Noite Profunda

À noite, a escuridão guarda todas as coisas e o nada ao mesmo tempo.
Como quando fechamos os olhos e vemos o vazio,
ou manchas ou tudo o que podemos imaginar.
Gosto de imaginar o que há além das montanhas
E mais além e mais além e mais além
Do que posso avistar da janela do meu quarto
Ou da janela de um ônibus em movimento.
Só uma nuvem se ilumina.
Afundada no meio do mato uma casinha brilha.
Bem que poderia haver uma cidade inteira escondida atrás do morro
Para que esse casebre  não fique assim tão solitário
No escuro sem porteiras, sem cercas, sem limites.
Todos pensam nisso quando são crianças
Mas depois deixam de imaginar o que poderia haver lá,
Depois daquela montanha,
Que deve ser muito mais formidável do que o que há aqui.
Assim, sem ninguém notar,
O negrume da noite esconde o infinito no horizonte.

Jacareí, 16 de dezembro de 2013.

4944casinha

W. Stephen Cooper: The Play of Light

Avatar de J WaltersCanadian Art Junkie

W. Stephen Cooper’s photography is focused on the subtle play of light moving across the wilderness, showcasing the architecture of the land.  Passage to Great Hall (above) is from a series on Hidden Passages, from the slot canyons of Arizona, captured in traditional fine-grain black and white.

Saguaro Spirit reflects Cooper’s fascination with The Southwest. He also has extensively chronicled the architecture, art and environment of ancient people of The Canyonlands in many locations.

Doors, Aztec Ruin

Wilderness photography and ‘Ghosts & Relics’ form a significant portion of his portfolio.

Cadillac Ranch

Escape Route

Cooper hand prints his photographs, which are then selenium toned for permanence, and archivally matted. His work has appeared extensively in newspapers, magazines and other publications.

W. Stephen Cooper’s website, here.

I examine the textures and patterns which exist in nature, sometimes revealed in the low light of deep canyons, the coarse grain of ancient…

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20g et une convulsion

Alfredo Leão

20g et une convulsion
la vie est toujours mieux que la mort?
(a vida é melhor que a morte?)
blanc est mieux que le noir?
(o branco é melhor que o preto?)
la journée est mieux que la nuit?
(o dia é melhor que a noite?)
le soleil est mieux que la lune?
(o sol é melhor que a lua?)
la clarté est meilleure que la folie?
(a lucidez é melhor que a loucura?)
et l’amour est meilleur que la haine?
(o amor é melhor que o ódio?)
réveil est mieux que d’être endormi?
(estar acordado é melhor que dormindo?)
être sage est mieux que d’être ignorant?
(o sábio é melhor do que o ignorante?)
changement est mieux que de rester la même?
(mudar é melhor permanecer o mesmo?)
dans le fond, c’est toutes les variantes?
(no fundo, é tudo variação?)
être bon est mieux que d’être mal?
(ser bom é melhor que ser mal?)
être belle est préférable d’être laid?
(ser bonito é melhor que ser feio?)
alors, être riche est mieux que d’être pauvre?
(então, ser rico é melhor que ser pobre?)
et Dieu est meilleur que le diable?
(e Deus é melhor que o diabo?)
et votre vie est meilleure que la mienne?
(e sua vida, é melhor que a minha?)
vivre ensemble n’est-il pas préférable de vivre seul?
(viver acompanhado não é melhor que ser solitário?)

 
Vous devez avoir quelqu’un pour le reste de votre vie?
(é preciso ter alguém para o resto da vida?)

 
donner le jeu, il est préférable d’essayer de gagner?

(entregar o jogo é melhor que tentar ganhar?)

 
la tricherie est mieux que d’essayer d’être fidèle?
(trair é melhor que tentar ser fiel?)

 
Je vous dévore avec du sable et du feu!
(eu te devoro com areia e fogo!)

