Autor de ‘As Aventuras de Pi’ é suspeito de plagiar brasileiro

da Livraria da Folha

Yann Martel, autor de “As Aventuras de Pi”, livro que inspirou o filme indicado ao Oscar (“Life of Pi”), é suspeito de ter plagiado a história de “Max e os Felinos”, de Moacyr Scliar (1937-2011).

Divulgação

História de um náufrago e uma fera num minúsculo barco no meio do oceano
Divulgação

História de um náufrago e uma fera num minúsculo barco no meio do oceano

Essa história começou quando o título recebeu o prêmio Booker de 2002. Na época, a imprensa suspeitou de plágio.

Mais de dez anos depois –temendo que a lendária “memória curta” dos brasileiros tenha algum fundamento–, vale relembrar o episódio.

Em “As Aventuras de Pi”, um adolescente indiano, filho do dono de um zoológico, acaba em um bote após um naufrágio. Um tigre-de-bengala –que aparece na capa do livro– faz companhia ao protagonista.

Em “Max e os Felinos”, um jovem alemão, que está fugindo do nazismo num navio que transporta animais, acaba em um bote após um naufrágio. Um jaguar –que aparece na capa do livro– faz companhia ao protagonista.

Médico e escritor

Moacyr Jaime Scliar nasceu em Porto Alegre (RS), no Bom Fim, bairro judaico da cidade. Alfabetizado pela mãe, uma professora primária, Scliar cursou medicina na Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Autor de mais de 70 livros e colunista da Folha, o gaúcho escreveu de romances a crônicas, de literatura infantil a ensaios sobre história.

Passou a integrar a Academia Brasileira de Letras (ABL) em 2003. Recebeu prêmios Jabuti em 1988, 1993, 2000 e 2009. Scliar morreu no dia 27 de fevereiro de 2011, aos 73, no Hospital das Clínicas de Porto Alegre, onde estava internado.

Eleito em 2002 pelo National Yiddish Book Center, dos Estados Unidos, um dos cem melhores livros de temática judaica escritos nos últimos 200 anos, “O Centauro no Jardim” é um romance sobre uma família judia na qual nasce um ser metade homem, metade cavalo.

Leia trecho da introdução ao livro “Max e os Felinos” escrita após as denúncias.

Atenção: o texto reproduzido abaixo mantém a ortografia original do livro e não está atualizado de acordo com as regras do Novo Acordo Ortográfico. Conheça o livro “Escrevendo pela Nova Ortografia”.

*

INTRODUÇÃO
Moacyr Scliar

O Destino ainda bate à porta, claro, mas nesta época de comunicações instantâneas prefere o telefone. Na tarde de 30 de outubro de 2002, voltando para casa cansado de uma viagem, recebi uma ligação. Era uma jornalista do jornal O Globo, dando-me uma notícia que, a princípio, não entendi bem: parece que um escritor tinha ganho, na Europa, um prêmio importante com um livro baseado em um texto meu.

Minha primeira reação foi de estranheza: um escritor, e do chamado Primeiro Mundo, copiando um autor brasileiro? Copiando a mim? Ela se ofereceu para me dar mais detalhes, o que foi feito em telefonemas seguintes, e assim aos poucos fui mergulhando no que se revelaria, nos dias seguintes, um verdadeiro torvelinho, uma experiência pela qual eu nunca havia passado.

Sim, um escritor canadense chamado Yann Martel havia recebido, na Inglaterra, o prestigioso prêmio Booker, no valor de 55 mil libras esterlinas, conferido anualmente a autores do Common wealth britânico ou da República da Irlanda (entre outros: Ian McEwan, Michael Ondaatje, Kingsley Amis, J.M.Coetzee, Salman Rushdie, Iris Mur doch). Sim, ele dizia que havia se baseado em um livro meu, Max e os felinos, publicado no Brasil em 1981, pela L&PM (Porto Alegre), e traduzido poucos anos depois nos Estados Unidos como Max and the Cats (New York, Ballantine Books, 1990) e na França como Max et les Chats (Paris, Presses de la Renais sance, 1991). É uma pequena novela que escrevi com grande prazer – lembro-me de um fim de semana na serra gaúcha em que matraqueava animado a máquina de escrever, em todos os minutos em que não estava cuidando de meu filho, ainda pequeno.

