Som e fúria

Sound and fury

Macbeth:

“Tomorrow and tomorrow and tomorrow,
Creeps in this petty pace from day to day
To the last syllable of recorded time,
And all our yesterdays have lighted fools
The way to dusty death. Out, out, brief candle!
Life’s but a walking shadow, a poor player
That struts and frets his hour upon the stage
And then is heard no more: it is a tale
Told by an idiot, full of sound and fury,
Signifying nothing.”

Som e Fúria

 

Seyton:

A rainha, meu senhor, está morta.

Macbeth:

“Ela deveria ter morrido mais tarde. Teria havido uma hora para essa palavra. Amanhã, e amanhã, e amanhã
Arrastam-se nessa passada trivial do dia para a noite, da noite para o dia,
Até a última sílaba do registro dos tempos.
E todos os nossos ontens não fizeram mais que iluminar para os tolos
o caminho que leva ao pó da morte. Apaga-te, apaga-te, chama breve!
A vida não passa de uma sombra que caminha, um pobre ator
Que se pavoneia e se aflige sobre o palco –
Faz isso por uma hora e, depois, não se escuta mais sua voz:
É uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria
Significando nada”.

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Conspiradores como os Macbeths caem mais cedo ou mais tarde.

Refugiados

Você, que é tão erudito,
recite-me versos suaves, por piedade,
para recuperar de viver a vontade!

Você, que é tão ajuizado,
Por misericórdia me dite os santos escritos
Nos templos ouvidos,
Para alimentar desgraçados proscritos!

Você, que é tão são,
por compaixão, reze-me uma oração
para alentar a quem vive ao relento;
a quem se negou a terra de onde tirar o sustento;
a quem nunca recuperou seu pródigo rebento.

Thaís GM

 

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Cântico negro

Cântico negro

José Régio

“Vem por aqui” — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: “vem por aqui!”
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali…
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos…
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: “vem por aqui!”?

 

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí…
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

 

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?…
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos…

 

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios…
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

 

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: “vem por aqui”!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

 

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Morto

de Ricardo Costa

 

Penso que nasci morto

Vivi meio que morto

No ponto morto

Me fiz de morto

Vivo-morto já é um morto

Vivo pode ser morto

Morto não pode ser morto

Mas morto é morto

Se morno não está morto

Se frio talvez quase morto

Gelado, com certeza morto

Amarelo encerado é um morto

Deitado caixão com flor é morto

Cem por cento morto

Até baralho tem morto

Que fica de lado como morto

Se joga bem pega o morto

Só então vive o morto

Desconectar da vida está morto

Na solidão você é um morto

Sozinho está morto

Morto bom é um bom morto

Seu futuro terá um morto

Você será um morto

Ninguém tem inveja de morto

Chora quando vê um morto

Morto por morto

Melhor um bem morto.

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Lawrence Olivier em Hamlet

À sua mulher antes de casar

Para quem é da área de Letras e não tem ideia para fazer um projeto de mestrado, aí vai uma sugestão: o poema da Florbela Espanca, “Para quê?” publicado anteriormente, tem uma relação de intertextualidade com o poema abaixo de Gregório da Matos. Se ela o leu ou não é preciso investigar, de qualquer maneira, certas imagens, da flor, do pó, das cinzas, do nada, a gradação do período barroco retomadas num período mais recente, nos faz lembrar da ideia de Borges sobre o espírito da poesia. As ações propostas por Florbela e Gregório diante da transitoriedade da vida, no entanto são muito diferentes: ele propõem à futura esposa desfrutar ao máximo, enquanto há tempo (O tema do carpe diem, numa atitude mais hedonista); já a autora portuguesa pensa em desistir de procurar o amor e o prazer, pois tudo é vaidade, o que nos remete ao livro bíblico, o Eclesiastes.

Gregório de Matos Guerra

 

Discreta e formosíssima Maria,
Enquanto estamos vendo a qualquer hora
Em tuas faces a rosada Aurora,
Em teus olhos, e boca o Sol, e o dia:

Enquanto com gentil descortesia
O ar, que fresco Adônis te namora,
Te espalha a rica trança voadora,
Quando vem passear-te pela fria:

Goza, goza da flor da mocidade,
Que o tempo trota a toda ligeireza,
E imprime em toda a flor sua pisada.