 

Je suis attaché entre un réseau de trois étoiles.
(Estou numa rede atada entre três estrelas.)

São Paulo, 13 de dezembro de 2013

Invictus (Invencível)

Avatar de acropolepoeticaAcrópole Poética

  William Ernest Henley
.
Dentro da noite que me rodeia
Negra como um poço de lado-a-lado
Eu agradeço aos deuses que existem
Por minha alma indomável
.
Nas garras cruéis da circunstância
Eu não tremo ou me desespero
Sob os duros golpes do destino
Minha cabeça sangra, mas não se curva
.
Além deste lugar de raiva e pranto
Paira somente o horror da sombra
E, ainda assim, a ameaça do tempo
Vai me encontrar e há de achar-me, destemido
.
Não importa quão estreito é o portão,
Não importa o tamanho do castigo.
Eu sou o dono do meu destino.
Eu sou o capitão da minha alma.
.
William Ernest Henley
.

Invictus é um poema vitoriano do poeta, crítico e editor inglês William Ernest Henley (1849-1903). Ele foi escrito em 1875 e publicado pela primeira vez em 1888.
Nelson Mandela citou-o como fonte de inspiração durante seu…

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A tarde de um fauno

L'après-midi d'un faune (A tarde de um fauno) é um dos poemas mais famosos de Stéphane Mallarmé, escrito em 1865 e publicado onze anos depois, com ilustrações do pintor impressionista Edouard Manet. O poema conta a história, em clima sensual, de um fauno que toca sua flauta nos bosques e fica excitado com a passagem de ninfas e náiades, mas tenta alcançá-las em vão. Então, cansado e triste, cai em um sono profundo e passa a sonhar com visões que o levam, afinal, a atingir os objetivos que não tinha alcançado dentro da realidade.

A tarde de um fauno

Stéphane Mallarmé
(Écloga 1865-1875)

O fauno:

Estas ninfas quero eu perpetuar.
Tão puro,
o seu claro rubor, que volteia no duro ar
pesando a sopor.
Foi um sonho o que amei?
Massa de velha noite, essa dúvida,sei,
muito ramo subtil estendendo,
provava
meu engano infeliz, que enganado
tomava
por triunfo,afinal um pecado de rosas.
Reflitamos.

Quem sabe as mulheres que glosas
são configurações de anseios que possuis?
Repara na ilusão que emana dos azuis
e frios olhos,fonte em pranto, da mais
casta
Suspiros, toda, a outra - alegas que contrasta,
como brisa diurna e tépida que passa?
Mas não! Neste desmaio imóvel, lasso - ameaça
a todo matinal frescor de suave fama
se uma fonte murmura, esta flauta a derrama
no vizinho silvedo, irrigando-o de acordes;
nenhum vento aqui faz, senão os sopros concordes desta avena que o som em chuva árida espalha,
e senão no horizonte, em sua calma sem falha,
o sereno bafor da pura inspiração,
visível, regressando ao céu, por ascensão.
Ó plagas sículas e calmas, da lagoa,
que saqueadas tem minha vaidade, à toa,
e tácita- no amor das flores destes páramos­ –DIZEI
"que aqui me achava em busca destes cálamos sonoros
quando além, por entre as brandas linhas
de ouro glauco, a fulgir nas fontes e nas vinhas,
eis ondeia uma alvura. animal em repouso;
mas que logo também, ao lento e langoroso
prelúdio linear da avena de cinabre
vôo, de cisnes não, de náiadas se abre."

A hora fulva que arde inerte não revela
a astúcia, de intenções de aliciação tão bela.
Sinto-me despertar sob um fervor de antanho,
onda antiga de luz envolvendo-me em banho,
eu, lírio, um dentre vós segundo a ingenuidade!

