Bares, cafés e clubes, a partir do século XIX, não eram apenas um ambiente para a happy hour. Eles foram o cenário onde questões políticas, filosóficas, movimentos artísticos revolucionários se espalharam. O propósito deste site é o mesmo: criar um espaço virtual para expressão livre de ideais, reflexões e sentimentos, com espírito crítico em relação a nossa Cultura.
À Palestina,
o sangue, que jorra das veias de seu povo,
É esquecido, é ignorado.
Até quando fingiremos que tudo é normal?
Até quando viraremos as costas àqueles que sofrem
de um grande mal?
“Assim caminha a humanidade”, uns dizem.
Outros permanecem calados,
Enquanto seus filhos se esquivam da morte, sem
Saber se seus passos serão lembrados.
Todos eles serão só números quantificados?
Alguns ainda virarão teses de doutorado,
Mas sem nome, sem lar, nem água nem chão,
Todos seus filhos serão prisioneiros em seu próprio torrão?
E todos nós sem sentir vergonha por deixar
que isso aconteça a um irmão?
Godoy
11-07-2012
Ditador Videla, Borges e Sábato, em um almoço em 1976, onde os convidados teriam expressado sua preocupação com escritores presos ou desaparecidos. Em 2012, Videla admitiu que foi responsável pela morte de 8000 pessoas.
É difícil imaginar o autor argentino como um rebelde, já que o senso comum acredita que ele era apenas um homem em sua biblioteca, um dândi alheio à política, em sua torre de marfim. Ele próprio dizia-se avesso à política e autodefiniu-se como um anarquista conservador.
Contudo, sua vida e suas escolhas polêmicas dizem o oposto. Borges foi diretor da Biblioteca Nacional entre 1955 e 1972. Por ser anti-peronista radical, o escritor foi demitido de seu cargo quando Perón assumiu seu terceiro mandato. Assim, os mais de 1000 livros doados de sua biblioteca pessoal para a Biblioteca Nacional foram “esquecidos” pelos funcionários peronistas e ficaram encaixotados por mais de 30 anos. Recentemente, uma busca tem revelado que outros livros foram doados por ele, mas omitiram a identidade do doador. O autor “alienado” foi perseguido por suas posições políticas.
Borges tinha horror ao nazismo e às consequências da Segunda Grande Guerra. O guarda-costas de Evita Perón, Otto Skorzeny havia sido o preferido de Hitler e de Mussolini. Otto auxiliou a fuga de vários nazistas para a Argentina com auxílio de Perón. Borges foi um forte opositor aos nazistas radicados na argentina que representavam, para ele, um perigo gravíssimo à comunidade judaica local. Por isso, Borges posicionou-se desastradamente a favor da ditadura na Argentina, acreditando que na época era a única alternativa ao peronismo. Além disso, as perseguições, que sofreu por manifestar suas posições políticas em voz alta, causou uma ruptura irreconciliável com o governante populista.
Um almoço com o ditador Videla é o momento mais assustador de sua biografia, mas teria ele aprendido que a rebeldia não lhe valeria nada, apenas o desemprego? Condescendeu para não ter que fugir como outros escritores e poder escrever sem o bafo da censura em seu cangote? Foi ingênuo acreditando que dos males aquela Ditadura seria o menor? Ou foi arrivista? Enfim, só podemos constatar que a sociedade argentina não conseguiu pegar uma terceira via, criar opções políticas democráticas também por questões externas: o braço dos EUA e seu projeto para a América Latina.
No fim de sua vida, perguntaram-lhe que mensagem deixaria aos jovens, ele respondeu o seguinte: “Eu não soube administrar minha vida, então não posso dirigir a vida dos outros. Minha vida foi uma série de equívocos. Não posso dar conselhos. Ando um pouco à deriva. Quando penso no meu passado, sinto vergonha. Eu não transmito mensagens, os políticos transmitem mensagens.”
Sentiremos vergonha?
