Romance das palavras aéreas

ROMANCE DAS PALAVRAS AÉREAS

Ai, palavras, ai, palavras,

que estranha potência, a vossa!

ai, palavras, ai, palavras,

sois de vento, ides no vento,

no vento que não retorna,

e, em tão rápida existência,

tudo se forma e transforma!

Sois de vento, ides no vento,

e quedais, com sorte nova!

Ai, palavras, ai, palavras,

que estranha potência, a vossa!

todo o sentido da vida

principia à vossa porta;

o mel do amor cristaliza

seu perfume em vossa rosa;

sois o sonho e sois a audácia,

calúnia, fúria, derrota…

A liberdade das almas,

ai! com letras se elabora…

E dos venenos humanos

sois a mais fina retorta:

frágil, frágil como o vidro

e mais que o aço poderosa!

Reis, impérios, povos, tempos,

pelo vosso impulso rodam…

Detrás de grossas paredes,

de leve, quem vos desfolha?

Pareceis de tênue seda,

sem peso de ação nem de hora…

– e estais no bico das penas,

– e estais na tinta que as molha,

– e estais nas mãos dos juizes,

– e sois o ferro que arrocha,

– e sois barco para o exílio,

– e sois Moçambique e Angola!

Ai, palavras, ai, palavras,

ídeis pela estrada afora,

erguendo asas muito incertas,

entre verdade e galhofa,

desejos do tempo inquieto,

promessas que o mundo sopra…

Ai, palavras, ai, palavras,

mirai-vos: que sois, agora?

– Acusações, sentinelas,

bacamarte, algema, escolta;

– o olho ardente da perfídia,

a velar, na noite morta;

– a umidade dos presídios,

– a solidão pavorosa;

– duro ferro de perguntas,

com sangue em cada resposta;

– e a sentença que caminha,

– e a esperança que não volta,

– e o coração que vacila,

– e o castigo que galopa…

Ai, palavras, ai, palavras,

que estranha potência, a vossa!

Perdão podíeis ter sido!

– sois madeira que se corta,

– sois vinte degraus de escada,

– sois um pedaço de corda…

– sois povo pelas janelas,

cortejo, bandeiras, tropa…

Ai, palavras, ai, palavras,

que estranha potência, a vossa!

Éreis um sopro na aragem…

– sois um homem que se enforca!

MEIRELLES, Cecília. Obra Poética. 2a Ed. Rio de Janeiro: José Aguilar Editora, 1967, p.560-561.

Ozymândias de Percy Shelley

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Trad. André Vallias. [2015]
em: Acontecimentos, 12/03/15, em Escamandro.

Disse o viajante de uma antiga terra:
“Duas pernas de pedra, no deserto,
Despontam gigantescas, e bem perto
Há um rosto destroçado que descerra

Os lábios num sorriso de comando
Que atesta: o escultor leu com mestria
Paixões que na matéria inerte e fria
A mão que as entalhou vão perdurando.

‘Meu nome é Ozymândias, rei dos reis:
Desesperai perante as minhas obras!’
Alerta uma inscrição no pedestal.

Mas são ruínas tudo o que ali sobra,
E um mar de areia, em árida nudez,
Circunda a decadência colossal”.

 

Original  de Persy Shelley.

 

I met a traveller from an antique land
Who said: ― Two vast and trunkless legs of stone
Stand in the desert. Near them on the sand,
Half sunk, a shatter’d visage lies, whose frown

And wrinkled lip and sneer of cold command
Tell that its sculptor well those passions read
Which yet survive, stamp’d on these lifeless things,
The hand that mock’d them and the heart that fed.

And on the pedestal these words appear:
“My name is Ozymandias, king of kings:
Look on my works, ye mighty, and despair!”

Nothing beside remains: round the decay
Of that colossal wreck, boundless and bare,
The lone and level sands stretch far away.

A noite dissolve os homens

Carlos Drummond de Andrade

A noite desceu. Que noite!
Já não enxergo meus irmãos.

E nem tão pouco os rumores que outrora me perturbavam.

A noite desceu.
Nas casas, nas ruas onde se combate,
nos campos desfalecidos, a noite espalhou o medo e a total incompreensão.

A noite caiu. Tremenda, sem esperança...
Os suspiros acusam a presença negra que paralisa os guerreiros.

E o amor não abre caminho na noite.
A noite é mortal, completa, sem reticências,
a noite dissolve os homens, diz que é inútil sofrer,
a noite dissolve as pátrias, apagou os almirantes cintilantes! nas suas fardas.

A noite anoiteceu tudo... O mundo não tem remédio...
Os suicidas tinham razão.

Aurora, entretanto eu te diviso,
ainda tímida, inexperiente das luzes que vais ascender
e dos bens que repartirás com todos os homens.

Sob o úmido véu de raivas, queixas e humilhações,
adivinho-te que sobes,
vapor róseo, expulsando a treva noturna.

