Enem 2020

Obras literárias 


Embora o ENEM não divulgue uma lista de obras de leitura obrigatória para realizar a prova, como outras instituições que aplicarm o vestibular (livro para o vestibular) , não é raro encontrar questões construídas a partir de trechos de obras literárias consagradas. Por isto, a abordagem mais comum está associada à interpretação de textos. Autores como Ariano Suassuna, Clarice Lispector, Graciliano Ramos, Machado de Assis e diversos outros se destacam entre os mais cobrados (confira abaixo).


1.     Ariano Suassuna


Obra: O santo e a Porca
O Santo e a Porca é uma obra escrita em 1957, com linguagem próxima à literatura de cordel e às festas populares conhecidas como Folguedos. Por meio do livro é contada a história do idoso Euricão Árabe, devoto de Santo Antônio que mantém escondida uma porca cheia de dinheiro em sua casa. Caracterizada como comédia, a obra é escrita em três atos e tem características do Movimento Armorial, cuja proposta foi criar arte erudita a partir de elementos culturais do Nordeste brasileiro.


2.    Clarice Lispector


Obra: A Hora da Estrela
A Hora da Estrela narra através do olhar de Rodrigo S.M., o alter-ego de Clarice Lispector, a história de Macabéa, uma jovem que partiu do sertão do Alagoas para viver no Rio de Janeiro. Apesar de aprender a datilografar, a personagem consegue um emprego ruim e leva a vida sem grandes perspectivas de futuro – um retrato da realidade que, apesar da época em que foi escrita, se mostra atual.


Obra: A Descoberta do Mundo

Em A Descoberta do Mundo, Clarice mistura realidade e ficção em forma de crônicas ao retratar diversas experiências de vida. O livro é contado através dos dias, como um diário particular. Embora apresente pessoas e personagens marcantes na vida de Clarice, a obra traz reflexões atemporais sobre comportamentos e personalidades.


3.    Fernando Pessoa


Obra: O Livro do Desassossego
A obra foi publicada pela primeira vez em 1982 – cerca de 50 anos após a morte do autor – e por isso é caracterizada como uma obra póstuma que não é narrada a partir do tempo cronológico. A obra compila textos avulsos do autor com características autobiográficas, introspectivas, entre outras; se aproxima do gênero de romance e traz reflexões diversas sobre a complexidade da mente de Pessoa. 

Crowley e Pessoa


4.    Graciliano Ramos


Obra: Vidas Secas
Em Vidas Secas, Graciliano retrata uma família de retirantes nordestinos que, devido à seca que atinge a região, parte em busca de uma vida melhor. Fabiano, Sinhá Vitória, os filhos (mais velho e mais novo) e Baleia são os personagens principais da narrativa, marcada pelos poucos diálogos e pelo tempo psicológico.


5.    José Saramago


Obra: Ensaio sobre a Cegueira
Ensaio sobre a Cegueira é uma reflexão sobre os comportamentos humanos e a forma como as relações são construídas. No Início da narrativa, os personagens são acometidos repentinamente pela cegueira, que rapidamente se espalha pela cidade e que traz reflexões profundas sobre a essência do ser humano. 


Obra: Os Poemas Possíveis
Esta é a primeira obra poética de José Saramago, publicada em 1966. As produções abordam temas como fraternidade, luta e liberdade através das palavras. 


6.    Machado de Assis


Obra: A Causa Secreta
Este é um dos famosos contos de Machado de Assis que aborda temas como a frieza e a crueldade do ser humano. A história gira em torno de personagens como o médico Garcia e Fortunato, que dedica-se aos feridos e doentes e cujo comportamento dá origem ao nome do conto.

Literatura em travessia

“O real não está na saída nem na entrada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia.” Guimarães Rosa

Literatura em Travessia – criando novos caminhos é um projeto com uma série de conversas relacionadas ao segmento e o contexto atual. Pretende trazer a visão de mulheres e jovens envolvidos com o setor e que foram fortemente atingidos pelos impactos causados pela pandemia, distanciamento físico e os encerramentos de atividades literárias desde março de 2020.Elencamos 10 encontros que iremos denominar como prosas, a serem realizadas durante a FLIJ – Feira Literária de Jacareí, de 05 a 11 de dezembro, em transmissão simultânea no canal do Youtube da Secretaria Municipal de Educação, com apoio da Fundação Cultural de Jacarehy e em parceria com o Conselho Municipal de Políticas Culturais e Comissão Setorial de Literatura – Livro, Leitura, Bibliotecas.

“No discurso mora sempre uma esperança, a esperança de ser uma ponte entre dois mundos. Toda ponte realiza em seu ser um convite de travessia.”Emmanuel Carneiro LeãoVamos atravessar?

