu atingisse a idade escolar. Ele me incentivou a praticar a leitura nos livros infantis, e logo comecei a gostar dos contos populares. Apreciava especialmente as histórias dos irmãos Grimm e As Mil e Uma Noites. Essas obras faziam minha alegria. Eu já tinha um sentimento do enriquecimento pessoal que o contato com a ficção podia proporcionar.

Por que o contato com a ficção é tão importante?

Os livros acumulam a sabedoria que os povos de toda a Terra adquiriram ao longo dos séculos. É improvável que a minha vida individual, em tão poucos anos, possa ter tanta riqueza quanto a soma de vidas representada pelos livros. Não se trata de substituir a experiência pela literatura, mas multiplicar uma pela outra. Não lemos para nos tornar especialistas em teoria literária, mas para aprender mais sobre a existência humana. Quando lemos, nos tornamos antes de qualquer coisa especialistas em vida. Adquirimos uma riqueza que não está apenas no acesso às idéias, mas também no conhecimento do ser humano em toda a sua diversidade.

E como fazer para que as crianças e os jovens tenham acesso a esse conhecimento tão importante?

A escola e a família têm um papel importante. As crianças não têm idéia da riqueza que podem encontrar em um livro, simplesmente porque eles ainda não conhecem os livros. Deveríamos então ser iniciados por professores e pais nessa parte tão essencial de nossa existência, que é o contato com a grande literatura. Infelizmente, não é bem assim que as coisas acontecem.

Por quê?

Quando nós professores não sabemos muito bem como fazer para despertar o interesse dos alunos pela literatura, recorremos a um método mecânico, que consiste em resumir o que foi elaborado por críticos e teóricos. É mais fácil fazer isso do que exigir a leitura dos livros, que possibilitaria uma compreensão própria das obras. Eu deploro essa atitude de ensinar teoria em vez de ir diretamente aos romances, por que penso que para amar a literatura – e acredito que a escola deveria ensinar os alunos a amar a literatura – o professor deve mostrar aos alunos a que ponto os livros podem ser esclarecedores para eles próprios, ajudando-os a compreender o mundo em que vivem.

Ao comentar esse assunto no livro, o sr. fala em “abuso de autoridade”. Poderia explicar melhor?

É um abuso de autoridade na medida em que é o professor quem decide mostrar aos alunos o que é importante, com base em um programa definido previamente pelo Ministério da Educação. E isso é sempre uma decisão arbitrária. Não temos o direito de reduzir a riqueza da literatura. O bom crítico – e também o bom professor – deveria recorrer a toda sorte de ferramentas para desvendar o sentido da obra literária, de maneira ampla. Esses instrumentos são conhecimentos históricos, conhecimentos linguísticos, análise formal, análise do contexto social, teoria psicológica. São todos bem-vindos, desde que obedeçam à condição essencial de estar submetidos à pesquisa do sentido, fugindo da análise gratuita.

Como conciliar esse desejo de liberdade num sistema em que o professor tem que atribuir notas, como ocorre no Brasil e na França?

Acredito que o essencial é escolher obras literárias que sejam, por sua complexidade e temas, acessíveis à faixa etária a que se destinam. Cabe ao professor mostrar o que esses livros têm de enriquecedor para os alunos, levando em consideração a realidade deles. O importante é não ter medo de estabelecer pontos em comum entre o presente dos alunos e do sentido dos livros.

O escritor italiano Umberto Eco fala que o livro, ao lado da cadeira, é o objeto de design mais perfeito criado pela humanidade. Num momento em que se questiona isso, o senhor vê futuro para o livro?

É verdade que hoje lemos muito diante da tela, mas não acho que o livro vá desaparecer. Ele estabelece uma relação de possessão e de interiorização que nós não podemos estabelecer com algo tão imaterial quanto o texto na tela do computador. Claro que eu mesmo, quando busco uma referência, o faço facilmente diante da tela. Mas se eu desejo me embrenhar em um livro, se eu quiser me render a seu interior, é preciso que seja com o objeto “livro”. A isso ele se presta maravilhosamente.

O LIVROA Literatura em Perigo, de Tzvetan Todorov. Difel, 96 págs., R$ 25.

 

A vida

“A vida é luta renhida”G. Dias

Mimado menino acostumado a fazer manha;

Menino promíscuo acostumado a fazer birra,

Toma tento e até que cresça não me apareça!

