Sonho de Verão

Agora é verão,
Mas é primavera em meu coração!
Recolho safiras que caem dos céus.
Piso rubis que brotam pelas estradas.
Apanho esmeraldas espalhadas nos prados.

Douradas borboletas e libélulas,
Anjos de asas translúcidas,
Em meus ombros e braços vêm pousar.

À sua descuidada mãe, as devolvo.
Nos brilhantes cabelos, porém, duas ficam perdidas.
E, quando são descobertas,
De papel e espelho, tentam se disfarçar.

Thaís GM

 

Jacareí, 27 de janeiro de 2018

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A Doutrina do Choque – A Ascensão do Capitalismo do Desastre

Fridmann, o economista que defendeu o capitalismo neoliberal, e suas ideias são considerados os responsáveis pelas crises econômicas dos últimos 40 anos. Inclusive pelo crash de 2008, pela qual nenhum responsável foi preso. Apesar de defender a não intervenção do estado na economia, as empresas de seguro aceitaram dinheiro do governo para cobrir seu rombo e ainda ganharam bonificação. O lucro é privado, mas o investimento é público, porque o povo americano com seus impostos salvou essas empresas particulares.

As teorias econômicas de Fridmann, que eram consideradas loucuras após a crise de 1929, ganharam força na década de 1950, contudo recentemente foram descartadas por dois vencedores do prêmio Nobel, devido aos desastres econômicos que têm causado, mas os políticos ainda não estudaram o resultado catastrófico dessas teorias e continuam aplicando como se ainda estivéssemos na década de 1910. O laissez-faire fracassou várias vezes, o controle total do Estado também. No entanto, nenhum político fala em adotar um meio termo ou uma terceira via para solução das crises econômicas. Grécia, Portugal, Espanha, EUA são alguns dos países que quebraram recentemente, após a globalização que não trouxe o progresso prometido para a classe trabalhadora pelo menos.

Com esse documentário, chega-se à conclusão de que paz e capitalismo neoliberal são incompatíveis. O capitalismo precisa da guerra, precisa da crise, o que é trágico. Segue um resumo do livro “A Doutrina do Choque” (2009): documentário dirigido por M. Whitercross e M. Winterbottom, roteiro de Naomi Klein.Naomi Klein põe um fim ao mito de que o mercado livre global triunfou democraticamente. Expondo o modo de pensar, o rasto do dinheiro e os fios de marioneta por detrás das crises e guerras mundiais das últimas quatro décadas. “A Doutrina do Choque” é a história absorvente de como as políticas de “mercado livre” da América têm vindo a dominar o mundo – através da exploração de povos e países em choque devido a inúmeros desastres. Na conjuntura mais caótica da guerra civil do Iraque, é apresentada uma nova lei que permitiria à Shell e à BP reclamar para si as vastas reservas petrolíferas do país…

Imediatamente a seguir ao 11 de Setembro, a administração Bush concessiona, sem alarido, a gestão da “Guerra contra o Terror” à Halliburton e à Blackwater… Depois de um tsunami varrer as costas do sudeste asiático, as praias intocadas são leiloadas ao desbarato a resorts turísticos… Os residentes de Nova Orleães, espalhados pelo furacão Katrina, descobrem que as suas habitações sociais, os seus hospitais e as suas escolas jamais serão reabertas.

Estes acontecimentos são exemplos da “doutrina de choque”: o aproveitamento da desorientação pública no seguimento de enormes choques colectivos – guerras, ataques terroristas ou desastres naturais – para ganhar controlo impondo uma terapia de choque económica. Por vezes, quando os dois primeiros choques não são bem sucedidos em eliminar a resistência, é empregue um terceiro choque: o eléctrodo na cela da prisão ou a arma Taser nas ruas. Baseado em investigações históricas inovadoras e em quatro anos de relatos no terreno em zonas de desastre, “A Doutrina do Choque” mostra de forma vívida que o capitalismo de desastre – a rápida reorganização corporativa de sociedades que tentam recuperar do choque – não começou com o 11 de Setembro de 2001. O livro traça um percurso das suas origens que nos leva há cinquenta anos atrás, à Universidade de Chicago sob o domínio de Milton Friedman, que produziu muitos dos principais pensadores neoconservadores e neoliberais cuja influência, nos nossos dias, ainda é profunda em Washington. São estabelecidas novas e surpreendentes ligações entre a política económica, a guerra de “choque e pavor” e as experiências secretas financiadas pela CIA em electrochoques e privação sensorial na década de 1950, pesquisa essa que ajudou a escrever os manuais de tortura usados hoje na Baía de Guantanamo.
Jorge Fernandes

