O prato azul-pombinho

Cora Coralina

Minha bisavó – que Deus a tenha em glória-
sempre contava e recontava
em sentidas recordações
de outros tempos
a estória de saudade
daquele prato azul-pombinho.

Era uma estória minuciosa.
Comprida, detalhada.
Sentimental.
Puxada em suspiros saudosistas
e ais presentes.
E terminava invariavelmente,
depois do caso esmiuçado:
” – Nem gosto de lembrar disso…”
É que a estória se prendia
aos tempos idos em que vivia
minha bisavó
que fizera deles seu presente e seu futuro.

Voltando ao prato azul- pombinho
que conheci quando menina
e que deixou em mim
lembrança imperecível.
Era um prato sozinho,
último remanescente, sobrevivente,
sobra mesmo, de uma coleção,
de um aparelho antigo
de 92 peças.
Isto contava com emoção, minha bisavó,
que Deus haja.

Era um prato original,
muito grande, fora de tamanho,
um tanto oval.
Prato de centro, de antigas mesas senhoriais
de família numerosa.
De faustos casamentos e dias de batizado.

Pesado. Com duas asas por onde segurar.
Prato de bom-bocado e de mães-bentas.
De fios de ovos.
De receita dobrada
de grandes pudins,
recendendo a cravo,
nadando em calda.

Era, na verdade, um enlevo.
Tinha seus desenhos
em miniaturas delicada:
Todo azul-forte,
em fundo claro
num meio – relevo.
Galhadas de árvores e flores
estilizadas.
Um templo enfeitado de lanternas.
Figuras rotundas de entremez.
Uma ilha. Um quiosque rendilhado.
Um braço de mar.
Um pagode e um palácio chinês.
Uma ponte.
Um barco com sua coberta de seda.
Pombos sobrevoando.

Minha bisavó
traduzia com sentimento sem igual,
a lenda oriental
estampada no fundo daquele prato.
Eu era toda ouvidos.
Ouvia com os olhos, com o nariz, com a boca,
com todos os sentidos,
aquela estória da Princesinha Lui,
lá da China – muito longe de Goiás –
que tinha fugido do palácio, um dia,
com um plebeu do seu agrado
e se refugiado num quiosque muito lindo
com aquele a quem queria,
enquanto o velho mandarim – seu pai –
concertava, com outro mandarim de nobre casta,
detalhes complicados e cerimoniosos
de seu casamento com um príncipe todo-poderoso,
chamado Li.

Então, o velho mandarim,
que aparecia também no prato,
de rabicho e de quimono,
com gestos de espavento  e cercado de aparato,
decretou que os criados do palácio
incendiassem o quiosque
onde se encontravam os fugitivos namorados.

E lá estavam no fundo do prato,
– oh, encanto de minha meninice! –
pintadinhos de azul,
uns atrás dos outros – atravessando a ponte,
com seus chapeuzinhos de bateia
e suas japoninhas largas,
cinco miniaturas de chinês.
Cada qual com sua tocha acesa
– na pintura-
para por fogo no quiosque
– da pintura.

Mas ao largo do mar alto
balouçava um barco altivo
com sua coberta de prata,
levando longe o casal fugitivo.

Havia, como já disse,
pombos esvoaçando.
E um deles levava, numa argolinha do pé,
mensagem da boa ama,
dando aviso a sua princesa e dama,
da vingança do velho mandarim.

Os namorados então
na calada da noite,
passaram sorrateiros para o barco,
driblando o velho, como se diz hoje.
E era aquele barco que balouçava
no mar alto da velha China,
no fundo do prato.

Eu era curiosa para saber o final da estória.
Mas o resto, por muito que pedisse,
não contava  minha bisavó.
Dali pra frente a estória era omissa.
Dizia ela – que o resto não estava no prato
nem constava do relato.
Do resto, ela não sabia.
E dava o ponto final recomendado.
” -Cuidado com esse prato!
É o último de 92″

Devo dizer  – esclarecendo,
esses 92 não foram do meu tempo.
Explicava minha bisavó
que os outros – quebrados, sumidos,
talvez roubados –
traziam outros recados,outras legendas,
prebendas de um tal Confúcio
e baladas de um vate
chamado Hipeng.

