A poesia da vida – Edgar Morin
Bares, cafés e clubes, a partir do século XIX, não eram apenas um ambiente para a happy hour. Eles foram o cenário onde questões políticas, filosóficas, movimentos artísticos revolucionários se espalharam. O propósito deste site é o mesmo: criar um espaço virtual para expressão livre de ideais, reflexões e sentimentos, com espírito crítico em relação a nossa Cultura.
A poesia da vida – Edgar Morin
Macbeth:
“Tomorrow and tomorrow and tomorrow,
Creeps in this petty pace from day to day
To the last syllable of recorded time,
And all our yesterdays have lighted fools
The way to dusty death. Out, out, brief candle!
Life’s but a walking shadow, a poor player
That struts and frets his hour upon the stage
And then is heard no more: it is a tale
Told by an idiot, full of sound and fury,
Signifying nothing.”
Seyton:
A rainha, meu senhor, está morta.
Macbeth:
“Ela deveria ter morrido mais tarde. Teria havido uma hora para essa palavra. Amanhã, e amanhã, e amanhã
Arrastam-se nessa passada trivial do dia para a noite, da noite para o dia,
Até a última sílaba do registro dos tempos.
E todos os nossos ontens não fizeram mais que iluminar para os tolos
o caminho que leva ao pó da morte. Apaga-te, apaga-te, chama breve!
A vida não passa de uma sombra que caminha, um pobre ator
Que se pavoneia e se aflige sobre o palco –
Faz isso por uma hora e, depois, não se escuta mais sua voz:
É uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria
Significando nada”.

Você, que é tão erudito, recite-me versos suaves, por piedade, para recuperar de viver a vontade! Você, que é tão ajuizado, Por misericórdia me dite os santos escritos Nos templos ouvidos, Para alimentar desgraçados proscritos! Você, que é tão são, por compaixão, reze-me uma oração para alentar a quem vive ao relento; a quem se negou a terra de onde tirar o sustento; a quem nunca recuperou seu pródigo rebento. Thaís GM

Cântico negro
José Régio
“Vem por aqui” — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: “vem por aqui!”
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali…
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos…
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: “vem por aqui!”?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí…
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?…
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos…
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios…
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: “vem por aqui”!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

de Ricardo Costa
Penso que nasci morto
Vivi meio que morto
No ponto morto
Me fiz de morto
Vivo-morto já é um morto
Vivo pode ser morto
Morto não pode ser morto
Mas morto é morto
Se morno não está morto
Se frio talvez quase morto
Gelado, com certeza morto
Amarelo encerado é um morto
Deitado caixão com flor é morto
Cem por cento morto
Até baralho tem morto
Que fica de lado como morto
Se joga bem pega o morto
Só então vive o morto
Desconectar da vida está morto
Na solidão você é um morto
Sozinho está morto
Morto bom é um bom morto
Seu futuro terá um morto
Você será um morto
Ninguém tem inveja de morto
Chora quando vê um morto
Morto por morto
Melhor um bem morto.

Para quem é da área de Letras e não tem ideia para fazer um projeto de mestrado, aí vai uma sugestão: o poema da Florbela Espanca, “Para quê?” publicado anteriormente, tem uma relação de intertextualidade com o poema abaixo de Gregório da Matos. Se ela o leu ou não é preciso investigar, de qualquer maneira, certas imagens, da flor, do pó, das cinzas, do nada, a gradação do período barroco retomadas num período mais recente, nos faz lembrar da ideia de Borges sobre o espírito da poesia. As ações propostas por Florbela e Gregório diante da transitoriedade da vida, no entanto são muito diferentes: ele propõem à futura esposa desfrutar ao máximo, enquanto há tempo (O tema do carpe diem, numa atitude mais hedonista); já a autora portuguesa pensa em desistir de procurar o amor e o prazer, pois tudo é vaidade, o que nos remete ao livro bíblico, o Eclesiastes.
Gregório de Matos Guerra
Discreta e formosíssima Maria,
Enquanto estamos vendo a qualquer hora
Em tuas faces a rosada Aurora,
Em teus olhos, e boca o Sol, e o dia:
Enquanto com gentil descortesia
O ar, que fresco Adônis te namora,
Te espalha a rica trança voadora,
Quando vem passear-te pela fria:
Goza, goza da flor da mocidade,
Que o tempo trota a toda ligeireza,
E imprime em toda a flor sua pisada.
Oh não aguardes, que a madura idade
Te converta essa flor, essa beleza
Em terra, em cinza, em pó, em sombra, em nada.

