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Universo espelhado

Mais estranho que a ficção
Novas experiências revelam indícios de um mundo e uma realidade que são reflexos completos dos nossos. Este universo espelhado pode ser capaz de resolver o mistério da matéria escura do universo.
A física Leah Broussard está “em busca de um universo que seja idêntico ao nosso, mas invertido de modo a conter átomos espelhados, moléculas espelhadas, estrelas e planetas espelhados e até mesmo a vida espelhada”, segundo um fascinante artigo na New Scientist dos trabalhos de Broussard.
“Se existir, formaria uma bolha de realidade aninhada no tecido do espaço e do tempo ao lado de nosso próprio universo familiar, com algumas partículas capazes de alternar entre os dois.”
De maneira tentadora, a teoria poderia explicar a matéria escura — a substância não observada aqui que, baseada em observações de efeitos gravitacionais, os cientistas acreditam que é responsável por grande parte do universo.
A ideia — reforçada, acredita Broussard, por experimentos com nêutrons — é que algumas partículas podem ser capazes de passar de um lado para o outro entre o nosso universo e o espelhado.
Matéria completa no link: https://socientifica.com.br/2019/06/08/universo-espelhado/
Viver poeticamente traz felicidade
A poesia da vida – Edgar Morin
Liberato
Zeus, por favor, me cubra;
Por piedade me cubra com seu manto protetor no frio!
No calor me cubra com sua chuva refrescante.
Nas viagens me cubra com suas acolhedoras penas.
Por favor, por amor me proteja de toda a dor, de todo mal.
Senão juro, por Juno, enlouquecerei e sairei rumo ao Oriente desnudo
Até mil lobos me estraçalharem,
Como minhas seguidoras fizeram a Orfeu
Ou talvez não.
Talvez seja curado por Cybelle.
Talvez meu vinho embebede as turbas.
Talvez triunfe sobre Tebas,
Talvez fique e desfile pelas avenidas no carnaval
E crie o drama, a tragédia e a comédia.
Amém!

Embriague-se
Charles Baudelaire
É preciso estar sempre embriagado. Aí está: eis a única questão. Para não sentirem o fardo horrível do Tempo que verga e inclina para a terra, é preciso que se embriaguem sem descanso.
Com quê? Com vinho, poesia ou virtude, a escolher. Mas embriaguem-se.
E se, porventura, nos degraus de um palácio, sobre a relva verde de um fosso, na solidão morna do quarto, a embriaguez diminuir ou desaparecer quando você acordar, pergunte ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo que flui, a tudo que geme, a tudo que gira, a tudo que canta, a tudo que fala, pergunte que horas são; e o vento, a vaga, a estrela, o pássaro, o relógio responderão: É hora de embriagar-se!
Para não serem os escravos martirizados do Tempo, embriaguem-se; embriaguem-se sem descanso. Com vinho, poesia ou virtude, a escolher.

Se te amei um dia
_Num dia, venci este teu jogo atroz.
Se te amei um dia, foi porque,
quando falavas com a boca cheia de alegria,
Iluminavas todos os meus dias.
Se te amei um dia, foi porque,
quando me beijavas e falavas de poesia,
Tua boca me afogava em lascívia.
Foi porque, atrás de fragilidades, vi tua força.
Foi porque, de trás da máscara, escapou um pouco da tua essência magnífica.
E vi nobreza, e vi falta de malícia, e vi a lua cheia escondida
E passei a persegui-la.
Por uma brecha, vi um lago plácido, atrás de tanta correria.
Vi teu ser todo completo, pelo vão da cortina do teu palco da agonia.
Porque, por uma fresta, vislumbrei o futuro.
Vislumbrei o Grande Homem que você seria um dia.
Se te amei um dia, foi porque você me ofereceu
Matéria bruta para a minha poesia.

Como é por dentro outra pessoa
Fernando Pessoa
Como é por dentro outra pessoa
Quem é que o saberá sonhar?
A alma de outrem é outro universo
Como que não há comunicação possível,
Com que não há verdadeiro entendimento.
Nada sabemos da alma
Senão da nossa;
As dos outros são olhares,
São gestos, são palavras,
Com a suposição de qualquer semelhança
No fundo.