Do meu tempo só foi mesmo
aquele último
que, em raros dias de cerimônia
ou festas do Divino
figurava na mesa em grande pompa,
carregado de doces secos, variados,
muito finos,
encimados por uma coroa
alvacenta e macia
de cocadas-de-fita.

às  vezes, ia de empréstimo
à casa da boa tia Nhorita.
E era certo no centro da mesa
de aniversário, com sua montanha
de empadas, bem tostadas.
No dia seguinte, voltava.
conduzido por um portador
que  era sempre o Abdênago, preto de valor,
de alta e mútua confiança.

Voltava com muito-obrigados
e,  melhor – cheinho
de doces e salgados.
Tornava a relíquia para o relicário
que no caso era um grande e velho armário,
alto e bem fechado.
-“Cuidado com o prato azul-pombinho”
dizia minha bisavó,
cada vez que o punha de lado.

Um dia, por azar,
sem se saber, sem se esperar,
artes do salta-caminho,
partes do capeta,
fora do seu lugar, apareceu quebrado,
feito em pedaços – sim senhor-
o prato azul-pombinho.
Foi um espanto. Um torvelinho.
Exclamações. Histeria coletiva.
Um deus nos acuda. Um rebuliço.
Quem foi, quem não foi?…

O pessoal da casa se assanhava.
Cada qual jurava por si.
Achava seus bons álibis.
Punia pelos  outros.
Se defendia com energia.
Minha bisavó teve  “aquela coisa”
(Ela sempre tinha “aquela coisa” em casos tais”)
Sobreveio o flato.
Arrotando alto, por fim, até chorou…

Eu (emocionada), vendo o pranto de minha bisavó,
lembrando só
da princesinha Lui-
que já tinha passado a viver no meu inconsciente
como ser presente,
comecei a chorar
– que chorona sempre fui.

Foi o bastante para ser apontada e acusada
de ter quebrado o prato.
Chorei mais alto, na maior tristeza,
comprometendo qualquer tentativa de defesa.
De nada valeu minha fraca negativa.
Fez-se o levantamento de minha vida pregressa
de menina
e a revisão de uns tantos processos arquivados.
Tinha já quebrado – em tempos alternados,
três pratos, uma compoteira de estimação,
uma tigela, vários pires e a tampa de uma terrina.

Meus antecedente, até,
não eram  muito bons.
Com relação a coisas quebradas
nada me abonava.
E o processo se fez, à revelia da ré,
e com esta agravante:
tinha colado no meu ser magricela, de menina,
vários vocativos
adesivos, pejorativos:
inzoneira, buliçosa e malina.

Por indução e conclusiva,
era eu mesma  que tinha quebrado o prato azul-pombinho.

Reuniu-se o conselho de família
e  veio a condenação à moda do meu tempo:
uma boa tunda de chineladas.

Aí ponderou minha bisavó
umas  tantas atenuantes a meu favor.
E o castigo foi comutado
para outro, bem lembrado, que melhor servisse a todos
de escarmento e de lição:
trazer no pescoço por tempo indeterminado,
amarrado de um cordão,
um caco do prato quebrado.

O dito, melhor feito.
Logo se torceu no fuso
um cordão de novelão.
Encerdo foi.Amarrou-se a ele  um caco, de bom jeito,
em forma de meia-lua.
E a modo de colar, foi posto em seu lugar,
isto é, no meu pescoço.
Ainda mais
agravada a penalidade:
proibição de chegar na porta da rua..
Era assim, antigamente.

Dizia-se aquele, um castigo atinente,
de ótima procedência.Boa coerência.
Exemplar e de alta moral.

Chorei sozinha minhas mágoas de criança.
Depois, me acostumei com aquilo.
no fim, até brincava com o caco pendurado
E foi assim que guardei
no armarinho da memória, bem guardado,
e posso contar aos meus leitores,
direitinho,
a estória, tão singela,
do prato azul- pombinho.