Avatar de GodoyPoética de Botequim

Com esse documentário, chega-se a conclusão de que paz e capitalismo neoliberal são incompatíveis. O capitalismo precisa da guerra, o que é trágico.

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O harém ao rés do chão

No imaginário ocidental o harém primeiro fascina pelo mistério. Com efeito, a compreensão lendária das culturas do Médio Oriente incorpora uma visão de mulheres isoladas e restritas, à disposição da lascívia de seu senhor. E ainda que, em tempos mais recentes, estudos, relatos e ações tenham adentrado as questões postas pela condição feminina em países de cultura islâmica, contudo a imagem de sedução e dominação associada ao harém perdura com resiliência perturbadora.

A historiadora Marina Soares procede a uma inovadora arqueologia desses conceitos, imagens e permanências. Ela percorre narrativas de viagens de europeus ao Império Otomano, Pérsia e Norte da África, publicadas em língua inglesa e francesa, remontando ao final do século XVI e prosseguindo até o final do século XVIII. Nesse cenário textual é possível seguir os rastros das representações do harém que ensejaram o imaginário de luxúria a compor a figuração das sociedades islâmicas. Dentre essas fontes cuidadosamente reunidas e analisadas, o último relato, publicado em 1791, destaca a experiência médica de um viajante inglês em dois haréns do Reino de Marrocos. Trata-se de documento privilegiado que permite recuperar nessa questão pontual o confronto das culturas: os pressupostos médicos europeus encontram as práticas médicas mouras – um encontro de perplexidades e trocas que a argúcia da investigadora traz à luz com fina maestria.

O tema é muito pouco explorado pela pesquisa acadêmica sobre o Oriente, em geral mais voltada para estudos que, de alguma forma, possam instruir as questões políticas do presente. E, contudo, é na longa duração que a economia dos costumes enreda pacientemente o tecido da cultura – urdidura que dá sentido aos acontecimentos que convocam a atenção para as relações entre os povos.

Este livro propicia o delicado desenlace dos atados mais profundos de nossa simbologia sobre o harém, um mistério desvelado como uma ficção instigante que nos convida a mirar em espelho nossas próprias quimeras.

Sara Albieri

Professora Titular de História FFLCH USP

 

Autora:

Marina de Oliveira Soares possui bacharelado e licenciatura em História pela Universidade de São Paulo, com Mestrado em “Língua, Literatura e Cultura Árabe” e Doutorado em História Social, ambos na FFLCH USP.

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Yale compra cartas de amor de Simone de Beauvoir a Claude Lanzmann

A universidade americana de Yale comprou as 112 cartas de amor escritas por Simone de Beauvoir a Claude Lanzmann, indicou nesta sexta-feira, 19, a casa de leilões Christie’s.

O valor da venda não foi informado.

Claude Lanzmann, de 92 anos, cineasta, jornalista e escritor, foi o secretário de Jean-Paul Sartre. Durante sete anos, entre 1952 e 1959, viveu com Simone de Beauvoir, 17 anos mais velha.

Estas cartas de um “amor louco”, segundo Lanzmann, “apenas diziam respeito a Simone de Beauvoir e a mim”, indicou em um texto transmitido pela Christie’s.

“Eu não pretendia mostrar (esta correspondência), em nenhuma forma de publicação”, acrescentou Lanzmann, que explicou ter vendido essas cartas à Universidade de Yale por causa da “escandalosa lei francesa” que enquadra a transmissão de legados e heranças da totalidade dos escritos de um autor “para parentes às vezes desconhecidos, ao mesmo tempo que rouba os verdadeiros destinatários dessa correspondência”.

