“Protesto pacífico” não é possível sem investimentos em Educação

“Protesto pacífico” não é possível sem investimentos em Educação

O que me espanta é que a violência não seja muito maior

                                                                                                                                   Thaís de Godoy

Todos os dias, aproximadamente 14 milhões de desempregados, outros tantos assalariados e subempregados assistem às notícias sobre a roubalheira de empresários e políticos, que passa a casa dos bilhões. A população injustiçada, que não tem Educação de qualidade, nem saúde, nem segurança, e paga seus impostos diretamente nos produtos que compra, se sente cada dia mais tripudiada pelos poderosos.

Um Estado violento, um jornalismo violento, que repete continuamente que bandido bom é bandido morto, estimula o instinto de violência dos espectadores. Nesse momento, porém, os maiores bandidos são os políticos e empresários pois com apenas uma assinatura podem matar aos milhares pessoas do país inteiro.

Ontem, a imprensa apesar dos fatores acima rotulou os manifestantes dos protestos contra o governo de vândalos, sem a menor análise do contexto em que vivemos, numa abordagem simplista da situação causada em partes pela própria mídia.  É preciso analisar o que vem ocorrendo nesses protestos que não atendem aos interesses do governo.

Nesse protesto se infiltraram elementos da polícia mascarados a paisana para começar a agressão e ter um pretexto para a polícia fardada atacar os verdadeiros manifestantes. Foi flagrado por filmagens amadoras um grupo infiltrado que combinava um ataque, agindo totalmente contra as orientações dos carros de som de quem organizava o evento. Essa tática é muito conhecida de manifestantes opositores de governos autoritários.

Num relato de policiais civis, que mostraram seus rostos, deram seus nomes e patentes, Major Hélio Cunha, Tenente Fonseca e o Diretor do Sinpol, a versão é de que o ataque gratuito partiu da PM de forma covarde contra os cidadãos sem que eles tivessem sequer como reagir às bombas.

Um fato “estranho” é por que os manisfestantes queimariam os próprios banheiros que foram colocados ali para servi-los por sindicatos e outras organizações? Outro é como os funcionários públicos sabiam com antecedência que esses grupos se dirigiriam até os prédios dos Ministérios e decidiram evacuar os edifícios com antecedência e a polícia não? Se a polícia sabia dessa ação por que não os impediu de se dirigirem para lá?

Então, jornalistas, como se tivessem nascido ontem, ficam espantados quando a população se revolta e parte para a violência. O que me espanta é que a violência não seja muito maior e que a população inteira não esteja protestando.

Para a população, vandalismo é desviar o dinheiro da previdência que ela pagou por 30 anos, enquanto um político trabalha só 8, é roubar de hospitais, de escolas, da merenda das crianças. O vandalismo dos protestos é uma reação ao vandalismo predatório que os políticos e empresários praticam diariamente sobre os cofres públicos. O chavão “violência gera violência” não deixa de ser verdadeiro por ser uma frase desgastada, mas seu uso frequente no discurso parece não ter eco nas ações cotidianas das autoridades.

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Métodos pacíficos de protesto não podem ser ensinados na escola, ou podem? Na escola sem partido, isso seria uma doutrinação? Sem nenhuma educação sobre protestos pacíficos, negociação diplomática de conflitos, o que me deixa espantada é que esses incidentes de violência não sejam mais numerosos e não tenham tantos participantes como os protestos contra o aumento da passagem dos ônibus há dois anos.

Cidadãos brasileiros, que veem os cortes do orçamento afetarem apenas os mais pobres e o Presidente Michel Temer perdoar as dívidas bilionárias de Bancos, naturalmente estão com muita raiva. Quem não está com raiva ou está mal informado e alienado, ou não tem princípios, ou é monge budista.

A integridade física do povo brasileiro é desrespeitada todos os dias quando é levado como gado para seus trabalhos em um transporte coletivo indigno de um ser humano. As pessoas da classe média ficam chocadas quando se queimam os ônibus, mas não entendem como é ficar por horas esperando, pagar para ser espremido ou simplesmente ter que parar de estudar porque a empresa resolveu interromper a circulação no horário noturno.

Claro que as consequências serão sofridas pelo próprio povo e ele sabe disso, mas em algum momento o sentimento de vingança contra todas as mazelas das quais são vítimas eclode e fica irrefreável. Nem o medo de bombas de efeito moral é capaz de estancar a revolta de pessoas que já não têm mais nada a perder.

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A integridade física do povo nunca foi respeitada pelos poderosos. O povo sofre esse vandalismo diariamente.

Veja se algum político ou empresário algum dia se preocupou com a integridade física do povo. Agora os jornalistas estão com pena dos funcionários públicos e políticos ilhados em Brasília? O que os jornalistas esperavam? Que os brasileiros aceitassem ser feitos de palhaços a vida toda? O povo não aguenta mais.

Se é muito difícil para uma pessoa que tem fortes princípios pacifistas se controlar nesta situação; outra que não os têm nem tenta. Quem incutirá princípios pacifistas no povo? O Bolsonaro? Que diz que a população tem que se armar? Imaginem essas pessoas revoltadas em Brasília (com razão) e armadas como quer o mito? O único mito que se enquadra no perfil desse político é o do Caos, que se instalaria no Brasil se um povo com tanta raiva e sem formação para negociar diplomaticamente conflitos, começasse a se armar. Os primeiros a serem mortos, provavelmente, seriam os políticos bandidos e o mito se enquadra nesse perfil também, como ele mesmo confessou, recentemente.

Por isso, um dia, os políticos vão se arrepender amargamente de não terem cumprido suas promessas de campanha de investir em Educação de qualidade.

Proposição borgeana

Você tem um pesadelo assustador com uma pessoa há muito esquecida, há muito distante, há muito perdida.

Acorda e verifica em seguida que ela viu, enquanto você dormia, uma imagem que você exibia.

Como não lembrar da proposição  borgeana: e se você sonhasse com uma flor e quando acordasse, encontrasse a mesma flor pousada sobre a sua cama?

