Giuseppe Ungaretti

Giuseppe Ungaretti

Nasceu a 08 Fevereiro 1888
(Alexandria, Egito)
Morreu em 01 Junho 1970
(Milão, Itália)
Giuseppe Ungaretti foi um poeta italiano. Foi professor da Universidade de São Paulo.

À MEMÓRIA DE


Chamava-se
Maomé Cheabe
Descendente
dos emires dos nómadas
suicida
porque não tinha já
pátria

Amou a França
e mudou de nome

Foi Marcel
mas não era francês
e não sabia já
viver
na tenda dos seus
onde se escuta a cantilena
do Corão
saboreando um café

E não sabia soltar
o canto
do seu abandono

Acompanhei-o
junto com a patroa do hotel
onde habitávamos
em Paris
no nº 5 da Rue des Carmes
murcha viela em descida

Repousa
no cemitério de Ivry
subúrbio que parece
sempre em dia
de uma
feira levantada.

E talvez eu só
ainda saiba
que viveu.

O que os outros pensam de você reflete quem eles são, não quem você é

Em Provocações Filosóficas

Os Sioux têm um provérbio muito interessante: “Antes de julgar uma pessoa, caminha três luas com seus sapatos”. Se referem ao fato de que julgar é muito fácil, entender o outro é um pouco mais difícil. Ser empático é muitíssimo mais complicado. E o julgamento só será justo se vivermos experiências iguais.

Entretanto, com frequência pretendemos que os outros nos entendam, que compreendam nossas decisões e as compartilhem, ou que, ao menos, nos apoiem. Quando não fazem o que queremos, nos sentimos mal, nos sentimos incompreendidos e até rejeitados.

É evidente que isso é difícil de aceitar, todos necessitamos que, em algumas situações, alguém acolha nossas emoções e decisões. É perfeitamente compreensível. Contudo, sujeitar nossa felicidade à aceitação dos demais ou tomar decisões com base no medo de que os outros não vão nos entender é um grande erro. Um grande e inominável erro.

 

Porque os que os outros pensam sobre você na realidade diz mais sobre eles do que sobre a sua pessoa. O que pensam reflete, com certeza, o que são eles, não quem é você.

Quando criticamos alguém sem usar a empatia de nos colocarmos em seu lugar e sem, ao menos,  tentar compreender o ponto de vista do outro, na realidade expomos nossa forma de ser.  Quando alguém diz ao mundo que você é uma má pessoa esta atitude revela que ela é insegura, tem um pensamento duro e cheio de estereótipos.

Quem critica o que não é, não compreendeu ou não quer aceitar

O mais certo é que por trás de uma crítica destrutiva quase sempre se esconde o desconhecimento ou a negação de si mesmo. Na verdade, muitas pessoas lhe criticam porque não compreendem suas decisões, não caminham com os seus sapatos, não conhecem a sua história e não entendem a verdadeira razão de ter escolhido o caminho que escolheu. Muitas pessoas ainda vão lhe criticar por desconhecimento mais profundo sobre o seu jeito e, sobretudo, por serem arrogantes e pensarem que são os donos absolutos da verdade.

Em outros casos, as pessoas lhe criticam porque veem refletidas em você certas características ou talentos que não querem reconhecer. O escritor francês Jules Renard afirmou com precisão:“Nossa crítica consiste em reprovar nos outros  as qualidades que cremos ter”.  Por exemplo, uma mulher que é maltratada pelo seu marido pode criticar duramente o divórcio. É uma forma de reafirmar sua posição. Diz a si mesma que deve seguir suportando essa situação. E o curioso é que quanto mais tóxica seja a crítica, mais forte se revela a negação dos seus sentimentos.

Na prática, em algumas ocasiões, a crítica destrutiva não é mais do que um mecanismo de defesa conhecido como projeção. Neste caso, a pessoa projeta nos outros os mesmos sentimentos, desejos ou impulsos que lhe são muito dolorosos. E com os quais não é capaz de conviver. De maneira que os percebe como algo estranho e que deve ser castigado.

Como sobreviver às críticas?

Ninguém gosta de ser criticado, principalmente se as críticas se transformam em duros ataques verbais. Infelizmente, nem sempre podemos evitar estas situações, mas devemos aprender a lidar com elas sem que as mesmas nos afetem em excesso.

