Bares, cafés e clubes, a partir do século XIX, não eram apenas um ambiente para a happy hour. Eles foram o cenário onde questões políticas, filosóficas, movimentos artísticos revolucionários se espalharam. O propósito deste site é o mesmo: criar um espaço virtual para expressão livre de ideais, reflexões e sentimentos, com espírito crítico em relação a nossa Cultura.
Como é por dentro outra pessoa
Quem é que o saberá sonhar?
A alma de outrem é outro universo
Como que não há comunicação possível,
Com que não há verdadeiro entendimento.
Nada sabemos da alma
Senão da nossa;
As dos outros são olhares,
São gestos, são palavras,
Com a suposição de qualquer semelhança
No fundo.
Penso que seria muito mais adequado chamar algumas tiradas de Wilde de “desaforismos”, visto que era um provocador, seu humor era uma embalagem para seus chistes. Como ele próprio dizia, para não ser assassinado, deve-se dizer a verdade com um toque de humor.
“Se soubéssemos quantas e quantas vezes as nossas palavras são mal interpretadas, haveria muito mais silêncio neste mundo.”
“Amar é ultrapassarmo-nos.”
“Há duas tragédias na vida: uma a de não satisfazermos os nossos desejos, a outra a de os satisfazermos.”
“A diferença entre a literatura e o jornalismo é que o jornalismo é ilegível e a literatura não é lida.”
“Toda a arte é completamente inútil.”
“A única maneira de nos livrarmos da tentação é ceder-lhe.”
“Se há no mundo alguma coisa mais irritante do que sermos alguém de quem se fala, é ninguém falar de nós.” Fonte – O Retrato de Dorian Gray
“Devia-se estar sempre apaixonado. É a razão pela qual nunca nos devíamos casar.”Fonte – Uma Mulher sem Importância
“Nenhum grande artista vê as coisas como realmente são. Caso contrário, deixaria de ser um artista.”Fonte – The Decay of Lying
“É absurdo dividir as pessoas em boas e más. As pessoas ou são encantadoras ou são aborrecidas.”Fonte – O Leque de Lady Windermere
“Há uma espécie de conforto na auto-condenação. Quando nos condenamos, pensamos que ninguém mais tem o direito de o fazer.”
“Nunca viajo sem o meu diário. É preciso ter sempre algo extraordinário para ler no comboio.”Fonte – A Importância de Ser Sério
“Aqueles que não fazem nada estão sempre dispostos a criticar os que fazem algo.”
‘Quarto de despejo – Diário de uma favelada’ está nas listas obrigatórias de exames de duas universidades. Professores de literatura valorizam inclusão e possibilidade de reflexões.
Por G1 Campinas e região
07/05/2017 08h09 Atualizado 07/05/2017 08h09
Livro “Quarto de Despejo – Diário de uma favelada”, de Carolina Maria de Jesus, está entre as novidades dos próximos vestibulares da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). No ano em que a morte da escritora completa 40 anos, a obra resgatada está indisponível em algumas livrarias, mas a editora responsável pela impressão garante reposição e, à espera de alta na demanda, considera hipótese de elevar tiragem.
O diário foi anunciado na semana passada como uma das três alterações na lista da Unicamp para o vestibular 2019. Os outros dois livros inseridos na lista obrigatória de leituras são a poesia “A teus pés”, de Ana Cristina Cesar; e o romance “História do Cerco de Lisboa”, de José Saramago.
Já a UFRGS confirmou , em março, a inclusão do livro na edição 2018 do processo seletivo. A universidade renova anualmente a relação de obras com a substituição de quatro títulos.
Inovações
Carolina nasceu em Sacramento (MG), em 1914, e foi morar na capital paulista em 1947, época em que surgiram as primeiras favelas na cidade. Uma das primeiras e mais importantes escritoras negras do Brasil, ela reúne em “Quarto de Despejo” relatos de parte das experiências que viveu e observou na comunidade do Canindé, com três filhos. O lançamento ocorreu na década de 1960.
Para o professor de literatura Laudemir Guedes Fragoso, a inclusão da história da catadora de papel e sucatas nos processos seletivos representa inovações em abordagens de conteúdo e forma.
“Ela foi uma voz dissonante do Brasil marginalizado, é interessante se fazer paralelo com momento atual do país”, frisou o docente ao mencionar que vê tendência na abordagem de temas sociais nas provas, incluindo literatura indígena. Ele também lembrou a relevância na tratativa de um diário.