Cora Coralina, Melhores Poemas

RÁPIDO E DEVAGAR: DUAS FORMAS DE PENSAR – DANIEL KAHNEMAN

Daniel Kahneman, psicólogo laureado com o Prêmio Nobel de Economia, apresenta em Rápido e Devagar: Duas Formas de Pensar uma análise fascinante sobre como tomamos decisões e como o funcionamento do cérebro humano pode nos levar a erros e acertos. O livro, publicado em 2011, é uma obra essencial para quem deseja compreender melhor os mecanismos por trás de nossas escolhas e comportamentos.

RÁPIDO E DEVAGAR: DUAS FORMAS DE PENSAR – DANIEL KAHNEMAN

O inimigo

“Al final del Camino solo recuerdas una batalla, lá que libraste contigo mismo, ele verdadero enemigo; la que te hizo único.” Presente de Natal de minha maninha Cy, obrigada iluminada!

Lei Aldir Blanc de Fomento à Cultura – 2024

EDITAL DE CHAMAMENTO PÚBLICO Nº 14/2024
SELEÇÃO DE PROJETOS PARA FIRMAR TERMO DE EXECUÇÃO CULTURAL COM
RECURSOS DA POLÍTICA NACIONAL ALDIR BLANC DE FOMENTO À CULTURA – PNAB

A Secretaria de Cultura de Jacareí abriu inscrições para seleção de agentes culturais a fim de receber recursos para projetos culturais.

RECURSOS DO EDITAL
O presente edital possui valor total de R$ 324.000, 00 (trezentos e vinte e quatro mil
reais ) distribuídos da seguinte forma:
a) Até R$ 40.500,00 (quarenta mil e quinhentos reais) para CATEGORIA Capoeira,
sendo 5 (cinco) projetos de R$8.100,00 (oito mil e cem reais) cada;
b) Até R$ 40.500,00 (quarenta mil e quinhentos reais) para CATEGORIA Culturas
Populares, 4 (quatro) projetos de R$10.125,00 (dez mil, cento e vinte e cinco reais)
cada;
c) Até R$ 40.500,00 (quarenta mil e quinhentos reais) para CATEGORIA Artes Cênicas,
4 (quatro) projetos de R$10.125,00 (dez mil, cento e vinte e cinco reais) cada;
d) Até R$ 40.500,00 (quarenta mil e quinhentos reais) para CATEGORIA Artes Urbanas,
sendo 4 (quatro) projetos de R$10.125,00 (dez mil, cento e vinte e cinco reais) cada;
e) Até R$ 40.500,00 (quarenta mil e quinhentos reais) para CATEGORIA Artes Visuais,
sendo 4 (quatro) projetos de R$10.125,00 (dez mil, cento e vinte e cinco reais) cada;
f) Até R$ 40.500,00 (quarenta mil e quinhentos reais) para CATEGORIA Literatura,
sendo 8 (oito) projetos de R$5.062,50 (cinco mil e sessenta e dois reais e cinquenta
centavos) cada;
g) Até R$ 40.500,00 (quarenta mil e quinhentos reais) para CATEGORIA Música, sendo
sendo 5 (cinco) projetos de R$8.100,00 (oito mil e cem reais) cada;
h) Até R$ 40.500,00 (quarenta mil e quinhentos reais) para CATEGORIA Audiovisual,
sendo 4(quatro) projetos de R$10.125,00 (dez mil, cento e vinte e cinco reais) cada;