O que você pensaria?

O que motivou esse pesadelo?

E essa estranha sincronia?

E se algo ruim estiver para acontecer com ela?

E se você sentiu medo de que algo ruim aconteça a ela?

E se você teve uma premonição?

E se ela precisar de ajuda?

E se for apenas uma situação desagradável do seu dia que lhe trouxe à memória o quão essa pessoa era desagradável?

E se, sem saber, você desejar que o pesadelo se realize?

E se você sentiu terror por não aceitar que é capaz de desejar a alguém o mal?

E se…. o pesadelo só disser algo sobre você mesmo?

A limpeza étnica da Palestina

DANIEL AVELAR
DE SÃO PAULO
27/04/2017 07h00

Israel não conseguirá manter o sistema ideológico que o sustenta para sempre. Quem faz o prognóstico é o historiador israelense Ilan Pappé.

Estamos em uma encruzilhada: as pessoas em Israel sabem do que o país fez no passado e faz no presente, mas a maioria ainda aceita isso e parece não se importar”, afirma o historiador, para quem pressões externas e “novas gerações” provocarão mudanças em Israel.

Pappé, 62, é um dos principais nomes dos chamados “novos historiadores israelenses”, grupo que analisa criticamente os eventos que levaram à fundação do Estado de Israel, em 1948, a partir do estudo de arquivos militares mantidos em sigilo até a década de 1980.

Ele escreveu o livro “A Limpeza Étnica na Palestina”, no qual argumenta que houve um processo planejado de expulsão e massacre de milhares de palestinos que viviam no território que viria a ser o Estado de Israel.

Sua hipótese contradiz a narrativa tradicional sobre o tema, segundo a qual os palestinos fugiram da região devido à guerra iniciada pelos países árabes contra Israel.

O historiador sofreu pressões e ameaças desde que publicou a obra, em 2006, e por isso hoje vive exilado no Reino Unido, onde é professor na Universidade de Exeter. Pappé, que está no Brasil para uma série de palestras de lançamento da edição brasileira da obra (ed. Sundermann), conversou com a Folha.

Leia, abaixo, trechos da entrevista.

*

Folha – Em seu livro, você defende a tese de que Israel foi fundado com base na limpeza étnica dos palestinos que viviam ali. Como seus compatriotas reagiram a essa ideia?

Ilan Pappé – No início, tentaram ignorar o livro e eu fui muito criticado, o que causou muitos problemas para mim. Aparentemente, para a academia israelense, falar que nosso país cometeu crimes contra a humanidade é cruzar uma linha vermelha.

A verdade é que as pessoas olham para os mesmos fatos com lentes diferentes. Se você vê o que aconteceu na Palestina em 1948 de uma perspectiva humanista, só se pode chegar a uma conclusão: as forças sionistas expulsaram milhares de pessoas e demoliram centenas de vilas palestinas, o que configura limpeza étnica.

Os israelenses não são os únicos a colonizar uma terra estrangeira, várias nações europeias fizeram isso no passado. Mas os israelenses são os únicos a negar o que fizeram.

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Você acredita que a sociedade israelense mudou a percepção que tem sobre si mesma nos últimos anos?

Atualmente, há mais conhecimento do que nas últimas décadas sobre os acontecimentos de 1948. A grande maioria dos israelenses sabe que milhares de palestinos foram expulsos de suas casas e que 500 vilas foram apagadas do mapa. Estamos em uma encruzilhada: as pessoas em Israel sabem do que o país fez no passado e faz no presente, mas muitos ainda aceitam isso e parecem não se importar.

Eu acredito que uma resposta global dura e mudanças de percepção na comunidade judaica ao redor do mundo são fundamentais para que Israel deixe de cometer atrocidades.

Falo com muitos israelenses jovens e vejo uma atitude diferente, mais crítica do que as gerações anteriores. Por isso, sou otimista. Penso que Israel não conseguirá manter o sistema ideológico que o sustenta para sempre.

Donald Trump já indicou possíveis mudanças na política dos EUA para Israel, como transferir a embaixada para Jerusalém. O que seu governo pode representar?

Honestamente, creio que a política dos EUA para Israel não é apenas baseada na personalidade de um presidente. Todos pensavam que Barack Obama era pró-Palestina, mas na prática ele não mudou em nada as diretrizes da política americana. Há outros fatores em jogo, como o lobby pró-Israel e o as pressões do complexo militar-industrial, que ainda vê Israel como um ativo.

Por outro lado, a sociedade civil e a comunidade judaica nos EUA nunca foram tão críticas a Israel quanto hoje. Penso que muitas coisas vão mudar nos EUA, e Trump não é a causa dessas mudanças. Talvez seja um sintoma.

2017 marca o 50º aniversário da Guerra dos Seis Dias. Qual a relação desse evento com o processo que você chama de limpeza étnica?

Há uma continuidade histórica. Os judeus foram para a Palestina porque precisavam fugir do genocídio na Europa, mas implementaram um projeto colonial. Para o sionismo, que considero ser o último movimento colonial, é preciso ter o máximo da Palestina com o mínimo de palestinos possível, caso contrário o projeto não consegue se concretizar.

Em 1948, expulsaram a maioria dos palestinos para, ironicamente, criar uma democracia judaica em parte do território. Em 1967, resolveram ocupar o resto da Palestina, incorporando muitos dos palestinos que haviam sido expulsos em 1948. Isso criou um problema demográfico.

Para resolver esse problema, não houve expulsões sistemáticas, mas se fez algo tão ruim quanto a limpeza étnica. Israel implementou uma ocupação militar sem conceder cidadania, negando aos palestinos o direito de decidir sobre o próprio futuro.

Isso criou o que eu chamo de “megaprisões palestinas”, com graus diferentes de liberdade. Em algumas partes da Cisjordânia se é mais livre, como se fosse uma “prisão aberta”, mas Gaza, por exemplo, é tão fechada que nem se entra mais lá, só se bombardeia.

Quando, e por que, você passou a se opor ao sionismo?