Contudo, a mensagem que podemos aprender desse terrível equívoco borgeano é o seguinte: no Brasil o ódio a certo partido político, tido como “populista”, pode nos levar ao pior dos pesadelos, já que temos assistido ao crescimento de um candidato com posicionamentos radicais, muito similares aos dos nazistas. Em seus comícios, tal candidato afirma que tornará o Brasil um país unicamente cristão e expulsará as minorias; Hitler também tentou eliminar todos os judeus ou qualquer um que fosse diferente do alemão típico, se é que isso existe. Este é Jair Bolsonaro que confessou ter recebido 200 milhões de reais em propina da JBS (dona da Friboi), além de ter planejado atentado contra o seu próprio quartel para falsamente acusar comunistas, na época em que era militar. Por isso foi “expulso” da corporação.
Teremos, então, uma teocracia, onde não existirá mais o direito de professar sua fé livremente. Tal direito só pode ser defendido por um Estado laico que deveria proteger todas as religiões igualmente, inclusive o direito de não professar fé alguma. Nossa democracia, já rudimentar, está seriamente ameaçada, visto que a bancada evangélica ganha cada vez mais força, apelando para um pânico moralista ao invés de se ater às questões de interesse público que visem o bem comum. Corremos inocentemente para o abismo fazendo piadas, subestimando um homem perigoso, sem perceber que não há apanhadores no campo de centeio.
É um homem que tem hábitos, penso de repente, deve vir com relativa frequência a este quarto, é um homem que deve fazer muito amor, um homem que tem medo, deve fazer muito amor para lutar contra o medo. Eu lhe digo que gosto da ideia de que ele tenha muitas mulheres, de estar entre estas mulheres, confundido entre elas. Nos olhamos. Ele entende o que acabo de dizer. O olhar subitamente alterado, desfocado, arrebatado, a morte.
Digo que venha, que ele deve me tomar de novo. Ele vem. Ele cheira bem, a cigarro inglês, a perfume caro, ele cheira a mel, sua pele adquiriu à força o cheiro da seda, o perfume frutado do tussor de seda, do ouro, ele é desejável. Eu lhe falo desse desejo por ele. E fala, diz que soube imediatamente, desde a travessia do rio, que eu seria assim após meu primeiro amante, que eu amaria o amor, diz que já sabe que eu o enganarei e que enganarei também todos os homens com quem estiver. Diz que, quanto a si, ele foi o instrumento de sua própria desgraça. Fico feliz com tudo que ele me anuncia e lhe digo. Ele se torna brutal, seu sentimento é desesperado, ele se atira sobre mim, come os seios de criança, grita, insulta. Penso: está acostumado a isso, é o que faz na vida, o amor, só isso. As mãos são experientes, maravilhosas, perfeitas. É como uma profissão que ele tivesse, sem saber ele teria a exata noção do que deve fazer, do que deve dizer. Ele me chama de puta, de nojenta, diz que sou seu único amor, e é isso o que ele deve dizer e é isso o que se diz quando se deixa o dizer acontecer, quando se deixa o corpo fazer e buscar e encontrar e tomar o que quer, e aí tudo é bom, não há restos, os restos são recobertos, tudo arrastado pela torrente, pela força do desejo. “O Amante”, Marguerite Duras
Viver não é necessário; o que é necessário é criar.
Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso.
Só quero torná-la grande,
ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a (minha alma) a lenha desse fogo.
Só quero torná-la de toda a humanidade;
ainda que para isso tenha de a perder como minha.
Cada vez mais assim penso.
Cada vez mais ponho da essência anímica do meu sangue
o propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir
para a evolução da humanidade.
É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa Raça.