Programação completa da Flij 2020:http://www.jacarei.sp.gov.br/flij2020/ Inscreva-se no canal do YouTube da Secretaria Municipal de Educação:

https://www.youtube.com/channel/UC84DMt1ucwbbp1Q0Sw_bPkw

Página do projeto:https://www.facebook.com/Literatura-em-Travessia-criando-novos-caminhos-103289288303666

Confira as 10 Prosas no evento: https://www.facebook.com/events/698102200844811/

2020-12-05T09:16:00

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Literatura em travessia

A um ausente

Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.

Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?

Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.

Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste.

Pedro Nava e Carlos Dummond de Andrade de máscara em Belo Horizonte

Carlos Drummond de Andrade , “Farewell”. Rio de Janeiro: Editora Record, 1996.

Nós

T. Godoy

Chegamos até aqui
fomos longe demais...
nossa vida múltipla, ano após ano, nos uniu
eu, você, nós e os nossos nós
nós dos nossos dedos tortos
apontam um futuro incerto
nos esquecemos de duvidar de nossas dúvidas
de questionar nossos questionamentos...
Alexandre ainda procura com sua espada aquele nó górdio
que criamos para honrar nossas origens:
o princípio, o fundamento...
afinal à nossa frente está o fim dos tempos,
então voltamos ao começo
o nó da madeira
o nó na madeira
o diário nó na garganta
do garrote dos supliciados.
a vida é um nó infinito não orientável:
com lados móveis e esteiras invertidas.
quantas Portas de Não-Retorno se fecharão atrás de nós
antes de assumirmos nossa iminente ruína?

Carta aos reitores

Antonin Artaud

Basta de jogo de palavras,
de artifícios de sintaxe,
de malabarismos formais;
precisamos encontrar – agora –
a grande Lei do coração,
a Lei que não seja uma Lei, uma prisão,
senão um guia para o espírito perdido
em seu próprio labirinto.
Além daquilo que a ciência jamais poderá alcançar,
Ali onde os raios da razão se quebram contra as nuvens,
esse labirinto existe,
núcleo para o qual convergem todas as forças do ser,
as últimas nervuras do espírito.

Coração

O direito à tristeza – Contardo Calligaris

Avatar de laboratoriodesensibilidadesLaboratório de Sensibilidades

As crianças têm dois deveres. Um, salutar, é o dever de crescer e parar de ser crianças. O outro, mais complicado, é o de ser felizes, ou melhor, de encenar a felicidade para os adultos.Esses dois deveres são um pouco contraditórios, pois, crescendo e saindo da infância, a gente descobre, por exemplo, que os picolés não são de graça. Portanto, torna-se mais difícil saltitar sorrindo pelos parques à espera de que a máquina fotográfica do papai imortalize o momento. Em suma, se obedeço ao dever de crescer, desobedeço ao dever de ser feliz.A descoberta dessa contradição pode levar uma criança a desistir de crescer. E pode fazer a tristeza (às vezes o desespero) de outra criança, incomodada pela tarefa de ser, para a família inteira, a representante da felicidade que os adultos perderam (por serem adultos, porque a vida é dura, porque doem as costas, porque o casamento é tenso…

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Interregno

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Caminhada de Lua Cheia na Serra de Sintra - GreenTrekker.pt

Em memória de Paulo de Godoy

Na hora da Lua Vazia, você nos abandonou!
A lua cheia era uma cabeça pendurada no ar
Perfeitamente alinhada a dois pingentes de diamantes.

Você escolheu um lindo dia
Você escolheu um lindo lusco-fusco
Uma linda noite de indescritível silêncio capsular
Você escolheu absoluto o silêncio
Sem despedidas
Sem avisos
Sem escândalos, como deve ser...

Você escolheu o silêncio primordial
Que nos precedeu
Você escolheu o silêncio terminal
Que nos espera
Mas, naquele momento de tormenta,
nós também pedimos silêncio
À Nossa Grande Mãe
O silêncio nos protegeu
O silêncio nos encobriu
Em nossas mentiras brancas...

Ainda agora pedimos silêncio às nossas entranhas que gritam:
Por que meu Deus?
Procuramos os culpados
Procuramos as respostas em todas as ciências dos deuses
Procuramos as respostas em todas as ciências dos homens
Mas só o silêncio nos abraça
Pedimos silêncio para nosso inquieto coração
Afogado em tanta ternura sem eco...

Por favor, silêncio! Não convém esquadrinhar o mistério
O abismo também nos espreita nas esquinas
O abismo também nos olha pelos corredores escuros e pelas janelas abertas.