“É um gênero antigo, do século XV, e chama atenção a busca por novas formas literárias dentro da prova”, falou o professor do Colégio Objetivo ao lembrar da inclusão de “Minha vida de menina” na edição 2018 da Fuvest. A instituição já definiu a lista para o vestibular 2019 da USP e da Santa Casa.
Conexões
O professor de literatura Octávio da Matta, do Anglo, manteve o tom e valorizou a flexibilização dos vestibulares, que passaram a incluir não somente obras clássicas, mas também livros que retratam a história recente do país e as questões que seguem em debate, incluindo “Quarto de despejo”.
“A Unicamp e a Universidade Federal do Rio Grande do Sul estão convidando o estudante para uma reflexão. Carolina faz um relato autobiográfico, mas ainda hoje pode ser considerado atemporal por apresentar questionamentos sobre a violência, problema do alcoolismo e violência doméstica, a preocupação em conseguir sustentar os filhos e a revolta por não ter o que comer”, ressalta.
No caso da universidade em Campinas, em especial, o docente valorizou o fato de a mesma lista de livros contemplar a obra da escritora mineira, e “O espelho”, de Machado de Assis. ”
“É um fato gigantesco essa conexão, ele também teve uma origem humilde, foi autodidata. A Carolina aprendeu a ler pegando jornais e revistas e, diferentemente de uma obra do Aluísio Azevedo, apresenta um olhar de dentro dessa sociedade, demonstra sentimento, e não um pensamento de determinismo, instintivo. A versão dela é a mais pura realidade”.
Estoques
A assessoria de imprensa da Editora Ática informou, em nota, que recebeu uma nova reimpressão do livro na segunda quinzena de abril. O desabastecimento, segundo a empresa, ocorreu por causa do “espaço” entre esta etapa e a distribuição. “Em nosso e-commerce o livro já está disponível e ao longo das próximas semanas o livro voltará às livrarias. O livro está em sua décima edição”, diz nota.
Em relação à tiragem de “Quarto de despejo”, a editora mencionou que ela já foi elevada em 20%, em virtude da inclusão na lista da UFRGS. A expectativa é de que outra seja feita quando houver queda do estoque, por causa da colocação da obra entre os assuntos do vestibular da Unicamp.
“Esperamos que haja um aumento na procura pela obra, naturalmente, mas sabemos que obras de literatura não precisam ser necessariamente compradas novas, podem ser emprestadas de bibliotecas, de amigos ou adquiridas de segunda mão em sebos. Por isso, não temos previsão de nova tiragem enquanto tivermos estoque suficiente para atender as demandas”, informa texto.
Rede pública
Em 2013, o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) comprou e distribuiu, por meio do Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE), 29 mil exemplares do livro para escolas públicas com alunos em anos finais do ensino fundamental. De acordo com o governo federal, não há reserva ou destaque de exemplares, nem previsão para novas aquisições do título.
“Por meio do PNBE, são beneficiadas todas as escolas públicas, sem necessidade de adesão. […] Os livros são encaminhados diretamente às escolas para a composição dos acervos das bibliotecas e disponibilização dos exemplares aos alunos, geralmente, por meio de empréstimos e consulta.”
A escrita de Carolina Maria de Jesus é sua forma de se recusar a ser “despejo” em uma sociedade desigual que a empurrou para a miséria
Na segunda-feira, 14 de março, completaram-se 102 anos do nascimento de uma escritora brasileira de grande importância para a nossa literatura, mas que ainda nos dias de hoje permanece desconhecida para muita gente.
Foi numa comunidade rural em Sacramento, Minas Gerais, que nasceu Carolina Maria de Jesus. Mas foi numa favela em São Paulo que ela tornou-se escritora – e produziu a obra pela qual seria conhecida até hoje.
Quarto de despejo já piscava em letras neon diante de mim, de tantas recomendações acumuladas, como todos aqueles clássicos na minha prateleira mental de “não acredito que você não leu esse ainda”. Então eu li e entendi porque é uma obra tão importante da nossa literatura.
A escritora durante a noite de autógrafos do livro “Quarto de Despejo”, em São Paulo, 1960
Carolina Maria de Jesus foi uma das escritoras brasileiras mais expressivas, traduzida para mais de dez idiomas. No Japão, o livro ganhou o título de Karonina nikki, algo como O Diário de Carolina.
Quarto de Despejo foi seu maior sucesso, mesmo assim não é tarefa das mais fáceis encontrá-lo nas livrarias; é mais provável que seja encontrado nos sebos.
Não por acaso só recentemente pude descobrir sua história e sua escrita: se o trabalho das escritoras é geralmente subvalorizado e apagado, o trabalho de uma escritora negra, pobre e favelada encontra ainda mais dificuldades para superar a barreira da invisibilidade.