DESCRIÇÃO DAS CATEGORIAS
Artes Urbanas
Esta categoria contempla realizações de ações de grafite, muralismo, hip
hop, breakdance, etc. que contemplem a inclusão de jovens e adolescentes
em ações de fortalecimento de identidade regional e boas práticas cidadãs.
Os projetos podem ter como objeto:
I. Intervenções Artísticas em Espaços Públicos: A criação de
intervenções artísticas, como murais, esculturas temporárias,instalações de arte, que transformam e embelezam os ambientes
urbanos;
II. Graffiti e Pintura Mural: A produção de murais coloridos, grafites e
obras de pintura que retratam temas diversos, desde a cultura local até
questões sociais;
III. Performance Urbana: Apresentações ao vivo, como dança, música,
teatro, slam, competições de rap, entre outros;
IV. Educação e Formação: Oficinas, cursos e ações educativas que visam
capacitar artistas e interessados em técnicas das diversas formas de
artes urbanas e promover a conscientização sobre a importância da
arte e o combate a preconceitos;
V. Outro objeto com predominância na área das Artes Urbanas.
Artes Visuais
O setor das artes visuais contempla: Artes Plásticas e Artesanato, Desenho,
Pintura, Escultura, Gravura, Fotografia, Design.
Podem concorrer nesta categoria projetos que demonstrem predominância
na área de artes plásticas e visuais nas linguagens do desenho, pintura,
escultura, gravura, objeto, instalação, intervenção urbana, performance, arte
computacional ou outras linguagens do campo da arte contemporânea atual.
Os projetos podem ter como objeto:
I. Realização de Exposição ou Feiras de Artes: Isso envolve a
organização e montagem de exposições de arte, seja individual ou
coletiva, onde obras de artistas plásticos, artesãos, pintores, escultores,
etc., são exibidas ao público. As feiras de artes também se enquadram
aqui, onde artistas têm a oportunidade de mostrar e vender suas obras;
II. Ações de Capacitação, Formação e Qualificação: Isso inclui a
realização de oficinas, cursos e ações educativas destinadas a
capacitar e formar artistas, curadores, críticos de arte e o público em
geral. Essas atividades ajudam a promover o desenvolvimento das
habilidades e conhecimentos necessários no campo das artes visuais;
III. Produção de Obras de Arte e Peças Artesanais: Os projetos podem
envolver a criação e produção de obras de arte, como pinturas,
esculturas, gravuras, objetos, instalações e peças artesanais. Issoabrange a produção física de itens artísticos que podem ser exibidos
em exposições, vendidos ou utilizados em instalações;
IV. Publicações na Área de Artes Plásticas e Visuais: Isso engloba a
criação e publicação de materiais impressos ou digitais, como livros,
revistas, catálogos e outros tipos de publicações relacionadas às artes
visuais. Essas publicações podem servir como meios de documentar
obras de arte, teoria da arte, análises críticas e outros conteúdos
relevantes;
V. outro objeto com predominância no setor cultural
Literatura
Esta categoria contempla publicação de obras e coletâneas inéditas,
preferencialmente com referências ao Vale do Paraíba (paisagens, locais,
tradições, etc.) e realização obrigatória de ao menos 2 (dois) eventos de
lançamento, sendo um deles em região descentralizada; saraus literários que
contemplem necessariamente oficinas de produção literária e/ou pesquisa
histórica, preferencialmente com temática referente à identidade regional.
Os projetos podem ter como objeto:
I. Publicação de Textos Inéditos em Diversos Gêneros e/ou Formatos:
Isso envolve a criação, edição e publicação de obras literárias, como
romances, contos, poesias, ensaios, biografias, antologias, quadrinhos,
e-books e outros tipos de textos literários. Preferencialmente, essas
obras devem fazer referências ao Vale do Paraíba e sua cultura;
II. Organização de Eventos e Atividades de Difusão da Literatura, do
Livro, da Leitura e da Oralidade: Isso inclui a realização de eventos
literários, como feiras do livro, mostras literárias, saraus, batalhas de
rimas e outros encontros que promovam a literatura e a leitura. Os
projetos podem incluir pelo menos dois eventos de lançamento, um
deles em uma região descentralizada, para ampliar o alcance da
literatura;
III. Projetos de Formação: Os projetos podem oferecer oficinas, cursos e
ações educativas relacionadas à escrita criativa, pesquisa histórica, e
outras habilidades literárias. Isso contribui para a formação de
escritores e pesquisadores literários, bem como para o enriquecimento
da literatura regional;

