Que ave é esta?

Ontem, estava passeando pelo meu bairro com o Léo, meu cachorro e, de repente, me assustei ao me deparar com uma ave imensa comendo lixo de uma vizinha. Tal imagem me pareceu surreal, apesar de estar cada vez mais comum avistar tucanos, corujas e cobras por aqui.

Esse é o sinal mais explícito de que estamos invadindo mais e mais os espaços dessas espécies, por isso elas são obrigadas a se adaptar às regiões urbanas. Gestos simples, como colocar o lixo nos dias em que o caminhão de coleta passa, evitam a intoxicação de animais com nossos detritos. Mas a maioria das pessoas está c. e andando pra isso.

Fiquei intrigada para desvendar qual seria sua espécie. Parecia um gavião ou uma águia muito imponente. Ela ficou rondando o bairro até pousar numa palmeira imperial de porte igualmente majestoso e ficou observando das alturas nossa extasiada pequenês atravessando as ruas de um domingo sossegado.

Descobri que a ave é um carcará, aquele da música “carcará, pega, mata e come” que inspirava medo aos retirantes da seca no sertão. Hoje, é esse parente dos falcões que deveria nos temer.

Que São Francisco de Assis (se realmente tiver tal poder) te abençoe e te proteja de todos nós!

Apresentador britânico Jimmy Savile abusou de 63 pessoas em hospital

https://g1.globo.com/mundo/noticia/2015/02/apresentador-britanico-jimmy-savile-abusou-de-63-pessoas-em-hospital.html

Caridade x Justiça Social

Devemos preferir a justiça social e uma melhor distribuição de renda, realizada através de salários dignos e bons serviços públicos, à “caridade” dos ricos, através de “doações” aos vulneráveis.
Essa celebridade se aproveitou da fama, do dinheiro e usou a caridade para mascarar perversões sexuais, estuprar crianças e até doentes sedadas em hospitais os quais fingia ajudar como maqueiro e depois como angariador de fundos.
Toda sua bondade não passou de um chamariz, um pretexto para ficar próximo de vulneráveis que jamais o delataram por sua fama.

Ele foi o modelo de empreendedor social preconizado pela papisa do neoliberalismo: Margareth Tatcher. Depois que as vítimas começaram a ser ouvidas apenas pelas redes sociais, as autoridades fingiram surpresa. Ele nunca foi punido por seus crimes por personificar, na ideologia neoliberal, a solução dos problemas sociais. Esse é um preço muito alto a se pagar.

A mulher pioneira da vacinação que foi esquecida pela história

O notável progresso atingido pela imunização contra a covid-19 chamou a atenção do mundo para o brilhante papel das vacinas.

Muitos conhecem a história da descoberta da vacinação contra a varíola por Edward Jenner em Gloucestershire, na Inglaterra, cerca de 250 anos atrás. Mas poucas pessoas ouviram falar de Lady Mary Wortley Montagu – a socialite que, com seus experimentos pioneiros de inoculação, definiu as bases para a descoberta de Jenner, mas cuja contribuição foi quase totalmente esquecida.

Este ano marca o 300° aniversário dos seus extraordinários experimentos com seres humanos e oferece uma ocasião oportuna para analisar sua notável contribuição para a saúde pública.

Nascida Mary Pierrepont em 1689, ela era uma mulher vivaz e obstinada, autora de cartas e poemas, que detinha ideias progressistas sobre o papel das mulheres na sociedade. Para evitar um casamento arranjado, ela fugiu de casa com 23 anos de idade e casou-se com Edward Wortley Montagu, neto do primeiro Conde de Sandwich.

Em 1716, Edward tornou-se embaixador inglês em Istambul (ou Constantinopla, como se chamava na época), capital do Império Turco-Otomano. Foi dali que Wortley Montagu escreveu descrições vivas da vida no oriente, especialmente das mulheres turcas, cujas roupas, estilo de vida e tradições a intrigavam.

Para ler o restante da matéria:

https://www.bbc.com/portuguese/internacional-59750201

Se não chover nem ventar

Se não chover nem ventar,
se a lua e o sol forem limpos
e houver festa pelo mar,
- ir-te-ei visitar.


