Quando coisas ruins acontecem com pessoas boas

Jó precisava de simpatia mais que de conselho, por mais sensato que fosse o conselho. Haveria tempo e lugar para este último. Precisava de compaixão, da sensação de que outros participam também de sua dor, mais que de explicações teológicas sobre os caminhos de Deus. Precisava de conforto físico, de pessoas que partilhassem sua força com ele, sustentando-o em vez de condená-lo. Precisava de amigos que lhe permitissem zangar-se, chorar e desabafar alto, muito mais que de amigos que o concitassem a tornar-se um exemplo de paciência e piedade para os outros. Precisava de alguém que dissesse “Sim, o que aconteceu é terrível e não faz sentido” e não para dizer-lhe “Coragem, Jó, afinal de contas não é tão ruim”. E foi aí que os amigos falharam. A expressão “consoladores de Jó” passou a designar pessoas que desejam ajudar, porém que se mostram tão preocupadas com suas próprias necessidades e sentimentos que acabam por piorar as coisas. Contudo, os amigos de Jó sob dois aspectos procederam bem.

PEm primeiro lugar, eles vieram. Estou certo de que a visão do amigo na miséria lhes era dolorosa e de que eles provavelmente tiveram vontade de afastar-se e deixá-lo só. Não é agradável ver um amigo sofrer, e a maioria de nós evita de bom grado essa experiência. Ou nos afastamos de todo, de modo que quem sofre acaba por ficar isolado, com o sentimento de rejeição coroando sua tragédia, ou nos aproximamos como que evitando a razão de nossa presença ali. As visitas a hospitais e manifestações de condolências transformam-se em conversas amenas sobre o tempo, a bolsa de valores ou as notícias esportivas, assumindo um ar de irrealidade em que a preocupação mais importante no espírito de todos os presentes é deixada de lado. Os amigos de Jó pelo menos tiveram a coragem de encará-lo e enfrentar sua dor.

E, em segundo lugar, eles ouviram. Segundo o relato bíblico, sentaram-se com Jó durante muitos dias, sem nada dizer, enquanto Jó extravasava sua dor e cólera. Esta, acho eu, foi a parte mais útil da visita. Nada do que eles fizeram depois fez tanto bem a Jó. Depois de Jó haver desabafado, eles deveriam ter dito “Sim, é realmente terrível. Não sabemos como você pode suportá-lo”, em vez de se sentirem compelidos a defender Deus e a sabedoria convencional. Sua presença silenciosa deve ter sido bem mais útil ao amigo do que as longas explicações teológicas.

Podemos extrair disto uma grande lição. Há alguns anos passei por uma experiência que me ensinou alguma coisa sobre como as pessoas pioram uma situação por se censurarem a si mesmas. Certo mês de janeiro, eu tive de oficiar aos funerais, em dias sucessivos, de duas senhoras idosas de minha comunidade. Ambas morreram “cheias de dias”, como diria a Bíblia; ambas sucumbiram ao desgaste normal do organismo, depois de uma vida longa e bem vivida. Calhou de as duas casas serem próximas, de modo que pude fazer as visitas de condolências às duas famílias na mesma tarde. Na primeira casa, o filho da falecida me disse: “Se eu tivesse mandado minha mãe para a Flórida, tirando-a deste frio e desta neve, ela ainda estaria viva. Sinto-me culpado pela sua morte.” Na segunda casa, o filho da outra disse: “Se eu não tivesse insistido com minha mãe para que fosse para a Flórida, ela ainda estaria viva. A longa viagem de avião, a mudança súbita de clima foram além do que ela podia suportar. Sinto-me culpado pela sua morte.”