Mais que o nada tão doce, essa espontaneidade,
beijo, sussurro suave e soma de perfídia,
meu corpo, sem mais prova, atesta ainda, insídia,
uma oculta mordida augusta, de alto dente;
mas, vede, arcano tal tomou por confidente
o gêmeo junco, par que sob o azul se soa;
que recebendo em si o sôpro, logo entoa
e sonha, em solo longo e leve, que a beleza
em derredor está a mudar-se com presteza
dentro na confusão de si mesma e do canto;
e nas modulações altas de amor,entanto
evanescendo esvai-se apaga-se a teoria
clara, de dorsos e de flancos; ó magia
de uma sonora e vã monótona mesmice!

Frauta maligna, órgão de fugas, sem ledice,
vai, fístula, florir no lago e ali me aguarda.
Eu, cheio de rumor altivo, já me
tarda
falar de deusas; por idólatras pinturas,
de suas sombras irei tomar-lhes as cinturas.
Assim, quando ao racimo extraio-lhe a substância /sorvo
e contra a mágoa apuro a minha vigilância,
e rindo soergo no ar o já vazio cacho
e, na pele de luz assoprando, eu me
acho
-ébrio- capaz de então a tarde toda o olhar.

Outras RECORDAÇÕES, vamos, ninfas, lembrar
“Meus olhos entre o junco... além uma
figura
imortal que se banha e a cálida brancura
luminosa do corpo em onda leve imerge.
Sôbre o áureo esplendor dos cabelos converge
um claror e um fremir de fulva
pedraria!
Corro; mas a meus pés, jungidas na agonia
do langor
deste mal de serem dois em um,
vejo duas dormindo, em abraço
comum.
Como estavam tomei e trouxe a esta eminência
desamada da sombra e dela sem frequência;
aqui se esvai ao sol das rosas o perfume;
mas para o nosso embate a força aqui me assume."

Ó furor virginal, eu te adoro, ó concisa
fúria de corpo nu, fardo nu que desliza
fugindo ao lábio ardente e a refulgir livores
de ampla trepidação da carne em seus pavores!
E isso, da inumana à tímida que vê
já perdida a inocência e dos olhos
revê
uma lágrima louca ou um tanto menos triste.
"Meu crime foi querer, na fôrça que me assiste,
apartar dividir um tufo desgrenhado
de beijos e de amor, dos deuses bem guardado.
Na hora em que esconder eu ia o riso ardente
na feliz maciez de urna, só - e contente
procuro no condor de pluma em que
se agita
o sabor da emoção que vívida palpita
na sua ingênua irmã, pequena, que não cora
eis de meus braços que se esquecem foge fora
tal ingrata cruel, que na impiedade esfria
a estuosa ebriez em que me consumia."

Foi pena. Irei buscar alhures a
esperança
de em meus chavelhos ver, enastrada, uma trança.
Bem sabes, ó paixão, que rubras mui vermelhas
cada cereja abriu seu murmurar de abelhas.
E o nosso sangue vai, enviado em seu ensejo, percorrendo o pendor eterno do desejo.
Na hora em que de ouro e cinza este
bosque
se pinta logo em festa se exalta a folharia extinta.
Ó Etna, é junto a ti! Vênus vem pelos ares.
Leve na lava pousa ingênuos colcanhares
enquanto sonolento as chamas tens em
calma.
Tenho pois a rainha!
Ó dura pena...
A alma
de palavras vazia e o corpo em letargia
sucumbem afinal ao fero meio-dia.
Cumpre dormir assim, no olvido, de mansinho,
deitado nesta areia.
Ó que delicia ao vinho
a boca oferecer e a seu astro eficaz!
Par, adeus: Quero ver como ûa sombra se faz.

Belo Horizonte, 18.08.1959

[Nota do tradutor: "relida em 02.1963 e achada ruim"]
           

Fauno

O Rubaiyat

Omar Khayyam

5

Busca a felicidade agora, não sabes de amanhã.
Apanha um grande copo cheio de vinho,
senta-te ao luar, e pensa:
Talvez amanhã a lua me procure em vão.