Foi um processo longo, com várias etapas. Eu queria virar um historiador e percebia que as evidências que via não batiam com a narrativa sobre Israel que era apresentada para mim.

Na universidade, eu tive um orientador árabe e, quando estudei em Oxford, pude conversar com palestinos de igual para igual. Penso que o divisor de águas nesta travessia foi a invasão israelense ao Líbano em 1982. Pela TV, eu podia ver o que meu país estava fazendo e não tinha como justificar todas aquelas atrocidades.

Eu não tenho problemas com a ideia de um Estado judeu, mas isso se torna moralmente inaceitável quando depende da expulsão e opressão sistemática dos palestinos. Tenho lutado contra isso minha vida inteira.

Penso que existe uma alternativa para essa situação. Judeus e palestinos podem viver juntos em um Estado democrático, não precisam viver em um sistema de apartheid.

Por que você apoia o BDS (campanha de boicote, desinvestimento e sanções contra Israel)?

Eu acreditava que a diplomacia e o processo de paz poderiam resolver o problema, mas passaram-se anos e a ocupação continuou. Também comecei a perceber que o problema não era a política do governo, mas a ideologia do Estado.

Por isso, passei a apoiar o BDS. Como israelense, aceitar isso era difícil para mim no começo, era o mesmo que dizer “por favor, me boicote”. Os israelenses contrários à campanha a acusam de ser antissemita ou, no caso do boicote às universidades israelenses, dizem que é um ataque à liberdade de expressão. Repetem que a solução é dialogar.

Mas a verdade é que as tentativas de diálogo anteriores fracassaram e o BDS, de algum modo, nos obriga a conversar, ainda que não seja uma conversa agradável.

Acusar o BDS de ser antissemita não é um argumento bem pensado, embora possa convencer pessoas inteligentes. Não há qualquer paralelo entre uma forma de preconceito que está aí há milhares de anos e os pedidos para que um grupo —que diz agir em nome de todos os judeus– pare de cometer violações de direitos humanos.

Eu acredito que precisamos mudar todo o vocabulário que usamos para nos referir à questão Israel/Palestina. Em vez de falar em processo de paz, devemos começar a falar em descolonização.

Isso é um grande desafio pois sabemos como ocorreram descolonizações no passado, mas não fazemos ideia do que isso significa no século 21. Palestinos vivem situações muito diferentes em Gaza, na Cisjordânia e em Israel, e também é preciso pensar no retorno dos refugiados.

Para mim, é muito inspiradora a forma como o processo de descolonização se deu na África do Sul. Esse exemplo nos mostra exatamente o que buscamos: não queremos vingança, mas reparação.

*

RAIO-X
ILAN PAPPÉ

Nascimento
Haifa (Israel), 7 de novembro de 1954

Formação
Graduação em história na Universidade Hebraica de Jerusalém e pós-doutorado na Universidade de Oxford

Ocupação
Professor da Universidade de Exeter

Principais obras
“História da Palestina Moderna: Uma Terra, Dois Povos”, “Os Palestinos Esquecidos: A História dos Palestinos em Israel” e “A Limpeza Étnica da Palestina” (ed. Sundermann)

 

O Amor, Meu Amor

O Amor, Meu amor

Mia Couto

Nosso amor é impuro
como impura é a luz e a água
e tudo quanto nasce
e vive além do tempo.

Minhas pernas são água,
as tuas são luz
e dão a volta ao universo
quando se enlaçam
até se tornarem deserto e escuro.
E eu sofro de te abraçar
depois de te abraçar para não sofrer.

E toco-te
para deixares de ter corpo
e o meu corpo nasce
quando se extingue no teu.

E respiro em ti
para me sufocar
e espreito em tua claridade
para me cegar,
meu Sol vertido em Lua,
minha noite alvorecida.

Tu me bebes
e eu me converto na tua sede.
Meus lábios mordem,
meus dentes beijam,
minha pele te veste
e ficas ainda mais despida.

Pudesse eu ser tu
E em tua saudade ser a minha própria espera.

Mas eu deito-me em teu leito
Quando apenas queria dormir em ti.

E sonho-te
Quando ansiava ser um sonho teu.

E levito, voo de semente,
para em mim mesmo te plantar
menos que flor: simples perfume,
lembrança de pétala sem chão onde tombar.

Teus olhos inundando os meus
e a minha vida, já sem leito,
vai galgando margens
até tudo ser mar.
Esse mar que só há depois do mar.

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No livro “Idades cidades divindades”

A Casa Branca Nau Preta

A Casa Branca Nau Preta

Álvaro de Campos

Estou reclinado na poltrona, é tarde, o Verão apagou-se…

Nem sonho, nem cismo, um torpor alastra em meu cérebro…

Não existe manhã para o meu torpor nesta hora…

Ontem foi um mau sonho que alguém teve por mim…

Há uma interrupção lateral na minha consciência…

Continuam encostadas as portas da janela desta tarde

Apesar de as janelas estarem abertas de par em par…

Sigo sem atenção as minhas sensações sem nexo,

E a personalidade que tenho está entre o corpo e a alma…

Quem dera que houvesse

Um terceiro estado pra alma, se ela tiver só dois…

Um quarto estado pra alma, se são três os que ela tem…

A impossibilidade de tudo quanto eu nem chego a sonhar

Dói-me por detrás das costas da minha consciência de sentir…

 

As naus seguiram,

Seguiram viagem não sei em que dia escondido,

E a rota que devem seguir estava escrita nos ritmos,

Os ritmos perdidos das canções mortas do marinheiro de sonho…

 

Árvores paradas da quinta, vistas através da janela,

Árvores estranhas a mim a um ponto inconcebível à consciência de as estar vendo,

Árvores iguais todas a não serem mais que eu vê-las,

Não poder eu fazer qualquer coisa gênero haver árvores que deixasse de doer,

Não poder eu coexistir para o lado de lá com estar-vos vendo do lado de cá.

E poder levantar-me desta poltrona deixando os sonhos no chão…

 

Que sonhos? … Eu não sei se sonhei … Que naus partiram, para onde?