Oh não aguardes, que a madura idade
Te converta essa flor, essa beleza
Em terra, em cinza, em pó, em sombra, em nada.

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Para quê?!

F. Espanca

Tudo é vaidade neste mundo vão…
Tudo é tristeza, tudo é pó, é nada!
E mal desponta em nós a madrugada,
Vem logo a noite encher o coração!

Até o amor nos mente, esta canção
Que o nosso peito ri à gargalhada,
Flor que é nascida e logo desfolhada,
Pétalas que se pisam pelo chão!

Beijos de amor! Pra quê?! … Tristes vaidades!
Sonhos que logo são realidades,
Que nos deixam a alma como morta!

Só neles acredita quem é louca!
Beijos de amor que vão de boca em boca,
Como pobres que vão de porta em porta!…

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Minha cara

Minha cara

de Ricardo Costa

 

Suas curvas escorrem

Por belezas leves

Seus olhos verdes

Nariz delicado e esbelto

Rosto que me faz gosto

Seu corpo naveguei

Como encosto do meu corpo

Das bordas às solas contornei

Sua pele fina, clara e rara

Acariciei e amei

Ara meu coração

Que me leva a ação

Sua alma alegre

Minha estepe

Sua simpatia

Minha guia

Com todo carinho

Fez este ninho

Não sou melhor

Nem o pior

Sou o padrão do tanto

Sou o que sou

Mas estou onde estou

Desde que começou

Entre certos e errados

A vida nos levou

E tudo juntou.

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Chuva

Chuva

de Ricardo Costa

 

Eu quero chuva

Chuva molhada

Quero um céu

Pesado e cinza

Que me dê esperanças

De que mais chuva virá

Muita, mas muita água

Quero que molhe

Quero que lave

Quero ver poças refletidas

Numa tênue claridade

Quero acordar

E ver que choveu

Noite inteira sem parar

E se possível

Ao acordar que ainda chova

Chuva contínua

Nada de sol triturando

Meu espírito não bate com o sol

Está mais para o griset

Que conviva com

A solidão doce que sinto

Não quero gente

Gente cansa

E já estou muito cansado

Olho para trás e

Penso que tenho direito

Ao cansaço pois já

Vi tantos céus

Vi horizontes

Noites e dias

Vivi noites a sós

Enganando a mim

Quanta tolice

Tanto tempo correndo no nada

Para encontrar nada

Pura ilusão

E o tempo não ajuda

Corre muito

Muito mais do que posso sonhar

Quero então

Chuva úmida, suave

Caindo e batendo

Em minha janela

Chuva, só chuva caindo

De pingo pingado

Bem cadenciado

Com seu toque singelo

De gélido silêncio

Apenas silêncio

Silêncio.

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Sonho de Verão

Agora é verão,
Mas é primavera em meu coração!
Recolho safiras que caem dos céus.
Piso rubis que brotam pelas estradas.
Apanho esmeraldas espalhadas nos prados.

Douradas borboletas e libélulas,
Anjos de asas translúcidas,
Em meus ombros e braços vêm pousar.

À sua descuidada mãe, as devolvo.
Nos brilhantes cabelos, porém, duas ficam perdidas.
E, quando são descobertas,
De papel e espelho, tentam se disfarçar.

Thaís GM

 

Jacareí, 27 de janeiro de 2018

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O harém ao rés do chão

No imaginário ocidental o harém primeiro fascina pelo mistério. Com efeito, a compreensão lendária das culturas do Médio Oriente incorpora uma visão de mulheres isoladas e restritas, à disposição da lascívia de seu senhor. E ainda que, em tempos mais recentes, estudos, relatos e ações tenham adentrado as questões postas pela condição feminina em países de cultura islâmica, contudo a imagem de sedução e dominação associada ao harém perdura com resiliência perturbadora.