Quando as coisas não se desenrolam conforme gostaríamos, torna-se muito tentadora a ideia de que, se tivéssemos procedido de maneira diferente, a história teria tido um final mais feliz. Os pastores de alma sabem que, toda vez que ocorre uma morte, os sobreviventes se sentem culpados. Como a ação que empreenderam teve um desfecho desagradável, acreditam que, se tivessem feito o contrário — mantendo a mãe em casa, adiando a operação — o final seria melhor. Afinal de contas, como se poderia ter evitado o pior? Os sobreviventes sentem-se culpados por estarem ainda vivos enquanto um ser amado está morto. Sentem-se culpados ao pensarem nas palavras amáveis que nunca dirigiram a quem morreu ou pelas coisas boas que não encontraram tempo para propiciar-lhe. Na verdade, muitos dos rituais fúnebres em todas as religiões visam a ajudar os sobreviventes a libertarem-se desses sentimentos irracionais de culpa por uma tragédia que de fato não foi provocada por eles. O sentimento de culpa — “eu sou o culpado” — parece universal. Parecem existir dois sentimentos envolvidos em nossa inclinação para a culpa.

O primeiro é nossa compulsiva necessidade de acreditar que o mundo faz sentido, que há uma causa para cada efeito e uma razão para tudo o que acontece. Isto nos leva a encontrar padrões e conexões tanto onde eles realmente existem (o cigarro ocasiona o câncer pulmonar; quem lava as mãos tem poucas doenças contagiosas) quanto onde eles existem apenas em nossas mentes (meu time vence toda vez que vou ao estádio com a camisa da sorte; aquela pessoa de quem eu gosto só me vê nos dias ímpares, nunca nos dias pares, a não ser quando um feriado interrompe a sequência). Quantas superstições comuns e pessoais nasceram baseadas em que algo de bom ou ruim sucedeu logo depois de termos praticado uma ação, originando-se daí a crença de que o mesmo ocorrerá sempre que seguirmos aquele padrão de comportamento?

O segundo elemento é a noção de que nós somos a causa do que acontece, especialmente das coisas ruins. Parece muito curta a distância entre a crença de que tudo tem uma causa e a crença de que todo desastre é culpa nossa. As raízes deste sentimento podem estar em nossa infância.

Os psicólogos falam do mito infantil da onipotência. O bebê pensa que o mundo existe para satisfazer as suas necessidades e que é ele quem faz com que tudo se realize. Ele acorda pela manhã e convoca o resto do mundo para suas tarefas. Chora, e alguém vem atendê-lo. Quando está com fome, alguém vem alimentá-lo; quando está molhado, aparece alguém para trocar-lhe as fraldas. Muito frequentemente, não superamos totalmente esta noção infantil de que nossos desejos fazem as coisas acontecerem.

Uma parte de nossa mente continua a acreditar que as pessoas ficam doentes porque as odiamos. Nossos pais, de fato, amiúde alimentaram essa noção. Sem perceberem como eram vulneráveis nossos egos infantis, descarregaram sobre nós seu cansaço e frustração por razões que nada tinham a ver conosco.

Empurraram-nos por nos encontrarmos em sua passagem, gritaram conosco pelos brinquedos espalhados ou pelo som alto da televisão, e nós, em nossa inocência infantil, achávamos que eles tinham razão e que nós éramos o problema. A raiva deles podia passar no momento seguinte, mas nós carregaríamos ainda as cicatrizes do sentimento de culpa, com medo de sermos repreendidos por qualquer erro que aparecesse. Anos 34 depois, quando algo não vai bem ao nosso redor, os sentimentos de nossa infância emergem e instintivamente pensamos que mais uma vez deitamos as coisas a perder.

Mesmo Jó preferiu pedir que Deus lhe provasse sua culpa a admitir que tudo não passava de um engano. Se lhe pudesse ser demonstrado que ele merecia seu destino, então pelo menos o mundo estava certo. Não haveria qualquer prazer em sofrer pelos desmandos de alguém, mas seria mais suportável do que descobrir que se vive em mundo fortuito onde as coisas acontecem sem razão.

O segredo do quadrado de Sator

Alguma coisa fez com que o quadrado de Sator, um dentre tantos palíndromos utilizados como passatempo pelos romanos, fosse considerado especial. Ele foi muito copiado, em livros, portas etc, mas seu significado original se perdeu. Estudiosos tentam reencontrá-lo há 150 anos, sem chegar a nenhuma conclusão que seja universalmente aceita.

Minha tradução livre seria “Deus mantém a roda da vida girando.”