Como faço para resolver isso? Aqui estão algumas estratégias diferentes, porém eficazes:

  1. Coloque-se no lugar de quem lhe critica. A empatia é um poderoso antídoto contra a raiva. Não podemos ter raiva de alguém quando compreendem8os como se sente. Por isso, da próxima vez que alguém lhe criticar, tente se pôr no seu lugar. Ainda que essa pessoa não seja capaz de se colocar no seu. Assim verá que é provável que se trate de alguém míope dos olhos da alma. Ou quem ainda não teve a sua experiência de vida e guarda muita amargura e ressentimento. Dessa forma, perceberá que não vale a pena se aborrecer pelas palavras ditas com raiva.
     
  1. Entenda que é somente uma opinião, nada mais.O que os outros pensam sobre você é a realidade deles, não a sua realidade. Tais pessoas estão lhe julgando segundo as suas experiências, valores e critérios. Se tivessem caminhado com os seus sapatos, talvez andado pelos mesmos caminhos que você percorreu, é provável que pensariam diferente. Portanto, assuma de vez que essas críticas, na realidade, são apenas opiniões jogadas ao vento, nem mais nem menos. E que são absolutamente tendenciosas. Por outro lado, você pode valorizá-las se perceber que pode tirar proveito delas. Mas você pode, simplesmente, desprezá-las; jamais permita que as críticas arruínem o seu dia.
  1. Devolva a crítica com graça. Quando se tratam de críticas destrutivas o mais conveniente é fazer “ouvidos moucos”. E saiba que essa pessoa não está aberta ao diálogo. Pois se estivesse, em vez de julgar e atacar, mostraria uma atitude mais respeitosa e compreensiva. Não obstante, haverá casos em que seja necessário dar um basta na situação. Depois de tudo, quando tivermos que enfrentar males extremos, devemos recorrer a soluções mais incisivas. Nestes casos, responda sem se alterar e com frases breves que não deem motivos às réplicas.  Por exemplo, você pode dizer: “Não pode dar opinião sobre coisas que você não conhece” ou “Creio que não entendeu e tampouco deseja viver em paz. Dessa forma, não aceito que me critique”. Não critique sem pensar antes

“Em geral, os homens julgam mais pelos olhos do que pela inteligência, pois todos podem ver, mas poucos compreendem o que veem”, disse Maquiavel, séculos atrás. Podemos fazer nossa própria frase e, ainda assim, mantermos sua vigência: “Criticar por criticar significa que temos a língua fora do cérebro”.

Texto de Jennifer Delgado – Extraído de Rincón de la psicología 

 

 

Não te rendas

Mario Benedetti

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Grafite representando protesto dos coletes amarelos, releitura do quadro “A liberdade guiando o povo”, Delacroix

 

 

Não te rendas, ainda estás a tempo
de alcançar e começar de novo,
aceitar as tuas sombras
enterrar os teus medos,
largar o lastro,
retomar o voo.

Não te rendas que a vida é isso,
continuar a viagem,
perseguir os teus sonhos,
destravar os tempos,
arrumar os escombros,
e destapar o céu.

Não te rendas, por favor, não cedas,
ainda que o frio queime,
ainda que o medo morda,
ainda que o sol se esconda,
e se cale o vento:
ainda há fogo na tua alma
ainda existe vida nos teus sonhos.

Porque a vida é tua, e teu é também o desejo,
porque o quiseste e eu te amo,
porque existe o vinho e o amor,
porque não existem feridas que o tempo não cure.

Abrir as portas,
tirar os ferrolhos,
abandonar as muralhas que te protegeram,
viver a vida e aceitar o desafio,
recuperar o riso,
ensaiar um canto,
baixar a guarda e estender as mãos,
abrir as asas
e tentar de novo
celebrar a vida e relançar-se no infinito.

Não te rendas, por favor, não cedas:
mesmo que o frio queime,
mesmo que o medo morda,
mesmo que o sol se ponha e se cale o vento,
ainda há fogo na tua alma,
ainda existe vida nos teus sonhos.
Porque cada dia é um novo início,
porque esta é a hora e o melhor momento.
Porque não estás só, por eu te amo.

 

Meu amor

Quem é você?
Quem sou eu?
Da mistura de nós dois,
Nasceu um lago tranquilo
Que encobriu vilas,
Torres e cruzes
Nasceu um campo de flores,
Um bosque e um pasto
Nasceu um sol, uma nuvem e um vento fresco.

Nasceu o olhar que vê o que nasceu.

corazon

A Montanha Mágica

O teu repouso, pedra, enquanto passo,

Faz o sonhar mais lento ao deus que dança.

Temo o fim do que avança pelo espaço,

Mas o teu sono lasso o tempo amansa.

