Por quê?

desespero

 

 

 

 

 

 

Por que não ligo mais?

Por que não ligo para minha honra?

Por que perdi sonhos,

Perdi a vergonha?

Por que fujo de alcançar os fins,

Se ainda estou no começo?

Sei que posso, sei que sou capaz.

Só preciso querer o que eu quero…

Querer o que quero, quando quero

E quando já não quero mais.

Vivo a dor e o mal-estar

De suspender a vida

Enquanto afundar.

 

Abril de 2012.

Se se morre de amor!

 Meere und Berge und Horizonte zwischen

den Liebenden – aber die Seelen versetzen

sích aus dem staubigen Kerker und treffen

sich im Paradiese der Liebe.

Schiller, Die Rüuber

Se se morre de amor! — Não, não se morre,

Quando é fascinação que nos surpreende

De ruidoso sarau entre os festejos;

Quando luzes, calor, orquestra e flores

Assomos de prazer nos raiam n’alma,

Que embelezada e solta em tal ambiente

No que ouve, e no que vê prazer alcança!

Simpáticas feições, cintura breve,

Graciosa postura, porte airoso,

Uma fita, uma flor entre os cabelos,

Um quê mal definido, acaso podem

Num engano d’amor arrebatar-nos.

Mas isso amor não é; isso é delírio,

Devaneio, ilusão, que se esvaece

Ao som final da orquestra, ao derradeiro

Clarão, que as luzes no morrer despedem:

Se outro nome lhe dão, se amor o chamam,

D’amor igual ninguém sucumbe à perda.

Amor é vida; é ter constantemente

Alma, sentidos, coração — abertos

Ao grande, ao belo; é ser capaz d’extremos,

D’altas virtudes, té capaz de crimes!

Compr’ender o infinito, a imensidade,

E a natureza e Deus; gostar dos campos,

D’aves, flores, murmúrios solitários;

Buscar tristeza, a soledade, o ermo,

E ter o coração em riso e festa;

E à branda festa, ao riso da nossa alma

Fontes de pranto intercalar sem custo;

Conhecer o prazer e a desventura

No mesmo tempo, e ser no mesmo ponto

O ditoso, o misérrimo dos entes;

Isso é amor, e desse amor se morre!

Amar, e não saber, não ter coragem

Para dizer que amor que em nós sentimos;

Temer qu’olhos profanos nos devassem

O templo, onde a melhor porção da vida

Se concentra; onde avaros recatamos

Essa fonte de amor, esses tesouros

Inesgotáveis, d’ilusões floridas;

Sentir, sem que se veja, a quem se adora,

Compr’ender, sem lhe ouvir, seus pensamentos,

Segui-la, sem poder fitar seus olhos,

Amá-la, sem ousar dizer que amamos,

E, temendo roçar os seus vestidos,

Arder por afogá-la em mil abraços:

Isso é amor, e desse amor se morre!

Se tal paixão porém enfim transborda,

Se tem na terra o galardão devido

Em recíproco afeto; e unidas, uma,

Dois seres, duas vidas se procuram,

Entendem-se, confundem-se e penetram

Juntas — em puro céu d’êxtases puros:

Se logo a mão do fado as torna estranhas,

Se os duplica e separa, quando unidos

A mesma vida circulava em ambos;

Que será do que fica, e do que longe

Serve às borrascas de ludíbrio e escárnio?

Pode o raio num píncaro caindo,

Torná-lo dois, e o mar correr entre ambos;

Pode rachar o tronco levantado

E dois cimos depois verem-se erguidos,

Sinais mostrando da aliança antiga;

Dois corações porém, que juntos batem,

Que juntos vivem, — se os separam, morrem;

Ou se entre o próprio estrago inda vegetam,

Se aparência de vida, em mal, conservam,

Ânsias cruas resumem do proscrito,

Que busca achar no berço a sepultura!

Esse, que sobrevive à própria ruína,

Ao seu viver do coração, — às gratas

Ilusões, quando em leito solitário,

Entre as sombras da noite, em larga insônia,

Devaneando, a futurar venturas,

Mostra-se e brinca a apetecida imagem;

Esse, que à dor tamanha não sucumbe,

Inveja a quem na sepultura encontra

Dos males seus o desejado termo!

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Poesia II
Ainda uma vez_Adeus!