13

Não vamos falar agora, dá-me vinho. Nesta noite
a tua boca é a mais linda rosa, e me basta.
Dá-me vinho, e que seja vermelho como os teus lábios;
o meu remorso será leve como os teus cabelos.

18

Não me lembro do dia em que nasci;
não sei em que dia morrerei.
Vem, minha doce amiga, vamos beber deste copo
e esquecer a nossa incurável ignorância.

43

Há tanto tempo giram os astros no espaço;
há tanto tempo se revezam os dias e as noites.
Anda de leve na terra, talvez aonde vais pisar
ainda estejam os olhos meigos de um adolescente.

47

Se em teu coração cultivaste a rosa do amor,
quer tenhas procurado ouvir a voz de Deus,
ou esgotado a taça do prazer,
a tua vida não foi em vão.

99

Quando eu não mais viver, não haverá mais rosas,
nem lábios vermelhos, nem vinhos perfumados;
não haverá auroras, nem amores, nem penas:
o Universo terá acabado, pois ele é o meu pensamento.

versão em português de Afredo Braga

O pastor amoroso

Alberto Caeiro

I

Quando eu não te tinha
Amava a Natureza como um monge calmo a Cristo.
Agora amo a Natureza
Como um monge calmo à Virgem Maria,
Religiosamente, a meu modo, como dantes,
Mas de outra maneira mais comovida e próxima …
Vejo melhor os rios quando vou contigo
Pelos campos até à beira dos rios;
Sentado a teu lado reparando nas nuvens
Reparo nelas melhor —
Tu não me tiraste a Natureza …
Tu mudaste a Natureza …
Trouxeste-me a Natureza para o pé de mim,
Por tu existires vejo-a melhor, mas a mesma,
Por tu me amares, amo-a do mesmo modo, mas mais,
Por tu me escolheres para te ter e te amar,
Os meus olhos fitaram-na mais demoradamente
Sobre todas as cousas.
Não me arrependo do que fui outrora
Porque ainda o sou.

II

Vai alta no céu a lua da Primavera
Penso em ti e dentro de mim estou completo.

Corre pelos vagos campos até mim uma brisa ligeira.
Penso em ti, murmuro o teu nome; e não sou eu: sou feliz.

Amanhã virás, andarás comigo a colher flores pelo campo,
E eu andarei contigo pelos campos ver-te colher flores.
Eu já te vejo amanhã a colher flores comigo pelos campos,
Pois quando vieres amanhã e andares comigo no campo a colher flores,
Isso será uma alegria e uma verdade para mim.

III

Agora que sinto amor
Tenho interesse nos perfumes.
Nunca antes me interessou que uma flor tivesse cheiro.
Agora sinto o perfume das flores como se visse uma coisa nova.
Sei bem que elas cheiravam, como sei que existia.
São coisas que se sabem por fora.
Mas agora sei com a respiração da parte de trás da cabeça.
Hoje as flores sabem-me bem num paladar que se cheira.
Hoje às vezes acordo e cheiro antes de ver.

IV

Todos os dias agora acordo com alegria e pena.
Antigamente acordava sem sensação nenhuma; acordava.
Tenho alegria e pena porque perco o que sonho
E posso estar na realidade onde está o que sonho.
Não sei o que hei-de fazer das minhas sensações,
Não sei o que hei-de ser comigo.
Quero que ela me diga qualquer coisa para eu acordar de novo.
Quem ama é diferente de quem é.
É a mesma pessoa sem ninguém.

V

O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.
Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.

Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.
Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.

VI

Passei toda a noite, sem dormir, vendo, sem espaço, a figura dela,
E vendo-a sempre de maneiras diferentes do que a encontro a ela.
Faço pensamentos com a recordação do que ela é quando me fala,
E em cada pensamento ela varia de acordo com a sua semelhança.
Amar é pensar.
E eu quase que me esqueço de sentir só de pensar nela.
Não sei bem o que quero, mesmo dela, e eu não penso senão nela.
Tenho uma grande distração animada.
Quando desejo encontrá-la
Quase que prefiro não a encontrar,
Para não ter que a deixar depois.
Não sei bem o que quero, nem quero saber o que quero.
Quero só Pensar nela.
Não peço nada a ninguém, nem a ela, senão pensar.