Catadora de lixo e moradora da favela do Canindé, em São Paulo, na segunda metade da década de 50, Carolina usava os cadernos que encontrava no lixo para escrever sobre seu cotidiano e pensamentos. Virou um diário que passou a ser publicado num jornal; há inclusive trechos em que os vizinhos vêm tirar satisfação com ela sobre algo que ela escreveu.
Entre as idas ao açougue para buscar restos de ossos que lhe davam, os dias catando papel nas ruas de São Paulo enquanto os três filhos ficavam sozinhos no seu barraco e as noites insones observando as estrelas, Carolina refletia sobre o cenário de desigualdade e escrevia sobre as pequenas coisas que compõem a condição humana.
A preocupação com o que vai se comer no dia. A repetição da busca da água todas as manhãs. A brutalidade do ambiente: a cidade, a favela, as pessoas.
O quarto de despejo surge como uma metáfora para a desigualdade que estabelece seu papel e sua posição nessa história: ela aponta que, enquanto o centro da cidade é a sala de visitas, a favela é o quarto onde se joga o indesejável, o entulho, tudo aquilo que se quer esconder. Sua escrita, no entanto, é sua forma de se recusar a ser “despejo”, a ser “resto”.
Sua voz é marcante não pelos “erros” gramaticais preservados pela edição (o que aliás me deixou a dúvida: isso teria sido uma forma de respeitar sua escrita, de mostrar que o texto tem valor independente de “norma culta”, de apontar que ela não precisa ser corrigida ou transformada em algo dentro do padrão, ou seria uma forma de apresentar uma escrita “autenticamente de favelado”? Realmente, não sei), mas sim pela sensibilidade para os detalhes normalmente desprezados pelo nosso olhar.
O olhar apurado de Carolina, de quem está acostumada a olhar para o lixo e ver o que tem valor ali, ou de quem procurava catar as luzes distantes das estrelas quando todos ao seu redor já estavam de olhos fechados, convida o leitor a ver humanidade nos lugares onde a cidade e a sociedade só nos ensinaram a ver miséria.
Carolina foi muito prolífica, para além do Quarto de Despejo; escrevia romances, contos, poemas, e, além daqueles que foram publicados – inclusive depois de sua morte, como Diário de Bitita –, ainda há milhares de páginas de material inédito de Carolina, entre eles, seis romances, mais de cem poemas e cerca de 67 crônicas.
Em todo esse trabalho, a escritora deixou marcada uma visão particularmente Caroliniana do mundo e de uma sociedade desigual, que pode ter se transformado de sua época para cá, mas que persiste discriminando, isolando e apagando minorias.
Na escrita, Carolina pode expressar a voz que era negada a quem vivesse em suas condições. Uma voz que, apesar de todas as dificuldades, preconceito e do insistente esquecimento que se estende até os dias de hoje, persiste como a base de uma obra autêntica e importante, mas, sobretudo, humana e verdadeira.
“Eu deixei o leito as 3 da manhã porque quando a gente perde o sono começa pensar nas miserias que nos rodeia. (…) Deixei o leito para escrever. Enquanto escrevo vou pensando que resido num castelo cor de ouro que reluz na luz do sol. Que as janelas são de prata e as luzes de brilhantes. Que a minha vista circula no jardim e eu contemplo as flores de todas as qualidades. (…) É preciso criar este ambiente de fantasia, para esquecer que estou na favela.
Fiz o café e fui carregar agua. Olhei o céu, a estrela Dalva já estava no céu. Como é horrível pisar na lama.
As horas que sou feliz é quando estou residindo nos castelos imaginarios.”
Doce brisa trouxe até mim um pássaro canoro
Que coloriu meus dias amenos;
Que em minhas manhãs colocou um sorriso;
Que aspergiu vigor em meus membros
E aspirou de mim o cansaço.
Silêncio! Quero escutar sua serenata
Para embalar o meu sono sereno;
Elevar sobre mim meu espírito;
Fazê-lo pousar no meu braço.
Quero seu entusiasmo.
Quero seu sopro de vida divino,
Sua leveza, sua graça, seu brilho.
Sem querer, sob suas asas eu vivo!
Sim, sempre tenho um vício.
Subscrevo, confesso, admito!
Sim, sou viciada, mas não naquilo que imagina o meritíssimo.
Mas sim em querer coisas que nunca existiram.
