I- O mar e o navio de Sinbad
II- A história do Príncipe Kalender
III- O jovem Príncipe e a Princesa
IV- O Festival de Bagdad
Bares, cafés e clubes, a partir do século XIX, não eram apenas um ambiente para a happy hour. Eles foram o cenário onde questões políticas, filosóficas, movimentos artísticos revolucionários se espalharam. O propósito deste site é o mesmo: criar um espaço virtual para expressão livre de ideais, reflexões e sentimentos, com espírito crítico em relação a nossa Cultura.
I- O mar e o navio de Sinbad
II- A história do Príncipe Kalender
III- O jovem Príncipe e a Princesa
IV- O Festival de Bagdad
Zeus, por favor, me cubra;
Por piedade me cubra com seu manto protetor no frio!
No calor me cubra com sua chuva refrescante.
Nas viagens me cubra com suas acolhedoras penas.
Por favor, por amor me proteja de toda a dor, de todo mal.
Senão juro, por Juno, enlouquecerei e sairei rumo ao Oriente desnudo
Até mil lobos me estraçalharem,
Como minhas seguidoras fizeram a Orfeu
Ou talvez não.
Talvez seja curado por Cybelle.
Talvez meu vinho embebede as turbas.
Talvez triunfe sobre Tebas,
Talvez fique e desfile pelas avenidas no carnaval
E crie o drama, a tragédia e a comédia.
Amém!

De Jorge Luis Borges
Em 1938, Paul Valéry escreveu: “a história da literatura não deveria ser a história dos autores e dos acidentes da sua carreira ou da carreira de suas obras, mas a história do Espírito como produtor ou consumidor de literatura”. Não era a primeira vez que o Espírito formulava essa observação; em 1844, na aldeia de Concord, outro de seus amanuenses havia anotado: “Dir-se-ia que uma única pessoa redigiu todos os livros que há no mundo; tamanha unidade central há entre eles que é inegável que sejam obra de um só cavalheiro onisciente” (Emerson: Essays, 2, VIII). Vinte anos antes, Shelley sentenciou que todos os poemas do passado, do presente e do porvir, são episódios ou fragmentos de um único poema infinito, erigido por todos os poetas do orbe (A Defence of Poetry, 1821).
Essas considerações (implícitas, naturalmente, no panteísmo) permitiriam um inacabável debate; eu, agora, as invoco para executar um modesto propósito: a história da evolução de uma ideia, através dos textos heterogêneos de três autores. O primeiro texto é uma nota de Coleridge; ignoro se este a escreveu ao final do século XVIII ou a princípios de XIX. Diz, literalmente:
“Se um homem atravessasse o Paraíso num sonho, e lhe dessem uma flor como prova de que havia estado ali, e se ao despertar ele encontrasse essa flor na sua mão… e então?”
Não sei o que pensará o leitor desta imaginação; eu a julgo perfeita. Usá-la como base para outras invenções felizes parece de antemão impossível; ela tem a integridade e a unidade de um terminus ad quem, de uma meta alcançada. Está claro que é assim; na ordem da literatura, como nas outras, não há ato que não seja coroação de uma infinita série de causas e manancial de uma infinita série de efeitos. Por trás da invenção de Coleridge está a geral e antiga invenção das gerações de amantes que pedem como prenda uma flor.
O segundo texto que apresentarei é uma novela que Wells esboçou em 1887 e reescreveu sete anos depois, no verão de 1894. A primeira versão intitulou-se The Chronic Argonauts (neste título abolido, chronic tem o valor etimológico de temporal); a definitiva, The Time Machine. Wells, nessa novela, dá continuidade e reforma uma antiquíssima tradição literária: a previsão de fatos futuros. Isaías vê a desolação da Babilônia e a restauração de Israel; Enéias, o destino militar de sua posteridade, os romanos; a profetisa da Edda Saemundi, a volta dos deuses que, depois da cíclica batalha em que nossa terra perecerá, descobrirão, jogadas no pasto de uma nova pradaria, as peças de xadrez com que anteriormente haviam jogado. O protagonista de Wells, à diferença desses espectadores proféticos, viaja fisicamente ao porvir. Volta cansado, empoeirado e machucado; volta de uma remota humanidade que se bifurcou em espécies que se odeiam (os ociosos eloi, que habitam em palácios dilapidados e em ruinosos jardins. os subterrâneos e nictalopes morlocks, que se alimentam dos primeiros); volta com as têmporas grisalhas e traz do porvir uma flor murcha. Esta é a segunda versão da imagem de Coleridge. Mais incrível do que uma flor celestial ou que a flor de um sonho é a flor futura, a contraditória flor cujos átomos agora outros lugares e ainda não se combinaram.