Se o chão se cobrir de flor,
e o endereço estiver claro,
e o mundo livre de dor,
- ir-te-ei ver, amor.


Se o tempo não tiver fim,
se a terra e o céu se encontrarem
à porta do teu jardim
- espera por mim.


Cantarei minha canção
com violas de eternamente
que são de alma e em alma estão.
- De outro modo, não.

Cecília Meireles

Aforismo de Simone Weil

“A BELEZA do mundo não é um atributo da própria matéria. É uma relação do mundo com nossa sensibilidade, essa sensibilidade que depende da estrutura do nosso corpo e da nossa alma.”

“MAGOAR alguém é transferir para outrem a degradação que temos em nós.”

“A beleza é a harmonia entre o acaso e o bem.”

“ATENÇÃO é a forma mais rara e pura de generosidade.”

‘Quando dois seres que não são amigos estão perto um do outro não há encontro, e quando amigos estão distantes não há separação.”

“O mais alto êxtase é a mais completa atenção.”

Simone WEIL foi uma pensadora francesa, pacifista e militante de esquerda nascida em Paris, cujas ações mostraram uma vida dedicada a busca pela justiça. Descendente de uma família judia abastada e culta, estudou filosofia na École Normale Superieure, exerceu o magistério e colaborou em jornais de esquerda. Também trabalhou como operária numa fábrica de automóveis (1934 -1935), passando a seguir a militar em movimentos anarquistas, inclusive participando com os republicanos na guerra civil espanhola (1936-1938), sem empunhar armas por causa de princípios pacifistas.

A partir de então (1938) passou a defender uma prática mística, o existencialismo cristão na linha de Kierkegaard. De volta à França, passou por Marselha e depois por Paris, onde passou a colaborar em jornais ligados à Resistência. Viajou pelos Estados Unidos (1942) e logo depois voltou a Londres, onde continuou sua luta contra o nazismo. Morreu em virtude de uma greve de fome em apoio a seus conterrâneos, em Ashford, Inglaterra. Seus principais textos foram publicados postumamente, como nas coletâneas La Pesanteur et la grâce (1947), L’Enracinement (1949) e Oppression et liberté (1963).

Ruy Castro: ‘A Semana de 22 arrombou uma porta aberta’

https://www.correiobraziliense.com.br/diversao-e-arte/2021/12/4974254-ruy-castro-a-semana-de-22-arrombou-uma-porta-aberta.html

Lya Luft, R.I. …

O falecimento de Lua Luft é mais uma triste notícia fechando o ano de 2021.

Não posso, por seu falecimento, esquecer minha decepção ao saber em quem ela votou, mesmo que ela tenha se arrependido depois. Tentei de todas as formas compreender tal escolha, por ela ser quem é, por seus textos sempre me acolherem, por admirá-la. Confesso que não consegui. Meu fracasso em tal tentativa me deixou muito frustrada. Então, comecei a ler artigos sobre esse tema.

Colo aqui o argumento de Rodrigo Casarin, colunista da UOL, sobre artistas e seus posicionamentos políticos:

“Rachel de Queiroz* defendia a ditadura militar. Gabriel García Márquez morreu passando pano para os crimes contra a humanidade cometidos por Fidel Castro. Jorge Luis Borges, que sempre me pareceu um palerma político, vivia sob o quepe dos oficiais argentinos que sequestravam, matavam e jogavam corpos de opositores no mar. O francês Céline é mais lembrado pela afeição ao nazismo do que por seus livros.

É bobagem pensar que arte e cultura são coisas de esquerda, como muitos insistem em vociferar. É coisa de gente. Sendo assim, nessas áreas encontramos pessoas de todo o espectro político. Se por acaso os pensamentos progressistas parecem maioria, que bom, são eles que podem fazer do mundo um lugar mais humano, mais plural, mais democrático. Um mundo livre até para outro artista cravar seu voto em quem ataca tudo isso. Entendo o arrependimento de Lya, só não compreendo o tom de surpresa com o governo que ajudou a eleger.”