“O conteúdo dessas cartas, de acordo com essa lei absurda, pertence a quem as escreve, mas nunca aos destinatários, a quem são dirigidos”, objetou Lanzmann.

Mas, acrescenta, o destinatário dessas cartas “tem o direito de cedê-las, esperando que o comprador possa publicá-las ou, pelo menos, preservá-las e permitir o acesso a historiadores e pesquisadores”.

“Foi o que acaba de acontecer felizmente com as 112 cartas que Simone de Beauvoir me enviou”, comemorou.

“A prestigiosa Universidade de Yale, que já possui manuscritos de Simone de Beauvoir e meus seminários, que cedi desde 1985, pode, com certeza, ter orgulho de ter comprado todas as cartas de Simone de Beauvoir a Claude Lanzmann, uma excepcional correspondência de amor única no mundo”, conclui.

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O brasileiro e o abismo

A melhor frase que ouvi recentemente sobre os brasileiros é de Teolinda Gersão, autora portuguesa do livro “A cidade de Ulisses”: mesmo diante do abismo, os brasileiros sorriem, ficam alegres, parecem pensar que são tão grandes que não caberão nele.

Se essa aparência reflete o que realmente sentimos, eu não sei. Acho que simplesmente não pensamos. A  maioria é inconsequente e prefere se drogar assistindo BBB ou usando outra distração qualquer, para não pensar no abismo, ao invés de tentar escapar dele.

Como o personagem kafkiano de A Metamorfose, que, ao se transformar em um inseto gigantesco, só consegue se preocupa se vai conseguir chegar ao trabalho na hora.

De qualquer forma, essa é uma bela frase, não é?

via “A cidade de Ulisses”, de Teolinda Gersão, é um prato cheio para o leitor amante de narrativas híbridas – Jornal Opção

Desfecho – São Sebastião

São Sebastião – Continuação de Causos de família
Isaias ia ser removido para São Paulo, para o julgamento. Quando a colônia italiana de Bragança soube, se reuniu em peso na pequena estação para um linchamento. As autoridades, com muita dificuldade, escoltaram-no sob os gritos de assassino. A turba enfurecida se dependurou nos vagões tentando inutilmente virá-los.
Chegando à capital, o rapaz foi condenado à pena máxima. O tempo foi passando, mas a dor não: Maria Leiteira chorava dia e noite. Segundo diziam os que voltavam da capital, Isaias era torturado diariamente também: uma goteira pingava continuamente sobre sua cabeça. Isso é de enlouquecer.
Maria benzia crianças com quebranto, tornou-se a Maria Benzadeira. Quem sabe se, ajudando os mais necessitados, sua dor passaria. Mesmo benzendo a cidade inteira e mais as vizinhas, nada resolvia.

Até que um dia ela teve um sonho muito vívido, uma comunicação. Seus dois filhos, Pedro e Nicola, vinham por uma longa estrada carregando dois baldes pesadíssimos cada um. Quando se aproximaram, andando com muita dificuldade, ela lhes perguntou o que era aquilo que levavam.
_São suas lágrimas. Vamos carregá-las até que pare de chorar por nós. Faça algo em nossa intenção que tudo passará.
A partir daquele dia, 20 de janeiro, dia de São Sebastião, minha tataravó passou a pedir esmolas de casa em casa e a entregá-las a crianças carentes. Um dia, Maria decidiu visitar Isaias na prisão. Ele pediu desculpas à mãe que perdoou o assassino de dois de seus filhos. Conta-se que ele, por bom comportamento, passou a ser muito querido na prisão onde tornou-se cozinheiro, mas nunca foi solto.
Para viver, ela passou a plantar verduras no seu quintal e vendê-las na feira.

