Cegue o fluxo!

Cegue o fluxo!

Na sarjeta, a cada dia um novo réquiem…
As almas quicam na calçada!
É fixo o queimar de cristal nestas valetas
Onde as inebria o esgoto a céu aberto.
Uma pedra líquida,
Que numa colher se esquenta e esfria,
Foi entregue para um fantasma que nunca se ergue
….

Ele é só mais um eclipse cáqui inquieto!
Por mais que o reneguem
Por mais que as pedras queiram que o diabo o carregue,
Alguém ali dentro procura o Além,
Viajando por seus satânicos paraísos artificiais…

Sobre o espectro já cresce líquen!
Aqui embaixo o cristal o cega,
Dentro busca incansável o Eterno.

Godoy

 

surreal

A Guerra da Arte

A VIDA NÃO VIVIDA

A maioria de nós possui duas vidas. A vida que vivemos e a vida não-vivida que existe dentro de nós. Entre as duas, encontra-se a Resistência.

Você já levou para casa uma esteira ergométrica e deixou-a acumulando poeira no sótão? Já abandonou uma dieta, um curso de yoga, unia prática de meditação? Já se esquivou de um chamado para envolver-se numa prática espiritual, para dedicar-se a uma vocação humanitária, para consagrar sua vida ao serviço de outros? Já quis ser mãe, médico, advogado dos fracos e desamparados? Concorrer a um cargo público, tomar parte numa cruzada para salvar o planeta, fazer campanha pela paz mundial ou pela preservação do meio ambiente? Tarde da noite, já experimentou uma visão da pessoa que você poderia se tornar, da obra que conseguiria realizar, do ser realizado que você deveria ser? Você é um escritor que não escreve, um pintor que não pinta, um empresário que nunca se aventurou num empreendimento de risco? Então você sabe o que é Resistência.

Uma noite, quando eu estava deitado,

Ouvi papai conversando com mamãe.

Ouvi papai dizer para deixar o garoto tocar o boogie-woome

Porque isso está dentro dele e ele tem que colocar para fora *

*John Lee Hooker, letra da canção Booaie Chillen

 

A Resistência é a força mais tóxica do planeta. É fonte de mais infelicidade do que pobreza, doença e disfunção erétil. Ceder à Resistência deforma nosso espírito. Atrofia-nos e nos torna menores do que nascemos para ser. Se você acredita em Deus (e eu acredito), deve considerar a Resistência um mal, pois nos impede de alcançar a vida que Deus planejou para nós ao dotar cada ser humano de seu próprio e único gênio criativo. A palavra gênio vem do latim genius. Os romanos usavam-na para designar um espírito interior, sagrado e inviolável, que nos protege, guiando-nos para nossa vocação. Um escritor escreve com seu gênio; um artista pinta com o seu; todo aquele que cria o faz a partir deste centro sagrado. E a morada de nossa alma, o receptáculo que abriga nosso ser potencial, é o nosso farol, nossa estrela polar.

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Todo sol lança uma sombra e a sombra do gênio é a Resistência. Por mais forte que seja o chamado de nossa alma para a realização, igualmente potentes são as forças da Resistência reunidas contra ele. A Resistência é mais rápida do que o projétil de uma arma, mais poderosa do que uma locomotiva, mais difícil de renegar do que cocaína. Não estaremos sozinhos se formos dizimados pela Resistência; milhões de mulheres e homens bons foram derrubados antes de nós. E o pior é que nem ficamos sabendo o que nos atingiu. Eu nunca soube. Dos 24 aos 32 anos, a Resistência me jogou treze vezes da Costa Leste para a Oeste e novamente para a Leste e eu nem sequer sabia de sua existência. Procurava o inimigo em toda parte e não conseguia vê-lo bem diante de mim.