Discordo desse ponto de vista porque vivemos em outros tempos, muito diferentes das épocas de Celine, Borges e Queiroz em que muitos equívocos poderiam ser atribuídos à propaganda, à desinformação (que sempre existiu, as “fakes news” não são invenção recente) ou até mesmo a uma ambição do artista tentando sobreviver em meio aos donos de um mundo sem opções e repressivo. O medo da prisão e valores já superados também podem ter persuadido muitos autores a cooperarem com ditaduras.

Hoje temos teóricos da comunicação, que revelam a manipulação midiática pelos poderosos, temos mais opções, liberdade de votar e uma artista da linguagem não pode mais cometer tais equívocos sem se sentir responsável pelas consequências de suas escolhas, dado ao alcance de suas palavras potencializado pela Arte, seja de direita ou de esquerda. O artista deve ter sim um compromisso com valores mais humanos e menos individualistas.

Descanse Lya, talvez em paz…

* O que torna praticamente impossível evitar a triste conclusão de que apenas por apoiar a ditadura militar, Raquel de Queiroz, uma ex-trotskista, tenha sido a primeira mulher a ser aceita na Academia Brasileira de Letras em 1977.

Ausência

Vinícius de Moraes

Eu deixarei que morra em mim o desejo

de amar os teus olhos que são doces

Porque nada te poderei dar senão a magoa

de me veres eternamente exausto.

No entanto a tua presença é qualquer coisa

como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe

o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser

tudo estaria terminado.

X

Quero só que surjas em mim

como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma

gota de orvalho nesta terra amaldiçoada

Que ficou sobre a minha carne

como nódoa do passado.
Eu deixarei… tu irás e encostarás

a tua face em outra face.

X

Teus dedos enlaçarão outros dedos

e tu desabrocharás para a madrugada.

Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu,

porque eu fui o grande íntimo da noite.

Porque eu encostei minha face na face

da noite e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os dedos

da névoa suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa

essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros

nos portos silenciosos.

X

Mas eu te possuirei como ninguém

porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar,

do vento, do céu, das aves, das estrelas.
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente,

a tua voz serenizada.

Era de se esperar…

Luciane Reciere

Era de se esperar. Era sabido. E compreensível que nada ali tivesse pé nem cabeça. Quebra-cabeça faltando peças, livro faltando páginas. Dia sem graça e escuro feito noite velha, e de fato não era mais dia, era noite que tinha daquela vocação de viver muito. Das flores se soube mais tarde que eram sempre-vivas, com aquele arzinho seco de coisa que morreu e ninguém sepultou. Afastaram os móveis e espalharam cadeiras. Esperava que alguém dançasse? Encostaram as cadeiras nas paredes e passaram a noite naquele zum-zum abafado de diálogo ensaiado. Não se serviu nada, nem água, nem licor. A roupa era a de sempre, sem cor nem brilho e as mãos sempre frias tateavam o escuro a procurar algum sentido naquele amontoado de gente sem rosto e sem conversa. Subiu as escadas sem olhar onde pisava e deixou um pouco pra trás, mesmo que ninguém quisesse parte daquilo.

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Uma vez li que as formigas…

Luciane Reciere

Uma vez li que as formigas espreguiçam ao acordar (e essa foi a informação mais linda que eu poderia ter), desde esse dia, comecei a praticar o espreguiçamento como arte marcial. As formigas planejam futuros, isso eu não aprendi e por isso as invejo: exploda o mundo ou não, estarão em comunhão com os seus. Estocados os víveres, se reunirão para longas conversas e ideias de revoluções impossíveis em torno das fogueiras subterrâneas. Enquanto a rainha abastece seu exército, há algumas formigas que sonham, mesmo sem saber que talvez o inverno não aconteça.
Além do mais, não têm o peso da alma. Se morrem, é para sempre e sempre haverá outra formiga para recolher sua carcaça para o sepultamento ou compostagem.
Eu. Invejo. As formigas.

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