VII

Talvez quem vê bem não sirva para sentir
E não agrade por estar muito antes das maneiras.
É preciso ter modos para todas as cousas,
E cada cousa tem o seu modo, e o amor também.
Quem tem o modo de ver os campos pelas ervas
Não deve ter a cegueira que faz fazer sentir.
Amei, e não fui amado, o que só vi no fim,
Porque não se é amado como se nasce mas como acontece.
Ela continua tão bonita de cabelo e boca como dantes,
E eu continuo como era dantes, sozinho no campo.
Como se tivesse estado de cabeça baixa,
Penso isto, e fico de cabeça alta
E o dourado do sol seca as lágrimas pequenas que não posso deixar de ter.
Como o campo é grande e o amor pequeno!
Olho, e esqueço, como o mundo enterra e as árvores se despem.
Eu não sei falar porque estou a sentir.
Estou a escutar a minha voz como se fosse de outra pessoa,
E a minha voz fala dela como se ela é que falasse.
Tem o cabelo de um louro amarelo de trigo ao sol claro,
E a boca quando fala diz cousas que não há nas palavras.
Sorri, e os dentes são limpos como pedras do rio.

VIII

O pastor amoroso perdeu o cajado,
E as ovelhas tresmalharam-se pela encosta,
E, de tanto pensar, nem tocou a flauta que trouxe para tocar.
Ninguém lhe apareceu ou desapareceu… Nunca mais encontrou o cajado.
Outros, praguejando contra ele, recolheram-lhe as ovelhas.
Ninguém o tinha amado, afinal.
Quando se ergueu da encosta e da verdade falsa, viu tudo:
Os grandes vales cheios dos mesmos vários verdes de sempre,
As grandes montanhas longe, mais reais que qualquer sentimento,
A realidade toda, com o céu e o ar e os campos que existem,
E sentiu que de novo o ar lhe abria, mas com dor, uma liberdade no peito.

Além de minhas forças

Doce brisa trouxe até mim um pássaro canoro

Que coloriu meus dias amenos;

Que em minhas manhãs colocou um sorriso;

Que aspergiu vigor em meus membros

E aspirou de mim o cansaço.

 

Silêncio, quero escutar sua serenata

Para embalar o meu sono sereno;

Elevar sobre mim meu espírito;

Fazê-lo pousar no meu braço.

 

Quero seu entusiasmo.

Quero seu sopro de vida divino,

Sua leveza, sua graça, seu brilho.

Sem querer, sob suas asas eu moro!

 

 