A terceira versão que comentarei, a mais trabalhada, é invenção de um escritor fartamente mais complexo do que Wells, embora menos dotado dessas agradáveis virtudes que é costume chamar de clássicas. Refiro-me ao autor de A humilhação dos Northmore, o triste e labiríntico Henry James. Este, ao morrer, deixou inconclusa uma novela de caráter fantástico, The Sense of the Past, que é uma variação ou elaboração de The Time Machine1. O protagonista de Wells viaja ao porvir num inconcebível veículo que avança ou retrocede no tempo como os outros veículos no espaço; o de James regressa ao passado, ao século XVIII, à força de compenetrar-se nesta época (os dois procedimentos são impossíveis, porém o menos arbitrário é o de James). Em The Sense of the Past, o nexo entre o real e o imaginativo (entre a atualidade e o passado) não é uma flor, como nas ficções anteriores; é um retrato que data do século XVIII e que misteriosamente representa o protagonista. Este, fascinado por essa tela, consegue trasladar-se à data em que a executaram. Entre as pessoas que encontra figura, necessariamente, o pintor; este o pinta com temor e com aversão, pois intui algo incomum e anômalo nessas feições futuras… James cria, assim, um incomparável regressus in infinitum, já que seu herói, Ralph Pendrel, se traslada ao século XVIII. A causa é posterior ao efeito, o motivo da viagem é uma das consequências da viagem.
Wells, verossimilmente, desconhecia o texto de Coleridge; Henry James conhecia e admirava o texto de Wells. Claro está que se é válida a doutrina de que todos os autores são um autor2, tais fatos são insignificantes. Rigorosamente falando, não é indispensável ir tão longe; o panteísta que declara que a pluralidade dos autores é ilusória encontra inesperado apoio no classicista, segundo o qual essa pluralidade importa muito pouco. Para as mentes clássicas, a literatura é o essencial, não os indivíduos. George Moore e James Joyce incorporaram em suas obras páginas e sentenças alheias; Oscar Wilde costumava presentear enredos para que outros executassem; ambas as condutas, embora superficialmente contrárias, podem evidenciar um mesmo sentido da arte. Um sentido ecumênico, impessoal… Outro testemunho da unidade profunda do Verbo, outro negador dos limites do sujeito, foi o insigne Ben Jonson, que empenhado na tarefa de formular seu testamento literário e os ditames propícios ou adversos que mereciam seus contemporâneos, limitou-se a combinar fragmentos de Sêneca, de Quintiliano, de Justo Lipsio, de Vives, de Erasmo, de Maquiavel, de Bacon e dos escalígeros.
Uma observação, última. Aqueles que minuciosamente copiam um escritor o fazem impessoalmente, o fazem porque confundem esse escritor com a literatura, o fazem porque suspeitam que apartar-se dele num ponto é apartar-se da razão e da ortodoxia. Durante muitos anos, cri que a quase infinita literatura estava num único homem. Esse homem foi Carlyle, foi Johannes Becher, foi Whitman, foi Rafael Cansinos-Asséns, foi De Quincey3.
Jorge Luis Borges, Otras Inquisiciones (1957)
De A Bacia das Almas, notas de Paulo Brado, 2011
NOTAS
1. Não li The Sense of the Past, mas conheço a suficiente análise de Stephen Spender, em sua obra The Destructive Element (páginas 105-110). James foi amigo de Wells; para sua relação se pode consultar o vasto Experiment in Autobiography deste.
2. Em meados do século XVII o epigramista do panteísmo Angelus Silesius disse que todos os bem-aventurados são um (Cherubinischer Wandersmann, V. 7), e que todo cristão deve ser Cristo (op. cit., V, 9).
3. Esse homem, naturalmente, nunca vai deixar de ser Borges. (Nota do tradutor)
O conto “A mulher mais bela da cidade”, de Bukowski, é horrível e belo, como seus personagens. Ainda estou digerindo porque é muito impactante. Agora percebo que alguns amigos da faculdade imitavam esse autor. Eu me pergunto por que demorei tanto para ler as obras dele. Acho que tinha medo de conhecer esse mundo, ou submundo, como dizem. Não gosto dessa palavra, submundo. Essa associação com o inferno me parece injusta, já que alguns personagens desse universo apenas tiveram muito azar na vida. Outro motivo de nunca ter lido era a fama que os textos dele têm de serem escatológicos, o que me enojaria bastante se lesse, mas esse não é muito.
