Bizarro

Dói tanto em mim a dor da sua solidão,

Dói tanto, que se, para si,

Tomasse outra pessoa qualquer,

Através dela, sentiria que estamos

juntos numa perfeita comunhão.

 

Como gêmeos siameses que habitam o mesmo corpo

Ou entidade que incorpora alguém,

através dela, moveria meu ser

E sentiria que você me possui também.

 

Ao sentir essa mulher,

Porque serei uma, se lhe convêm,

Formaríamos uma fraternidade,

Uma santíssima trindade

tão sagrada, que todos teriam de dizer amém.

Até mesmo você, que não acredita em ninguém…

 

Godoy

24-09-2012

FoujitaCafe

 

Pressagiando

Thaís GM

Encontro fúnebre entre o Sim e o Não.

Não tarda a chacina dos lírios do campo.

Não tarda o terremoto a aplanar

A montanha do sermão.

 

Tranquilamente se torce a trama,

Caretas transidas de compaixão.

Treme e trança a turba agora enfurecida

Em espasmos convulsos e roucos.

Barafunda de iagos pisoteados

Por manada de unicórnios prata.

Sarabanda sacrossanta e temerária.

 

Queres ver os estilhaços dos vasos

Salpicados de esperanças?

Sabes que a prisão dá vida

Àquele que não tem para onde ir?

Nos prados, as presas dos gatos

Dominam o mundo pressagiando.

DanteDali
“Corrupt” de Salvador Dali, ilustração da divina Comédia de Dante

 

Ismália

Alphonsus (1)

 

Alphonsus de Guimaraens

 

 

Quando Ismália enlouqueceu
Pôs-se na torre a sonhar
Viu uma lua no céu
Viu outra lua no mar
No sonho em que se perdeu
Banhou-se toda em luar
Queria subir ao céu
Queria descer ao mar
E num desvario seu
Na torre pôs-se a cantar
Estava perto do céu
Estava longe do mar
E como um anjo pendeu
As asas para voar
Queria a lua do céu
Queria a lua do mar
As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par
Sua alma subiu ao
Seu corpo desceu ao mar.

 

Cruz e Sousa, Mallarmé e Stefan George

Para Roger Bastide, Cruz e Sousa, Mallarmé e Stefan George formam a tríade suprema do movimento simbolista universal. Bastide, porém, dá visível  preeminência nessa tríade ao poeta dos Últimos Sonetos. Os críticos Ventura Garcia Caldeiron, Juan Más y Pi e Júlio Noé afirmam que Cruz e Sousa é um dos maiores poetas do mundo em qualquer tempo e lugar.

Obras:

Broquéis

É uma procura da expressão definitiva e do definitivo sentimento do mundo, que mais tarde atingiria o poeta.  É a dor de ser negro que se exprime de maneira audaciosa e renovadora forma de expressão. Em cada poema vê-se as arrancadas do poeta que busca ultrapassar as formas parnasianas, através de formas novas, ritmos e símbolos essenciais. Forma e conteúdo são um todo que exprimem ideações, desejos anelos que estavam muito além da dor de ser negro.

Antífona

Faróis

Amina Mea

Litania dos Pobres

Últimos sonetos

Poet Stefan George (1910)
Poet Stefan George (1910) (Photo credit: Wikipedia)

English: French writer Stephane Mallarme

Painting of João da Cruz e Sousa (1861 - 1898)...

Litania dos pobres

Os miseráveis, os rotos
São as flores dos esgotos.
São espectros implacáveis
Os rotos, os miseráveis.

São prantos negros de furnas
Caladas, mudas, soturnas.

São os grandes visionários
Dos abismos tumultuários.

As sombras das sombras mortas,
Cegos, a tatear nas portas.

Procurando o céu, aflitos
E varando o céu de gritos.

Faróis a noite apagados
Por ventos desesperados.

Inúteis, cansados braços
Pedindo amor aos Espaços.

Mãos inquietas, estendidas
Ao vão deserto das vidas.

Figuras que o Santo Ofício
Condena a feroz suplício.

Arcas soltas ao nevoento
Dilúvio do Esquecimento.

Perdidas na correnteza
Das culpas da Natureza.

Ó pobres! Soluços feitos
Dos pecados imperfeitos!
Arrancadas amarguras
Do fundo das sepulturas.

Imagens dos deletérios,
Imponderáveis mistérios.

Bandeiras rotas, sem nome,
Das barricadas da fome.

Bandeiras estraçalhadas
Das sangrentas barricadas.

Fantasmas vãos, sibilinos
Da caverna dos Destinos!
O pobres! o vosso bando
É tremendo, é formidando!
Ele já marcha crescendo,
O vosso bando tremendo…

Ele marcha por colinas,
Por montes e por campinas.

Nos areiais e nas serras
Em hostes como as de guerras.

Cerradas legiões estranhas
A subir, descer montanhas.

Como avalanches terríveis
Enchendo plagas incríveis.

Atravessa já os mares,
Com aspectos singulares.

Perde-se além nas distâncias
A caravana das ânsias.

Perde-se além na poeira,
Das Esferas na cegueira.

Vai enchendo o estranho mundo
Com o seu soluçar profundo.

Como torres formidandas
De torturas miserandas.

E de tal forma no imenso
Mundo ele se torna denso.

E de tal forma se arrasta
Por toda a região mais vasta.

E de tal forma um encanto
Secreto vos veste tanto.

E de tal forma já cresce
O bando, que em vós parece.

Ó Pobres de ocultas chagas
Lá das mais longínquas plagas!
Parece que em vós há sonho
E o vosso bando é risonho.

Que através das rotas vestes
Trazeis delícias celestes.

Que as vossas bocas, de um vinho
Prelibam todo o carinho…

Que os vossos olhos sombrios
Trazem raros amavios.

Que as vossas almas trevosas
Vêm cheias de odor das rosas.

De torpores, d’indolências
E graças e quint’essências.

Que já livres de martírios
Vêm festonadas de lírios.

Vem nimbadas de magia,
De morna melancolia!
Que essas flageladas almas
Reverdecem como palmas.

Balanceadas no letargo
Dos sopros que vem do largo…

Radiantes d’ilusionismos,
Segredos, orientalismos.

Que como em águas de lagos
Bóiam nelas cisnes vagos…

Que essas cabeças errantes
Trazem louros verdejantes.

E a languidez fugitiva
De alguma esperança viva.

Que trazeis magos aspeitos
E o vosso bando é de eleitos.

Que vestes a pompa ardente

 

Painting of João da Cruz e Sousa (1861 - 1898)...
Painting of João da Cruz e Sousa (1861 – 1898), brazilian poet (Photo credit: Wikipedia)

 
Do velho Sonho dolente.

Que por entre os estertores
Sois uns belos sonhadores.

Cruz e Souza