Maria Verdureira um dia falou que sabia o dia em que ia morrer. Meses antes falou ao sogro de sua neta Lúcia, Francisco Boccuzzi, que não queria ninguém triste em seu velório e ele, por ser muito divertido, deveria ser o encarregado de animar seu passamento.
Na data prevista, tomou banho, foi ao quintal e agradeceu-lhe pelo alimento nele gerado, escolheu suas roupas e um par de meias com as quais queria ser enterrada. Conforme havia previsto, no dia 6 de maio de 1947, Maria Caporrino Linardi deitou-se em sua cama e faleceu tranquilamente.

No velório, meu bisavô teve que beber muito para ser o palhaço da festa.

*Obs.: minha avó, Lúcia de Bellis Boccuzzi, a neta mais velha de Maria Leiteira Benzedeira Verdureira se tornou encarregada de continuar a ação de ajudar os pobres no dia de São Sebastião. Agora, que minha avó também está do outro lado, essa missão passou a ser minha.

 

Thaís de Godoy

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Martírio de São Sebastião de Giuseppe Giorgetti, 1671.

 

Scheherazade de Rimski-Korsakov

 

I- O mar e o navio de Sinbad

II- A história do Príncipe Kalender

III- O jovem Príncipe e a Princesa

IV- O Festival de Bagdad

 

 

Liberato

Zeus, por favor, me cubra;
Por piedade me cubra com seu manto protetor no frio!
No calor me cubra com sua chuva refrescante.
Nas viagens me cubra com suas acolhedoras penas.
Por favor, por amor me proteja de toda a dor, de todo mal.
Senão juro, por Juno, enlouquecerei e sairei rumo ao Oriente desnudo
Até mil lobos me estraçalharem,
Como minhas seguidoras fizeram a Orfeu
Ou talvez não.

Talvez seja curado por Cybelle.
Talvez meu vinho embebede as turbas.
Talvez triunfe sobre Tebas,
Talvez fique e desfile pelas avenidas no carnaval
E crie o drama, a tragédia e a comédia.
Amém!

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A flor de Coleridge

De Jorge Luis Borges

 

Em 1938, Paul Valéry escreveu: “a história da literatura não deveria ser a história dos autores e dos acidentes da sua carreira ou da carreira de suas obras, mas a história do Espírito como produtor ou consumidor de literatura”. Não era a primeira vez que o Espírito formulava essa observação; em 1844, na aldeia de Concord, outro de seus amanuenses havia anotado: “Dir-se-ia que uma única pessoa redigiu todos os livros que há no mundo; tamanha unidade central há entre eles que é inegável que sejam obra de um só cavalheiro onisciente” (Emerson: Essays, 2, VIII). Vinte anos antes, Shelley sentenciou que todos os poemas do passado, do presente e do porvir, são episódios ou fragmentos de um único poema infinito, erigido por todos os poetas do orbe (A Defence of Poetry, 1821).

 

Essas considerações (implícitas, naturalmente, no panteísmo) permitiriam um inacabável debate; eu, agora, as invoco para executar um modesto propósito: a história da evolução de uma ideia, através dos textos heterogêneos de três autores. O primeiro texto é uma nota de Coleridge; ignoro se este a escreveu ao final do século XVIII ou a princípios de XIX. Diz, literalmente:

“Se um homem atravessasse o Paraíso num sonho, e lhe dessem uma flor como prova de que havia estado ali, e se ao despertar ele encontrasse essa flor na sua mão… e então?”

Não sei o que pensará o leitor desta imaginação; eu a julgo perfeita. Usá-la como base para outras invenções felizes parece de antemão impossível; ela tem a integridade e a unidade de um terminus ad quem, de uma meta alcançada. Está claro que é assim; na ordem da literatura, como nas outras, não há ato que não seja coroação de uma infinita série de causas e manancial de uma infinita série de efeitos. Por trás da invenção de Coleridge está a geral e antiga invenção das gerações de amantes que pedem como prenda uma flor.