IV. Apoio à Modernização e Qualificação de Espaços e Serviços em
Bibliotecas Comunitárias e Pontos de Leitura: Isso envolve melhorias
em bibliotecas comunitárias e pontos de leitura, visando ampliar o
acesso à informação, à leitura e ao livro. Isso pode incluir a compra de
livros, a criação de espaços de leitura aconchegantes e a
implementação de programas de incentivo à leitura;
V. Formação e Circulação de Contadores de Histórias e Mediadores de
Leitura: Os projetos podem envolver a formação de contadores de
histórias e mediadores de leitura que atuem em bibliotecas, escolas,
pontos de leitura ou espaços públicos. Esses profissionais
desempenham um papel fundamental na promoção da literatura e na
aproximação do público com os livros;
VI. outro objeto com predominância nas áreas de leitura.
Música
Esta categoria contempla apresentações artísticas e/ou shows realizados em
encontros abertos, em teatros, palcos, etc. em locais públicos e com
presença de público; obra autoral ou não, porém preferencialmente com
composição ou referência direta à produção musical da região do Vale do
Paraíba, como exemplo: tributos a compositores locais, composição com
instrumentos típicos, entre outros;
Os projetos podem ter como objeto:
I. Produção de Eventos Musicais: Isso envolve a produção e realização
de espetáculos musicais que podem incluir músicos, bandas ou grupos.
Esses eventos podem ocorrer em encontros abertos, teatros, palcos,
locais públicos e devem ter a presença de público. Os projetos podem
abranger uma ampla variedade de gêneros musicais, desde concertos
clássicos até shows de música popular;
II. Formação Musical: Os projetos podem oferecer ações de qualificação e
formação musical, como a realização de oficinas, cursos e ações
educativas. Isso contribui para o desenvolvimento de habilidades
musicais em músicos aspirantes e aprimora a cena musical local;
III. Gravações de Álbuns Musicais: Isso envolve a gravação de álbuns
musicais, sejam eles de artistas locais, bandas ou grupos musicais etc….

Para ter acesso ao edital completo, clique no link a seguir:

Lei Aldir Blanc- 2024

O calor tem cor e tem classe

Thiago Amparo na Folha/UOL

Está calor? Sim. Para todo mundo de forma igual? Não. Quantos aparelhos de ar-condicionado ou umidificador de ar você tem em casa? Em SP, apenas 210 das 5.600 escolas da rede estadual possuem sistema de refrigeração (3,7%), segundo dados oficiais; em 12 escolas em Guarulhos as paredes e telhas são de chapa de aço, superaquecidas. Você trabalha ao ar livre sob o sol ou em lugares fechados sem proteção ao calor? Você tem descanso remunerado ou possui flexibilidade de horário?

Você utiliza um transporte de qualidade, confortável e refrigerado todos os dias? Na capital paulista a média de deslocamento pela cidade é de 2h26min; em 2023, a percepção de que os ônibus estão mais cheios chegou a 27%, maior índice registrado em cinco anos pela pesquisa da Rede Nossa São Paulo. Ilhas de calor em SP, agravadas pela poluição automobilística e pela distribuição desigual de mobilidade urbana impactam mais pessoas periféricas, revelou nesta semana estudo do Instituto Peregum.

Você mora perto de um parque para se refrescar? Há 11 anos, moradores do extremo sul da periferia de SP esperam pela regulamentação do Parque dos Búfalos, em uma disputa que envolve até ameaça de morte, revelou esta Folha. Ao menos, outros quatro parques prometidos foram abandonados ou invadidos na periferia de SP, segundo o jornal Agora, em novembro de 2021. Quantas pessoas moram em sua casa por cômodo, e há circulação de ar em todos eles?

Você tem acesso a água potável em abundância? Populações negras de Belém e de Recife são as que mais sofrem de doenças transmitidas pela água (mais de 60% dos casos), revelou pesquisa do Instituto Pólis de 2022. Você ficará seguro no evento de chuvas extremas? Mesma pesquisa relevou que na capital paulista a proporção de pessoas negras em áreas passíveis de deslizamento é de 55%, concentradas nas periferias da cidade.

O calor extremo expõe ao sol as injustiças —racismo e aporofobia— climáticas. Neste que é o verão mais frio do resto de nossas vidas, está calor para quem?