Que a vida não pára, não volta, não espera

E se acaba tão depressa…

Menino mimado e desacostumado ao não,

Não pode voltar ao seu ninho,

Porque seus conjuros nas encruzilhadas,

suas preces, promessas

nem sempre serão alcançadas!

Nos nossos caminhos, são fartos os espinhos;

sobejam carcaças dormindo ao relento

reanimadas por abutres famintos.

Menino mimado, não esqueça: a vida não é uma festa!

 

 

Thaís GM

Estante deslocada IV

Rafael F. Carvalho

Quando eu era pequeno, houve uma terrível seca em nossa terra. Nenhuma planta sobreviveu, exceto a figueira. Nada mais cresceu, nem hortas nem outras frutas. Só podíamos cultivar figos, logo eu, que sempre detestara figos. Talvez fosse um castigo divino, uma vingança ou um aprendizado que deveríamos passar, mas só me lembro dos figos. Nem mesmo por necessidade eu conseguia gostar de figos. Com o passar dos anos minha família ficou conhecida pelos figos que produzíamos, vendemos figos para pessoas que vinham de lugares muito

distantes. Eu aprendi a plantar, cuidar, proteger das pragas, colher, guardar e vender. Se perguntavam se ele era bom, eu dava um pedaço para experimentar, não tinha outro jeito de saber se eram bons. Todos gostavam e compravam sem mais perguntar. O único figo que comi foi um que não coube na cesta e fiquei com pena de jogar fora. Hoje tenho muitas figueiras e sou conhecido por aquilo que detesto.

 

Figo

ONE

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Para ninguém mais neste mundo tal imagem tem sentido e sentimento igual!

Homenagem à minha irmã Alcyone em seu aniversário.

 

One, one, meu Deus! Quanto amor!

Nem sei ter palavras para abarcar.

Só me resta com seu nome brincar

E assim recordar sua infância.

All- começa com A de amigos que tinham preguiça de, a palavra inteira, pronunciar!

Mesmo assim: por todos os olhares,

Que atrai em todos os seus dias, é All!

Cy – só esse pedaço é igual

Ao da amada de Macunaíma:

Cy – que também virou a estrela mais

brilhante, como o todo do seu nome.

One – no final é uma, única, una,

Embora em outro idioma.

Seu progenitor quis que fosse chamada assim,

nos dias em que, com o dom da vida, nos uniu!

Olhos

Nada substituirá teus internos olhos!

Não sabemos viver na certa estação.

Corpo no inverno, espírito no verão.

Impossível, ou incerto voltar num tempo

que não é eterno e o passo perfazer até um gélido leito.

Sem vãos remorsos de dar-se quase sempre na hora errada.

Os seus olhos não me olhavam,

E os meus viam quase nada.

Só sobras doam-se daquilo a que nós temos direito.

Nessa doce vida restam só os escolhos!

Poesia III

Jaraguá, exata 1980, de Evandro Carlos Martins

O espírito da poesia me acordou?

Ou escrevo para poder dormir?

Ou será que estou com fome?

Leite morno, biscoito Nestlè Classic Duo!

Calmantes conseguem explicar

E entender o que sentimos?

Só dá para identificar com

Certeza aquilo que dói

porque o pretérito imperfeito

é o meu tempo.

 

22 de novembro de 2012.

 

Sonâmbulos

 

 

 

 

 

 

 

Você não sente

Que o que arranha

A lousa fria e dela arranca faísca

Não é nenhuma artimanha?

 

Você não sente

Que à noite sonâmbulos executam

Uma peregrinação errante?

Que na ausência da mente,

Só seus corpos exatos acertam

o caminho que aspiram, enfim?

 

Você não pressente

Que numa noite qualquer,

Esquecida do mundo e de mim

Por esse mesmo caminho

serei friamente conduzida,

Até chegar a um país

Que me aliene mais ainda,

Já que lá esta ossada não mente?

Vladimir Nabokov e Lolita

Vladimir Nabokov e Lolita: “Em português, na tradução de Jorio Dauster (Companhia das Letras e depois Folha de São Paulo), está: “Lolita, luz de minha vida, labareda em minha carne. Minha alma, minha lama. Lo-li-ta: a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu da boca para tropeçar de leve, no terceiro, contra os dentes. Lo.Li.Ta.””  trecho do texto de Paula Fernandes
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