Sobrecarga

Coletivo Sincronistas

Emoções em alta voltagem

Há um fio desencapado provocando faíscas no escuro.
O atrito das partículas que desencadeiam tais fagulhas zumbem e zunem como abelhas iluminadas.
Um chiado intermitente rouba o sono de toda a casa.

Toda vez que esse fio roça em algo metálico, o chiado retorna e desperta os viventes. É um grito inanimado, um curto-circuito. Todos acordam, buscando, desesperados, a origem dos ruídos. É preciso impedir que a eletricidade se alastre, impedir o incêndio, a desgraça.

Cuidando para não serem eletrocutados, os moradores apalpam às cegas o breu, tropeçam em objetos, memórias, em si mesmos, a urgência apressando seus passos para defender a residência em perigo. E embora haja o risco de serem mortos pela descarga elétrica, seguem, sonâmbulos, a trilha da eletricidade.

Até que um deles, após muito tatear, encontra o quadro de força e o desliga. Um outro chiado, de fósforo riscado, rompe o silêncio e…

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Tem dias

Coletivo Sincronistas

Tem dias

Tem dias que tudo é esquisito…
Tem dias que nada quer fazer sentido:
o normal se desfaz em um mar de paradoxos.

Tem dias que eu não quero limpar a mesa,
e nem lavar a louça.

Tem dias que as lembranças me laçam pelo pescoço,
se enrolam pelo meu corpo, me possuem
me enlouquecem, arrancam meus suspiros, e se vão.

Tem dias que quero fumar um cigarro
encher o pulmão de veneno
para matar o que lacera por dentro…

Tem dias que está tudo bem, muito bem
mas algo ruim está sempre soprando
um bafo quente e pesado na nuca.

Tem dias que o choro acontece,
a língua endurece,
a boca emudece,
mas o coração não estremece…

Tem dias, e eu faço que tudo bem,
que a tempestade se faz e inunda minha alma.
Um rodemoinho violento me engole, tudo defaz.
No meu rosto, nada demais.

Tem dias, e isso todo mundo e todos os dias,
que ninguém conhece o turbilhão que vive
por trás da iris de cada um.

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Da série: mitos sobre o feminismo – final (provisório)

Escritos Feministas

Conclusão da épica batalha contra algumas afirmações preconceituosas para desqualificar a luta feminista, que comecei aqui e aqui.

“Fim da Lei Maria da Penha! Homens também sofrem violência doméstica, vamos protegê-los!”

Em primeiro lugar, temos que entender que a violência doméstica contra a mulher não se trata de um ou outro caso isolado que só acontece entre gente ignorante. Trata-se de algo generalizado, que ocorre em níveis assustadoramente altos em todas as classes sociais e  em vários países, inclusive os ditos desenvolvidos . Não faz muito tempo, um homem poderia matar a esposa que o traísse sem enfrentar consequências legais, pois isso era considerado um crime passional feito em defesa da honra do indivíduo (mais informações aqui). Outro indicador de que a violência contra a mulher é um mal generalizado e ocorre há muito tempo é que uma das primeiras bandeiras feministas no Brasil foi resumida no slogan “quem…

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De Zukov à Nova Guerra Fria

MATERIALISMO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO

A Eurasia – Rivsista di Studi Geopolitici divulgou hoje um interessante artigo voltado à temática das bases militares que os EUA (ao lado da OTAN) mantém no continente europeu, na bacia do Mediterrâneo e no que os europeus chamam o Oriente Próximo (cerca de 30 bases na Grã-Bretanha, 70 na Alemanha, 111 na Itália, e por aí vai… Veja-se aqui). O artigo é de 2005, mas nem por isso desatualizado.

Não faz muito tempo um professor de nossa área de trabalho — um geógrafo, pois — , referindo-se a uma região por ele visitada na Europa, muito comodamente me dizia que era a população local que desejava as bases militares estadunidenses em seu território, até por que elas deixavam recursos que de outro modo não poderiam ser obtidos, dada a pobreza regional.

Para além de uma pobre visão da União Européia, nada crítica do projeto de Europa que…

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