O triste mundo fascista se decompõe ao contato de teus dedos,
teus dedos frios, que ainda se não modelaram mas que avançam na escuridão
como um sinal verde e peremptório.

Minha fadiga encontrará em ti o seu termo,
minha carne estremece na certeza de tua vinda.

O suor é um óleo suave, as mãos dos sobreviventes se enlaçam,
os corpos hirtos adquirem uma fluidez, uma inocência, um perdão simples e macio...

Havemos de amanhecer.
O mundo se tinge com as tintas da antemanhã
e o sangue que escorre é doce, de tão necessário para colorir tuas pálidas faces, aurora.

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Van Gogh, Starry Night

Adorno: A psicanálise da adesão ao fascismo — Blog da Boitempo

No contexto do dossiê especial dedicado às eleições de 2018, o Blog da Boitempo recupera um artigo fundamental do filósofo alemão Theodor Adorno. O texto não é curto e nosso tempo é escasso, mas a editoria deste Blog recomenda vivamente sua leitura.

via Adorno: A psicanálise da adesão ao fascismo — Blog da Boitempo

Requerer

Como pedir a uma gota de chuva que se suspenda no ar?

Como pedir, em pleno voo, às asas dos pássaros que parem de bater?

Como pedir ao vento que pare de soprar?

A um rio que pare de correr;

 

Como solicitar a um tigre faminto que não devore sua presa?

Ou requerer a um raio que interrompa seu curso,

Para não chamuscar uma árvore indefesa?

Ou pedir ao sol que pare de brilhar?

Como? Como? Como?

Só as rochas podem pedir algo assim…

Se um impulso se consegue reprimir prudentemente,

É porque não é tão ardente seu querer.

 

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Ninguém se importa

(Vladimir Santafe)

“Primeiro declarou que preferia filho morto a ter um filho gay,
Mas eu não me importei com isso,
Eu não era homossexual.

Em seguida disse que negros não servem nem pra procriar,
Mas eu não me importei com isso,
Eu também não era negro.

Aí falou que a filha nasceu mulher por causa de uma fraquejada,
Mas eu não me importei com isso,
Todo mundo fala umas besteiras.

Então declarou publicamente apoio a um torturador,
Mas eu não me importei com isso,
Eu nunca fui torturado.

Em seguida bradou que a ditadura matou foi pouco,
“Deveria ter sido uns 30 mil”,
Mas também não me importei com isso.

Seus apoiadores debocharam de uma vereadora assassinada,
Mas eu não me importei com isso,
Eu não a conhecia.

Seu parceiro afirmou acabar com 13º e férias,
Mas eu não acreditei nisso,
Pois ele nunca seria capaz.

Por fim, me prometeu armas,
No lugar de me dar emprego,
Pois assim eu estaria protegido.

Agora eles estão gritando
Que vão matar “viado”,
Agora eles estão matando
Negros a facadas,
Agora eles estão protestando
Dando tiros para o alto,
E eu continuo não me importando.

Então eles cortaram meus direitos
E me impediram de reclamar,
Aumentaram meus impostos
E me ameaçaram se eu reclamasse,
Levaram parentes e amigos,
E eu serei o próximo a quem irão levar.

Mas já é tarde,
Como eu não me importei com ninguém,
Ninguém se importa comigo”.

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Intelectuais da mídia, a força-tarefa do sistema — Blog da Boitempo

Por Dênis de Moraes / “As vozes autorizadas pela mídia estão longe de representar um leque de opções argumentativas. Embora seus discursos costumem remeter ao que, hipoteticamente, seria a “vontade geral”, na verdade se afiguram, em diversas ocasiões, como ecos do poder financeiro e do conservadorismo político, aos quais se ligam por interesses cruzados e complementares na batalha das ideias pela hegemonia cultural e moral.”

via Intelectuais da mídia, a força-tarefa do sistema — Blog da Boitempo

O operário que sonhava ser poeta – parte I

In memoriam de Manir de Godoy


Era uma vez um menino meio nômade,
Que vivia entre o interior e a cidade grande.
O pai morrera de gangrena.
A mãe costureira sustentava
Com esforço seis filhos:
Eupídio , Cássio, Dirce,
Tó, Manir e Iracema!

Vendedor de doces no cinema, engraxate,
Chegou a operário de fábrica de chocolate.
Nada fantástica era a vida desse guri,
Que vivia em um cortiço no Pari.

Mas tudo mudou no dia em que encontrou
As letrinhas de metal jogadas na calçada
Que formaram o primeiro poema
do menino sentado no meio fio.
As letrinhas graciosas eram
seu único brinquedo nas horas vagas.

Um dia o dono das letras o viu e chamou pra trabalhar.
Ali, sua formação interrompida continuaria.
O menino-operário da tipografia,
Montava admirado textos de poetas e aspirantes;
Panfletos dos primeiros socialistas do país
Que viviam gravitando a sua volta.
Com muito esforço, lia de Lobato e Verne
ao Príncipe Valente e Flash Gordon,
Assim foi se alfabetizando.