O conto parece uma releitura marginal do conto de fadas “A Bela e a Fera” pois o tema da beleza externa e da beleza interior é o mesmo, contudo com uma visão totalmente diferente e menos convencional sobre o assunto. O conto apresenta o momento em que o narrador, um homem feio, conhece a mais bela jovem local, a qual se mutila para ficar feia pois quer que gostem dela por outros motivos e não apenas porque querem fazer sexo com ela. A bela não gosta de homens bonitos, pois são só belos e mais nada. O narrador crê que, um dia, um homem irá destruí-la, e gostaria que não fosse ele mesmo. Os episódios com cenas de sexo são bonitos, comoventes e decadentes, bem diferente do que eu imaginava. O final é terrível, de arrepiar. A condição da mulher é uma droga mesmo, e o narrador-personagem sabe que ele faz parte do problema, mas nada pode ser feito para mudar isso pois ele não podia prever as consequências de seus atos e de suas palavras. Não é conformismo, nem alienação, mas sim uma tragédia humana, como nas tragédias gregas, a personalidade do herói em conflito com o estado de coisas, leva-o, inexoravelmente, ao abismo. Enfim, as belas também sofrem, pois não querem ser só belas, ou como dizem vulgarmente por aí apenas “alguém comível”, ou pior ainda, como disse Bolsonaro “uma mulher feia não merece ser estuprada”. Sejamos todas o mais feias possível, então, por proteção
.
Acabei de adquirir Crônica de um amor louco: ereções, ejaculações, exibicionismos – Parte I, do Bukowski. Exibicionismo é a cara da nossa era e não posso ficar de fora, então aí está. Não acredito que só agora resolvi ler sua obra. Vamos ver se é um livro “maldito” mesmo ou um maldito livro. É provável que seja as duas coisas. Já vou tomar um dramin antes, por via das dúvidas. Depois de ler, farei uma resenha, se alguém estiver interessado na obra do “Velho Safado”* ou na droga da minha opinião (já estou ficando com o jeitão dele).
* Essa expressão maldosa não é minha, é como Bukowski ficou conhecido no meio literário.
Primeiro conto: A mulher mais linda da cidade

Mude, mas comece devagar,
porque a direção é mais importante
que a velocidade.
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“Sou pagã e anarquista, como não poderia deixar de ser uma pantera que se preza …”
Florbela Espanca
Em 8 de Dezembro de 1930, Florebela Espanca se suicida. A poetisa e anarquista nasceu e viveu em Portugal, no dia de hoje fazem 87 anos de sua morte. A IEL e o site anarcopunk.org vem prestar sua pequena homenagem a Florbela com algumas de suas poesias.
Volúpia
No divino impudor da mocidade,
Nesse êxtase pagão que vence a sorte,
Num frémito vibrante de ansiedade,
Dou-te o meu corpo prometido à morte!
A sombra entre a mentira e a verdade…
A núvem que arrastou o vento norte…
— Meu corpo! Trago nele um vinho forte:
Meus beijos de volúpia e de maldade!
Trago dálias vermelhas no regaço…
São os dedos do sol quando te abraço,
Cravados no teu peito como lanças!
E do meu corpo os leves arabescos
Vão-te envolvendo em círculos…
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materialismo histórico-geográfico
Deixo abaixo duas notas que fiz em minha página do facebook sobre a Palestina.
Sobre a “questão palestina”
Apenas acordo e, viciadíssimo nas redes sociais, abro a página do facebook onde encontro um post da “Eurasia – Rivista di Studi Geopolitici”, divulgando um número especial sobre a Palestina (edição n. 2, 2009). Nada mal, sabendo usar, até que as redes sociais podem contribuir para o nosso esclarecimento acerca deste “mundo grande e terrível”.
Único texto livre de pagamento, o editorial (Palestina, Provincia d’Eurasia) é bastante completo, até mesmo em termos de reconstituição histórica, e logo me põe a conhecer dados demográficos realmente aterradores. Vamos a eles.