[Nota de SF “Navigare necesse; vivere non est necesse” – latim, frase de Pompeu, general romano, 106-48 aC., dita aos marinheiros, amedrontados, que recusavam viajar durante a guerra, cf. Plutarco, in Vida de Pompeu]
“Os avarentos não acreditam numa vida futura, o presente é tudo para eles. Esta reflexão joga uma horrível clareza sobre a época atual em que, mais que em qualquer outro tempo, o dinheiro domina as leis, a política e os costumes. Instituições, livros, homens e doutrinas, tudo conspira para solapar a crença numa vida futura, sobre a qual o edifício social se apoia há mil e oitocentos anos. Atualmente, a sepultura é uma transição pouco temida. O amanhã que nos esperava além do Requiem foi transportado para o presente. Chegar per fas et nefas [por todos os meios] ao paraíso terrestre do luxo e das vaidosas alegrias, petrificar o coração e macerar o corpo em busca de bens passageiros como outrora se suportava o martírio em busca dos bens eternos, eis o pensamento geral. Pensamento que, aliás, está escrito em toda parte, até nas leis, que perguntam ao legislador: “Que pagas?” em vez de indagar: “Que pensas?” Quando essa doutrina tiver passado da burguesia ao povo, que será do país?”
Resposta a Balzac
Quase duzentos anos depois, eu responderia a Balzac que esse pensamento passou ao povo muito antes do que ele poderia imaginar e não apenas o povo francês, mas foi globalizado.
Assistindo aos canais neo-pentecostais no fim das noites, pode-se observar fieis recostados a carros de luxo, afirmarem que graças a Igreja Universal do Reino de Deus, ou outra do mesmo naipe, conquistaram o paraíso terreno. Ninguém fala em ser bom para salvar sua alma para o vindouro Paraíso e a graça divina que não é “de graça” depende do seu engajamento nesta ou naquela congregação, mas tem que ser “pra já”, tem que ser agora, ninguém quer esperar.
Acredito, porém, nas exceções e a própria Eugènie Grandet, personagem do livro de onde esse trecho foi extirpado, é um exemplo de uma rara exceção, perdoem o pleonasmo, já que ela dá todo o dinheiro dela para seu amado Carlos fazer fortuna na colônia a fim de poderem se casar. Quando Carlos, finalmente, volta riquíssimo, casasse com outra moça aristocrata pobre, para dar lastro ao seu nome plebeu e possibilitar entrada dele na política.
O nome Eugènie, de boa origem, e o sobrenome, Grandet, semelhante a grand, grande em francês, indicam que Balzac criou uma personagem excepcional por sua rara generosidade curtida no sofrimento causado por seu pai riquíssimo, mas tão avarento que deixa a filha e a esposa passarem fome e frio para continuar acumulando seu capital.
A ironia do romance de Balzac é que a grandeza da heroína passa despercebida ou menosprezada pelo mundo mesquinho a sua volta, por seu pai e por seu noivo ganancioso. Ninguém a observa ou é capaz de entender e admirar seu gesto: é uma heroína anônima, exceto para o autor e o leitor que se identificar com ela, caso contrário a verão apenas como uma moça tola e ingênua que perdeu sua vida por confiar demais na humanidade.
ثورة الياسمين
Em memória de Tarek el-Tayeb Mohamed Bouazizi, um vendedor de frutas ambulante tunisiano que se incendiou em 17 de dezembro de 2010 e se tornou um catalisador para a Revolução de Jasmim na Tunísia e a Primavera Árabe contra regimes autoritários. Sua autoimolação foi uma resposta ao confisco de seus produtos e ao assédio e humilhação infligidos a ele por um funcionário municipal e seus assessores.
A púrpura tirou-lhe o pão
E a humilde banca de frutas.
Sem meios para o sustento,
Azizi vende dor "a todos Aqueles que sonham com a liberdadE".
Nos muros, palavras oníricas viraram
concretas pelo concreto
Ou virarão algum dia?
Ele imaginou o saldo de seu gesto?
Se soubesse, novamente se imolaria?
Nas Revoluções com nomes de cores e flores
O sinistro e o sublime se misturam:
quão apavorante é a arrastada miséria humana,
que um arrepiante gesto de horror instantâneo aliviaria?
Ascende o novo modo velho de ser e de pensar.
O que se perderá, o que se ganhará?
As belezas naturais e femininas encobertas
aos filhos mestiços de antigos fenícios,
são visitadas pelos curiosos
e reveladas aos peregrinos pagãos.
A esse lirismo brutal e pronto me debruço,
Esperando, desse jasmineiro, o fruto.
10-09-2012