22 de fevereiro de 2013

E…

lê, e escreve e relê e reescreve, e come, e fuma, e toma café, e recomeça o trabalho, e recava buracos no cranio, e cavouca aqui, alí, e anda, e pensa, e vai olhar na janela, enquanto há janelas, e imagina, e volta para o texto, e recomeça tudo de novo, e novas páginas escritas, e possui talento para a coisa, e abre caminhos, e pensa na árvore que não plantou, e no livro que não escreveu, e folheia Lautrèamont, e liga o som, e dança, e se olha no espelho, e abre a geladeira, e esquece que falta comprar bebidas e cigarros, e sai, e entra no supermercado, e compra as bebidas mais fortes, e olha as moças na rua, e pega o bonde andando, e se deixa maravilhar com as coisas simples da vida, e sorri, e dá apertos de mão quando encontra camaradas, e conversa sobre assuntos de extrema importância relativa aos descaminhos da humanidade, e convence um amigo da validade do suicídio, e distorce o que foi torcido, e rivaliza contra javalis que entram na sala, e questiona as provas da validade da existência das formigas que carregam nas costas migalhas do pão de Deus, e arruma motivos para se livrar dos ventos das paixões da vida, e luta com as sombras das vagas que nos assaltam e assombram, e assiste filmes expressionistas do início do séc. XX na quinta feira a noite, e discute a possibilidade de um mundo impossível, e tira do escuro o que está oculto, e sepulta os mortos, e procura nexos e novas pastas de músicas no computador, e ouve músicas, e se alheia do mundo, e nota que as máquinas fazem ruídos estranhos quando masturbadas, e espera o telefone tocar, e deixa a semana passar como um bonde em alta velocidade, e recebe convites que ignora, e retorna a si, e se fecha no quarto escuro, e mexe em papéis antigos, e redescobre um álbum de fotografias repleto de significados extra-sensoriais, e deixa por um momento a tristeza ir embora, e abre a porta pra tristeza voltar, e continua firme nos propósitos insólitos, e desanima, e pensa no curso sombrio das coisas, e queima igrejas, e releva o que fácil vem e o que fácil vai, e puxa fios invisíveis de pensamento de dentro do nada, e vem tudo de uma vez o tédio a angústia e o nada, e diz sim quando é para dizer não, e diz não quando é para dizer sim, e saúda o sol, a lua, as estrelas, a chuva, os relâmpagos, os ventos, e gosta de ver o fogo queimar, o amarelo embaixo e azul dançando em cima, e divaga na solidão o acerbo e o mavioso, e percebe a expansão do amor sobre o egoísmo, e deixa de lado o despotismo, e anarquiza, e pratica pequenos delitos, e esquizo, e fode, e sem desespero espera a hora sagrada do gozo, e ama a moça desiludida, e idealiza um mundo melhor, e protesta, e contesta, e revê conceitos, e se auto-critica, e se recoloca no seu lugar, e escreve cartas de injúrias contra o bem e a favor do caos, e recebe respostas cortadas de santos ignorantes, e volta no tempo, e nega com força toda forma expressiva de autoritarismo, e destrói o fascismo, e cria novas aberturas, novas fendas, novas sendas, novos caminhos para a saída de um modo nocivo de compreender a vida, e percebe que há os clássicos entre Homero e os irmãos Campos, e arrasta o rosto no concreto, e desnormaliza o que as normas atrofiam, e chama qualquer um para duelo ao anoitecer, e desafia a fio de espada qualquer deus do Olimpo, e não gosta, por uma questão de princípios, da banda The Exploited!

A. L.

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Samba do Querer.

22 de outubro de 2013 às 00:23
Danilo Borges

Eu quero um samba pra desencantar,

essa magia que me faz sentir.

Uma rosa no peito sempre a brotar

como uma rima que toco a escandir.

 

Eu quero um partido alto para alcançar

o lençol da noite que vai nos cobrir,

e colher estrelas pra te presentear,

prender em pingentes te fazer sorrir.

 

Eu quero um charme pra poder sambar

e sua sapatilha azul bailando a colorir,

fazendo do chão céu, o pó da terra amar

e fazer dançar o povo desse meu país.

A vida

                                                                     "A vida é luta renhida" G. Dias
Mimado menino
acostumado a fazer manha;
Menino promíscuo
acostumado a fazer birra,
Toma tento e até que cresça
não me apareça!
Que a vida não para,
não volta, não espera
E se acaba tão depressa...

Menino mimado
desacostumado ao não,
Não volte ao seu ninho!
Seus conjuros nas encruzilhadas,
suas preces, promessas
nem sempre serão atendidas!

Nos nossos caminhos,
são fartos os espinhos;
sobejam carcaças dormindo ao relento
reanimadas por abutres famintos,
por isso carecemos de alento!

Menino mimado, não esqueça:
a vida não é uma festa
mas por isso é muito mais bela...

T.G. Morais