Minha primeira reação não foi de contrariedade.

Ao contrário, de alguma forma senti-me envaidecido por ter alguém se entusiasmado pela idéia tanto quanto eu próprio me entusiasmara. Mas havia, na notícia, um componente desagradável e estranho, tão estranho quanto desagradável. Yann Martel não tinha, segundo suas declarações, lido a novela. Tomara conhecimento dela através de uma resenha do escritor John Updike para o New York Times, resenha desfavorável, segundo ele.

Esta afirmativa me perturbou. Max and the Cats não chegou a ser um best-seller, mas os artigos sobre o livro, que me haviam sido enviados pela editora, eram favoráveis – inclusive o do New York Times, assinado por Herbert Mitgang. Teria Updike escrito uma outra resenha – para o mesmo jornal? Se era esse o caso, por que eu não a recebera? Será que os editores só mandavam resenhas favoráveis?

À afirmativa seguia-se um comentário de Martel. Uma pena, dizia ele, que uma idéia boa tivesse sido estragada por um escritor menor. Mas, em seguida, levantava uma outra hipótese: e se eu não fosse um escritor menor? E se Updike tivesse se enganado? De qualquer maneira a idéia principal do livro serviu-lhe de ponto de partida para sua obra The Life of Pi. E qual é essa idéia?

O Max Schmidt de meu livro é um jovem alemão que está fugindo do nazismo e que embarca para o Brasil. O navio em que viaja, um velho cargueiro, transporta também animais de um zoológico. Há um naufrágio, criminoso, mas Max salva-se em um escaler. E de repente sobe a bordo um sobrevivente inesperado e ameaçador: um jaguar. Começa então a segunda parte da novela, que tem como título O jaguar no escaler.

Esta, a idéia que motivou Martel. O seu personagem, Piscine Molitor Patel, Pi, é um menino hindu cujo pai é dono de um zoológico. A família emigra para o Canadá, levando os animais a bordo. Há, na segunda parte do livro, um naufrágio (que depois será considerado criminoso). Pi salva-se. No mesmo barco estão um tigre de Bengala, um orangotango e uma zebra. O tigre liquida os três e Pi fica à deriva com o felino por mais de duzentos dias.

O texto de Martel é diferente do texto de Max e os felinos. Mas o leitmotiv é, sim, o mesmo. E aí surge o embaraçoso termo: plágio.

Embaraçoso não para mim, devo dizer logo. Na verdade, e como disse antes, o fato de Martel ter usado a idéia não chegava a me incomodar. Incomodava-me a suposta resenha e também a maneira pela qual tomei conheci mento do livro. De fato, não fosse o prêmio, eu talvez nem ficasse sabendo da existência da obra. No lugar de Martel eu procuraria avisar o autor. Aliás, foi o que fiz, em outra circunstância. Meu livro A mulher que escreveu a Bíblia teve como ponto de partida uma hipótese levantada pelo famoso scholar norte-americano Harold Bloom segundo a qual uma parte do Antigo Testamento poderia ter sido escrita por uma mulher, à época do rei Salomão. Tratava-se, contudo, de um trabalho teórico. Mesmo assim, coloquei o trecho de Bloom como epígrafe do livro – que enviei a ele (nunca respondeu – nem sei se recebeu -, mas eu cumpri minha obrigação). Martel agiu de maneira diferente. No prefácio, em que agradece a muitas pessoas, atribui a “fagulha da vida” (“the spark of life“) que o motivou a mim. Mas não entra em detalhes, não fala em Max e os felinos.