Tive essa impressão sem nexo porque no quadro fronteira

Naus partem — naus não, barcos, mas as naus estão em mim,

E é sempre melhor o impreciso que embala do que o certo que basta,

Porque o que basta acaba onde basta, e onde acaba não basta,

E nada que se pareça com isto devia ser o sentido da vida…

 

Quem pôs as formas das árvores dentro da existência das árvores?

Quem deu frondoso a arvoredos, e me deixou por verdecer?

 

Onde tenho o meu pensamento que me dói estar sem ele,

Sentir sem auxílio de poder para quando quiser, e o mar alto

E a última viagem, sempre para lá, das naus a subir…

Não há, substância de pensamento na matéria de alma com que penso …

Há só janelas abertas de par em par encostadas por causa do calor que já não faz,

E o quintal cheio de luz sem luz agora ainda-agora, e eu.

Na vidraça aberta, fronteira ao ângulo com que o meu olhar a colhe

A casa branca distante onde mora… Fecho o olhar…

E os meus olhos fitos na casa branca sem a ver

São outros olhos vendo sem estar fitos nela a nau que se afasta.

E eu, parado, mole, adormecido,

Tenho o mar embalando-me e sofro…

Aos próprios palácios distantes a nau que penso não leva.

As escadas dando sobre o mar inatingível ela não alberga.

Aos jardins maravilhosos nas ilhas inexplícitas não deixa.

Tudo perde o sentido com que o abrigo em meu pórtico

E o mar entra por os meus olhos o pórtico cessando.

Caia a noite, não caia a noite, que importa a candeia

Por acender nas casas que não vejo na encosta e eu lá?

 

Úmida sombra nos sons do tanque noturna sem lua, as rãs rangem,

Coaxar tarde no vale, porque tudo é vale onde o som dói.

 

Milagre do aparecimento da Senhora das Angústias aos loucos,

Maravilha do enegrecimento do punhal tirado para os atos,

Os olhos fechados, a cabeça pendida contra a coluna certa,

E o mundo para além dos vitrais paisagem sem ruínas…

 

A casa branca nau preta…

Felicidade na Austrália…

 

Bares e restaurantes literários

É bom beber e discutir um pouco de literatura, não? Não só beber, é claro, mas aproveitar um bom jantar também enquanto isso. E que tal então fazer isso em um lugar perfeitamente apropriado? Digamos, em bares ou restaurantes inspirados em literatura? Gostou da ideia?

Então veja abaixo uma lista com alguns bares e restaurantes diretamente inspirados na literatura! E não pense que são só lugares fora do Brasil, tem alguns muito bons por aqui mesmo. Há restaurante com o poema O Corvo do Poe na parede, mas claro que, para quem vai para o exterior, também há lugares incríveis com decorações desde Wonderland, no Japão, até Senhor dos Anéis, na Nova Zelândia. São opções para os mais diversos gostos. Então, vamos à lista, um brinde à literatura e bon appétit!

Annabel Lee’s Tavern – Baltimore, Maryland

Como todo bom fã de Poe, preciso começar a lista por um dos lugares inspirados no grande mestre do conto. O pub Annabel Lee Tavern fica exatamente na cidade onde viveu o escritor, ou seja, em Baltimore. O lugar tem uma decoração belíssima, com direito a uma pintura do corvo na porta, um retrato de Poe na parede, sobre o qual pode-se ver um corvo pousado, além, é claro, do poema Annabel Lee, pintado na parede.

No lugar ocorrem apresentações e celebrações ao aniversário de Poe e o cardápio inclui hambúrgueres, fritas, pizzas e alguns pratos mais elaborados, com algumas opções vegetarianas, que podem ser vistas nos cardápios publicados no facebook do pub. No que se refere a bebidas, também há muitas opções, porém a que mais se destaca é The Raven Beer, que já vale só pelo visual da embalagem!

The Raven – Porto Alegre, RS

Depois do pub Annabel Lee Tavern, nos Estados Unidos, aqui vai uma dica de lugar também inspirado no mestre Poe e aqui no Brasil mesmo! O restaurante The Raven, localizado na Cidade Baixa, na Rua Sarmento Leite, tem uma decoração no estilo restaurantes antigos, com paredes de tijolos à vista e lustres, contando com uma placa de madeira com um corvo na entrada e o poema de Poe pendurado na parede. As opções de cardápio são bem variadas, contendo muitos pratos elaborados, com diferentes opções de entradas, pratos principais e sobremesas. Além disso, é claro, há várias opções de bebidas desde cervejas artesanais até drinks destilados e vinhos.

 

Bar Bukowski – Rio de Janeiro, RJ

Apesar do nome, o lugar é mais uma casa de festas rock’n roll do que apenas um bar mesmo. Lá são realizadas diversas festas desde eventos temáticos de Halloween, festas à fantasia e, é claro, comemorações no dia do aniversário de Bukowski. É a casa de rock mais antiga do Rio de Janeiro, sendo que foi estabelecida em 1997 e continua até hoje sendo um dos mais importantes bares do Rio. Inclusive, foi lançado neste ano um livro sobre histórias do bar, escrito por Bernardo Vilhena, compositor de músicas interpretadas por artistas desde Cazuza até Lobão entre outros.

Dirty Old Man – Porto Alegre, RS

O grande Bukowski, seja por ter sido ele mesmo um grande frequentador de bares ou por sua alta influência na literatura e cultura em geral das gerações seguintes, inspirou muitos bares a levarem o seu nome, ou, como neste caso, o nome de sua obra. O nome do bar porto alegrense, Dirty Old Man, para os poucos que por acaso não tenham reconhecido, é uma referência à coluna de Bukowski no jornal Los Angeles Open City, a qual deu origem ao livro de mesmo nome.

O Dirty Old Man fica na Cidade Baixa, centro de maior concentração de bares e vida noturna em Porto Alegre. O bar, que completou um ano recentemente, já é muito frequentado (é bom chegar cedo, porque quase sempre lota!) e tem uma decoração diretamente ligada à literatura, incluindo máquinas de escrever, cardápio com trechos da obra de Bukowski, estantes com livros, além, é claro, de fotos do grande escritor americano cuja obra serviu de inspiração para o lugar. Ótimo para quem gosta de Bukowski e de beber!

