Contos da Lua Vaga

Eurico de Barros

Há um tema contínuo e unificador na filmografia de Mizoguchi: a mulher, a sua situação na sociedade japonesa e a sua relação com os homens. O interesse dele pela condição feminina radica em dados biográficos: a mãe e a irmã mais velha, Suzuko, eram maltratadas pelo pai, que acabou por vender a filha para tornar-se gueixa

Foi com “Contos da Lua Vaga” (1953), exibido e premiado no Festival de Veneza, que Kenji Mizoguchi se deu a conhecer ao Ocidente, mostrando que Akira Kurosawa, que dois anos antes havia ganho o mesmo festival com “As Portas do Inferno”, não era o único grande realizador a trabalhar no cinema japonês e a divulgá-lo e popularizá-lo no estrangeiro. Só um terço da vasta obra de Mizoguchi (1898-1956) sobreviveu e está disponível hoje. Oito desses filmes, alguns já vistos em Portugal e outros inéditos, e exibidos em cópias restauradas, compõem o Ciclo Kenji Mizoguchi que estará no Espaço Nimas, em dois tempos. O primeiro, que pode ser visto até 10 de Maio, inclui “Contos da Lua Vaga”, “Os Amantes Crucificados” e “A Mulher de Quem se Fala”. O segundo, a partir de 11 de Maio, apresentará “Festa em Gion”, “A Senhora Oyu”, “A Imperatriz Yang Kwei Fei”, “O Intendente Sanshô”, “Rua da Vergonha” e “O Conto dos Crisântemos Tardios”, mantendo em cartaz “Os Amantes Crucificados”.

Depois da morte da mãe, foi Suzuko quem cuidou dele e dos irmãos mais novos, e lhe arranjou os primeiros empregos. A devoção e os sacrifícios da irmã marcaram profundamente Mizoguchi, que inscreveria a dedicação, a capacidade de amor e o sofrimento feminino nos seus filmes, de época (“jidaigeki”) ou contemporâneos. Estes sentimentos estão presentes em “Contos da Lua Vaga”, talvez o mais representativo do realizador, do seu estilo, das suas preocupações, do seu humanismo, do seu poder cinematográfico e do seu gênio.

Inspirado em dois contos fantásticos do escritor Ueda Akinari e num outro de Guy de Maupassant, “Contos da Lua Vaga” passa-se no Japão em guerra civil do século XVI e é ao mesmo tempo uma fábula moral, um filme realista e uma história sobrenatural, onde se revela uma tensão presente em toda a obra de Mizoguchi, entre o respeito pelos valores tradicionais e o impulso individualista. Tal como sucede nos filmes dos maiores mestres do cinema nipônico, como Kurosawa, Ozu, Naruse ou Ichikawa, “Contos da Lua Vaga” é uma narrativa intrínseca e inconfundivelmente japonesa, nas circunstâncias históricas, na realidade cultural, nos temperamentos e no plano mental, mas que assume ressonâncias universais, exemplo de um cinema que expressa a identidade mais própria e funda de um povo, mas que se transcende para uma representação de toda a humanidade.

Escrito por Mizoguchi e pelo seu habitual colaborador Yoshikata Yoda, e fotografado pelo lendário Kazuo Miyagawa, que também trabalhou com Kurozawa, Ozu e Ichikawa, “Contos da Lua Vaga” é a história de um oleiro ganancioso, da mulher, do seu filho pequeno, do seu vizinho — um camponês que sonha ser samurai — e da mulher deste. A guerra civil obriga-os a fugir da aldeia e separa uns dos outros.O oleiro deixa-se seduzir por uma bela aristocrata, que na realidade é um fantasma, e esquece a mulher e o filho, enquanto que o camponês rouba a cabeça decapitada de um general e consegue tornar-se samurai, mas a sua mulher é violada por um grupo de soldados e forçada a prostituir-se numa casa de gueixas para conseguir sobreviver.

cuentos de la luna palida 3

Em “Contos da Lua Vaga”, os homens concentram em si todos os defeitos, são gananciosos, violentos, inconscientes, ingratos e arrogantes, enquanto que as mulheres, com as quais Mizoguchi se identifica e apresenta como modelos, são vítimas. Sofrem, sacrificam-se, nunca deixam de amar os maridos e temer por eles, e personificam o bom senso. A simpatia e a compaixão do realizador estendem-se até aos espectros, já que a aristocrata fantasma que seduz o oleiro, a bela Senhora Wakasa, longe de ser um espírito maligno, é ela também vítima da guerra e morreu sem conhecer o amor, que agora procura entre os vivos, sem o qual estará condenada a penar para sempre, acompanhada pela sua fidelíssima serva (duas das atrizes favoritas de Mizoguchi, Tanaka Kinuyo e Michiko Kyô, desempenham dois dos principais papéis femininos).