A historiadora Marina Soares procede a uma inovadora arqueologia desses conceitos, imagens e permanências. Ela percorre narrativas de viagens de europeus ao Império Otomano, Pérsia e Norte da África, publicadas em língua inglesa e francesa, remontando ao final do século XVI e prosseguindo até o final do século XVIII. Nesse cenário textual é possível seguir os rastros das representações do harém que ensejaram o imaginário de luxúria a compor a figuração das sociedades islâmicas. Dentre essas fontes cuidadosamente reunidas e analisadas, o último relato, publicado em 1791, destaca a experiência médica de um viajante inglês em dois haréns do Reino de Marrocos. Trata-se de documento privilegiado que permite recuperar nessa questão pontual o confronto das culturas: os pressupostos médicos europeus encontram as práticas médicas mouras – um encontro de perplexidades e trocas que a argúcia da investigadora traz à luz com fina maestria.

O tema é muito pouco explorado pela pesquisa acadêmica sobre o Oriente, em geral mais voltada para estudos que, de alguma forma, possam instruir as questões políticas do presente. E, contudo, é na longa duração que a economia dos costumes enreda pacientemente o tecido da cultura – urdidura que dá sentido aos acontecimentos que convocam a atenção para as relações entre os povos.

Este livro propicia o delicado desenlace dos atados mais profundos de nossa simbologia sobre o harém, um mistério desvelado como uma ficção instigante que nos convida a mirar em espelho nossas próprias quimeras.

Sara Albieri

Professora Titular de História FFLCH USP

 

Autora:

Marina de Oliveira Soares possui bacharelado e licenciatura em História pela Universidade de São Paulo, com Mestrado em “Língua, Literatura e Cultura Árabe” e Doutorado em História Social, ambos na FFLCH USP.

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Yale compra cartas de amor de Simone de Beauvoir a Claude Lanzmann

A universidade americana de Yale comprou as 112 cartas de amor escritas por Simone de Beauvoir a Claude Lanzmann, indicou nesta sexta-feira, 19, a casa de leilões Christie’s.

O valor da venda não foi informado.

Claude Lanzmann, de 92 anos, cineasta, jornalista e escritor, foi o secretário de Jean-Paul Sartre. Durante sete anos, entre 1952 e 1959, viveu com Simone de Beauvoir, 17 anos mais velha.

Estas cartas de um “amor louco”, segundo Lanzmann, “apenas diziam respeito a Simone de Beauvoir e a mim”, indicou em um texto transmitido pela Christie’s.

“Eu não pretendia mostrar (esta correspondência), em nenhuma forma de publicação”, acrescentou Lanzmann, que explicou ter vendido essas cartas à Universidade de Yale por causa da “escandalosa lei francesa” que enquadra a transmissão de legados e heranças da totalidade dos escritos de um autor “para parentes às vezes desconhecidos, ao mesmo tempo que rouba os verdadeiros destinatários dessa correspondência”.

“O conteúdo dessas cartas, de acordo com essa lei absurda, pertence a quem as escreve, mas nunca aos destinatários, a quem são dirigidos”, objetou Lanzmann.

Mas, acrescenta, o destinatário dessas cartas “tem o direito de cedê-las, esperando que o comprador possa publicá-las ou, pelo menos, preservá-las e permitir o acesso a historiadores e pesquisadores”.

“Foi o que acaba de acontecer felizmente com as 112 cartas que Simone de Beauvoir me enviou”, comemorou.

“A prestigiosa Universidade de Yale, que já possui manuscritos de Simone de Beauvoir e meus seminários, que cedi desde 1985, pode, com certeza, ter orgulho de ter comprado todas as cartas de Simone de Beauvoir a Claude Lanzmann, uma excepcional correspondência de amor única no mundo”, conclui.

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O brasileiro e o abismo

A melhor frase que ouvi recentemente sobre os brasileiros é de Teolinda Gersão, autora portuguesa do livro “A cidade de Ulisses”: mesmo diante do abismo, os brasileiros sorriem, ficam alegres, parecem pensar que são tão grandes que não caberão nele.

Se essa aparência reflete o que realmente sentimos, eu não sei. Acho que simplesmente não pensamos. A  maioria é inconsequente e prefere se drogar assistindo BBB ou usando outra distração qualquer, para não pensar no abismo, ao invés de tentar escapar dele.

Como o personagem kafkiano de A Metamorfose, que, ao se transformar em um inseto gigantesco, só consegue se preocupa se vai conseguir chegar ao trabalho na hora.

De qualquer forma, essa é uma bela frase, não é?

via “A cidade de Ulisses”, de Teolinda Gersão, é um prato cheio para o leitor amante de narrativas híbridas – Jornal Opção