Livro de Carolina Maria de Jesus é resgatado em vestibulares 40 anos após morte de escritora

‘Quarto de despejo – Diário de uma favelada’ está nas listas obrigatórias de exames de duas universidades. Professores de literatura valorizam inclusão e possibilidade de reflexões.

Por G1 Campinas e região
07/05/2017 08h09 Atualizado 07/05/2017 08h09

Livro “Quarto de Despejo – Diário de uma favelada”, de Carolina Maria de Jesus, está entre as novidades dos próximos vestibulares da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). No ano em que a morte da escritora completa 40 anos, a obra resgatada está indisponível em algumas livrarias, mas a editora responsável pela impressão garante reposição e, à espera de alta na demanda, considera hipótese de elevar tiragem.
O diário foi anunciado na semana passada como uma das três alterações na lista da Unicamp para o vestibular 2019. Os outros dois livros inseridos na lista obrigatória de leituras são a poesia “A teus pés”, de Ana Cristina Cesar; e o romance “História do Cerco de Lisboa”, de José Saramago.
Já a UFRGS confirmou , em março, a inclusão do livro na edição 2018 do processo seletivo. A universidade renova anualmente a relação de obras com a substituição de quatro títulos.

Inovações
Carolina nasceu em Sacramento (MG), em 1914, e foi morar na capital paulista em 1947, época em que surgiram as primeiras favelas na cidade. Uma das primeiras e mais importantes escritoras negras do Brasil, ela reúne em “Quarto de Despejo” relatos de parte das experiências que viveu e observou na comunidade do Canindé, com três filhos. O lançamento ocorreu na década de 1960.

Para o professor de literatura Laudemir Guedes Fragoso, a inclusão da história da catadora de papel e sucatas nos processos seletivos representa inovações em abordagens de conteúdo e forma.
“Ela foi uma voz dissonante do Brasil marginalizado, é interessante se fazer paralelo com momento atual do país”, frisou o docente ao mencionar que vê tendência na abordagem de temas sociais nas provas, incluindo literatura indígena. Ele também lembrou a relevância na tratativa de um diário.
“É um gênero antigo, do século XV, e chama atenção a busca por novas formas literárias dentro da prova”, falou o professor do Colégio Objetivo ao lembrar da inclusão de “Minha vida de menina” na edição 2018 da Fuvest. A instituição já definiu a lista para o vestibular 2019 da USP e da Santa Casa.
Conexões
O professor de literatura Octávio da Matta, do Anglo, manteve o tom e valorizou a flexibilização dos vestibulares, que passaram a incluir não somente obras clássicas, mas também livros que retratam a história recente do país e as questões que seguem em debate, incluindo “Quarto de despejo”.
“A Unicamp e a Universidade Federal do Rio Grande do Sul estão convidando o estudante para uma reflexão. Carolina faz um relato autobiográfico, mas ainda hoje pode ser considerado atemporal por apresentar questionamentos sobre a violência, problema do alcoolismo e violência doméstica, a preocupação em conseguir sustentar os filhos e a revolta por não ter o que comer”, ressalta.

No caso da universidade em Campinas, em especial, o docente valorizou o fato de a mesma lista de livros contemplar a obra da escritora mineira, e “O espelho”, de Machado de Assis. ”

“É um fato gigantesco essa conexão, ele também teve uma origem humilde, foi autodidata. A Carolina aprendeu a ler pegando jornais e revistas e, diferentemente de uma obra do Aluísio Azevedo, apresenta um olhar de dentro dessa sociedade, demonstra sentimento, e não um pensamento de determinismo, instintivo. A versão dela é a mais pura realidade”.

Estoques

A assessoria de imprensa da Editora Ática informou, em nota, que recebeu uma nova reimpressão do livro na segunda quinzena de abril. O desabastecimento, segundo a empresa, ocorreu por causa do “espaço” entre esta etapa e a distribuição. “Em nosso e-commerce o livro já está disponível e ao longo das próximas semanas o livro voltará às livrarias. O livro está em sua décima edição”, diz nota.
Em relação à tiragem de “Quarto de despejo”, a editora mencionou que ela já foi elevada em 20%, em virtude da inclusão na lista da UFRGS. A expectativa é de que outra seja feita quando houver queda do estoque, por causa da colocação da obra entre os assuntos do vestibular da Unicamp.
“Esperamos que haja um aumento na procura pela obra, naturalmente, mas sabemos que obras de literatura não precisam ser necessariamente compradas novas, podem ser emprestadas de bibliotecas, de amigos ou adquiridas de segunda mão em sebos. Por isso, não temos previsão de nova tiragem enquanto tivermos estoque suficiente para atender as demandas”, informa texto.
Rede pública
Em 2013, o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) comprou e distribuiu, por meio do Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE), 29 mil exemplares do livro para escolas públicas com alunos em anos finais do ensino fundamental. De acordo com o governo federal, não há reserva ou destaque de exemplares, nem previsão para novas aquisições do título.

“Por meio do PNBE, são beneficiadas todas as escolas públicas, sem necessidade de adesão. […] Os livros são encaminhados diretamente às escolas para a composição dos acervos das bibliotecas e disponibilização dos exemplares aos alunos, geralmente, por meio de empréstimos e consulta.”

~ por Godoy em 20 nov 2017.

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