Em 1880 a comunidade judaica na Palestina — que por esta época era uma estável província do Império Otomano, gozando mesmo de um importante desenvolvimento econômico, social e cultural — era de apenas cerca de 24 mil indivíduos; de 1880 a 1908 passa…
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Stéphane Mallarmé
Soneto
Dama
sem tanto ardor embora ainda flamante
A rosa que cruel ou lacerada e lassa
Se deveste do alvor que a púrpura deslaça
Para em sua carne ouvir o choro do diamante
Sim sem crises de orvalho antes em doce alento
Nem brisa o fragor do céu leve ao fracasso
Com ciúme de criar não sei bem qual espaço
No simples dia o dia real do sentimento,
Não te ocorre, talvez, que a cada ano que passa
Quando em tua fronte se alça o encanto ressurreto
Basta-me um dom qualquer natural de tua graça
Como na alcova o cintilar de um leque inquieto
A reviver do pouco de emoção que grassa
Todo o nosso nativo e monótono afeto.
1887

Muito importante ler essa obra, porque apesar de todas as conquistas, algumas mulheres ainda são tratadas como bonecas, como objetos, sem nem se dar conta. Um exemplo disso é que muitas vezes até os ideais feministas são usados como pretextos para invadir países, derrubar regimes, quando na verdade os reais motivos das guerras são intetesses econômicos. Talvez nunca consigamos fugir disso, mas pelo menos saber a verdade já é uma forma de libertação.
Charles Baudelaire
É preciso estar sempre embriagado. Aí está: eis a única questão. Para não sentirem o fardo horrível do Tempo que verga e inclina para a terra, é preciso que se embriaguem sem descanso.
Com quê? Com vinho, poesia ou virtude, a escolher. Mas embriaguem-se.
E se, porventura, nos degraus de um palácio, sobre a relva verde de um fosso, na solidão morna do quarto, a embriaguez diminuir ou desaparecer quando você acordar, pergunte ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo que flui, a tudo que geme, a tudo que gira, a tudo que canta, a tudo que fala, pergunte que horas são; e o vento, a vaga, a estrela, o pássaro, o relógio responderão: É hora de embriagar-se!
Para não serem os escravos martirizados do Tempo, embriaguem-se; embriaguem-se sem descanso. Com vinho, poesia ou virtude, a escolher.

Estou apaixonada por essa música de um obscuro grupo garimpado no youtube; nem um videoclipe tem. Achei própria para ouvir e relaxar numa sexta à noite.
Graffiti6
When I was feeling it so hard
I couldn’t see through my scars
You led the way through the dark
My eyes were opened with love
I’m seeing colours flowing through my mind
Colours, Colours
And I want to walk in your water
And I want to walk in your water
When I was feeling it so hard
I couldn’t see through my scars
Now I’m seeing colours flowing through my mind
Colours, Colours
I’m seeing colours,
Colours, colours, colours, colours, colours, colours
“Manifestam pouca cultura os viajantes que zombam dos costumes e dos conceitos dos povos que os acolhem; há muitos tipos de qualidades suscetíveis de conferir honra a quem as possui.”
“A música desperta o tempo; desperta a nós, para tirarmos do tempo um gozo mais refinado; desperta… e portanto é moral. A arte é moral na medida em que desperta.”
“Certamente é bom que o mundo conheça apenas a obra bela e não as suas origens nem as condições em que foi gerada; pois o conhecimento das fontes de onde provém a inspiração para o artista causaria frequentemente perturbação e espanto, neutralizando assim os efeitos da excelência.”
“Parece que será necessário procurar a moral não na virtude, quer dizer, não na razão, na disciplina, nos bons modos, na honestidade – mas sobretudo no contrário, eu quero dizer: no pecado; se lançando ao perigo, ao que é nocivo, àquilo que nos consome. Parece-nos que é mais moral se perder e mesmo se deixar debilitar do que se conservar. Os grandes moralistas não são virtuosos, mas aventureiros no mal, nos vícios, nos grandes pecados que tentam nos inclinar cristianamente diante da miséria. Tudo isso deve te desagradar muito, não é?”
“Oh, o amor, tu sabes… O corpo, o amor, a morte, esses três não se separam. Pois o corpo é a doença e a volúpia, e é ele que faz a morte, sim, eles são sensuais os dois, o amor e a morte, e seus terrores e sua grande magia! Mas a morte, tu compreendes, é, de um lado, uma coisa difamada, insolente, que nos faz corar e nos envergonha; e por outro lado é uma pulsação muito solene e muito majestosa – maior que a vida risonha de ganhar dinheiro e de encher a barriga – muito mais venerável que o progresso que tagarela pelo tempo – porque ela é a história e a nobreza e a piedade e o eterno e o sagrado que nos faz tirar o chapéu e andar com as pontas dos pés.”