Realizador pictórico por excelência, e avesso a malabarismos e exibicionismos, Mizoguchi enche “Contos da Lua Vaga” de momentos visuais inesquecíveis, uns belíssimos na sua poesia etérea, como a fuga dos camponeses de barco num rio amortalhado em nevoeiro, o piquenique dos amantes numa natureza irreal de tão idílica, ou ainda o sublime plano final do menino junto à campa da mãe; outros tremendos na sua crueza, caso do ataque dos soldados à mulher que carrega o filho às costas, ou do exorcismo no solar assombrado. A sua câmara tem uma eloquência reservada, uma elegância eficiente e uma fluidez invisível. Com ela, dizia o cineasta, procurava “retratar o extraordinário de forma realista”.Filme realista e extraordinário, poético e cruel, de rosto humano e textura sobrenatural, “Contos da Lua Vaga” é a melhor porta de entrada para a obra de Kenji Mizoguchi.

‘A base de um cérebro saudável é a bondade, e pode-se treinar isso’ – Richard J. Davidson – Revista Prosa Verso e Arte

Richard Davidson

via ‘A base de um cérebro saudável é a bondade, e pode-se treinar isso’ – Richard J. Davidson – Revista Prosa Verso e Arte

por Ima Sanchís

Richard Davidson, PhD em neuropsicologia e pesquisador na área de neurociência afetiva

Nasci em Nova Iorque e moro em Madison, Wisconsin (EUA), onde sou professor de psicologia e psiquiatria na universidade. A política deve basear-se naquilo que nos une. Só assim poderemos reduzir o sofrimento no mundo. Acredito na gentileza, na ternura e na bondade, mas temos que nos treinar nisso.

Eu estava investigando os mecanismos cerebrais ligados à depressão e à ansiedade.

…E acabou fundando o Centro de Investigação de Mentes Saudáveis.

Quando eu estava no meu segundo ano na Universidade de Harvard, a meditação cruzou o meu caminho e fui para a Índia investigar como treinar a minha mente. Obviamente, meus professores disseram que eu estava ficando louco, mas aquela viagem marcou meu futuro.

…E assim que começam as grandes histórias.

Descobri que uma mente calma pode produzir bem-estar em qualquer tipo de situação. E quando me dediquei a investigar, por meio da neurociência, quais são as bases para as emoções, fiquei surpreso de ver como as estruturas do cérebro podem mudar em tão somente duas horas.

Em duas horas!

Hoje podemos medir com precisão. Levamos meditadores ao laboratório; e antes e depois da meditação, tiramos uma amostra de sangue deles para analisar a expressão dos genes.

E a expressão dos genes muda?

Sim. E vemos como as zonas com inflamação ou com tendência à inflamação tinham uma abrupta redução disso. Foram descobertas muito úteis para tratar a depressão. Contudo, em 1992, conheci o Dalai Lama e minha vida mudou.

Um homem muito encorajador.

“Admiro seu trabalho – ele me disse -, mas acho que você está muito centrado no estresse, na ansiedade e na depressão. Nunca pensou em focar suas pesquisas neurocientíficas na gentileza, na ternura e na compaixão?”.

Um enfoque sutil e radicalmente distinto.

Fiz a promessa ao Dalai Lama de que faria todo o possível para que a gentileza, a ternura e a compaixão estivessem no centro da pesquisa. Palavras jamais citadas em um estudo científico.

O que você descobriu?

Que há uma diferença substancial entre empatia e compaixão. A empatia é a capacidade de sentir o que sentem os demais. A compaixão é um estado superior. É ter o compromisso e as ferramentas para aliviar o sofrimento.

E o que isso tem a ver com o cérebro?

Os circuitos neurológicos que levam à empatia ou à compaixão são diferentes.

E a ternura?

Forma uma parte do circuito da compaixão. Umas das coisas mais importantes que descobri sobre a gentileza e a ternura é que se pode treiná-las em qualquer idade. Os estudos nos dizem que estimular a ternura em crianças e adolescentes, melhora os resultados acadêmicos, o bem-estar emocional e a saúde deles.

E como se treina isso?

Primeiro, levando a mente deles até uma pessoa próxima, que eles amam. Depois, pedimos que revivam um momento em que essa pessoa estava sofrendo e que cultivem o desejo de livrar essa pessoa do sofrimento. Logo, ampliamos o foco para pessoas não tão importantes e, por fim, para aquelas que os irritam. Estes exercícios reduzem substancialmente o bullying nas escolas.

Da meditação à ação há uma distância.

Umas das coisas mais interessantes que tenho visto nos circuitos neurais da compaixão é que a área motora do cérebro é ativada: a compaixão te capacita para agir, para aliviar o sofrimento.

Agora você pretende implementar no mundo o programa Healthy Minds (mentes saudáveis).

Esse foi outro desafio que o Dalai Lama me deu, e temos elaborado uma plataforma mundial para disseminá-lo. O programa tem quatro pilares: a atenção; o cuidado e a conexão com os outros; o contentamento de ser uma pessoa saudável (fechar-se nos próprios sentimentos e pensamentos é uma das causas da depressão)…

…É preciso estar aberto e exposto.