Restaurante Alice no País das Maravilhas – Tóquio, Japão

Situado em um shopping, na zona comercial do distrito de Ginza, em Tóquio, este restaurante é uma experiência visual única de entrar na Wonderland de Lewis Carrol. O lugar tem um espaço de mais de 200 metros quadrados, divididos em vários ambientes que representam as diferentes partes da trajetória de Alice, desde a entrada, com livros gigantes, para fazer o cliente se sentir pequeno, como Alice quando diminui para entrar na porta que leva à Wonderland, até um labirinto, a entrada do ambiente da Rainha, com guardas de cartas e corredores cobertos com as ilustrações originais de Carrol.

Além da decoração, o cardápio também é inspirado no livro: você pode pedir a “pizza rabo de gato Cheshire” ou a “bochecha de carne assada Queen of Hearts com molho de vinho tinto”. E quem irá servi-lo não será apenas um atendente com uniforme normal, mas um personagem da Wonderland! Pois os empregados do restaurante usam uniformes temáticos para realmente dar a impressão de que o cliente entrou no mundo criado por Lewis Carrol!

The Green Dragon Pub – Matamata, Nova Zelândia

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Localizado exatamente onde foi construída a cidade dos Hobbits para a gravação de O Senhor dos Anéis, na vila de Hobbiton na cidade de Matamata, parte da zona rural da Nova Zelândia, o pub é descrito em sua Fan Page no facebook como “um lugar para beber, um lugar de encontro, um lugar para descansar os seus pés peludos”. Ou seja, um lugar perfeito para os fâs de Tolkien, que já se tornou um grande ponto turístico do país.

Texto original publicado em Literatortura em Julho de 2016.

 

Obras de García Lorca, John M. Keynes e H.G. Wells entram no domínio público

O Estado de São Paulo

02 Janeiro 2017 | 16h44

Todo início de ano uma série de obras entra no domínio público – ou seja, se pode publicar, alterar ou utilizar as criações artísticas sem consultar a família dos artistas, mortos há 70 anos (no Brasil e partes da Europa; há regras diferentes).

Entram na lista este ano, entre outros, obras do escritor de ficção científica britânico H. G. Wells, da escritora norte-americana Gertrude Stein, do pintor inglês Paul Nash, do escritor e precursor do surrealismo francês André Breton, do discutido economista inglês John Maynard Keynes, do designer e pintor húngaro László Moholy-Nagy, dos autores espanhóis Federico García Lorca e Miguel de Unamuno, e do poeta Catulo da Paixão Cearense, entre outros.

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Deus! ó Deus! onde estás que não respondes? Há dois mil anos te mandei meu grito

Sírios de Alepo se despedem da vida pelas redes sociais: população é dizimada pelo governo***. Esse horripilante adeus me fez lembrar do terrível apelo de Castro Alves a Deus para interceder contra os horrores da escravidão no poema Vozes d’África.

*** Mais recentemente obtive a informação de que esses vídeos são falsos, são propagandas de agentes americanos inconformados com a vitória das forças do governo que livrou Alepo de grupos de mercenários financiados pela Arábia Saudita, pelos EUA, e de grupos terroristas como Alcaida. Alguns analistas argumentam que o verdadeiro e legítimo levante de rebeldes contra a ditadura foi “sequestrado” por terroristas e mercenários estrangeiros que aterrorizaram parte população que apoiava Assad e  persegue grupos minoritários de outras religiões como os cristãos.  As evidências dessa propaganda são os seguintes fatos:

-Alepo não tem nem luz nem água nem pode obviamente ter Internet de banda larga, portanto os vídeos não foram gravados e enviados de lá como afirmam as pessoas que os divulgaram.

-Um dos supostos moradores de Alepo fala, sem nenhum sotaque árabe, o inglês americano.

– O mais revoltante é constatar que esses grupos, sejam eles quem forem, destroem Alepo há anos sem que a Comunidade Internacional se importe com isso, mas bastou o governo retomar a cidade para libertá-la,  uma onda dessas falsas notícias passou a nos bombardear pelas redes sociais.Isso não justifica também a imensa violência do regime de Assad. Não importa se quem ataca a Síria são rebeldes,  mercenários, terroristas, nada justifica atacar hospitais ou a rede de abastecimento de água, crimes gravíssimos em qualquer guerra ou revolução. Não podemos nos esquecer de que os americanos apoiam esses monstros.(ATUALIZADO EM 31-12-2016)

Alerta para falsas notícias:

http://www.dn.pt/mundo/interior/adeussirios-publicam-mensagens-de-despedida-nasredes-sociais-5550570.html

Vozes d’África

Deus! ó Deus! onde estás que não respondes?

Em que mundo, em qu’estrela tu t’escondes

Embuçado nos céus?

Há dois mil anos te mandei meu grito,

Que embalde desde então corre o infinito…

Onde estás, Senhor Deus?…

Qual Prometeu tu me amarraste um dia

Do deserto na rubra penedia

– Infinito: galé! …

Por abutre – me deste o sol candente,

E a terra de Suez – foi a corrente

Que me ligaste ao pé…

O cavalo estafado do Beduíno

Sob a vergasta tomba ressupino

E morre no areal.

Minha garupa sangra, a dor poreja,

Quando o chicote do simoun dardeja

O teu braço eternal.

Minhas irmãs são belas, são ditosas…

Dorme a Ásia nas sombras voluptuosas

Dos haréns do Sultão.

Ou no dorso dos brancos elefantes

Embala-se coberta de brilhantes

Nas plagas do Hindustão.

Por tenda tem os cimos do Himalaia…

Ganges amoroso beija a praia

Coberta de corais …

A brisa de Misora o céu inflama;

E ela dorme nos templos do Deus Brama,

– Pagodes colossais…

A Europa é sempre Europa, a gloriosa! …

A mulher deslumbrante e caprichosa,

Rainha e cortesã.