Viciada em fingir um poema para cada instante que deveria ser eterno:
Cada pequena folha que de uma árvore cai sem fazer alarde;
Cada música que em mim provoca um sentimento terno;
Cada cão sarnento que em minha rua late;
Cada carcaça cansada que em minha cama arde;
Cada cabeça que rola, secando ao sol e esfriando ao relento...
É vício porque é inútil como trabalho de Sísifo.
Se me proponho a fazê-lo, porém, saia do meu caminho!
04-01-2013
Fui rocha em tempo, e fui no mundo antigo
tronco ou ramo na incógnita floresta?
Onda, espumei, quebrando-me na aresta
Do granito, antiquíssimo inimigo…
Rugi, fera talvez, buscando abrigo
Na caverna que ensombra urze e giesta;
O, monstro primitivo, ergui a testa
No limoso paul, glauco pascigo…
Hoje sou homem – e na sombra enorme
Vejo, a meus pés, a escada multiforme,
Que desce, em espirais, da imensidade…
Interrogo o infinito e às vezes choro…
Mas estendendo as mãos no vácuo, adoro
E aspiro unicamente à liberdade.
Las manos de la protesta, de Oswaldo Guayasamín, 1968
Você já podia imaginar, mas agora está evidenciado cientificamente: ler poesia pode ser mais eficaz em tratamentos psicológicos do que livros de autoajuda. E mais: textos de escritores clássicos como Shakespeare, Fernando Pessoa, William Wordsworth e T.S. Eliot, mesmo quando de difícil compreensão, estimulam a atividade cerebral de modo muito mais profundo e duradouro do que textos mais simples e coloquiais. A leitura de obras clássicas ainda pode ajudar pessoas com problemas emocionais, diz estudo.
Ler poesia pode ser mais eficaz em tratamentos do que os livros de autoajuda, segundo um estudo da Universidade de Liverpool. Especialistas em ciência, psicologia e literatura inglesa da universidade monitoraram a atividade cerebral de 30 voluntários que leram primeiro trechos de textos clássicos e depois essas mesmas passagens traduzidas para a “linguagem coloquial”.
Especialistas em ciência, psicologia e literatura inglesa da universidade monitoraram a atividade cerebral de 30 voluntários que leram primeiro trechos de textos clássicos de Henry Vaughan,John Donne, Elizabeth Barrett Browning e Philip Larkin e depois essas mesmas passagens traduzidas para a “linguagem coloquial”.
Os resultados da pesquisa mostraram que a atividade do cérebro “acelera” quando o leitor encontra palavras incomuns ou frases com uma estrutura semântica complexa, mas não reage quando esse mesmo conteúdo se expressa com fórmulas de uso cotidiano.
Esses estímulos se mantêm durante um tempo, potencializando a atenção do indivíduo, segundo o estudo, que utilizou textos de autores ingleses como Henry Vaughan, John Donne, Elizabeth Barrett Browning e Philip Larkin.
Os especialistas descobriram que a poesia é mais útil que os livros de autoajuda porque afeta o lado direito do cérebro, onde são armazenadas as lembranças autobiográficas, e ajuda a refletir sobre eles e entendê-los de outra perspectiva.
“A poesia não é só uma questão de estilo. A descrição profunda de experiências acrescenta elementos emocionais e biográficos ao conhecimento cognitivo que já possuímos de nossas lembranças”, explica o professor David, encarregado de apresentar o estudo.
Os especialistas buscam agora compreender como afetaram a atividade cerebral as contínuas revisões de alguns clássicos da literatura para adaptá-los à linguagem atual, caso das obras de Charles Dickens.
Ditosa que ao teu lado só por ti suspiro!
Quem goza o prazer de te escutar,
quem vê, às vezes, teu doce sorriso.
Nem os deuses felizes o podem igualar.
Sinto um fogo sutil correr de veia em veia
por minha carne, ó suave bem querida,
e no transporte doce que a minha alma enleia
eu sinto asperamente a voz emudecida.
Uma nuvem confusa me enevoa o olhar.
Não ouço mais. Eu caio num langor supremo;
E pálida e perdida e febril e sem ar,
um frêmito me abala… eu quase morro… eu tremo!
Safo (Σαπφώ), em “Eros, tecelão de mitos: a poesia de Safo de Lesbos”. [organização e tradução Joaquim Brasil Fontes Júnior]. São Paulo: Estação Liberdade, 1991.
À Palestina,
o sangue, que jorra das veias de seu povo,
É esquecido, é ignorado.
Até quando fingiremos que tudo é normal?
Até quando viraremos as costas àqueles que sofrem
de um grande mal?
“Assim caminha a humanidade”, uns dizem.
Outros permanecem calados,
Enquanto seus filhos se esquivam da morte, sem
Saber se seus passos serão lembrados.
