Não te rendas

Mario Benedetti

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Grafite representando protesto dos coletes amarelos, releitura do quadro “A liberdade guiando o povo”, Delacroix

 

 

Não te rendas, ainda estás a tempo
de alcançar e começar de novo,
aceitar as tuas sombras
enterrar os teus medos,
largar o lastro,
retomar o voo.

Não te rendas que a vida é isso,
continuar a viagem,
perseguir os teus sonhos,
destravar os tempos,
arrumar os escombros,
e destapar o céu.

Não te rendas, por favor, não cedas,
ainda que o frio queime,
ainda que o medo morda,
ainda que o sol se esconda,
e se cale o vento:
ainda há fogo na tua alma
ainda existe vida nos teus sonhos.

Porque a vida é tua, e teu é também o desejo,
porque o quiseste e eu te amo,
porque existe o vinho e o amor,
porque não existem feridas que o tempo não cure.

Abrir as portas,
tirar os ferrolhos,
abandonar as muralhas que te protegeram,
viver a vida e aceitar o desafio,
recuperar o riso,
ensaiar um canto,
baixar a guarda e estender as mãos,
abrir as asas
e tentar de novo
celebrar a vida e relançar-se no infinito.

Não te rendas, por favor, não cedas:
mesmo que o frio queime,
mesmo que o medo morda,
mesmo que o sol se ponha e se cale o vento,
ainda há fogo na tua alma,
ainda existe vida nos teus sonhos.
Porque cada dia é um novo início,
porque esta é a hora e o melhor momento.
Porque não estás só, por eu te amo.

 

Meu amor

Quem é você?
Quem sou eu?
Da mistura de nós dois,
Nasceu um lago tranquilo
Que encobriu vilas,
Torres e cruzes
Nasceu um campo de flores,
Um bosque e um pasto
Nasceu um sol, uma nuvem e um vento fresco.

Nasceu o olhar que vê o que nasceu.

corazon

A Montanha Mágica

O teu repouso, pedra, enquanto passo,

Faz o sonhar mais lento ao deus que dança.

Temo o fim do que avança pelo espaço,

Mas o teu sono lasso o tempo amansa.

 

Tudo o que vive neste mundo cansa:

Já nem meço a extensão do meu cansaço.

O amor inclina os seres à esperança

E a quem vive da espera o tempo é escasso.

 

Jacó serviu sete anos, e mais sete,

Labão, pai de Raquel. E mais servira…

Comigo agora a conta se repete.

 

Imoto, sofro ao Tempo que me fira,

Sem que te arremedar me desinquiete.

Espero, e fiz-me pedra que delira.

29-06-2012

Ascher-Cliff-Restaurant-Suíça

COLIBRI

Avatar de oescritoreapalavraO Escritor e a Palavra

colibri assustado
depositou um beijo
no bagaço de uma flôr,
semeou sonhos no infinito
fecundou esperanças
na noite inventada
em palavras coloridas
respirou a luz da aurora
e soprou sobre a pele
do mundo.

carlos bueno guedes

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Pássaro azul

Charles Bukovski

há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo, fique aí, não deixarei
que ninguém o veja.

há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas eu despejo uísque sobre ele e inalo
fumaça de cigarro
e as putas e os atendentes dos bares
e das mercearias
nunca saberão que
ele está
lá dentro.

há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo,
fique aí, quer acabar
comigo?
quer foder com minha
escrita?
quer arruinar a venda dos meus livros na
Europa?

há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou bastante esperto, deixo que ele saia
somente em algumas noites
quando todos estão dormindo.
eu digo, sei que você está aí,
então não fique
triste.

depois o coloco de volta em seu lugar,
mas ele ainda canta um pouquinho
lá dentro, não deixo que morra
completamente
e nós dormimos juntos
assim
com nosso pacto secreto
e isto é bom o suficiente para
fazer um homem
chorar, mas eu não
choro, e
você?”

Carson MacCullers

Carson-kisses-MarilynEm 2017 foi o centenário do nascimento de Carson MacCullers, para homenageá-la Editoras de Portugal, Espanha e Estados Unidos reeditaram das suas obras, e o Centro Carson McCullers para Escritores e Músicos, da Universidade John Cabot, realizou em julho daquele ano, em Roma, a conferência internacional “Carson McCullers in the world”, entre outras iniciativas.

McCullers foi admirada por Tennessee Williams, Graham Greene, Charles Bukowsky, e o escritor José Rodrigues Miguéis, que a revelou ao público português e traduziu “Coração, solitário caçador”, definiu-a como “o caso mais impressionante da literatura norte-americana” dos anos de 1940-50.