Artista – corta o mármor de Carrara;

Poetisa – tange os hinos de Ferrara,

No glorioso afã! …

Sempre a láurea lhe cabe no litígio…

Ora uma c’roa, ora o barrete frígio

Enflora-lhe a cerviz.

Universo após ela – doudo amante

Segue cativo o passo delirante

Da grande meretriz.

Mas eu, Senhor!… Eu triste abandonada

Em meio das areias esgarrada,

Perdida marcho em vão!

Se choro… bebe o pranto a areia ardente;

talvez… p’ra que meu pranto, ó Deus clemente!

Não descubras no chão…

E nem tenho uma sombra de floresta…

Para cobrir-me nem um templo resta

No solo abrasador…

Quando subo às Pirâmides do Egito

Embalde aos quatro céus chorando grito:

“Abriga-me, Senhor!…”

Como o profeta em cinza a fronte envolve,

Velo a cabeça no areal que volve

O siroco feroz…

Quando eu passo no Saara amortalhada…

Ai! dizem: “Lá vai África embuçada

No seu branco albornoz. . . ”

Nem vêem que o deserto é meu sudário,

Que o silêncio campeia solitário

Por sobre o peito meu.

Lá no solo onde o cardo apenas medra

Boceja a Esfinge colossal de pedra

Fitando o morno céu.

De Tebas nas colunas derrocadas

As cegonhas espiam debruçadas

O horizonte sem fim …

Onde branqueia a caravana errante,

E o camelo monótono, arquejante

Que desce de Efraim

Não basta inda de dor, ó Deus terrível?!

É, pois, teu peito eterno, inexaurível

De vingança e rancor?…

E que é que fiz, Senhor? que torvo crime

Eu cometi jamais que assim me oprime

Teu gládio vingador?!

Foi depois do dilúvio… um viadante,

Negro, sombrio, pálido, arquejante,

Descia do Arará…

E eu disse ao peregrino fulminado:

“Cão! … serás meu esposo bem-amado…

– Serei tua Eloá. . . ”

Desde este dia o vento da desgraça

Por meus cabelos ululando passa

O anátema cruel.

As tribos erram do areal nas vagas,

E o Nômada faminto corta as plagas

No rápido corcel.

Vi a ciência desertar do Egito…

Vi meu povo seguir – Judeu maldito –

Trilho de perdição.

Depois vi minha prole desgraçada

Pelas garras d’Europa – arrebatada –

Amestrado falcão! …

Cristo! embalde morreste sobre um monte

Teu sangue não lavou de minha fronte

A mancha original.

Ainda hoje são, por fado adverso,

Meus filhos – alimária do universo,

Eu – pasto universal…

Hoje em meu sangue a América se nutre

Condor que transformara-se em abutre,

Ave da escravidão,

Ela juntou-se às mais… irmã traidora

Qual de José os vis irmãos outrora

Venderam seu irmão.

Basta, Senhor! De teu potente braço

Role através dos astros e do espaço

Perdão p’ra os crimes meus!

Há dois mil anos eu soluço um grito…

escuta o brado meu lá no infinito,

Meu Deus! Senhor, meu Deus!!…

Teoria das Janelas quebradas

Teoria das Janelas quebradas

A Teoria das Janelas Quebradas colocou Nova York na lista das metrópoles mundiais mais seguras

Por: Luis Pellegrini

Há alguns anos, a Universidade de Stanford (EUA), realizou uma interessante experiência de psicologia social. Deixou dois carros idênticos, da mesma marca, modelo e cor, abandonados na rua. Um no Bronx, zona pobre e conflituosa de Nova York e o outro em Palo Alto, zona rica e tranquila da Califórnia. Dois carros idênticos abandonados, dois bairros com populações muito diferentes e uma equipe de especialistas em psicologia social estudando as condutas das pessoas em cada local.

Resultado: o carro abandonado no Bronx começou a ser vandalizado em poucas horas. As rodas foram roubadas, depois o motor, os espelhos, o rádio, etc. Levaram tudo o que fosse aproveitável e aquilo que não puderam levar, destruíram. Contrariamente, o carro abandonado em Palo Alto manteve-se intacto.

 

A experiência não terminou aí. Quando o carro abandonado no Bronx já estava desfeito e o de Palo Alto estava há uma semana impecável, os pesquisadores quebraram um vidro do automóvel de Palo Alto. Resultado: logo a seguir foi desencadeado o mesmo processo ocorrido no Bronx. Roubo, violência e vandalismo reduziram o veículo à mesma situação daquele deixado no bairro pobre. Por que o vidro quebrado na viatura abandonada num bairro supostamente seguro foi capaz de desencadear todo um processo delituoso? Evidentemente, não foi devido à pobreza. Trata-se de algo que tem a ver com a psicologia humana e com as relações sociais.

Um vidro quebrado numa viatura abandonada transmite uma ideia de deterioração, de desinteresse, de despreocupação. Faz quebrar os códigos de convivência, faz supor que a lei encontra-se ausente, que naquele lugar não existem normas ou regras. Um vidro quebrado induz ao “vale-tudo”. Cada novo ataque depredador reafirma e multiplica essa ideia, até que a escalada de atos cada vez piores torna-se incontrolável, desembocando numa violência irracional.

Baseada nessa experiência e em outras análogas, foi desenvolvida a “Teoria das Janelas Quebradas”. Sua conclusão é que o delito é maior nas zonas onde o descuido, a sujeira, a desordem e o maltrato são maiores. Se por alguma razão racha o vidro de uma janela de um edifício e ninguém o repara, muito rapidamente estarão quebrados todos os demais. Se uma comunidade exibe sinais de deterioração, e esse fato parece não importar a ninguém, isso fatalmente será fator de geração de delitos.

