A mulher mais linda da cidade

O conto “A mulher mais bela da cidade”, de Bukowski, é horrível e belo, como seus personagens. Ainda estou digerindo porque é muito impactante.  Agora percebo que alguns amigos da faculdade imitavam esse autor. Eu me pergunto por que demorei tanto para ler as obras dele. Acho que tinha medo de conhecer esse mundo, ou submundo, como dizem. Não gosto dessa palavra, submundo. Essa associação com o inferno me parece injusta, já que alguns personagens desse universo apenas tiveram muito azar na vida. Outro motivo de nunca ter lido era a fama que os textos dele têm de serem escatológicos, o que me enojaria bastante se lesse, mas esse não é muito.

O conto parece uma releitura marginal do conto de fadas “A Bela e a Fera” pois o tema da beleza externa e da beleza interior é o mesmo, contudo com uma visão totalmente diferente e menos convencional sobre o assunto. O conto apresenta o momento em que o narrador, um homem feio, conhece a mais bela jovem local, a qual se mutila para ficar feia pois quer que gostem dela por outros motivos e não apenas porque querem fazer sexo com ela. A bela não gosta de homens bonitos, pois são só belos e mais nada. O narrador crê que, um dia, um homem irá destruí-la, e gostaria que não fosse ele mesmo. Os episódios com cenas de sexo são bonitos, comoventes e decadentes, bem diferente do que eu imaginava.  O final é terrível, de arrepiar. A condição da mulher é uma droga mesmo, e o narrador-personagem sabe que ele faz parte do problema, mas nada pode ser feito para mudar isso pois ele não podia prever as consequências de seus atos e de suas palavras. Não é conformismo,  nem alienação, mas sim uma tragédia humana, como nas tragédias gregas, a personalidade do herói em conflito com o estado de coisas, leva-o, inexoravelmente, ao abismo. Enfim, as belas também sofrem, pois não querem ser só belas, ou como dizem vulgarmente por aí apenas “alguém comível”, ou pior ainda, como disse Bolsonaro “uma mulher feia não merece ser estuprada”. Sejamos todas o mais feias possível, então, por proteção46ba30737ea90eda.

 

Leitura ostentação

Acabei de adquirir Crônica de um amor louco: ereções, ejaculações, exibicionismos – Parte I, do Bukowski. Exibicionismo é a cara da nossa era e não posso ficar de fora, então aí está. Não acredito que só agora resolvi ler sua obra. Vamos ver se é um livro “maldito” mesmo ou um maldito livro. É provável que seja as duas coisas. Já vou tomar um dramin antes, por via das dúvidas. Depois de ler, farei uma resenha, se alguém estiver interessado na obra do “Velho Safado”* ou na droga da minha opinião (já estou ficando com o jeitão dele).

*  Essa expressão maldosa não é minha, é como Bukowski ficou conhecido no meio literário.

Primeiro conto: A mulher mais linda da cidade

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