O segundo texto que apresentarei é uma novela que Wells esboçou em 1887 e reescreveu sete anos depois, no verão de 1894. A primeira versão intitulou-se The Chronic Argonauts (neste título abolido, chronic tem o valor etimológico de temporal); a definitiva, The Time Machine. Wells, nessa novela, dá continuidade e reforma uma antiquíssima tradição literária: a previsão de fatos futuros. Isaías vê a desolação da Babilônia e a restauração de Israel; Enéias, o destino militar de sua posteridade, os romanos; a profetisa da Edda Saemundi, a volta dos deuses que, depois da cíclica batalha em que nossa terra perecerá, descobrirão, jogadas no pasto de uma nova pradaria, as peças de xadrez com que anteriormente haviam jogado. O protagonista de Wells, à diferença desses espectadores proféticos, viaja fisicamente ao porvir. Volta cansado, empoeirado e machucado; volta de uma remota humanidade que se bifurcou em espécies que se odeiam (os ociosos eloi, que habitam em palácios dilapidados e em ruinosos jardins. os subterrâneos e nictalopes morlocks, que se alimentam dos primeiros); volta com as têmporas grisalhas e traz do porvir uma flor murcha. Esta é a segunda versão da imagem de Coleridge. Mais incrível do que uma flor celestial ou que a flor de um sonho é a flor futura, a contraditória flor cujos átomos agora outros lugares e ainda não se combinaram.

A terceira versão que comentarei, a mais trabalhada, é invenção de um escritor fartamente mais complexo do que Wells, embora menos dotado dessas agradáveis virtudes que é costume chamar de clássicas. Refiro-me ao autor de A humilhação dos Northmore, o triste e labiríntico Henry James. Este, ao morrer, deixou inconclusa uma novela de caráter fantástico, The Sense of the Past, que é uma variação ou elaboração de The Time Machine1. O protagonista de Wells viaja ao porvir num inconcebível veículo que avança ou retrocede no tempo como os outros veículos no espaço; o de James regressa ao passado, ao século XVIII, à força de compenetrar-se nesta época (os dois procedimentos são impossíveis, porém o menos arbitrário é o de James). Em The Sense of the Past, o nexo entre o real e o imaginativo (entre a atualidade e o passado) não é uma flor, como nas ficções anteriores; é um retrato que data do século XVIII e que misteriosamente representa o protagonista. Este, fascinado por essa tela, consegue trasladar-se à data em que a executaram. Entre as pessoas que encontra figura, necessariamente, o pintor; este o pinta com temor e com aversão, pois intui algo incomum e anômalo nessas feições futuras… James cria, assim, um incomparável regressus in infinitum, já que seu herói, Ralph Pendrel, se traslada ao século XVIII. A causa é posterior ao efeito, o motivo da viagem é uma das consequências da viagem.

Wells, verossimilmente, desconhecia o texto de Coleridge; Henry James conhecia e admirava o texto de Wells. Claro está que se é válida a doutrina de que todos os autores são um autor2, tais fatos são insignificantes. Rigorosamente falando, não é indispensável ir tão longe; o panteísta que declara que a pluralidade dos autores é ilusória encontra inesperado apoio no classicista, segundo o qual essa pluralidade importa muito pouco. Para as mentes clássicas, a literatura é o essencial, não os indivíduos. George Moore e James Joyce incorporaram em suas obras páginas e sentenças alheias; Oscar Wilde costumava presentear enredos para que outros executassem; ambas as condutas, embora superficialmente contrárias, podem evidenciar um mesmo sentido da arte. Um sentido ecumênico, impessoal… Outro testemunho da unidade profunda do Verbo, outro negador dos limites do sujeito, foi o insigne Ben Jonson, que empenhado na tarefa de formular seu testamento literário e os ditames propícios ou adversos que mereciam seus contemporâneos, limitou-se a combinar fragmentos de Sêneca, de Quintiliano, de Justo Lipsio, de Vives, de Erasmo, de Maquiavel, de Bacon e dos escalígeros.

Uma observação, última. Aqueles que minuciosamente copiam um escritor o fazem impessoalmente, o fazem porque confundem esse escritor com a literatura, o fazem porque suspeitam que apartar-se dele num ponto é apartar-se da razão e da ortodoxia. Durante muitos anos, cri que a quase infinita literatura estava num único homem. Esse homem foi Carlyle, foi Johannes Becher, foi Whitman, foi Rafael Cansinos-Asséns, foi De Quincey3.