Nossos verdadeiros inimigos

Em 2010, soldados estadunidenses fizeram um protesto contra o projeto imperialista dos EUA de expansão de ataques contra países pobres, mas ricos em gás e petróleo: a “guerra infinita”, que sustenta a indústria bélica com os impostos de seus cidadãos. Michael Prysner e outros 130 veteranos foram presos após esse discurso.

Quando coisas ruins acontecem com pessoas boas

Jó precisava de simpatia mais que de conselho, por mais sensato que fosse o conselho. Haveria tempo e lugar para este último. Precisava de compaixão, da sensação de que outros participam também de sua dor, mais que de explicações teológicas sobre os caminhos de Deus. Precisava de conforto físico, de pessoas que partilhassem sua força com ele, sustentando-o em vez de condená-lo. Precisava de amigos que lhe permitissem zangar-se, chorar e desabafar alto, muito mais que de amigos que o concitassem a tornar-se um exemplo de paciência e piedade para os outros. Precisava de alguém que dissesse “Sim, o que aconteceu é terrível e não faz sentido” e não para dizer-lhe “Coragem, Jó, afinal de contas não é tão ruim”. E foi aí que os amigos falharam. A expressão “consoladores de Jó” passou a designar pessoas que desejam ajudar, porém que se mostram tão preocupadas com suas próprias necessidades e sentimentos que acabam por piorar as coisas. Contudo, os amigos de Jó sob dois aspectos procederam bem.

PEm primeiro lugar, eles vieram. Estou certo de que a visão do amigo na miséria lhes era dolorosa e de que eles provavelmente tiveram vontade de afastar-se e deixá-lo só. Não é agradável ver um amigo sofrer, e a maioria de nós evita de bom grado essa experiência. Ou nos afastamos de todo, de modo que quem sofre acaba por ficar isolado, com o sentimento de rejeição coroando sua tragédia, ou nos aproximamos como que evitando a razão de nossa presença ali. As visitas a hospitais e manifestações de condolências transformam-se em conversas amenas sobre o tempo, a bolsa de valores ou as notícias esportivas, assumindo um ar de irrealidade em que a preocupação mais importante no espírito de todos os presentes é deixada de lado. Os amigos de Jó pelo menos tiveram a coragem de encará-lo e enfrentar sua dor.

E, em segundo lugar, eles ouviram. Segundo o relato bíblico, sentaram-se com Jó durante muitos dias, sem nada dizer, enquanto Jó extravasava sua dor e cólera. Esta, acho eu, foi a parte mais útil da visita. Nada do que eles fizeram depois fez tanto bem a Jó. Depois de Jó haver desabafado, eles deveriam ter dito “Sim, é realmente terrível. Não sabemos como você pode suportá-lo”, em vez de se sentirem compelidos a defender Deus e a sabedoria convencional. Sua presença silenciosa deve ter sido bem mais útil ao amigo do que as longas explicações teológicas.

Podemos extrair disto uma grande lição. Há alguns anos passei por uma experiência que me ensinou alguma coisa sobre como as pessoas pioram uma situação por se censurarem a si mesmas. Certo mês de janeiro, eu tive de oficiar aos funerais, em dias sucessivos, de duas senhoras idosas de minha comunidade. Ambas morreram “cheias de dias”, como diria a Bíblia; ambas sucumbiram ao desgaste normal do organismo, depois de uma vida longa e bem vivida. Calhou de as duas casas serem próximas, de modo que pude fazer as visitas de condolências às duas famílias na mesma tarde. Na primeira casa, o filho da falecida me disse: “Se eu tivesse mandado minha mãe para a Flórida, tirando-a deste frio e desta neve, ela ainda estaria viva. Sinto-me culpado pela sua morte.” Na segunda casa, o filho da outra disse: “Se eu não tivesse insistido com minha mãe para que fosse para a Flórida, ela ainda estaria viva. A longa viagem de avião, a mudança súbita de clima foram além do que ela podia suportar. Sinto-me culpado pela sua morte.”

