No princípio era o verbo!

O mal assola a terra.

Viver torna-se um suplício;

O gosto de sangue, um vício.

Espera-se a ajuda do céu ou de irmãos para sempre.

Não se vê nada de novo no fronte, exceto no verbo.

Honra, dignidade e nobreza sempre foram

só palavras que nunca existiram.

Há no ar promessas de um porvir menos perverso,

No qual o holocausto tenha regras.

Projéteis são mais nobres que veneno!

Enquanto algo escapa entre dentes;

Há algo bem diverso nas mentes.

Assim, a sanha nunca arrefece

em frente ao altar de sacrifício.

Aforismos

“Os deuses precisam existir para que nós tenhamos contra quem nos rebelar impunemente!”

“As artimanhas de dominação dos homens são vistas por eles como direitos adquiridos.”

“Nossa identidade reside entre os sins e os nãos que somos capazes de dar”

Thaís de Godoy Morais

Cabeças Trocadas

 No templo da deusa Kali, o odor doce e quente

De pus, sêmen, sangue não causou mais horror

Em Sita, o sulco, do que a imagem

De teus longilíneos ossos a estalarem

Como gravetos secos no inverno em mim!

As cabeças dos dois amigos rolando

Uma ao lado da outra, para saciar a onipresente,

Não têm par com  a imagem dos anelos

De teus cabelos molhados pelo  líquido espesso.

O fervor brutal que animou a espada no templo,

No entanto, é o mesmo que te elevou e levou!

Do teu talhe entalhado em pele resta

Agora o interrompido crânio  quase intacto.

Antes um David, agora um grotesco riso descarnado!

A que Deus sombrio foste imolado?

Em que pensavas?

Contra quem tenho blasfemado?

Nenhum, Nada, Ninguém!

O adiado ódio deste ato não tem para onde correr nem se manifesta,

Assim o sagrado alimento, as águas, os campos se infectam com tuas cinzas.

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SONETO XI

Danilo Sérgio Borges

No sol a pino é que finjo a madrugada

como disse o poeta e o cancioneiro

na ilusão do limite pressinto a estrada

e sou todo liberdade, sou prisioneiro.

 

Essa condição de ser contrário é destarte

e tem um não sei quê de verdade; inteiro

vou me reconhecendo em qualquer parte,

em que não possa mirar-me pelo espelho.

 

E de tanto ser o oposto desta outra face

que ora se-me-veste tanto e tão me serve

assumo este outro rosto que me restou.

 

E quem sabe num instante, o desenlace

deste mistério secreto em mim reserve,

à carne viva do inconsciente, O QUE SOU!

 

São Paulo, 2013.

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Dostoiévski é processado 131 anos após morte

Dostoïevski (1872)
Dostoïevski (1872) (Photo credit: ThomasThomas)

Do UOL, em São Paulo

03/08/2013

Cento e trinta e um anos após sua morte, o escritor russo Fiódor Dostoiévski, um dos maiores nomes da história da literatura mundial, foi processado por incitar o desrespeito a um tribunal. As informações são de reportagem da agência de notícias estatal russa Ria Novasti publicada na quinta-feira (1º).

O processo começou após um morador da longínqua região de Kamchatka, no nordeste da Rússia, usar a palavra “idiota” para se referir a um oponente durante um julgamento, em 2011.

Processado criminalmente por desrespeito ao tribunal, o homem alegou em sua defesa que a “perniciosa influência” da leitura de “O Idiota”, uma das obras-primas de Dostoiévski, publicada em 1869, o havia levado a ofender o adversário, e que o escritor deveria ser investigado por incitá-lo a desrespeitar o tribunal.

Após nove meses de supostas investigações sobre a alegação do homem, o processo foi finalmente arquivado no início deste ano pelo fato de o escritor estar morto desde 1881.

Autoridades judiciais russas são obrigadas a processar todos os requerimentos feitos ao Judiciário, independentemente de parecerem absurdos, segundo uma porta-voz.

O crime de desrespeito a tribunal prevê pena de até seis meses de detenção ou multa de 200 mil rublos (cerca de R$ 14 mil) na Rússia.

Inocentado neste processo, Dostoiévski passou grande parte da vida tendo problemas com a Justiça. Em 1849, o escritor foi condenado à morte junto com outras 19 pessoas por distribuir panfletos contra o governo, mas a sentença foi cancelada na última hora.

Caso tivesse morrido na ocasião, ele não teria escrito seus principais romances, como “Crime e Castigo”, “Irmãos Karamazov” e o livro que teria incitado o desrespeito a tribunal praticado pelo morador de Kamchatka.

Dalton Trevisan vence Camões

por José Antônio Orlando.
Dalton Trevisan
Dalton Trevisan

Há quem já aposte que nem dessa vez ele vai aparecer em público, para manter a mística da reclusão que vem sendo cultivada há mais de meio século. O mais misterioso dos escritores brasileiros, Dalton Trevisan, de 86 anos, foi anunciado hoje, em Lisboa, como vencedor da maior honraria da língua portuguesa, o Prêmio Camões. O júri, formado por dois nomes do Brasil, dois de Portugal e dois africanos (de Moçambique e de Angola), foi unânime na escolha para esta 24ª edição do prêmio.