Todos eles serão só números quantificados?
Alguns ainda virarão teses de doutorado,
Mas sem nome, sem lar, nem água nem chão,
Todos seus filhos serão prisioneiros em seu próprio torrão?
E todos nós sem sentir vergonha por deixar
que isso aconteça a um irmão?
Godoy
11-07-2012
Ditador Videla, Borges e Sábato, em um almoço em 1976, onde os convidados teriam expressado sua preocupação com escritores presos ou desaparecidos. Em 2012, Videla admitiu que foi responsável pela morte de 8000 pessoas.
É difícil imaginar o autor argentino como um rebelde, já que o senso comum acredita que ele era apenas um homem em sua biblioteca, um dândi alheio à política, em sua torre de marfim. Ele próprio dizia-se avesso à política e autodefiniu-se como um anarquista conservador.
Contudo, sua vida e suas escolhas polêmicas dizem o oposto. Borges foi diretor da Biblioteca Nacional entre 1955 e 1972. Por ser anti-peronista radical, o escritor foi demitido de seu cargo quando Perón assumiu seu terceiro mandato. Assim, os mais de 1000 livros doados de sua biblioteca pessoal para a Biblioteca Nacional foram “esquecidos” pelos funcionários peronistas e ficaram encaixotados por mais de 30 anos. Recentemente, uma busca tem revelado que outros livros foram doados por ele, mas omitiram a identidade do doador. O autor “alienado” foi perseguido por suas posições políticas.
Borges tinha horror ao nazismo e às consequências da Segunda Grande Guerra. O guarda-costas de Evita Perón, Otto Skorzeny havia sido o preferido de Hitler e de Mussolini. Otto auxiliou a fuga de vários nazistas para a Argentina com auxílio de Perón. Borges foi um forte opositor aos nazistas radicados na argentina que representavam, para ele, um perigo gravíssimo à comunidade judaica local. Por isso, Borges posicionou-se desastradamente a favor da ditadura na Argentina, acreditando que na época era a única alternativa ao peronismo. Além disso, as perseguições, que sofreu por manifestar suas posições políticas em voz alta, causou uma ruptura irreconciliável com o governante populista.
Um almoço com o ditador Videla é o momento mais assustador de sua biografia, mas teria ele aprendido que a rebeldia não lhe valeria nada, apenas o desemprego? Condescendeu para não ter que fugir como outros escritores e poder escrever sem o bafo da censura em seu cangote? Foi ingênuo acreditando que dos males aquela Ditadura seria o menor? Ou foi arrivista? Enfim, só podemos constatar que a sociedade argentina não conseguiu pegar uma terceira via, criar opções políticas democráticas também por questões externas: o braço dos EUA e seu projeto para a América Latina.
No fim de sua vida, perguntaram-lhe que mensagem deixaria aos jovens, ele respondeu o seguinte: “Eu não soube administrar minha vida, então não posso dirigir a vida dos outros. Minha vida foi uma série de equívocos. Não posso dar conselhos. Ando um pouco à deriva. Quando penso no meu passado, sinto vergonha. Eu não transmito mensagens, os políticos transmitem mensagens.”
Sentiremos vergonha?
Contudo, a mensagem que podemos aprender desse terrível equívoco borgeano é o seguinte: no Brasil o ódio a certo partido político, tido como “populista”, pode nos levar ao pior dos pesadelos, já que temos assistido ao crescimento de um candidato com posicionamentos radicais, muito similares aos dos nazistas. Em seus comícios, tal candidato afirma que tornará o Brasil um país unicamente cristão e expulsará as minorias; Hitler também tentou eliminar todos os judeus ou qualquer um que fosse diferente do alemão típico, se é que isso existe. Este é Jair Bolsonaro que confessou ter recebido 200 milhões de reais em propina da JBS (dona da Friboi), além de ter planejado atentado contra o seu próprio quartel para falsamente acusar comunistas, na época em que era militar. Por isso foi “expulso” da corporação.
Teremos, então, uma teocracia, onde não existirá mais o direito de professar sua fé livremente. Tal direito só pode ser defendido por um Estado laico que deveria proteger todas as religiões igualmente, inclusive o direito de não professar fé alguma. Nossa democracia, já rudimentar, está seriamente ameaçada, visto que a bancada evangélica ganha cada vez mais força, apelando para um pânico moralista ao invés de se ater às questões de interesse público que visem o bem comum. Corremos inocentemente para o abismo fazendo piadas, subestimando um homem perigoso, sem perceber que não há apanhadores no campo de centeio.