Sim. E, por último, ter um propósito na vida. Que é algo que está intrinsecamente relacionado ao bem-estar. Tenho visto que a base para um cérebro saudável é a bondade. E treinamos a bondade em um ambiente científico, algo que nunca tinha sido feito antes.

Como podemos aplicar esse treinamento em nível global?

Por meio de vários setores: educação, saúde, governo, empresas internacionais…

Por meio desses que têm potencializado este mundo de opressão em que vivemos?

Tem razão. Por isso, sou membro do conselho do Foro Econômico Mundial de Davos. Para convencer os líderes de que é preciso levar às pessoas o que a ciência sabe sobre o bem-estar.

E como convencê-los?

Por meio de provas científicas. Tenho mostrado a eles, por exemplo, o resultado de uma pesquisa que temos realizado em diversas culturas diferentes: se interagirmos com um bebê de seis meses usando fantoches, sendo que um deles se comporta de forma egoísta e o outro de forma amável e generosa, 99% dos bebês prefere o boneco que coopera.

Cooperação e amabilidade são inatas.

Sim, mas são frágeis. Se não são cultivadas, se perdem. Por isso, eu, que viajo muitíssimo (o que é uma fonte de estresse), aproveito os aeroportos para enviar mentalmente bons desejos a todos com quem cruzo no caminho, e isso muda a qualidade da experiência. O cérebro do outro percebe isso.

Em apensa um segundo, seguem o seu exemplo.

A vida é só uma sequência de momentos. Se encadearmos essas sequências, a vida muda.

Hoje, mindfulness (atenção plena) tornou-se um negócio.

Cultivar a gentileza é muito mais efetivo do que se centrar em si mesmo. São circuitos cerebrais distintos. A meditação em si não interessa para mim. O que me importa é como acessar os circuitos neurais para mudar o seu dia-a-dia, e sabemos como fazer isso.

Ciência e Gentileza

A pesquisa de Richard Davidson está centrada nas bases neuronais da emoção e nos métodos para promover, por meio da ciência, o florescimento humano, incluindo a meditação e as práticas contemplativas. Ele fundou e preside o Centro de Investigação de Mentes Saudáveis na Universidade de Wisconsin-Madison, onde são realizadas pesquisas interdisciplinares com rigor científico sobre as qualidades positivas da mente, como a gentileza e a compaixão. Richard Davidson já acumula prêmios importantes e é considerado uma das cem pessoas mais influentes do mundo, segundo a revista Time. É autor de uma quantidade imensa de pesquisas e tem vários livros publicados. Ele conduziu um seminário para estudos contemplativos em Barcelona.

Fonte e tradução: Tibet House Brasil – entrevista publicada originalmente no site La Vanguardia

A escalada fascista

MATERIALISMO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO

Na gramsciana definição de Gianni Fresu, fascismo é consenso e coerção. Observando bem, nenhum dos dois elementos fazem falta no Brasil de hoje.

Os atos com Lula no Sul do Brasil estão dando provas explícitas da violência da extrema direita brasileira, que ontem em Florianópolis espancou pelo menos um casal de trabalhadores, segundo relatou uma postagem da professora Maria Borges.

Os agressores eram integrantes do MBL, que durante o ato com Lula ficaram mantidos à distância por um cordão da Polícia Militar. Também havia muitos companheiros nossos fazendo a segurança. Mas as agressões foram no final do ato, quando todos já estavam se desmobilizando. O que repete o padrão das agressões observadas em outras cidades.

Mas não se trata só de coerção. Ontem mesmo tive notícias de que um ex aluno de doutorado de um dos cursos do CFH/UFSC, que escreveu uma tese até elogiada, vale dizer, que…

Ver o post original 347 mais palavras

Som e fúria

Sound and fury

Macbeth:

“Tomorrow and tomorrow and tomorrow,
Creeps in this petty pace from day to day
To the last syllable of recorded time,
And all our yesterdays have lighted fools
The way to dusty death. Out, out, brief candle!
Life’s but a walking shadow, a poor player
That struts and frets his hour upon the stage
And then is heard no more: it is a tale
Told by an idiot, full of sound and fury,
Signifying nothing.”

Som e Fúria

 

Seyton:

A rainha, meu senhor, está morta.

Macbeth:

“Ela deveria ter morrido mais tarde. Teria havido uma hora para essa palavra. Amanhã, e amanhã, e amanhã
Arrastam-se nessa passada trivial do dia para a noite, da noite para o dia,
Até a última sílaba do registro dos tempos.
E todos os nossos ontens não fizeram mais que iluminar para os tolos
o caminho que leva ao pó da morte. Apaga-te, apaga-te, chama breve!
A vida não passa de uma sombra que caminha, um pobre ator
Que se pavoneia e se aflige sobre o palco –
Faz isso por uma hora e, depois, não se escuta mais sua voz:
É uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria
Significando nada”.

weinstein-TWC2011-Full-Image_GalleryBackground-en-US-1484348654848._RI_SX940_
Conspiradores como os Macbeths caem mais cedo ou mais tarde.