Quando as coisas não se desenrolam conforme gostaríamos, torna-se muito tentadora a ideia de que, se tivéssemos procedido de maneira diferente, a história teria tido um final mais feliz. Os pastores de alma sabem que, toda vez que ocorre uma morte, os sobreviventes se sentem culpados. Como a ação que empreenderam teve um desfecho desagradável, acreditam que, se tivessem feito o contrário — mantendo a mãe em casa, adiando a operação — o final seria melhor. Afinal de contas, como se poderia ter evitado o pior? Os sobreviventes sentem-se culpados por estarem ainda vivos enquanto um ser amado está morto. Sentem-se culpados ao pensarem nas palavras amáveis que nunca dirigiram a quem morreu ou pelas coisas boas que não encontraram tempo para propiciar-lhe. Na verdade, muitos dos rituais fúnebres em todas as religiões visam a ajudar os sobreviventes a libertarem-se desses sentimentos irracionais de culpa por uma tragédia que de fato não foi provocada por eles. O sentimento de culpa — “eu sou o culpado” — parece universal. Parecem existir dois sentimentos envolvidos em nossa inclinação para a culpa.

O primeiro é nossa compulsiva necessidade de acreditar que o mundo faz sentido, que há uma causa para cada efeito e uma razão para tudo o que acontece. Isto nos leva a encontrar padrões e conexões tanto onde eles realmente existem (o cigarro ocasiona o câncer pulmonar; quem lava as mãos tem poucas doenças contagiosas) quanto onde eles existem apenas em nossas mentes (meu time vence toda vez que vou ao estádio com a camisa da sorte; aquela pessoa de quem eu gosto só me vê nos dias ímpares, nunca nos dias pares, a não ser quando um feriado interrompe a sequência). Quantas superstições comuns e pessoais nasceram baseadas em que algo de bom ou ruim sucedeu logo depois de termos praticado uma ação, originando-se daí a crença de que o mesmo ocorrerá sempre que seguirmos aquele padrão de comportamento?

O segundo elemento é a noção de que nós somos a causa do que acontece, especialmente das coisas ruins. Parece muito curta a distância entre a crença de que tudo tem uma causa e a crença de que todo desastre é culpa nossa. As raízes deste sentimento podem estar em nossa infância.

Os psicólogos falam do mito infantil da onipotência. O bebê pensa que o mundo existe para satisfazer as suas necessidades e que é ele quem faz com que tudo se realize. Ele acorda pela manhã e convoca o resto do mundo para suas tarefas. Chora, e alguém vem atendê-lo. Quando está com fome, alguém vem alimentá-lo; quando está molhado, aparece alguém para trocar-lhe as fraldas. Muito frequentemente, não superamos totalmente esta noção infantil de que nossos desejos fazem as coisas acontecerem.

Uma parte de nossa mente continua a acreditar que as pessoas ficam doentes porque as odiamos. Nossos pais, de fato, amiúde alimentaram essa noção. Sem perceberem como eram vulneráveis nossos egos infantis, descarregaram sobre nós seu cansaço e frustração por razões que nada tinham a ver conosco.

Empurraram-nos por nos encontrarmos em sua passagem, gritaram conosco pelos brinquedos espalhados ou pelo som alto da televisão, e nós, em nossa inocência infantil, achávamos que eles tinham razão e que nós éramos o problema. A raiva deles podia passar no momento seguinte, mas nós carregaríamos ainda as cicatrizes do sentimento de culpa, com medo de sermos repreendidos por qualquer erro que aparecesse. Anos 34 depois, quando algo não vai bem ao nosso redor, os sentimentos de nossa infância emergem e instintivamente pensamos que mais uma vez deitamos as coisas a perder.

Mesmo Jó preferiu pedir que Deus lhe provasse sua culpa a admitir que tudo não passava de um engano. Se lhe pudesse ser demonstrado que ele merecia seu destino, então pelo menos o mundo estava certo. Não haveria qualquer prazer em sofrer pelos desmandos de alguém, mas seria mais suportável do que descobrir que se vive em mundo fortuito onde as coisas acontecem sem razão.