À Palestina
À Palestina, o sangue, que jorra das veias de seu povo, É esquecido, é ignorado. Até quando fingiremos que tudo é normal? Até quando viraremos as costas àqueles que sofrem de um grande mal? “Assim caminha a humanidade”, uns dizem. Outros permanecem calados, Enquanto seus filhos se esquivam da morte, sem Saber se seus passos serão lembrados. Todos eles serão só números quantificados? Alguns ainda virarão teses de doutorado, Mas sem nome, sem lar, nem água nem chão, Todos seus filhos serão prisioneiros em seu próprio torrão? E todos nós sem sentir vergonha por deixar que isso aconteça a um irmão? Godoy 11-07-2012

O Amor, Meu Amor
O Amor, Meu amor
Mia Couto
Nosso amor é impuro
como impura é a luz e a água
e tudo quanto nasce
e vive além do tempo.
Minhas pernas são água,
as tuas são luz
e dão a volta ao universo
quando se enlaçam
até se tornarem deserto e escuro.
E eu sofro de te abraçar
depois de te abraçar para não sofrer.
E toco-te
para deixares de ter corpo
e o meu corpo nasce
quando se extingue no teu.
E respiro em ti
para me sufocar
e espreito em tua claridade
para me cegar,
meu Sol vertido em Lua,
minha noite alvorecida.
Tu me bebes
e eu me converto na tua sede.
Meus lábios mordem,
meus dentes beijam,
minha pele te veste
e ficas ainda mais despida.
Pudesse eu ser tu
E em tua saudade ser a minha própria espera.
Mas eu deito-me em teu leito
Quando apenas queria dormir em ti.
E sonho-te
Quando ansiava ser um sonho teu.
E levito, voo de semente,
para em mim mesmo te plantar
menos que flor: simples perfume,
lembrança de pétala sem chão onde tombar.
Teus olhos inundando os meus
e a minha vida, já sem leito,
vai galgando margens
até tudo ser mar.
Esse mar que só há depois do mar.