Origem da teoria

Essa teoria na verdade começou a ser desenvolvida em 1982, quando o cientista político James Q. Wilson e o psicólogo criminologista George Kelling, americanos, publicaram um estudo na revista Atlantic Monthly, estabelecendo, pela primeira vez, uma relação de causalidade entre desordem e criminalidade. Nesse estudo, utilizaram os autores da imagem das janelas quebradas para explicar como a desordem e a criminalidade poderiam, aos poucos, infiltrar-se na comunidade, causando a sua decadência e a consequente queda da qualidade de vida. O estudo realizado por esses criminologistas teve por base a experiência dos carros abandonados no Bronx e em Palo Alto.

Em suas conclusões, esses especialistas acreditam que, ampliando a análise situacional, se por exemplo uma janela de uma fábrica ou escritório fosse quebrada e não fosse, incontinenti, consertada, quem por ali passasse e se deparasse com a cena logo iria concluir que ninguém se importava com a situação e que naquela localidade não havia autoridade responsável pela manutenção da ordem.

Logo em seguida, as pessoas de bem deixariam aquela comunidade, relegando o bairro à mercê de gatunos e desordeiros, pois apenas pessoas desocupadas ou imprudentes se sentiriam à vontade para residir em uma rua cuja decadência se torna evidente. Pequenas desordens, portanto, levariam a grandes desordens e, posteriormente, ao crime.

Da mesma forma, concluem os defensores da teoria, quando são cometidas “pequenas faltas” (estacionar em lugar proibido, exceder o limite de velocidade, passar com o sinal vermelho) e as mesmas não são sancionadas, logo começam as faltas maiores e os delitos cada vez mais graves. Se admitirmos atitudes violentas como algo normal no desenvolvimento das crianças, o padrão de desenvolvimento será de maior violência quando essas crianças se tornarem adultas.

A Teoria das Janelas Quebradas definiu um novo marco no estudo da criminalidade ao apontar que a relação de causalidade entre a criminalidade e outros fatores sociais, tais como a pobreza ou a “segregação racial” é menos importante do que a relação entre a desordem e a criminalidade. Não seriam somente fatores ambientais (mesológicos) ou pessoais (biológicos) que teriam influência na formação da personalidade criminosa, contrariando os estudos da criminologia clássica.

 No metrô de Nova York

Há três décadas, a criminalidade em várias áreas e cidades dos EUA – com Nova York no topo da lista – atingia níveis alarmantes, preocupando a população e as autoridades americanas, principalmente os responsáveis pela segurança pública. Nesse diapasão, foi implementada uma Política Criminal de Tolerância Zero, que seguia os fundamentos da “Teoria das Janelas Quebradas”.

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Metrô de Nova Iorque, antes da implantação do programa de segurança inspirado na Teoria das janelas Quebradas

As autoridades entendiam que, por exemplo, se os parques e outros espaços públicos deteriorados forem progressivamente abandonados pela administração pública e pela maioria dos moradores, esses mesmos espaços serão progressivamente ocupados por delinquentes.

A Teoria das Janelas Quebradas foi aplicada pela primeira vez em meados da década de 80 no metrô de Nova York, que se havia convertido no ponto mais perigoso da cidade. Começou-se por combater as pequenas transgressões: lixo jogado no chão das estações, alcoolismo entre o público, evasões ao pagamento da passagem, pequenos roubos e desordens. Os resultados positivos foram rápidos e evidentes. Começando pelo pequeno conseguiu-se fazer do metrô um lugar seguro.

Posteriormente, em 1994, Rudolph Giuliani, prefeito de Nova York, baseado na Teoria das Janelas Quebradas e na experiência do metrô, deu impulso a uma política mais abrangente de “tolerância zero”. A estratégia consistiu em criar comunidades limpas e ordenadas, não permitindo transgressões à lei e às normas de civilidade e convivência urbana. O resultado na prática foi uma enorme redução de todos os índices criminais da cidade de Nova York.

A expressão “tolerância zero” soa, a priori, como uma espécie de solução autoritária e repressiva. Se for aplicada de modo unilateral, pode facilmente ser usada como instrumento opressor pela autoridade fascista de plantão, tal como um ditador ou uma força policial dura. Mas seus defensores afirmam que o seu conceito principal é muito mais a prevenção e a promoção de condições sociais de segurança. Não se trata de linchar o delinquente, mas sim de impedir a eclosão de processos criminais incontroláveis. O método preconiza claramente que aos abusos de autoridade da polícia e dos governantes também deve-se aplicar a tolerância zero. Ela não pode, em absoluto, restringir-se à massa popular. Não se trata, é preciso frisar, de tolerância zero em relação à pessoa que comete o delito, mas tolerância zero em relação ao próprio delito. Trata-se de criar comunidades limpas, ordenadas, respeitosas da lei e dos códigos básicos da convivência social humana.

A tolerância zero e sua base filosófica, a Teoria das Janelas Quebradas, colocou Nova York na lista das metrópoles mundiais mais seguras. Talvez elas possam, também, não apenas explicar o que acontece aqui no Brasil em matéria de corrupção, impunidade, amoralidade, criminalidade, vandalismo, etc., mas tornarem-se instrumento para a criação de uma sociedade melhor e mais segura para todos.

 

Alegria!

Alegria

Não se desesperem com as PECs no meio do caminho,
com a alta do dólar,
com a perda dos salários, com a falta de trabalho
com a corrupção, com os privilégios dos políticos, dos ricos, dos magistrados
com a morte da poesia
com a vitória de um imbecil.

Não se desesperem
se todos lhes disserem:
"Queridas, vocês são mercadoria
e o meu brado é varonil"

Não se desesperem
se um dia perceberem
que o céu não é mais anil.

Não se desesperem com a agonia
das crianças na Síria
e dos índios do Brasil

Apesar de tudo e contra tudo: ALEGRIA!

 

Canção do Tamoio

Embora não seja meu, ofereço esse poema a todos os meus alunos que nesse momento sofrem ou choram.

Gonçalves Dias

I
Não chores, meu filho;
Não chores, que a vida
É luta renhida:
Viver é lutar.
A vida é combate,
Que os fracos abate,
Que os fortes, os bravos
Só pode exaltar.

