Soneto 23

Soneto 23

William Shakespeare

Como no palco o ator que é imperfeito
Faz mal o seu papel só por temor,
Ou quem, por ter repleto de ódio o peito
Vê o coração quebrar-se num tremor,

Em mim, por timidez, fica omitido
O rito mais solene da paixão;
E o meu amor eu vejo enfraquecido,
Vergado pela própria dimensão.

Seja meu livro então minha eloquência,
Arauto mudo do que diz meu peito,
Que implora amor e busca recompensa

Mais que a língua que mais o tenha feito.
Saiba ler o que escreve o amor calado:
Ouvir com os olhos é do amor o fado.

Soneto VI, in Livro dos Sonetos, vol I.

Danilo Borges
28 de setembro de 2013 às 18:53

Estando eu deitado em meu pobre leito

pertubou-me o devaneio, imaginações.

Ordenou-me e eu alto em seu conceito

obedeci às minhas belas obrigações.

 

Sem saber se pois terei o nome aceito,

no panteão da glória, e louros e brasões,

vejo o amor dos meus e este como efeito

para sublimar-me amorosas ilusões.

 

Mas ainda espero o bem terreno,

sua face feminina sei que não demora.

A mim, não cabe mais do que sereno,

 

como um cravo a esperar após a aurora,

encontrar a sua rosa em meio aos fenos,

como o porvir de braços abertos espera o Agora!

 

 

 

Soneto VIII, in Livros dos Sonetos, vol I.

Danilo Borges

28 de setembro de 2013 às 19:23

Entreguei-me à febre da imaginação,

para não ver morrer meus vivos ideais.

Imaginei na mente e forjei no coração

que felicidade é sonhar e vitória ser capaz.

 

Lúcidos projetos lancei à luz da minha mente,

para realizar meus sonhos, transpiro até sangue.

Desejo a plenitude do futuro e, no entre-as-gentes,

Minha fé é o horizonte que minh’alma expande.

 

Minha vida flana como uma asa aberta,

voando longe à procura do cotentamento,

sendo o amor esta lança que meu peito espeta,

 

levarei ao meu túmulo tão enorme atrevimento.

Gravarei em minha lápide: À Lembrança:

Foi poeta, amou. Morreu do mesmo sentimento.

 

 

São Paulo, Consolação, idos de.

SONETO XI

Danilo Sérgio Borges

No sol a pino é que finjo a madrugada

como disse o poeta e o cancioneiro

na ilusão do limite pressinto a estrada

e sou todo liberdade, sou prisioneiro.

 

Essa condição de ser contrário é destarte

e tem um não sei quê de verdade; inteiro

vou me reconhecendo em qualquer parte,

em que não possa mirar-me pelo espelho.

 

E de tanto ser o oposto desta outra face

que ora se-me-veste tanto e tão me serve

assumo este outro rosto que me restou.

 

E quem sabe num instante, o desenlace

deste mistério secreto em mim reserve,

à carne viva do inconsciente, O QUE SOU!

 

São Paulo, 2013.

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