Ainda uma vez — Adeus

English: Antônio Gonçalves Dias (August 10, 18...
English: Antônio Gonçalves Dias (August 10, 1823 — November 3, 1864) Português: (Photo credit: Wikipedia)

Gonçalves Dias

I

Enfim te vejo! — enfim posso,
Curvado a teus pés, dizer-te,
Que não cessei de querer-te,
Pesar de quanto sofri.
Muito penei! Cruas ânsias,
Dos teus olhos afastado,
Houveram-me acabrunhado
A não lembrar-me de ti!

II

Dum mundo a outro impelido,
Derramei os meus lamentos
Nas surdas asas dos ventos,
Do mar na crespa cerviz!
Baldão, ludíbrio da sorte
Em terra estranha, entre gente,
Que alheios males não sente,
Nem se condói do infeliz!

III

Louco, aflito, a saciar-me
D’agravar minha ferida,
Tomou-me tédio da vida,
Passos da morte senti;
Mas quase no passo extremo,
No último arcar da esp’rança,
Tu me vieste à lembrança:
Quis viver mais e vivi!

IV

Vivi; pois Deus me guardava
Para este lugar e hora!
Depois de tanto, senhora,
Ver-te e falar-te outra vez;
Rever-me em teu rosto amigo,
Pensar em quanto hei perdido,
E este pranto dolorido
Deixar correr a teus pés.

V

Mas que tens? Não me conheces?
De mim afastas teu rosto?
Pois tanto pôde o desgosto
Transformar o rosto meu?
Sei a aflição quanto pode,
Sei quanto ela desfigura,
E eu não vivi na ventura…
Olha-me bem, que sou eu!

VI

Nenhuma voz me diriges!…
Julgas-te acaso ofendida?
Deste-me amor, e a vida
Que me darias — bem sei;
Mas lembrem-te aqueles feros
Corações, que se meteram
Entre nós; e se venceram,
Mal sabes quanto lutei!

VII

Oh! se lutei! . . . mas devera
Expor-te em pública praça,
Como um alvo à populaça,
Um alvo aos dictérios seus!
Devera, podia acaso
Tal sacrifício aceitar-te
Para no cabo pagar-te,
Meus dias unindo aos teus?

VIII

Devera, sim; mas pensava,
Que de mim t’esquecerias,
Que, sem mim, alegres dias
T’esperavam; e em favor
De minhas preces, contava
Que o bom Deus me aceitaria
O meu quinhão de alegria
Pelo teu, quinhão de dor!

IX

Que me enganei, ora o vejo;
Nadam-te os olhos em pranto,
Arfa-te o peito, e no entanto
Nem me podes encarar;
Erro foi, mas não foi crime,
Não te esqueci, eu to juro:
Sacrifiquei meu futuro,
Vida e glória por te amar!

X

Tudo, tudo; e na miséria
Dum martírio prolongado,
Lento, cruel, disfarçado,
Que eu nem a ti confiei;
“Ela é feliz (me dizia)
“Seu descanso é obra minha.”
Negou-me a sorte mesquinha. . .
Perdoa, que me enganei!

XI

Tantos encantos me tinham,
Tanta ilusão me afagava
De noite, quando acordava,
De dia em sonhos talvez!
Tudo isso agora onde pára?
Onde a ilusão dos meus sonhos?
Tantos projetos risonhos,
Tudo esse engano desfez!

XII

Enganei-me!… — Horrendo caos
Nessas palavras se encerra,
Quando do engano, quem erra.
Não pode voltar atrás!
Amarga irrisão! reflete:
Quando eu gozar-te pudera,
Mártir quis ser, cuidei qu’era…
E um louco fui, nada mais!

XIII

Louco, julguei adornar-me
Com palmas d’alta virtude!
Que tinha eu bronco e rude
Co que se chama ideal?
O meu eras tu, não outro;
Stava em deixar minha vida
Correr por ti conduzida,
Pura, na ausência do mal.

XIV

Pensar eu que o teu destino
Ligado ao meu, outro fora,
Pensar que te vejo agora,
Por culpa minha, infeliz;
Pensar que a tua ventura
Deus ab eterno a fizera,
No meu caminho a pusera…
E eu! eu fui que a não quis!

XV

És doutro agora, e pr’a sempre!
Eu a mísero desterro
Volto, chorando o meu erro,
Quase descrendo dos céus!
Dói-te de mim, pois me encontras
Em tanta miséria posto,
Que a expressão deste desgosto
Será um crime ante Deus!