 

Tudo o que vive neste mundo cansa:

Já nem meço a extensão do meu cansaço.

O amor inclina os seres à esperança

E a quem vive da espera o tempo é escasso.

 

Jacó serviu sete anos, e mais sete,

Labão, pai de Raquel. E mais servira…

Comigo agora a conta se repete.

 

Imoto, sofro ao Tempo que me fira,

Sem que te arremedar me desinquiete.

Espero, e fiz-me pedra que delira.

29-06-2012

Ascher-Cliff-Restaurant-Suíça

COLIBRI

Avatar de oescritoreapalavraO Escritor e a Palavra

colibri assustado
depositou um beijo
no bagaço de uma flôr,
semeou sonhos no infinito
fecundou esperanças
na noite inventada
em palavras coloridas
respirou a luz da aurora
e soprou sobre a pele
do mundo.

carlos bueno guedes

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Pássaro azul

Charles Bukovski

há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo, fique aí, não deixarei
que ninguém o veja.

há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas eu despejo uísque sobre ele e inalo
fumaça de cigarro
e as putas e os atendentes dos bares
e das mercearias
nunca saberão que
ele está
lá dentro.

há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo,
fique aí, quer acabar
comigo?
quer foder com minha
escrita?
quer arruinar a venda dos meus livros na
Europa?

há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou bastante esperto, deixo que ele saia
somente em algumas noites
quando todos estão dormindo.
eu digo, sei que você está aí,
então não fique
triste.

depois o coloco de volta em seu lugar,
mas ele ainda canta um pouquinho
lá dentro, não deixo que morra
completamente
e nós dormimos juntos
assim
com nosso pacto secreto
e isto é bom o suficiente para
fazer um homem
chorar, mas eu não
choro, e
você?”

Carson MacCullers

Carson-kisses-MarilynEm 2017 foi o centenário do nascimento de Carson MacCullers, para homenageá-la Editoras de Portugal, Espanha e Estados Unidos reeditaram das suas obras, e o Centro Carson McCullers para Escritores e Músicos, da Universidade John Cabot, realizou em julho daquele ano, em Roma, a conferência internacional “Carson McCullers in the world”, entre outras iniciativas.

McCullers foi admirada por Tennessee Williams, Graham Greene, Charles Bukowsky, e o escritor José Rodrigues Miguéis, que a revelou ao público português e traduziu “Coração, solitário caçador”, definiu-a como “o caso mais impressionante da literatura norte-americana” dos anos de 1940-50.

Flaubert e Dostoievski são apontados como influências, mas McCullers encontrou o seu próprio lugar no estilo “Gótico Sulista”, em que também se inscrevem William Faulkner, Eudora Welty, Katherine Anne Porter ou Flannery O’Connor.

O fato é sublinhado pela editora Relógio d’Água, que prepara a edição da obra da escritora, recordando que McCullers ficou conhecida pelos seus romances – “Coração, solitário caçador”, “Reflexos nuns olhos de ouro” e “Relógio sem ponteiros” -, embora tenha sido uma notável contista, na tradição do Sul da literatura norte-americana.

Nascida a 19 de fevereiro de 1917, em Columbus, na Georgia, Lula Carson Smith morreu aos 50 anos, em Nova Iorque.

Em 1940, publicou o primeiro romance, “Coração, solitário caçador”, ‘obra-revelação’ distinguida pelo público e pela crítica, que destacou a sua “surpreendente maturidade”. Adaptada ao teatro e ao cinema (Robert Ellis Miller, 1968), foi eleito um dos cem melhores romances do século XX e encontra-se entre os 20 melhores da Modern Library da Random House.

A história se passada no sul dos Estados Unidos, durante a Grande Depressão, num cenário de pobreza e isolamento, centrada num mudo, John Singer, a quem figuras desenquadradas da sociedade confiam segredos, mas que apenas quer a atenção mas não a recebr.

O sucesso da obra seria reforçado no ano seguinte, 1941, com “Reflexos nuns olhos de ouro”, que dedica à escritora, jornalista e fotógrafa suíça Annemarie Schwarzenbach, por quem se apaixonou – um rosto que, como escreveu, iria assombrá-la o resto da vida.

A história, que também foi adaptada ao cinema (John Huston, 1957), fala das relações entre dois oficiais do exército e respectivas mulheres, explorando a tensão latente entre as “máscaras sociais” e o mundo das paixões e obsessões secretas. O tema da homossexualidade reprimida gerou escândalo, mas a obra tornou-se num livro cultuado e depressa ascendeu à categoria de ‘obra-prima’.

