Bares, cafés e clubes, a partir do século XIX, não eram apenas um ambiente para a happy hour. Eles foram o cenário onde questões políticas, filosóficas, movimentos artísticos revolucionários se espalharam. O propósito deste site é o mesmo: criar um espaço virtual para expressão livre de ideais, reflexões e sentimentos, com espírito crítico em relação a nossa Cultura.
Autor: Godoy
Autora d'"O Livro das Mil e uma Noites em Jorge Luis Borges"
Devemos preferir a justiça social e uma melhor distribuição de renda, realizada através de salários dignos e bons serviços públicos, à “caridade” dos ricos, através de “doações” aos vulneráveis. Essa celebridade se aproveitou da fama, do dinheiro e usou a caridade para mascarar perversões sexuais, estuprar crianças e até doentes sedadas em hospitais os quais fingia ajudar como maqueiro e depois como angariador de fundos. Toda sua bondade não passou de um chamariz, um pretexto para ficar próximo de vulneráveis que jamais o delataram por sua fama.
Ele foi o modelo de empreendedor social preconizado pela papisa do neoliberalismo: Margareth Tatcher. Depois que as vítimas começaram a ser ouvidas apenas pelas redes sociais, as autoridades fingiram surpresa. Ele nunca foi punido por seus crimes por personificar, na ideologia neoliberal, a solução dos problemas sociais. Esse é um preço muito alto a se pagar.
O notável progresso atingido pela imunização contra a covid-19 chamou a atenção do mundo para o brilhante papel das vacinas.
Muitos conhecem a história da descoberta da vacinação contra a varíola por Edward Jenner em Gloucestershire, na Inglaterra, cerca de 250 anos atrás. Mas poucas pessoas ouviram falar de Lady Mary Wortley Montagu – a socialite que, com seus experimentos pioneiros de inoculação, definiu as bases para a descoberta de Jenner, mas cuja contribuição foi quase totalmente esquecida.
Este ano marca o 300° aniversário dos seus extraordinários experimentos com seres humanos e oferece uma ocasião oportuna para analisar sua notável contribuição para a saúde pública.
Nascida Mary Pierrepont em 1689, ela era uma mulher vivaz e obstinada, autora de cartas e poemas, que detinha ideias progressistas sobre o papel das mulheres na sociedade. Para evitar um casamento arranjado, ela fugiu de casa com 23 anos de idade e casou-se com Edward Wortley Montagu, neto do primeiro Conde de Sandwich.
Em 1716, Edward tornou-se embaixador inglês em Istambul (ou Constantinopla, como se chamava na época), capital do Império Turco-Otomano. Foi dali que Wortley Montagu escreveu descrições vivas da vida no oriente, especialmente das mulheres turcas, cujas roupas, estilo de vida e tradições a intrigavam.
No noticiário, vemos rotineiramente os comentaristas do setor econômico explicando os impactos da pandemia na economia em geral, mas, como a balança comercial brasileira depende da exportação de comódites, o destaque é dado para as consequências da pandemia no agronegócio.
Até agora, no Brasil, não consegui assistir a nenhuma reportagem analisando o contrário: como o agronegócio está propiciando o surgimento desta e das próximas pandemias.
Como é meu hábito, quando a imprensa comercial/oficial não está falando, nem mostrando nada sobre um determinado assunto, procuro prestar mais atenção justamente nesses temas convenientemente “esquecidos”. Eis aqui a resenha de um livro visionário sobre esse tema, publicada no Google Books:
“Pandemia e agronegócio: doenças infecciosas, capitalismo e ciência”, de Rob Wallace, defende que os novos vírus que há alguns anos amedrontam o planeta com epidemias e pandemias são, sim, uma criação dos seres humanos. Mas, não, não estamos falando das teorias conspiratórias difundidas pelos robôs de Donald Trump ou Jair Bolsonaro, que responsabilizam laboratórios chineses especializados em guerra biológica pela origem do novo coronavírus. Para o autor, esses micro-organismos são resultado da maneira como passamos a criar animais para consumo nos últimos quarenta anos. Quem já teve a oportunidade de ir a uma granja ou a uma fazenda de porcos sabe do que estamos falando: milhares (milhões) de animais confinados, muitas vezes impedidos de dormir e comendo 24 horas por dia para engordar — e ir para o abate — cada vez mais rápido. Para quê? Para aumentar os lucros das empresas, claro, que se transformaram em grandes conglomerados. O número de animais criados para alimentação cresce quase duas vezes mais rápido que a população humana. Aves, vacas, porcos separados pelo produto a ser extraído (carne, ovos, leite), em estabelecimentos onde compartilham raça, idade e sistema biológico. E isso, para a natureza, cuja lei mais importante é o equilíbrio na diversidade, significa uma praga gigante. Uma atração inevitável para outros animais, um banquete para micro-organismos. Um experimento permanente de mutações e contágios extremos. Rob Wallace vem escrevendo sobre isso há quase vinte anos. Lançado pela primeira vez em 2015, Pandemia e