XVI

Dói-te de mim, que t’imploro
Perdão, a teus pés curvado;
Perdão!… de não ter ousado
Viver contente e feliz!
Perdão da minha miséria,
Da dor que me rala o peito,
E se do mal que te hei feito,
Também do mal que me fiz!

XVII

Adeus qu’eu parto, senhora;
Negou-me o fado inimigo
Passar a vida contigo,
Ter sepultura entre os meus;
Negou-me nesta hora extrema,
Por extrema despedida,
Ouvir-te a voz comovida
Soluçar um breve Adeus!

XVIII

Lerás porém algum dia
Meus versos d’alma arrancados,
D’amargo pranto banhados,
Com sangue escritos; — e então
Confio que te comovas,
Que a minha dor te apiade
Que chores, não de saudade,
Nem de amor, — de compaixão,

Maria, Marias

Paisagem Imaginante. Pintura feita em 1941 por Guignard, é uma das emblemáticas composições do artista em que nuvens se fundem a montanhas e igrejas, numa versão de ‘mundo flutuante’ em que estabelece um diálogo artístico com o Oriente

Maria, Maria sem dons nem magias

Só uma pobre qualquer

Que carece de alegrias,

Mas hoje vou cantá-la

nos meus versos mais pobres ainda

Para fazer-lhe jus, esse poema

Não destoa a forma do seu tema.

Maria, Marias, quantas poesias

Já escreveram em tua homenagem?

Incontáveis, eu já sabia!

Mas essa Maria não é aquela

A quem todos dizem amém.

É uma que conheci em uma

Longínqua paisagem.

Onde as Marias e as poesias

Nascem, vivem, morrem

Sem que o restante do mundo

Se dê conta de que na terra

Elas estiveram de passagem.

“Paisagem imaginante” de Alberto da Veiga Guignard

O operário que sonhava em ser poeta – parte I – In memoriam de Manir de Godoy

 

VIOLINISTA AZUL, de Marc Chagall

Era uma vez um menino meio nômade,

Que vivia entre o interior e a cidade grande.

O pai morrera de gangrena.

A mãe costureira sustentava com esforço seis filhos: Eupídio, Cássio, Dirce, Tó, Manir e Iracema.

Vendedor de doces no cinema, engraxate,

Chegou a operário de fábrica de chocolate.

Nada fantástica era a vida desse guri,

Que vivia em um cortiço no Pari.

Mas tudo mudou no dia em que encontrou

As letrinhas de metal jogadas na calçada,

Que formaram o primeiro poema do menino sentado no meio fio.

As letrinhas graciosas eram seu único brinquedo nas horas vagas.

Um dia, o dono das letras o viu

E chamou para trabalhar.

Ali, sua formação interrompida continuaria.

O menino-operário da tipografia,

Montava admirado textos de poetas, de romancistas e de aspirantes a artistas;

Panfletos dos primeiros socialistas.

Aprendia tudo de todos que viviam a sua volta.

Com muito esforço, lia de Lobato e Verne ao Príncipe Valente e Flash Gordon,

Assim foi se alfabetizando.

 

No cortiço, sua mãe temerária

Não levava desaforo pra casa!

Com ela aprendeu a ser valente.

 

Engajado na causa operária,

Começou a ler obras mais sisudas

Do que as que lera numa escola em Bragança Paulista.

Era taxado de comunista!

Admirava o “cavaleiro da esperança”…

Por isso, aos 16, fugiu de casa e fundou o PC em São João da Boa Vista.

Lá, via filmes do Mazzaropi,

Dormia em carros alheios,

Tocava violino na praça…

 

Thaís de Godoy, 12-04-2012.

Sonâmbulos

 

 

 

 

 

 

 

Você não sente

Que o que arranha

A lousa fria e dela arranca faísca

Não é nenhuma artimanha?

 

Você não sente

Que à noite sonâmbulos executam

Uma peregrinação errante?

Que na ausência da mente,

Só seus corpos exatos acertam

o caminho que aspiram, enfim?

 

Você não pressente

Que numa noite qualquer,

Esquecida do mundo e de mim

Por esse mesmo caminho

serei friamente conduzida,

Até chegar a um país

Que me aliene mais ainda,

Já que lá esta ossada não mente?

Janelas

Todas as janelas

Limitam nosso olhar

Não importa de que ângulo

Miremos apenas parcelas

Do mundo elas

Podem captar.

Mesmo assim,

não desistimos do intento

de eternizar cada momento,

Seja na moldura de meus versos,

Seja na de sua grande angular.

06-11-2012