No cortiço sua mãe se arriscava,
Não levava desaforo pra casa!
Engajado na causa operária,
Começou a ler obras mais sisudas
Do que as que lera numa escola em Bragança.

Considerava sincero apenas o “cavaleiro da esperança”...
Por isso, aos 16, fugiu de casa e fundou
o PC em São João da Boa Vista.
Lá via filmes do Mazzaropi,
Dormia em carros alheios,
Tocava violino na praça...




Obs.: Por coincidência ou não eu também saí de casa aos 16 anos. Um dia talvez eu consiga continuar, mas me falta inspiração no momento.

Homenagem ao meu amado pai, Manir. Quanta saudade que não cabe em mim! Procurei seguir seu último pedido feito a mim: o de escrever um poema para ele. Embora eu tenha sido, até aquele dia derradeiro, apenas uma leitora, me esforcei na tarefa, cujo resultado está muito aquém do valor desse grande homem.

 

Jaraguá1968

Meu pai me contava que, quando eu era bebê, eu ria até perder o fôlego e ficavam todos com medo de eu sufocar de tanto rir por causa de uma brincadeira do meu irmãozinho Ibsen, que imitava o som das explosões das pedreiras próximas, falando: “Peleila: bum!”

ANTOLOGIA DOS ESDRÚXULOS (FINAL DA SÉRIE)

Avatar de inbarrosoGaveta do Ivo

Também para os esdrúxulos vamos atacar em dose tripla. De todos os nomes anteriormente citados, sobraram cinco ainda sem cobertura: Othoniel Beleza, Pethion de Villar, Petrarca Maranhão, Pretextato da Silveira e Segundo Wanderley. Deixemos de lado o Pethion de Villar, cujo nome próprio (Egas Moniz Barreto de Aragão) era mais nobiliárquico do que o pseudônimo francelho que ele inventou. O Petrarca Maranhão foi selecionado para representar o Acre, na próxima antologia de poetas regionais que estamos preparando. Então vejamos os restantes: Othoniel Beleza, Pretextato da Silveira e Segundo Wanderley. Mas, antes mesmo, queremos nos desculpar junto aos leitores por não termos, até o momento, conseguido fotos confiáveis de dois dos poetas citados. Chegamos a levantar algumas hipóteses pesquisando no Google as imagens dos nomes buscados, mas concluímos (por ter havido algumas trocas) que a possibilidade de engano era grande demais e seria inconveniente apresentar uma pessoa por outra. Contamos com…

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Machado de Assis é o Autor do Mês de agosto da London Review of Books

O London Review of Books destacou Machado de Assis como o Autor do Mês de agosto. A matéria comenta os livros de poesia, de Machado de Assis, como impopulares e, em seguida, aponta para “Memórias Póstumas de Brás Cubas” como o romance que o tornou conhecido. Além disso, o periódico informa sobre a…

via Machado de Assis é o Autor do Mês de agosto da London Review of Books — Conexões Itaú Cultural

Relógio do Rosário

Relógio do Rosário

Carlos Drummond de Andrade

Era tão claro o dia, mas a treva,
do som baixando, em seu baixar me leva

pelo âmago de tudo, e no mais fundo
decifro o choro pânico do mundo,

que se entrelaça no meu próprio chôro,
e compomos os dois um vasto côro.

Oh dor individual, afrodisíaco
sêlo gravado em plano dionisíaco,

a desdobrar-se, tal um fogo incerto,
em qualquer um mostrando o ser deserto,

dor primeira e geral, esparramada,
nutrindo-se do sal do próprio nada,

convertendo-se, turva e minuciosa,
em mil pequena dor, qual mais raivosa,

prelibando o momento bom de doer,
a invocá-lo, se custa a aparecer,

dor de tudo e de todos, dor sem nome,
ativa mesmo se a memória some,

dor do rei e da roca, dor da cousa
indistinta e universa, onde repousa

tão habitual e rica de pungência
como um fruto maduro, uma vivência,

dor dos bichos, oclusa nos focinhos,
nas caudas titilantes, nos arminhos,

dor do espaço e do caos e das esferas,
do tempo que há de vir, das velhas eras!

Não é pois todo amor alvo divino,
e mais aguda seta que o destino?

Não é motor de tudo e nossa única
fonte de luz, na luz de sua túnica?

O amor elide a face… Ele murmura
algo que foge, e é brisa e fala impura.

O amor não nos explica. E nada basta,
nada é de natureza assim tão casta

que não macule ou perca sua essência
ao contacto furioso da existência.

Nem existir é mais que um exercício
de pesquisar de vida um vago indício,

a provar a nós mesmos que, vivendo,
estamos para doer, estamos doendo.

Mas, na dourada praça do Rosário,
foi-se, no som, a sombra. O columbário

já cinza se concentra, pó de tumbas,
já se permite azul, risco de pombas.

Brooke-Shaden-2

ANDRADE, Carlos Drummond de. “Claro enigma”. In:_____Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2002.