Contrariando aquele aforismo atribuído a Nelson Rodrigues, a qualidade da literatura de Dalton Trevisan há um bom tempo tornou-se unanimidade. Um dos jurados brasileiros, o escritor Silviano Santiago destacou na justificativa para o Prêmio Camões que a obra de Trevisan apresenta “uma contribuição extraordinária para a arte do conto, em particular para o enriquecimento de uma tradição que vem de Machado de Assis, no Brasil, de Edgar Allan Poe, nos EUA, e de Borges, na Argentina”.
Nascido em Curitiba, em 14 de junho de 1925, Dalton Trevisan estreou na carreira literária aos 20 anos, com “Sonata ao Luar” (1945), coletânea de contos ousada e de qualidade incomum atestada há décadas pelos críticos mais exigentes. O recluso e misterioso Trevisan também é o que se pode chamar de prolífico: publicou mais de 40 livros, a grande maioria de contos, e continua em plena atividade. Seu último livro de inéditos saiu em 2011, com o título “O Anão e a Ninfeta”.
Além de conquistar a distinção máxima do Prêmio Camões, Dalton Trevisan é daqueles escritores que colecionam premiações importantes, entre elas prêmios Jabuti (com “Novelas nada Exemplares”, de 1959, “Cemitério de Elefantes”, de 1964, e “Desgracida”, de 2010), o Prêmio Ministério da Cultura de 1996, pelo conjunto da obra, e o 1° Prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira, em 2003, com o livro “Pico na Veia”. As premiações, contrariando uma prática cada vez mais comum, não provêm de lobby nem de estratégias massivas de marketing. Muito pelo contrário: trata-se de um escritor avesso a entrevistas e a qualquer forma de autopromoção.
A mística da reclusão é o que tem prevalecido. Tanto que, no comunicado oficial do Prêmio Camões, enviado hoje à imprensa, a organização divulgou que não havia conseguido contato com Dalton Trevisan nem para avisá-lo da homenagem e dos 100 mil euros (cerca de R$ 268 mil) a que ele tem direito pela distinção. Não é uma novidade, já que o escritor tem por regra nunca comparecer às cerimônias: para receber os prêmios, sempre enviou representantes.
Todos os vencedores do Camões:
1) 1989: Miguel Torga (poeta e romancista português)
2) 1990: João Cabral de Melo Neto (poeta brasileiro)
3) 1991: José Craveirinha (poeta moçambicano)
4) 1992: Vergílio Ferreira (romancista português)
5) 1993: Rachel de Queiroz (romancista brasileira)
6) 1994: Jorge Amado (romancista brasileiro)
7) 1995: José Saramago (romancista português)
8) 1996: Eduardo Lourenço (crítico literário e ensaísta português)
9) 1997: Pepetela (romancista angolano)
10) 1998: Antonio Cândido (crítico literário e ensaísta brasileiro)
11) 1999: Sophia de Mello Breyner Andresen (poeta portuguesa)
12) 2000: Autran Dourado (romancista brasileiro)
13) 2001: Eugénio de Andrade (poeta português)
14) 2002: Maria Velho da Costa (romancista portuguesa)
15) 2003: Rubem Fonseca (romancista brasileiro)
16) 2004: Agustina Bessa Luís (romancista portuguesa)
17) 2005: Lygia Fagundes Telles (romancista brasileira)
18) 2006: José Luandino Vieira (escritor angolano; recusou o Prêmio Camões)
19) 2007: António Lobo Antunes (romancista português)
20) 2008: João Ubaldo Ribeiro (romancista brasileiro)
21) 2009: Armênio Vieira (escritor de Cabo Verde)
22) 2010: Ferreira Gullar (poeta brasileiro)
23) 2011: Manuel António Pina (poeta, cronista, dramaturgo e romancista português).
24) 2012: Dalton Trevisan (contista e cronista brasileiro).
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Para entender o que está acontecendo no Brasil

No Institudo de Estudos Avançados, Professores na USP analisam  as manifestações que tomaram conta do Brasil na última semana.

http://www.iea.usp.br/midiateca/video/o-que-esta-acontecendo-1

Proposta concreta

18/06/2013 – 03h30

Há várias maneiras de esconder uma grande manifestação. Você pode fazer como a Rede Globo e esconder uma passeata a favor das Diretas-Já, afirmando que a população nas ruas está lá para, na verdade, comemorar o aniversário da cidade de São Paulo.

Mas você pode transformar manifestações em uma sucessão de belas fotos de jovens que querem simplesmente o “direito de se manifestar”. Dessa forma, o caráter concreto e preciso de suas demandas será paulatinamente calado.

O que impressiona nas manifestações contra o aumento do preço das passagens de ônibus e contra a imposição de uma lógica que transforma um transporte público de péssima qualidade em terceiro gasto das famílias é sua precisão.