*

“Max e os Felinos”
Autor: Moacyr Scliar
Editora: L&PM
Páginas: 128
Quanto: R$ 13,90 (preço promocional*)
Onde comprar: pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Livraria da Folha

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques. Não cumulativo com outras promoções da Livraria da Folha. Em caso de alteração, prevalece o valor apresentado na página do produto.

Texto baseado em informações fornecidas pela editora/distribuidora da obra.

Ler poesia é mais útil para o cérebro que livros de autoajuda, dizem cientistas

John Donne, one of the most famous Metaphysica...

John Donne, one of the most famous Metaphysical Poets. (Photo credit: Wikipedia)

Elizabeth Barrett Browning - Project Gutenberg...Elizabeth Barrett Browning – Project Gutenberg eText 16786 (Photo credit: Wikipedia)

PUBLICADO NA FOLHA DE SÃO PAULO

Ler autores clássicos, como Shakespeare, William Wordsworth e T.S. Eliot, estimula a mente e a poesia pode ser mais eficaz em tratamentos do que os livros de autoajuda, segundo um estudo da Universidade de Liverpool publicado nesta terça-feira (15).

Especialistas em ciência, psicologia e literatura inglesa da universidade monitoraram a atividade cerebral de 30 voluntários que leram primeiro trechos de textos clássicos e depois essas mesmas passagens traduzidas para a “linguagem coloquial”.

Reprodução
O poeta Thomas Stearns Eliot
O poeta Thomas Stearns Eliot

Os resultados da pesquisa, antecipados pelo jornal britânico “Daily Telegraph”, mostram que a atividade do cérebro “dispara” quando o leitor encontra palavras incomuns ou frases com uma estrutura semântica complexa, mas não reage quando esse mesmo conteúdo se expressa com fórmulas de uso cotidiano.

Esses estímulos se mantêm durante um tempo, potencializando a atenção do indivíduo, segundo o estudo, que utilizou textos de autores ingleses como Henry Vaughan, John Donne, Elizabeth Barrett Browning e Philip Larkin.

Os especialistas descobriram que a poesia “é mais útil que os livros de autoajuda”, já que afeta o lado direito do cérebro, onde são armazenadas as lembranças autobiográficas, e ajuda a refletir sobre eles e entendê-los desde outra perspectiva.

“A poesia não é só uma questão de estilo. A descrição profunda de experiências acrescenta elementos emocionais e biográficos ao conhecimento cognitivo que já possuímos de nossas lembranças”, explica o professor David, encarregado de apresentar o estudo.

Após o descobrimento, os especialistas buscam agora compreender como afetaram a atividade cerebral as contínuas revisões de alguns clássicos da literatura para adaptá-los à linguagem atual, caso das obras de Charles Dickens.

A Estante Deslocada III

Rafael F. Carvalho

         A vida se resume a momentos, simples como um dia que se vive bem, quando as horas passam sem percebê-las. Não quero a felicidade contínua, desejo um dia em que eu possa dizer: “hoje foi um dia bem vivido”. Se tudo fosse tão fácil assim! Quero que as semanas e os dias sejam plenos. Que tristeza procurar o impossível… trato eu de viver o dia com completude, pois o futuro está programado com a ressalva de saber que sou um homem de momentos. Sou um homem de momentos e realizo-me nas sementes que planto diariamente. Se alguém oferece algo, sem eu saber de nada, aceito de imediato. Se alguém oferece algo daqui a anos-luz, aceito de imediato igualmente. Sou um homem de imediatismos e programação, ambos sentam na mesma mesa como a coisa mais diária possível, fartando-se igualmente. Há dias em que alguns minutos valem por toda a vida e isso vale. Posso andar semanas em desertos monótonos para ver apenas uma pequena palmeira, posso navegar semanas em oceanos monótonos para chegar a uma ilha e nela permanecer poucas horas. Tenho apreço à gota d’água que cai no lago, mais que a um imenso diamante. Quando percebo, pequenas pedras brilhantes escorrem das árvores que plantei e o meu passado brilha com uma força descomunal.

2742123534_b203a40e38