No livro “Idades cidades divindades”
Deus! ó Deus! onde estás que não respondes? Há dois mil anos te mandei meu grito
Sírios de Alepo se despedem da vida pelas redes sociais: população é dizimada pelo governo***. Esse horripilante adeus me fez lembrar do terrível apelo de Castro Alves a Deus para interceder contra os horrores da escravidão no poema Vozes d’África.
*** Mais recentemente obtive a informação de que esses vídeos são falsos, são propagandas de agentes americanos inconformados com a vitória das forças do governo que livrou Alepo de grupos de mercenários financiados pela Arábia Saudita, pelos EUA, e de grupos terroristas como Alcaida. Alguns analistas argumentam que o verdadeiro e legítimo levante de rebeldes contra a ditadura foi “sequestrado” por terroristas e mercenários estrangeiros que aterrorizaram parte população que apoiava Assad e persegue grupos minoritários de outras religiões como os cristãos. As evidências dessa propaganda são os seguintes fatos:
-Alepo não tem nem luz nem água nem pode obviamente ter Internet de banda larga, portanto os vídeos não foram gravados e enviados de lá como afirmam as pessoas que os divulgaram.
-Um dos supostos moradores de Alepo fala, sem nenhum sotaque árabe, o inglês americano.
– O mais revoltante é constatar que esses grupos, sejam eles quem forem, destroem Alepo há anos sem que a Comunidade Internacional se importe com isso, mas bastou o governo retomar a cidade para libertá-la, uma onda dessas falsas notícias passou a nos bombardear pelas redes sociais.Isso não justifica também a imensa violência do regime de Assad. Não importa se quem ataca a Síria são rebeldes, mercenários, terroristas, nada justifica atacar hospitais ou a rede de abastecimento de água, crimes gravíssimos em qualquer guerra ou revolução. Não podemos nos esquecer de que os americanos apoiam esses monstros.(ATUALIZADO EM 31-12-2016)
Alerta para falsas notícias:
Vozes d’África
Deus! ó Deus! onde estás que não respondes?
Em que mundo, em qu’estrela tu t’escondes
Embuçado nos céus?
Há dois mil anos te mandei meu grito,
Que embalde desde então corre o infinito…
Onde estás, Senhor Deus?…
Qual Prometeu tu me amarraste um dia
Do deserto na rubra penedia
– Infinito: galé! …
Por abutre – me deste o sol candente,
E a terra de Suez – foi a corrente
Que me ligaste ao pé…
O cavalo estafado do Beduíno
Sob a vergasta tomba ressupino
E morre no areal.
Minha garupa sangra, a dor poreja,
Quando o chicote do simoun dardeja
O teu braço eternal.
Minhas irmãs são belas, são ditosas…
Dorme a Ásia nas sombras voluptuosas
Dos haréns do Sultão.
Ou no dorso dos brancos elefantes
Embala-se coberta de brilhantes
Nas plagas do Hindustão.
Por tenda tem os cimos do Himalaia…
Ganges amoroso beija a praia
Coberta de corais …
A brisa de Misora o céu inflama;
E ela dorme nos templos do Deus Brama,
– Pagodes colossais…
A Europa é sempre Europa, a gloriosa! …
A mulher deslumbrante e caprichosa,
Rainha e cortesã.
Artista – corta o mármor de Carrara;
Poetisa – tange os hinos de Ferrara,
No glorioso afã! …
Sempre a láurea lhe cabe no litígio…
Ora uma c’roa, ora o barrete frígio
Enflora-lhe a cerviz.
Universo após ela – doudo amante
Segue cativo o passo delirante
Da grande meretriz.
Mas eu, Senhor!… Eu triste abandonada
Em meio das areias esgarrada,
Perdida marcho em vão!
Se choro… bebe o pranto a areia ardente;
talvez… p’ra que meu pranto, ó Deus clemente!
Não descubras no chão…
E nem tenho uma sombra de floresta…
Para cobrir-me nem um templo resta
No solo abrasador…
Quando subo às Pirâmides do Egito
Embalde aos quatro céus chorando grito:
“Abriga-me, Senhor!…”
Como o profeta em cinza a fronte envolve,
Velo a cabeça no areal que volve
O siroco feroz…
Quando eu passo no Saara amortalhada…
Ai! dizem: “Lá vai África embuçada
No seu branco albornoz. . . ”
Nem vêem que o deserto é meu sudário,
Que o silêncio campeia solitário
Por sobre o peito meu.
Lá no solo onde o cardo apenas medra
Boceja a Esfinge colossal de pedra
Fitando o morno céu.
De Tebas nas colunas derrocadas
As cegonhas espiam debruçadas
O horizonte sem fim …
Onde branqueia a caravana errante,
E o camelo monótono, arquejante
Que desce de Efraim
Não basta inda de dor, ó Deus terrível?!
É, pois, teu peito eterno, inexaurível
De vingança e rancor?…
E que é que fiz, Senhor? que torvo crime
Eu cometi jamais que assim me oprime
Teu gládio vingador?!
Foi depois do dilúvio… um viadante,
Negro, sombrio, pálido, arquejante,
Descia do Arará…
E eu disse ao peregrino fulminado:
“Cão! … serás meu esposo bem-amado…
– Serei tua Eloá. . . ”
Desde este dia o vento da desgraça
Por meus cabelos ululando passa
O anátema cruel.
As tribos erram do areal nas vagas,
E o Nômada faminto corta as plagas
No rápido corcel.
Vi a ciência desertar do Egito…
Vi meu povo seguir – Judeu maldito –
Trilho de perdição.
Depois vi minha prole desgraçada
Pelas garras d’Europa – arrebatada –
Amestrado falcão! …
Cristo! embalde morreste sobre um monte
Teu sangue não lavou de minha fronte
A mancha original.
Ainda hoje são, por fado adverso,
Meus filhos – alimária do universo,
Eu – pasto universal…
Hoje em meu sangue a América se nutre
Condor que transformara-se em abutre,
Ave da escravidão,
Ela juntou-se às mais… irmã traidora
Qual de José os vis irmãos outrora
Venderam seu irmão.
Basta, Senhor! De teu potente braço
Role através dos astros e do espaço
Perdão p’ra os crimes meus!
Há dois mil anos eu soluço um grito…
escuta o brado meu lá no infinito,
Meu Deus! Senhor, meu Deus!!…
Alegria!
Alegria Não se desesperem com as PECs no meio do caminho, com a alta do dólar, com a perda dos salários, com a falta de trabalho com a corrupção, com os privilégios dos políticos, dos ricos, dos magistrados com a morte da poesia com a vitória de um imbecil. Não se desesperem se todos lhes disserem: "Queridas, vocês são mercadoria e o meu brado é varonil" Não se desesperem se um dia perceberem que o céu não é mais anil. Não se desesperem com a agonia das crianças na Síria e dos índios do Brasil Apesar de tudo e contra tudo: ALEGRIA!
Asa de beija-flor
Silvio Rodrigues
Hoje eu me proponho fundar um partido de sonhos,
oficinas onde consertar asas de beija-flores
Admitem-se loucos, enfermos, gordos sem amor,
tolhidos, anões, vampiros e dias sem sol.
Hoje eu vou patrocinar a candura desenganada,
essa massa crítica de Deus que não é pós e nem moderna.
Admite-se proscritos, raivosos, povos sem lar,
desaparecidos devedores do banco mundial.
Por uma rua
descascada
por uma mão
bem apertada.
Hoje eu vou fazer uma assembléia de flores murchas,
de restos de festa infantil, de pinhatas usadas,
de almas penadas -do reino do natural-
que otorgam licença à qualquer artefato de amar.
Pelo levante,
pelo poente,
pelo desejo,
pela semente.
por tanta noite,
pelo sol diário,
em companhia
e em solitário.
Asa de beija-flor,
leve e pura.
Asa de beija-flor
para a cura.

A voz dos Botequins
VERLAINE
A voz dos botequins, a lama das sarjetas,
os plátanos largando no ar as folhas pretas,
o ônibus, furacão de ferragens e lodo,
que entre as rodas se empina e desengonça todo,
lentamente, o olhar verde e vermelho rodando,
Operários que vão para o grêmio fumando
cachimbo sob o olhar de agentes de polícia,
paredes e beirais transpirando imundícia,
a enxurrada entupindo o esgoto, o asfalto liso,
eis meu caminho _ mas no fim há um paraíso.
(A voz dos botequins e outros poemas, trad. Guilherme de Almeida)