Rio de Niterói

Parque da Cidade
tão lindos
tão tristes
tão doentes da partilha
estes trópicos
estas belas bocas ocas

enterramos nosso um terço arariboia
tão fundo no desterro da memória
que agora caminhamos sonâmbulos
arrastando amnésias dolorosas

sem rei
sem lei
sem fé,
meu bem!

Nunca outra terra foi tão invejada
Outra gente mais saudosa
jamais foi vista por ninguém.

Godoy, 3 de fevereiro de 2023.

Conselho

  • “Prudência! Quem mais corre mais tropeça.”

– Ato II – Cena III: Frei Lourenço

In Romeu e Julieta de William Shakespeare

O sábio Frei Lourenço tenta alertar os jovens amantes para não se precipitarem, para cultivar a paciência, algo tão difícil para os jovens impulsivos. Hoje, porém, com a velocidade da tecnologia e com os automatismos no uso de dispositivos eletrônicos, todos nós estamos sujeitos a rompantes, a gestos bruscos, impensados e impensáveis. Não existe mais um discreto Frei Lourenço para nos aconselhar. Temos a Literatura, pena que ninguém mais tenha paciência para a leitura, que deleita e ensina.

Convite para nascer de novo – Erasmo Carlos

Quem sabe, neste momento, você não está apenas nascendo de novo para outra vida, trocando de roupagem?! Lutou o bom combate, agora descansará em paz! Sentiremos saudades!🌹

Gal Costa – O Amor by Caetano Veloso

Talvez quem sabe um dia
Por uma alameda do zoológico
Ela também chegará

Ela que também amava os animais
Entrará sorridente assim como está
Na foto sobre a mesa

Ela é tão bonita
Ela é tão bonita que na certa
Eles a ressuscitarão

O século trinta vencerá
O coração destroçado já
Pelas mesquinharias

Agora vamos alcançar
Tudo o que não podemos amar na vida
Com o estrelar das noites inumeráveis

Ressuscita-me
Ainda que mais não seja
Por que sou poeta
E ansiava o futuro

Ressuscita-me
Lutando contra as misérias
Do cotidiano
Ressuscita-me por isso

Ressuscita-me
Quero acabar de viver o que me cabe
Minha vida
Para que não mais existam
Amores servis

Ressuscita-me
Para que ninguém mais tenha
De sacrificar-se
Por uma casa, um buraco

Ressuscita-me
Para que a partir de hoje
A partir de hoje
A família se transforme

E o pai seja pelo menos o universo
E a mãe seja no mínimo a Terra
A Terra
A Terra

Gal Costa – Chovendo na Roseira

Ai que tristeza! Eu costumava passar esta música para meus alunos, dentre muitas outras como Samba do Avião. Eu sempre preferia a interpretação dela a de todos os outros e queria que meus alunos a apreciassem como merece. Minhas aulas se tornaram muito melhores graças a esse talento sublime. Perdemos um tesouro inigualável. Tivemos muita sorte de ter vindo nesta terra tão carente de beleza e leveza. Obrigada por tudo e descanse em paz! Sentiremos saudades! Que sua passagem seja suave como as águas de Chovendo na Roseira. Te amarei pra sempre!

Na lista dos mais vendidos, poeta diz que chave é desmistificar tradição

A trabalho em Campo Grande pela primeira vez, o poeta e youtuber Allan Dias Castro foi convidado para participar da 34ª Noite da Poesia nesta quinta-feira (15). Sucesso nas redes sociais e integrando a lista de livros mais vendidos do País, o escritor reforçou que seu objetivo é desmistificar a criação literária e apoiar quem é visto como “louco” por seguir seus sonhos. – CREDITO: CAMPO GRANDE NEWS

https://www.campograndenews.com.br/lado-b/artes-23-08-2011-08/na-lista-dos-mais-vendidos-poeta-diz-que-chave-e-desmistificar-tradicao