Como as cidades brasileiras transformaram-se em catástrofes urbanas, moldadas pela especulação imobiliária e pelas máfias de transportes, nada mais justo do que problematizar a ausência de uma política pública eficiente.

Mas, em uma cidade onde o metrô é alvo de acusações de corrupção que pararam até em tribunais suíços e onde a passagem de ônibus é uma das mais caras do mundo, manifestantes eram, até a semana passada, tratados ou como jovens com ideias delirantes ou como simples vândalos que mereciam uma Polícia Militar que age como manada enfurecida de porcos.
Vários deleitaram-se em ridicularizar a proposta de tarifa zero. No entanto, a ideia original não nasceu da cabeça de “grupelhos protorrevolucionários”. Ela foi resultado de grupos de trabalho da própria Prefeitura de São Paulo, quando comandada pelo mesmo partido que agora está no poder.

Em uma ironia maior da história, o PT ouve das ruas a radicalidade de propostas que ele construiu, mas que não tem mais coragem de assumir.

A proposta original previa financiar subsídios ao transporte por meio do aumento progressivo do IPTU. Ela poderia ainda apelar a um imposto sobre o segundo carro das famílias, estimulando as classes média e alta a entrar no ônibus e a descongestionar as ruas.

Apenas nos EUA, ao menos 35 cidades, todas com mais de 200 mil habitantes, adotaram o transporte totalmente subsidiado. Da mesma forma, Hasselt, na Bélgica, e Tallinn, na Estônia. Mas, em vez de discussão concreta sobre o tema, a população de São Paulo só ouviu, até agora, ironias contra os manifestantes.

Ao menos, parece que ninguém defende mais uma concepção bisonha de democracia, que valia na semana passada e compreendia manifestações públicas como atentados contra o “direito de ir e vir”. Segundo essa concepção, manifestações só no pico do Jaraguá. Contra ela, lembremos: democracia é barulho.

Quem gosta de silêncio prefere ditaduras.

Vladimir Safatle é professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às terças na Página A2 da versão impressa.

 

Ismália

Alphonsus (1)

 

Alphonsus de Guimaraens

 

 

Quando Ismália enlouqueceu
Pôs-se na torre a sonhar
Viu uma lua no céu
Viu outra lua no mar
No sonho em que se perdeu
Banhou-se toda em luar
Queria subir ao céu
Queria descer ao mar
E num desvario seu
Na torre pôs-se a cantar
Estava perto do céu
Estava longe do mar
E como um anjo pendeu
As asas para voar
Queria a lua do céu
Queria a lua do mar
As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par
Sua alma subiu ao
Seu corpo desceu ao mar.

 

Augusto dos Anjos

VERSOS ÍNTIMOS

Vês?!  Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão — esta pantera —
Foi tua companheira inseparável! 

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera. 

Toma um fósforo.  Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja. 

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

INTIMATE VERSES

translated by Nelson Ascher

No one attended, as you ‘ve seen, your last
Chimera’s awe-inspiring funeral.
Ingratitude — that panther — has been all
Your company, but it has been steadfast!

Get used to mud: soon it will hold you fast!
Man living among wild beasts on this foul
And sordid earth cannot resist the call
To turn himself as well into a beast.

Here, take a match. Now light your cigarette!
A kiss is but the eve of being spat,
A stroking hand, my friend, may stone you too.

If your great wound still saddens anyone,
Cast at that vile hand stroking you a stone,
Spit straight into the mouth that kisses you!

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Plena Mulher

Pablo Neruda

Plena mulher, maçã carnal,

lua quente, espesso aroma de algas,

lodo e luz pisados, que obscura claridade

se abre entre tuas colunas?

que antiga noite o homem toca com seus sentidos?

Ai, amar é uma viagem com água e com estrelas,

com ar opresso e bruscas tempestades de farinha:

amar é um combate de relâmpagos e dois corpos

por um só mel derrotados.

Beijo a beijo percorro teu pequeno infinito,

tuas margens, teus rios, teus povoados pequenos,

e o fogo genital transformado em delí­cia

corre pelos tênues caminhos do sangue

até precipitar-se como um cravo noturno,

até ser e não ser senão na sombra de um raio.

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AUGUST RODIN O beijo (detalhe) (Photo credit: Wikipedia)

evocações de corinto

Danilo Sérgio Borges


II

quem contra tua beleza faria desafio
ou mais uma criatura seria vaidosa
de ser um diamante inquebrável
um som de mar ao cair da tarde?

quem contra teu silêncio agrediria
uma só asa de vento que se escreva
ou uma inflexão de gesto incalculada
quem contra mim e tua figura se oporia?

quem além da tua alma debelada
seria tão contra ti como um punhal
que em qualquer regaço inofensivo
em teu lasso desespero é cruel espada?

quem, porém, a ti seria tão cegamente
heroi que lhe sussurrasse ítacas enfim
e os ciclopes do teu caminho detivesse
com o próprio corpo? quem além de mim?

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