Você provavelmente já ouviu a história: mulher fica sabendo que tem câncer, seis meses de vida. Em poucos dias, pede demissão do trabalho, retoma seu sonho de compor canções Tex-Mex que abandonou para cuidar da família (ou começa a estudar grego clássico ou muda-se para a cidade e dedica-se a cuidar de bebês com AIDS). Os amigos da mulher acham que ela enlouqueceu; ela mesma nunca se sentiu mais feliz. Há um pós-escrito: o câncer da mulher começa a regredir.

É necessário tudo isso? É preciso encarar a morte para nos levantarmos e confrontarmos a Resistência? É preciso que a Resistência aleije e desfigure nossas vidas para despertarmos para a sua existência? Quantos de nós se tornaram bêbados e viciados, desenvolveram tumores e neuroses, sucumbiram a analgésicos, mexericos e uso compulsivo do telefone celular, simplesmente por não fazer aquilo que nossos corações, nosso gênio interior, nos impele a fazer? A Resistência nos derrota. Se amanhã de manhã, por algum passe de mágica, toda alma atordoada e ignorante acordasse com o poder de dar o primeiro passo para ir atrás de seus sonhos, todo psiquiatra na lista telefônica fecharia as portas do consultório. As prisões se esvaziariam. As indústrias de bebidas alcoólicas e de cigarro iriam à falência, assim como os negócios de comida pronta de má qualidade, de cirurgia cosmética e de programas de entretenimento “instrutivos” na TV, sem mencionar indústrias farmacêuticas, hospitais e a profissão médica de alto a baixo. Os maus-tratos domésticos se extinguiriam, assim como o vício, a obesidade, enxaquecas, fúria no trânsito e caspa. Olhe no fundo do seu coração. A menos que eu seja louco, neste mesmo instante uma vozinha fraca está sussurrando, dizendo-lhe, como já fez milhares de vezes, qual é a vocação que é sua e apenas sua. Você sabe. Ninguém tem que lhe dizer. E a menos que eu seja louco, você não está mais perto de tomar uma atitude em relação a ela do que estava ontem ou estará amanhã. Acha que a Resistência não é real? A Resistência o matará.

Sabe, Hitler queria ser artista. Aos 18 anos, pegou sua herança, setecentos Krones, e mudou-se para Viena para viver e estudar. Inscreveu-se na Academia de Belas-Artes e posteriormente na Faculdade de Arquitetura. Já viu algum quadro dele? Eu também não. A Resistência o derrotou. Pode achar que é exagero, mas vou dizer mesmo assim: foi mais fácil para Hitler deflagrar a 2ª Guerra Mundial do que encarar uma tela em branco.


Pressfield, Steven
Guerra da arte; tradução de Geni Hirata. – Rio de Janeiro : Ediouro, 2005, da pág. 18 a 21.
ISBN 85-00-01534-9
1. Pressfield, Steven. 2. Criação (Literária, artística etc.).
3. Pensamento criativo. 4. Resistência (Psicanálise).
5. Procrastinação. 6. Inibição.

 

Fascismo e nazismo são de extrema direita

Por Carlos Marchi

Vamos resolver essa parada?

O fascismo foi estruturado na França pela “Action Française”, dirigida por Charles Maurras. Mas um sólido vínculo religioso impediu sua aceitação pelo povo.

A estruturação que deu certo nasceu com Benito Mussolini. Sua base doutrinária ironizava a filosofia; acreditava na ação e na violência. Procurou atrair os desempregados e fracassados na vida, iscas fáceis de discursos populistas.

Mussolini escreveu: “A ação enterrou a filosofia.” Isso era aceitável para criar uma contraposição radical ao comunismo, que se instalara na URSS e avançava na Europa.

Foi Mussolini quem criou a expressão “fascismo”. Vinha de fascio (feixe), machados usados pelos funcionários que precediam os senadores romanos e que simbolizavam a decapitação dos adversários.

Para estruturar o fascismo ele buscou ideias no campo do socialismo, de onde vinha. Mussolini dirigiu o jornal socialista “Lotta di Classe” até 1910.

