Duplo Carimbo

Quando insisto que preciso

Ser as roupas que te envolvem,

Ninguém entende o motivo.

À tua pele estaria colada,

Te revestindo, te protegendo

Do frio, do sol, da chuva,

De olhares que alhures

Pudessem perturbar teu pudor

E enciumar esta distante

Imaginação que te perscruta.

Ao me perfumar, teus doces bálsamos,

Curariam a ânsia que me domina.

O espectro de tua presença

Se impregnaria em meus

Tecidos me acompanhando.

Tuas formas se desenhariam em mim,

Grudadas ao entrelaçamento de meus fios,

Guardando a memória residual de tua estada.

Também meus botões, fechos,

Costuras marcariam tua pele.

Assim, viveríamos numa troca

eterna: ora te sigo

Ora  me segues,

Como duplo carimbo.

O Portal da Vida e da Morte





Quando estava perdido,
Tentando conciliar a dor e a alegria,
O corpo e o espírito,
Você e eu,
Soube que existe um lugar,
Um lugar onde há um portal,

O “Portal da Vida e da Morte”.
O portal que nos levará à Revolução tão esperada,
Quando, finalmente, o claro e o escuro,
a pedra e a pluma,
o céu e a terra serão parte de um mesmo todo,
Sem se digladiar.
Mas onde o Portal da Vida e da Morte estará?
Só sei que é perto do “Ponto de Ouro de um Milhão".
Esse é o segredo da vida, que há pouco intuí, mas nunca completo vi.

Bizarro

Dói tanto em mim a dor da tua solidão,

Dói tanto, que se, para ti,

Tomasses outra pessoa qualquer,

Através dela, sentiria que estamos

juntos numa perfeita comunhão.

 

Como gêmeos que habitam o mesmo corpo

Ou entidade que incorpora alguém,

através dela, moveria meu ser

E sentiria que tu me possuis também.

 

 

Ao sentir essa mulher,

Porque serei uma, se te convêm,

Formaríamos uma fraternidade,

Uma santíssima trindade

tão sagrada, que todos teriam de dizer amém.

Até mesmo tu, que não acreditas em ninguém…

Requerer

 

Como pedir a uma gota de chuva que se suspenda no ar?

Como pedir, em pleno voo, às asas dos pássaros que parem de bater?

Como pedir ao vento que pare de soprar?

Ou a um rio que pare de correr;

 

Como solicitar a um tigre faminto que não devore sua presa?

Ou requerer a um raio que interrompa seu curso,

Para não chamuscar uma árvore indefesa?

Ou pedir ao sol que pare de brilhar?

Como? Como? Como?

Só as rochas podem pedir uma coisa assim…

Se algo se consegue controlar prudentemente,

É porque seu querer não é tão ardente…