agronegócio, que agora chega ao Brasil graças à parceria da Elefante com Igra Kniga, reúne artigos do autor publicados desde 2007. Nos textos, o biólogo alerta sobre as origens da Sars, da gripe aviária e da gripe suína, alertando que, se os seres humanos não modificassem a maneira como criam animais para abate, teriam que lidar, no curto prazo, com novas formas de vírus cada vez mais mortais. E aqui estamos. “Os seres humanos construíram ambientes físicos e sociais, em terra e no mar, que alteraram radicalmente os caminhos pelos quais os patógenos evoluem e se dispersam. Os patógenos, no entanto, não são meros figurantes, golpeados pelas marés da história humana. Eles também agem por vontade própria, com o perdão do antropomorfismo. Demonstram agência”, escreve Rob Wallace na introdução de Pandemia e agronegócio. Além do conteúdo integral da versão estadunidense, a edição brasileira trará os textos mais recentes do autor e de seus colaboradores sobre o atual surto de covid-19, a doença provocada pelo novo coronavírus (Sars-CoV-2) que, depois de aparecer na província de Hubei, na China, se espalhou pelo planeta, colocou boa parte do mundo em quarentena e espalhou incertezas sobre a maneira como continuaremos vivendo e habitando a Terra. Os vírus surgidos em território chinês, aliás, recebem imensa atenção de Rob Wallace no livro. Mas, longe de engrossar o coro da xenofobia que costuma vigorar nesse tipo de discussões, o autor vai às raízes do problema. “Desde a década de 1970, a produção pecuária intensiva se espalhou pelo planeta a partir de suas origens nos Estados Unidos. Nosso mundo está cercado por cidades de monoprodução de milhões de porcos e aves apinhados lado a lado, em uma ecologia quase perfeita para a evolução de várias cepas virulentas de influenza.”
“A BELEZA do mundo não é um atributo da própria matéria. É uma relação do mundo com nossa sensibilidade, essa sensibilidade que depende da estrutura do nosso corpo e da nossa alma.”
“MAGOAR alguém é transferir para outrem a degradação que temos em nós.”
“A beleza é a harmonia entre o acaso e o bem.”
“ATENÇÃO é a forma mais rara e pura de generosidade.”
‘Quando dois seres que não são amigos estão perto um do outro não há encontro, e quando amigos estão distantes não há separação.”
“O mais alto êxtase é a mais completa atenção.”
Simone WEIL foi uma pensadora francesa, pacifista e militante de esquerda nascida em Paris, cujas ações mostraram uma vida dedicada a busca pela justiça. Descendente de uma família judia abastada e culta, estudou filosofia na École Normale Superieure, exerceu o magistério e colaborou em jornais de esquerda. Também trabalhou como operária numa fábrica de automóveis (1934 -1935), passando a seguir a militar em movimentos anarquistas, inclusive participando com os republicanos na guerra civil espanhola (1936-1938), sem empunhar armas por causa de princípios pacifistas.
A partir de então (1938) passou a defender uma prática mística, o existencialismo cristão na linha de Kierkegaard. De volta à França, passou por Marselha e depois por Paris, onde passou a colaborar em jornais ligados à Resistência. Viajou pelos Estados Unidos (1942) e logo depois voltou a Londres, onde continuou sua luta contra o nazismo. Morreu em virtude de uma greve de fome em apoio a seus conterrâneos, em Ashford, Inglaterra. Seus principais textos foram publicados postumamente, como nas coletâneas La Pesanteur et la grâce (1947), L’Enracinement (1949) e Oppression et liberté (1963).
Quando não há nada mais a ser dito, silencia. Quando não há mais nada a ser feito, permitas apenas ser, apenas estar e fica na companhia do teu coração e este indicará o momento apropriado para agires. Quando a lentidão dos dias acomodar tua vontade, enlaçando-te com os nós da intranquilidade, descansa e refaz tua energia. Não há pressa, a prioridade é que tu encontres novamente a tua essência para que tenhas presente em ti a alegria de ser e estar. Quando o vazio instalar-se em teu peito, dando-te a sensação de angústia e esgotamento, repara tua atenção e encontra em ti mesmo a compreensão para este estado. É necessário descobrirmo-nos em tais estados, para que estes não se transformem no desconhecido, no incontrolável. Tudo pode ser mudado, existe sempre uma nova escolha para qualquer opção errada que tenhas feito. Quando ouvires do teu coração que não há nenhuma necessidade em te preocupares com a vida, saibas que ele apenas quer que compreendas que nada é tão sério a ponto de te perderes para sempre da tua divindade, ficando condenado a não ver mais a luz que é tua por natureza. Não te preocupes, se estiveres atento a ti mesmo verás que a sabedoria milenar está contigo, conduzindo-te momento a momento àquilo que realmente necessitas viver. Confia e vai em teu caminho de paz.Nada é mais gratificante que ver alguém submergindo da escuridão apenas por haver acreditado na existência da luz. Ela sempre esteve presente... Era só abrir os olhos...