O dramaturgo Tennessee Williams, autor do prefácio da edição original, encontra aqui “mestria absoluta da composição e uma precisão lapidar”. Para o autor de “Noite da iguana”, esta é “uma das obras mais puras e mais eficazes que foram concebidas”, ao nível “da Guernica, de Picasso”, ou das caricaturas de Charles Addams.

Williams respondia assim à crítica que estranhava a galeria de figuras “grotescas”, “mórbidas”, “pervertidas” ou “fantásticas” das obras de McCullers, todas elas, porém, plenas de sensibilidade e delicadeza.

“A sua arte é toda de delicadeza, ternura e tons profundamente femininos”, escreveu José Rodrigues Miguéis.

“A Balada do Café Triste”, “uma das obras-primas em prosa da língua inglesa”, para Tennessee Williams, data de 1951 e descreve uma pequena povoação, apenas animada por um único café, propriedade de uma mulher forte, independente e máscula, que se apaixona por um anão corcunda, mas que vê a felicidade abalada pela saída do ex-marido da prisão.

A sexualidade e a identificação de gêneros voltam a ser abordadas em “Frankie e o casamento”, primeira obra da escritora adaptada ao cinema (Fred Zinnemann, 1950), em que uma menina de 12 anos sonha com um mundo em que as pessoas pudessem livremente mudar de sexo.

Apesar do sucesso e do reconhecimento, McCullers teve uma vida limitada pela dor, pela doença e por crises de alcoolismo.

Esteve casada durante quatro anos (1937-1941) com o ex-soldado Reeves McCullers, o homem de quem herdou o nome, que disse ser o mais belo que já conhecera, e foi atormentada ao longo da vida por paixões não correspondidas por outras mulheres.

Morreu de hemorragia cerebral, a 29 de setembro de 1967.

“Todos os seus livros de terrível solidão, todos os seus livros sobre a crueldade do amor sem amor, foi tudo o que restou dela”, escreveu Charles Bukowsky.

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Heroína

A brasileira Aracy Moebius de Carvalho Guimarães Rosa era poliglota, falava quatro idiomas: português, inglês, francês e alemão. Com a facilidade em diversas línguas, conseguiu uma nomeação no consulado brasileiro em Hamburgo, na Alemanha, onde passou a ser chefe da Seção de Passaportes.

Em 1938,entrou em vigor no Brasil a Circular Secreta 1.127, que restringia a entrada de judeus no país. Aracy ignorou a circular e continuou preparando vistos para judeus, permitindo sua entrada no Brasil. Como despachava com o cônsul geral, ela colocava os vistos entre a papelada para as assinaturas, fazendo com que ele permitisse, sem saber, a vinda de judeus para o país. Para obter a aprovação dos vistos, Aracy simplesmente deixava de pôr neles a letra “J”, que identificava quem era judeu.

Arriscando seu emprego e sua vida com esse gesto, Aracy livrou muitos judeus dos campos de concentração e da morte já certa.

Paranaense, Aracy nasceu em Rio Negro, filha de pai português e mãe alemã, ainda criança foi morar com os pais em São Paulo. Aracy foi casada com o alemão Johann Eduard Ludwig Tess, com quem teve o filho Eduardo Carvalho Tess, mas cinco anos depois se separou, indo morar com uma irmã de sua mãe na Alemanha.

Ainda na Alemanha, Aracy casou-se com João Guimarães Rosa, à época cônsul adjunto. Os dois permaneceram na Alemanha até 1942, quando o governo brasileiro rompeu relações diplomáticas com aquele país e passou a apoiar os Aliados da Segunda Guerra Mundial.

Aracy e Guimarães Rosa ficaram quatro meses sob custódia do governo alemão. Só conseguiram ser salvos porque foram trocados por diplomatas alemães.

O livro de Guimarães Rosa “Grande Sertão: Veredas”, de 1956, foi dedicado a Aracy.

Aracy foi agraciada pelo governo de Israel com o título de “Justa entre as Nações”, dado a apenas mais um brasileiro (Souza Dantas), por ter salvado a vida de muitos judeus, conseguindo que eles entrassem ilegalmente no Brasil durante o governo de Getúlio Vargas. Ela também ficou conhecida como o “Anjo de Hamburgo”.

Aracy ficou viúva em 1967 e não casou novamente. Faleceu em 28 de fevereiro de 2011, em São Paulo.

À esquerda Aracy Moebius de Carvalho Guimarães Rosa

via O “Anjo de Hamburgo”: a brasileira que salvou judeus do holocausto