II
Um dia vivemos!
O homem que é forte
Não teme da morte;
Só teme fugir;
No arco que entesa
Tem certa uma presa,
Quer seja tapuia,
Condor ou tapir.

III
O forte, o cobarde
Seus feitos inveja
De o ver na peleja
Garboso e feroz;
E os tímidos velhos
Nos graves concelhos,
Curvadas as frontes,
Escutam-lhe a voz!

IV
Domina, se vive;
Se morre, descansa
Dos seus na lembrança,
Na voz do porvir.
Não cures da vida!
Sê bravo, sê forte!
Não fujas da morte,
Que a morte há de vir!

V
E pois que és meu filho,
Meus brios reveste;
Tamoio nasceste,
Valente serás.
Sê duro guerreiro,
Robusto, fragueiro,
Brasão dos tamoios
Na guerra e na paz.

VI
Teu grito de guerra
Retumbe aos ouvidos
D’imigos transidos
Por vil comoção;
E tremam d’ouvi-lo
Pior que o sibilo
Das setas ligeiras,
Pior que o trovão.

VII
E a mão nessas tabas,
Querendo calados
Os filhos criados
Na lei do terror;
Teu nome lhes diga,
Que a gente inimiga
Talvez não escute
Sem pranto, sem dor!

VIII
Porém se a fortuna,
Traindo teus passos,
Te arroja nos laços
Do inimigo falaz!
Na última hora
Teus feitos memora,
Tranquilo nos gestos,
Impávido, audaz.

IX
E cai como o tronco
Do raio tocado,
Partido, rojado
Por larga extensão;
Assim morre o forte!
No passo da morte
Triunfa, conquista
Mais alto brasão.

X
As armas ensaia,
Penetra na vida:
Pesada ou querida,
Viver é lutar.
Se o duro combate
Os fracos abate,
Aos fortes, aos bravos,
Só pode exaltar.

The Ballad of a Thin Man

The Ballad of a Thin Man

Bob Dylan

You walk into the room
With your pencil in your hand
You see somebody naked
And you say, “Who is that man ?”
You try so hard
But you don’t understand
Just what you’ll say
When you get home.

Because something is happening here
But you don’t know what it is
Do you, Mister Jones ?

You raise up your head
And you ask, “Is this where it is ?”
And somebody points to you and says
“It’s his”
And you says, “What’s mine ?”
And somebody else says, “Well, what is ?”
And you say, “Oh my God
Am I here all alone ?”

But something is happening here
But you don’t know what it is
Do you, Mister Jones ?

You hand in your ticket
And you go watch the geek
Who immediately walks up to you
When he hears you speak
And says, “How does it feel
To be such a freak ?”
And you say, “Impossible”
As he hands you a bone.

And something is happening here
But you don’t know what it is
Do you, Mister Jones ?

You have many contacts
Among the lumberjacks
To get you facts
When someone attacks your imagination
But nobody has any respect
Anyway they already expect you
To all give a check
To tax-deductible charity organizations.
You’ve been with the professors
And they’ve all liked your looks
With great lawyers you have
Discussed lepers and crooks
You’ve been through all of
F. Scott Fitzgerald’s books
You’re very well read
It’s well known.

But something is happening here
And you don’t know what it is
Do you, Mister Jones ?

Well, the sword swallower, he comes up to you
And then he kneels
He crosses himself
And then he clicks his high heels
And without further notice
He asks you how it feels
And he says, “Here is your throat back
Thanks for the loan”.

And you know something is happening
But you don’t know what it is
Do you, Mister Jones ?

Now you see this one-eyed midget
Shouting the word “NOW”
And you say, “For what reason ?”
And he says, “How ?”
And you say, “What does this mean ?”
And he screams back, “You’re a cow
Give me some milk
Or else go home”.

Because something is happening
But you don’t know what it is
Do you, Mister Jones ?

Well, you walk into the room
Like a camel and then you frown
You put your eyes in your pocket
And your nose on the ground
There ought to be a law
Against you comin’ around
You should be made
To wear earphones.

But something is happening
And you don’t know what it is
Do you, Mister Jones?

 

Só posso chamar a todos que não consideram a obra de Dylan merecedora de um Prêmio Nobel de Literatura de Senhores Jones. A questão agora parece ser outra: se Ele vai aceitar ou não o prêmio, já que os organizadores desse evento não conseguem entrar em contato com ele. A uns e outros, Bob Dylan tem ignorado igualmente mantendo sua atitude blasé. Não fez nenhum pronunciamento sobre sua premiação. Talvez a melhor atitude a ser tomada diante de tanta controvérsia seja o silêncio.

Velvet Goldmine-David Bowie

Velvet Goldmine-David Bowie

 

You got crazy legs, you got amazing head
You got rings on your fingers and your hair’s hot red
You got wit from my tongue, name on the sun
I gotcha going to my breast
Cause you’re the only one, who uses school to pleasure

You make me act real gone, you make me trawl along
I had to ravish your capsule, suck you dry
Feel the teeth in your bone, heal ya head with my own
Why if I don’t have you home, we’ll have to fight alone
Hang all together

Velvet Goldmine, you stroke me like the rain
Snake it, take it, panther princess you must stay
Velvet Goldmine, naked on your chain
I’ll be your king volcano right for you again and again
My Velvet Goldmine

You’re my taste, my trip, I’ll be your master zip
I’ll suck your hair for kicks, you’ll make me jump to my feet
So you’ll give me your hand, give me your sound
Let my sea wash your face, I’m falling, I can’t stand
Oooh! Put your mink on

Velvet Goldmine, you stroke me like the rain
Snake it, take it, panther princess you must stay
Velvet Goldmine, naked on your chain
I’ll be your king volcano right for you again and again
My Velvet Goldmine

Oh
Shoot you down, bang bang

Velvet Goldmine, you stroke me like the rain
Snake it, take it, panther princess you must stay
Velvet Goldmine, naked on your chain
I’ll be your king volcano right for you again and again
My Velvet Goldmine

Velvet Goldmine,
Velvet Goldmine,
My Velvet Goldmine
Velvet Goldmine