F. Espanca
Tudo é vaidade neste mundo vão…
Tudo é tristeza, tudo é pó, é nada!
E mal desponta em nós a madrugada,
Vem logo a noite encher o coração!
Até o amor nos mente, esta canção
Que o nosso peito ri à gargalhada,
Flor que é nascida e logo desfolhada,
Pétalas que se pisam pelo chão!…
Beijos de amor! Pra quê?! … Tristes vaidades!
Sonhos que logo são realidades,
Que nos deixam a alma como morta!
Só neles acredita quem é louca!
Beijos de amor que vão de boca em boca,
Como pobres que vão de porta em porta!…

Minha cara
de Ricardo Costa
Suas curvas escorrem
Por belezas leves
Seus olhos verdes
Nariz delicado e esbelto
Rosto que me faz gosto
Seu corpo naveguei
Como encosto do meu corpo
Das bordas às solas contornei
Sua pele fina, clara e rara
Acariciei e amei
Ara meu coração
Que me leva a ação
Sua alma alegre
Minha estepe
Sua simpatia
Minha guia
Com todo carinho
Fez este ninho
Não sou melhor
Nem o pior
Sou o padrão do tanto
Sou o que sou
Mas estou onde estou
Desde que começou
Entre certos e errados
A vida nos levou
E tudo juntou.

de Ricardo Costa
Eu quero chuva
Chuva molhada
Quero um céu
Pesado e cinza
Que me dê esperanças
De que mais chuva virá
Muita, mas muita água
Quero que molhe
Quero que lave
Quero ver poças refletidas
Numa tênue claridade
Quero acordar
E ver que choveu
Noite inteira sem parar
E se possível
Ao acordar que ainda chova
Chuva contínua
Nada de sol triturando
Meu espírito não bate com o sol
Está mais para o griset
Que conviva com
A solidão doce que sinto
Não quero gente
Gente cansa
E já estou muito cansado
Olho para trás e
Penso que tenho direito
Ao cansaço pois já
Vi tantos céus
Vi horizontes
Noites e dias
Vivi noites a sós
Enganando a mim
Quanta tolice
Tanto tempo correndo no nada
Para encontrar nada
Pura ilusão
E o tempo não ajuda
Corre muito
Muito mais do que posso sonhar
Quero então
Chuva úmida, suave
Caindo e batendo
Em minha janela
Chuva, só chuva caindo
De pingo pingado
Bem cadenciado
Com seu toque singelo
De gélido silêncio
Apenas silêncio
Silêncio.

Agora é verão,
Mas é primavera em meu coração!
Recolho safiras que caem dos céus.
Piso rubis que brotam pelas estradas.
Apanho esmeraldas espalhadas nos prados.
Douradas borboletas e libélulas,
Anjos de asas translúcidas,
Em meus ombros e braços vêm pousar.
À sua descuidada mãe, as devolvo.
Nos brilhantes cabelos, porém, duas ficam perdidas.
E, quando são descobertas,
De papel e espelho, tentam se disfarçar.
Thaís GM
Jacareí, 27 de janeiro de 2018

No imaginário ocidental o harém primeiro fascina pelo mistério. Com efeito, a compreensão lendária das culturas do Médio Oriente incorpora uma visão de mulheres isoladas e restritas, à disposição da lascívia de seu senhor. E ainda que, em tempos mais recentes, estudos, relatos e ações tenham adentrado as questões postas pela condição feminina em países de cultura islâmica, contudo a imagem de sedução e dominação associada ao harém perdura com resiliência perturbadora.
A historiadora Marina Soares procede a uma inovadora arqueologia desses conceitos, imagens e permanências. Ela percorre narrativas de viagens de europeus ao Império Otomano, Pérsia e Norte da África, publicadas em língua inglesa e francesa, remontando ao final do século XVI e prosseguindo até o final do século XVIII. Nesse cenário textual é possível seguir os rastros das representações do harém que ensejaram o imaginário de luxúria a compor a figuração das sociedades islâmicas. Dentre essas fontes cuidadosamente reunidas e analisadas, o último relato, publicado em 1791, destaca a experiência médica de um viajante inglês em dois haréns do Reino de Marrocos. Trata-se de documento privilegiado que permite recuperar nessa questão pontual o confronto das culturas: os pressupostos médicos europeus encontram as práticas médicas mouras – um encontro de perplexidades e trocas que a argúcia da investigadora traz à luz com fina maestria.
O tema é muito pouco explorado pela pesquisa acadêmica sobre o Oriente, em geral mais voltada para estudos que, de alguma forma, possam instruir as questões políticas do presente. E, contudo, é na longa duração que a economia dos costumes enreda pacientemente o tecido da cultura – urdidura que dá sentido aos acontecimentos que convocam a atenção para as relações entre os povos.
Este livro propicia o delicado desenlace dos atados mais profundos de nossa simbologia sobre o harém, um mistério desvelado como uma ficção instigante que nos convida a mirar em espelho nossas próprias quimeras.
Sara Albieri
Professora Titular de História FFLCH USP
Autora:
Marina de Oliveira Soares possui bacharelado e licenciatura em História pela Universidade de São Paulo, com Mestrado em “Língua, Literatura e Cultura Árabe” e Doutorado em História Social, ambos na FFLCH USP.