Do fundo dos precipícios à sombra das altas pontes
Das entranhas do mar profundo cortado por nossas naves barulhentas,
A música silenciosa do início dos tempos
Chama irresistivelmente nosso nome,
Quando nos demoramos no entremeio dos mundos.

Godoy

Vozes D’África

Deus! ó Deus! onde estás que não respondes?
Em que mundo, em qu’estrela tu t’escondes
Embuçado nos céus?
Há dois mil anos te mandei meu grito,
Que embalde desde então corre o infinito…
Onde estás, Senhor Deus?…

Qual Prometeu tu me amarraste um dia
Do deserto na rubra penedia
— Infinito: galé!…
Por abutre — me deste o sol candente,
E a terra de Suez — foi a corrente
Que me ligaste ao pé…

O cavalo estafado do Beduíno
Sob a vergasta tomba ressupino
E morre no areal.
Minha garupa sangra, a dor poreja,
Quando o chicote do simoun dardeja
O teu braço eternal.

Minhas irmãs são belas, são ditosas…
Dorme a Ásia nas sombras voluptuosas
Dos haréns do Sultão.
Ou no dorso dos brancos elefantes
Embala-se coberta de brilhantes
Nas plagas do Hindustão.

Por tenda tem os cimos do Himalaia…
Ganges amoroso beija a praia
Coberta de corais …
A brisa de Misora o céu inflama;
E ela dorme nos templos do Deus Brama,
— Pagodes colossais…

A Europa é sempre Europa, a gloriosa!…
A mulher deslumbrante e caprichosa,
Rainha e cortesã.
Artista — corta o mármor de Carrara;
Poetisa — tange os hinos de Ferrara,
No glorioso afã!…

Sempre a láurea lhe cabe no litígio…
Ora uma c’roa, ora o barrete frígio
Enflora-lhe a cerviz.
Universo após ela — doudo amante
Segue cativo o passo delirante
Da grande meretriz.
………………………………

Mas eu, Senhor!… Eu triste abandonada
Em meio das areias esgarrada,
Perdida marcho em vão!
Se choro… bebe o pranto a areia ardente;
talvez… p’ra que meu pranto, ó Deus clemente!
Não descubras no chão…

E nem tenho uma sombra de floresta…
Para cobrir-me nem um templo resta
No solo abrasador…
Quando subo às Pirâmides do Egito
Embalde aos quatro céus chorando grito:
“Abriga-me, Senhor!…”

Como o profeta em cinza a fronte envolve,
Velo a cabeça no areal que volve
O siroco feroz…
Quando eu passo no Saara amortalhada…
Ai! dizem: “Lá vai África embuçada
No seu branco albornoz… ”

Nem vêem que o deserto é meu sudário,
Que o silêncio campeia solitário
Por sobre o peito meu.
Lá no solo onde o cardo apenas medra
Boceja a Esfinge colossal de pedra
Fitando o morno céu.

De Tebas nas colunas derrocadas
As cegonhas espiam debruçadas
O horizonte sem fim …
Onde branqueia a caravana errante,
E o camelo monótono, arquejante
Que desce de Efraim
…………………………………

Não basta inda de dor, ó Deus terrível?!
É, pois, teu peito eterno, inexaurível
De vingança e rancor?…
E que é que fiz, Senhor? que torvo crime
Eu cometi jamais que assim me oprime
Teu gládio vingador?!
………………………………….

Foi depois do dilúvio… um viadante,
Negro, sombrio, pálido, arquejante,
Descia do Arará…
E eu disse ao peregrino fulminado:
“Cam! … serás meu esposo bem-amado…
— Serei tua Eloá. . . ”

Desde este dia o vento da desgraça
Por meus cabelos ululando passa
O anátema cruel.
As tribos erram do areal nas vagas,
E o nômade faminto corta as plagas
No rápido corcel.

Vi a ciência desertar do Egito…
Vi meu povo seguir — Judeu maldito —
Trilho de perdição.
Depois vi minha prole desgraçada
Pelas garras d’Europa — arrebatada —
Amestrado falcão! …

Cristo! embalde morreste sobre um monte
Teu sangue não lavou de minha fronte
A mancha original.
Ainda hoje são, por fado adverso,
Meus filhos — alimária do universo,
Eu — pasto universal…

Hoje em meu sangue a América se nutre
Condor que transformara-se em abutre,
Ave da escravidão,
Ela juntou-se às mais… irmã traidora
Qual de José os vis irmãos outrora
Venderam seu irmão.

Basta, Senhor! De teu potente braço
Role através dos astros e do espaço
Perdão p’ra os crimes meus!
Há dois mil anos eu soluço um grito…
escuta o brado meu lá no infinito,
Meu Deus! Senhor, meu Deus!!…

São Paulo, 11 de junho de 1868