A doutrina fascista indicava uma clara oposição ao socialismo. Mussolini escreveu: “Negar o bolchevismo é necessário, mas [para isso] é preciso afirmar qualquer coisa.”

Ele qualificou: dizia que a tarefa dos fascistas se resumia a uma coisa – a luta entre a nação e a antinação (a antinação eram os socialistas, é claro).

Ele precisava alcançar dois objetivos: manipular as massas populares e garantir o financiamento da imensa máquina de propaganda que iria criar (foi pioneiro no uso do rádio).

Operava com a demagogia, é claro. Consolidou os conceitos populistas, lisonjeando o “povo”, em contraposição às “massas” socialistas.

Viajava muito de avião e impôs a regra do discurso político enérgico e violento, o que era absorvido pelo “povo”.

Seu programa era a truculência para com os adversários. Sua marca principal era uma ojeriza pelas ideias liberais (na verdade, ele “tomou” o capitalismo dos liberais).

A partir do fim da Primeira Guerra, passou a receber apoio dos maiores grupos financeiros e industriais da Itália, que tinham ganho muito dinheiro com a guerra.

O apoio veio porque ele sinalizou com o fortalecimento da implantação do capitalismo monopolista.

Seu governo favoreceu tremendamente a concentração do capital nos grandes conglomerados.

E Hitler? Mussolini chegou ao poder em 1922; Hitler só chegaria em 1933.

Quem colou a expressão “socialistas” ao Partido Operário Alemão foi Hitler, com a ideia de antepor um socialismo “nacionalista” ao socialismo “internacionalista”.

Mas não havia nenhum conceito socialista nas ideias que, ademais, importou da Itália e adaptou na Alemanha.

O Partido Operário Alemão fora fundado em 1919, por Anton Drexler. Hitler o conheceu quando foi a uma reunião como espião do exército.

Acabou aderindo a ele e em 1920 assumiu a propaganda, mudando o nome para Partido Operário Alemão Nacional-Socialista.

Na época, os socialistas eram apelidados de “sozi” (de Sozialistische). Pra facilitar, começaram a chamar os Nacionais Socialistas de “nazi” (de National-Sozialistische).

Como se vê, o Partido Nazista foi estruturado como OPOSIÇÃO ao Partido Socialista. E oferecia suas ideias truculentas para favorecer a concentração do grande capital, não para “libertar as massas oprimidas”.

Mas a diferença crucial está na propriedade dos meios de produção – para os socialistas, o operariado (na prática, o Estado); para os fascistas, os grandes conglomerados privados.

Não há nada mais antagônico, pois, do que socialistas e fascistas, linhas de pensamento situados a 180º um do outro.

O resto da história a gente conhece bem.

 

O libertador

Jamil Almansur Haddad “empalhando um raio de lua” ao traduzir Odes “anacreônticas”

Este vinho me aquece o coração.
Eu canto, quando o bebo, às suaves Camenas
a mais sonora e embriagante canção.
Se eu bebo voam pelo céu as minhas penas,
meu lasso pensamento
parte com o vento.

Se eu bebo, vem Dionisos, o Libertador,
e ebriado leva-me consigo
para um jardim amigo,
sussurrante de fonte e odoroso de flor.

Se eu bebo o vinho que me inspira e escalda,
passo a tecer de rosa e mirto uma grinalda,
cinjo a fronte e depois principio a cantar
uma canção sentida
que se espalhando pelo imenso ar
celebra o sonho e a glória e a delícia da vida.

Se eu bebo o vinho de sete cores como o arco-íris,
visto o meu corpo de essências odorosas,
e tendo aos braços, coroada de rosas,
uma virgem, celebro a langue e fausta Kypris.

Se eu bebo em horas de cisma, nas taças fundas meu espírito se abisma.
A Parca contra a qual não vale escudo
numa última embriaguez me levará daqui.
E há de tomar-me tudo
menos o que eu bebi.

Dioniso