Jorge Luis Borges, Otras Inquisiciones (1957)

De A Bacia das Almas, notas de Paulo Brado, 2011

NOTAS
1. Não li The Sense of the Past, mas conheço a suficiente análise de Stephen Spender, em sua obra The Destructive Element (páginas 105-110). James foi amigo de Wells; para sua relação se pode consultar o vasto Experiment in Autobiography deste.
2. Em meados do século XVII o epigramista do panteísmo Angelus Silesius disse que todos os bem-aventurados são um (Cherubinischer Wandersmann, V. 7), e que todo cristão deve ser Cristo (op. cit., V, 9).
3. Esse homem, naturalmente, nunca vai deixar de ser Borges. (Nota do tradutor)

A mulher mais linda da cidade

O conto “A mulher mais bela da cidade”, de Bukowski, é horrível e belo, como seus personagens. Ainda estou digerindo porque é muito impactante.  Agora percebo que alguns amigos da faculdade imitavam esse autor. Eu me pergunto por que demorei tanto para ler as obras dele. Acho que tinha medo de conhecer esse mundo, ou submundo, como dizem. Não gosto dessa palavra, submundo. Essa associação com o inferno me parece injusta, já que alguns personagens desse universo apenas tiveram muito azar na vida. Outro motivo de nunca ter lido era a fama que os textos dele têm de serem escatológicos, o que me enojaria bastante se lesse, mas esse não é muito.

O conto parece uma releitura marginal do conto de fadas “A Bela e a Fera” pois o tema da beleza externa e da beleza interior é o mesmo, contudo com uma visão totalmente diferente e menos convencional sobre o assunto. O conto apresenta o momento em que o narrador, um homem feio, conhece a mais bela jovem local, a qual se mutila para ficar feia pois quer que gostem dela por outros motivos e não apenas porque querem fazer sexo com ela. A bela não gosta de homens bonitos, pois são só belos e mais nada. O narrador crê que, um dia, um homem irá destruí-la, e gostaria que não fosse ele mesmo. Os episódios com cenas de sexo são bonitos, comoventes e decadentes, bem diferente do que eu imaginava.  O final é terrível, de arrepiar. A condição da mulher é uma droga mesmo, e o narrador-personagem sabe que ele faz parte do problema, mas nada pode ser feito para mudar isso pois ele não podia prever as consequências de seus atos e de suas palavras. Não é conformismo,  nem alienação, mas sim uma tragédia humana, como nas tragédias gregas, a personalidade do herói em conflito com o estado de coisas, leva-o, inexoravelmente, ao abismo. Enfim, as belas também sofrem, pois não querem ser só belas, ou como dizem vulgarmente por aí apenas “alguém comível”, ou pior ainda, como disse Bolsonaro “uma mulher feia não merece ser estuprada”. Sejamos todas o mais feias possível, então, por proteção46ba30737ea90eda.

 

Leitura ostentação

Acabei de adquirir Crônica de um amor louco: ereções, ejaculações, exibicionismos – Parte I, do Bukowski. Exibicionismo é a cara da nossa era e não posso ficar de fora, então aí está. Não acredito que só agora resolvi ler sua obra. Vamos ver se é um livro “maldito” mesmo ou um maldito livro. É provável que seja as duas coisas. Já vou tomar um dramin antes, por via das dúvidas. Depois de ler, farei uma resenha, se alguém estiver interessado na obra do “Velho Safado”* ou na droga da minha opinião (já estou ficando com o jeitão dele).

*  Essa expressão maldosa não é minha, é como Bukowski ficou conhecido no meio literário.

Primeiro conto: A mulher mais linda da cidade

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Mudar, de Clarisse Lispector

Avatar de Bertany PascoalAnotasonhos

Mude, mas comece devagar,
porque a direção é mais importante
que a velocidade.

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