20 de Novembro


Autor: Lucas Vieira Aurélio / Bocaina Experience


No Vale Histórico
Quem é lembrado?
O sinhô
Ou o escravizado?
Viva quem chibatou
Ou o chibatado?
Quem comprou eu sei
E quem foi comprado?
"Um casarão de rei!"
Feito em suor sangrado
Sangue negro sagrado
Sabor? Amargo
Famílias findadas
Amistad lotado
Hoje: "vá embora"
Ontem: "venha forçado"
Angola, Benguela, Monjolo
Criança, homem, moça
Congo, Cabinda, Rebolo
Todos vindo à força
Onde cativeiro é lucro
Sincretismo é fé
Miscigenação? Estupro
Tudo pelo café
Séculos de labor
Muita dor, sem ser pago
E se a Lei Feijó vingar
cruze os negros como gado
Os últimos a abolir
E de uma maneira torta
No país da Lei de Terras
A Lei Áurea nasce morta.
"Livre" só de bens
De herança o racismo
Equidade é preciso
Igualdade é cinismo
Samba, comida e festa
Cultura negra pro mundo
"Me dá uma ajuda, sinhô"
"Vai trabalhar, vagabundo"
Onde preconceito é piada
Falta uma que diz:
O que é o que é um pontinho preto na fazenda?
É um negro sustentando o país. ✊🏾

#20denovembro #consciencianegra #zumbi #valehistorico #turismo #bocainaexperience #BXp #bocainaxp #africa #brasil #sjb #sjbarreiro

Olhos caramelo

Por trás de seus olhos caramelo,
Eu vislumbrei o segredo do mundo
Devia dar as costas e fugir
Do esplendor sinistro.
Como despertar para uma verdade insuportável?
Negando, negando, negando
Como fez aquele discípulo...

O coração da treva nos cega.

Mas a doçura desses olhos derreteu meu medo
Como um canto irresistível que arrasta àquele abismo onde toda esperança é abandonada no umbral das almas.

Então, compreendi ao menos um enigma: antes ser arrastado pelo turbilhão dos tempos
A parar impassível observando os ventos.

AMOR – POIS QUE É PALAVRA ESSENCIAL

Carlos Drummond de Andrade

Amor – pois que é palavra essencial
comece esta canção e toda a envolva.
Amor guie o meu verso, e enquanto o guia,
reúna alma e desejo, membro e vulva.

Quem ousará dizer que ele é só alma?
Quem não sente no corpo a alma expandir-se
até desabrochar em puro grito
de orgasmo, num instante de infinito?

O corpo noutro corpo entrelaçado,
fundido, dissolvido, volta à origem
dos seres, que Platão viu completados:
é um, perfeito em dois; são dois em um.

Integração na cama ou já no cosmo?
Onde termina o quarto e chega aos astros?
Que força em nossos flancos nos transporta
a essa extrema região, etérea, eterna?

Ao delicioso toque do clitóris,
já tudo se transforma, num relâmpago.
Em pequenino ponto desse corpo,
a fonte, o fogo, o mel se concentraram.

Trindade

De volta à Trindade

Trirreme
Triatleta
Tricampeão
Tricolor
Trigueiro

Tripudiando
Santíssima Trindade
O pai
O filho
O espírito

Tridentes
A mãe
A filha
A carne

Tribunal

De volta à Trindade
Trindade
Trindade
Trindade

Para uma jovem amiga que tentou se suicidar

Claudio Bertoni


Eu gostaria de ser um ninho se você fosse um passarinho
Eu gostaria de ser um lenço se você fosse um pescoço e estivesse com frio
Se você fosse música,
eu seria uma orelha
Se você fosse água,
eu seria um copo
Se você fosse a luz,
eu seria um olho
Se você fosse um pé,
eu seria uma meia
Se você fosse o mar,
eu seria uma praia
E se você ainda fosse o mar,
eu seria um peixe,
e nadaria em você
E se você fosse o mar,
eu seria sal
E se eu fosse sal,
você seria alface,
um abacate ou, pelo menos, um ovo frito
E se você fosse um ovo frito,
eu seria um pedaço de pão
E se eu fosse um pedaço de pão,
você seria manteiga ou geleia
Se você fosse geleia,
eu seria o pêssego na geleia
Se eu fosse um pêssego,
você seria uma árvore
E se você fosse uma árvore,
eu seria sua seiva
e correria em seus braços
como sangue
E se eu fosse sangue,
viveria em seu coração.