* Não consegui comprovar se esse texto é mesmo de São Francisco de Assis. Seja de quem for, ele me "representa" neste momento.
O falecimento de Lua Luft é mais uma triste notícia fechando o ano de 2021.
Não posso, por seu falecimento, esquecer minha decepção ao saber em quem ela votou, mesmo que ela tenha se arrependido depois. Tentei de todas as formas compreender tal escolha, por ela ser quem é, por seus textos sempre me acolherem, por admirá-la. Confesso que não consegui. Meu fracasso em tal tentativa me deixou muito frustrada. Então, comecei a ler artigos sobre esse tema.
Colo aqui o argumento de Rodrigo Casarin, colunista da UOL, sobre artistas e seus posicionamentos políticos:
“Rachel de Queiroz* defendia a ditadura militar. Gabriel García Márquez morreu passando pano para os crimes contra a humanidade cometidos por Fidel Castro. Jorge Luis Borges, que sempre me pareceu um palerma político, vivia sob o quepe dos oficiais argentinos que sequestravam, matavam e jogavam corpos de opositores no mar. O francês Céline é mais lembrado pela afeição ao nazismo do que por seus livros.
É bobagem pensar que arte e cultura são coisas de esquerda, como muitos insistem em vociferar. É coisa de gente. Sendo assim, nessas áreas encontramos pessoas de todo o espectro político. Se por acaso os pensamentos progressistas parecem maioria, que bom, são eles que podem fazer do mundo um lugar mais humano, mais plural, mais democrático. Um mundo livre até para outro artista cravar seu voto em quem ataca tudo isso. Entendo o arrependimento de Lya, só não compreendo o tom de surpresa com o governo que ajudou a eleger.”
Discordo desse ponto de vista porque vivemos em outros tempos, muito diferentes das épocas de Celine, Borges e Queiroz em que muitos equívocos poderiam ser atribuídos à propaganda, à desinformação (que sempre existiu, as “fakes news” não são invenção recente) ou até mesmo a uma ambição do artista tentando sobreviver em meio aos donos de um mundo sem opções e repressivo. O medo da prisão e valores já superados também podem ter persuadido muitos autores a cooperarem com ditaduras.
Hoje temos teóricos da comunicação, que revelam a manipulação midiática pelos poderosos, temos mais opções, liberdade de votar e uma artista da linguagem não pode mais cometer tais equívocos sem se sentir responsável pelas consequências de suas escolhas, dado ao alcance de suas palavras potencializado pela Arte, seja de direita ou de esquerda. O artista deve ter sim um compromisso com valores mais humanos e menos individualistas.
Descanse Lya, talvez em paz…
* O que torna praticamente impossível evitar a triste conclusão de que apenas por apoiar a ditadura militar, Raquel de Queiroz, uma ex-trotskista, tenha sido a primeira mulher a ser aceita na Academia Brasileira de Letras em 1977.
Era de se esperar. Era sabido. E compreensível que nada ali tivesse pé nem cabeça. Quebra-cabeça faltando peças, livro faltando páginas. Dia sem graça e escuro feito noite velha, e de fato não era mais dia, era noite que tinha daquela vocação de viver muito. Das flores se soube mais tarde que eram sempre-vivas, com aquele arzinho seco de coisa que morreu e ninguém sepultou. Afastaram os móveis e espalharam cadeiras. Esperava que alguém dançasse? Encostaram as cadeiras nas paredes e passaram a noite naquele zum-zum abafado de diálogo ensaiado. Não se serviu nada, nem água, nem licor. A roupa era a de sempre, sem cor nem brilho e as mãos sempre frias tateavam o escuro a procurar algum sentido naquele amontoado de gente sem rosto e sem conversa. Subiu as escadas sem olhar onde pisava e deixou um pouco pra trás, mesmo que ninguém quisesse parte daquilo.
Uma vez li que as formigas espreguiçam ao acordar (e essa foi a informação mais linda que eu poderia ter), desde esse dia, comecei a praticar o espreguiçamento como arte marcial. As formigas planejam futuros, isso eu não aprendi e por isso as invejo: exploda o mundo ou não, estarão em comunhão com os seus. Estocados os víveres, se reunirão para longas conversas e ideias de revoluções impossíveis em torno das fogueiras subterrâneas. Enquanto a rainha abastece seu exército, há algumas formigas que sonham, mesmo sem saber que talvez o inverno não aconteça. Além do mais, não têm o peso da alma. Se morrem, é para sempre e sempre haverá outra formiga para recolher sua carcaça para o sepultamento ou compostagem. Eu. Invejo. As formigas.
devagar escreva uma primeira letra escreva nas imediações construídas pelos furacões; devagar meça a primeira pássara bisonha que riscar o pano de boca aberto sobre os vendavais; devagar imponha o pulso que melhor souber sangrar sobre a faca das marés; devagar imprima o primeiro olhar sobre o galope molhado dos animais; devagar peça mais e mais e mais