Flaubert e Dostoievski são apontados como influências, mas McCullers encontrou o seu próprio lugar no estilo “Gótico Sulista”, em que também se inscrevem William Faulkner, Eudora Welty, Katherine Anne Porter ou Flannery O’Connor.

O fato é sublinhado pela editora Relógio d’Água, que prepara a edição da obra da escritora, recordando que McCullers ficou conhecida pelos seus romances – “Coração, solitário caçador”, “Reflexos nuns olhos de ouro” e “Relógio sem ponteiros” -, embora tenha sido uma notável contista, na tradição do Sul da literatura norte-americana.

Nascida a 19 de fevereiro de 1917, em Columbus, na Georgia, Lula Carson Smith morreu aos 50 anos, em Nova Iorque.

Em 1940, publicou o primeiro romance, “Coração, solitário caçador”, ‘obra-revelação’ distinguida pelo público e pela crítica, que destacou a sua “surpreendente maturidade”. Adaptada ao teatro e ao cinema (Robert Ellis Miller, 1968), foi eleito um dos cem melhores romances do século XX e encontra-se entre os 20 melhores da Modern Library da Random House.

A história se passada no sul dos Estados Unidos, durante a Grande Depressão, num cenário de pobreza e isolamento, centrada num mudo, John Singer, a quem figuras desenquadradas da sociedade confiam segredos, mas que apenas quer a atenção mas não a recebr.

O sucesso da obra seria reforçado no ano seguinte, 1941, com “Reflexos nuns olhos de ouro”, que dedica à escritora, jornalista e fotógrafa suíça Annemarie Schwarzenbach, por quem se apaixonou – um rosto que, como escreveu, iria assombrá-la o resto da vida.

A história, que também foi adaptada ao cinema (John Huston, 1957), fala das relações entre dois oficiais do exército e respectivas mulheres, explorando a tensão latente entre as “máscaras sociais” e o mundo das paixões e obsessões secretas. O tema da homossexualidade reprimida gerou escândalo, mas a obra tornou-se num livro cultuado e depressa ascendeu à categoria de ‘obra-prima’.

O dramaturgo Tennessee Williams, autor do prefácio da edição original, encontra aqui “mestria absoluta da composição e uma precisão lapidar”. Para o autor de “Noite da iguana”, esta é “uma das obras mais puras e mais eficazes que foram concebidas”, ao nível “da Guernica, de Picasso”, ou das caricaturas de Charles Addams.

Williams respondia assim à crítica que estranhava a galeria de figuras “grotescas”, “mórbidas”, “pervertidas” ou “fantásticas” das obras de McCullers, todas elas, porém, plenas de sensibilidade e delicadeza.

“A sua arte é toda de delicadeza, ternura e tons profundamente femininos”, escreveu José Rodrigues Miguéis.

“A Balada do Café Triste”, “uma das obras-primas em prosa da língua inglesa”, para Tennessee Williams, data de 1951 e descreve uma pequena povoação, apenas animada por um único café, propriedade de uma mulher forte, independente e máscula, que se apaixona por um anão corcunda, mas que vê a felicidade abalada pela saída do ex-marido da prisão.

A sexualidade e a identificação de gêneros voltam a ser abordadas em “Frankie e o casamento”, primeira obra da escritora adaptada ao cinema (Fred Zinnemann, 1950), em que uma menina de 12 anos sonha com um mundo em que as pessoas pudessem livremente mudar de sexo.

Apesar do sucesso e do reconhecimento, McCullers teve uma vida limitada pela dor, pela doença e por crises de alcoolismo.

Esteve casada durante quatro anos (1937-1941) com o ex-soldado Reeves McCullers, o homem de quem herdou o nome, que disse ser o mais belo que já conhecera, e foi atormentada ao longo da vida por paixões não correspondidas por outras mulheres.

Morreu de hemorragia cerebral, a 29 de setembro de 1967.

“Todos os seus livros de terrível solidão, todos os seus livros sobre a crueldade do amor sem amor, foi tudo o que restou dela”, escreveu Charles Bukowsky.

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Heroína

A brasileira Aracy Moebius de Carvalho Guimarães Rosa era poliglota, falava quatro idiomas: português, inglês, francês e alemão. Com a facilidade em diversas línguas, conseguiu uma nomeação no consulado brasileiro em Hamburgo, na Alemanha, onde passou a ser chefe da Seção de Passaportes.

Em 1938,entrou em vigor no Brasil a Circular Secreta 1.127, que restringia a entrada de judeus no país. Aracy ignorou a circular e continuou preparando vistos para judeus, permitindo sua entrada no Brasil. Como despachava com o cônsul geral, ela colocava os vistos entre a papelada para as assinaturas, fazendo com que ele permitisse, sem saber, a vinda de judeus para o país. Para obter a aprovação dos vistos, Aracy simplesmente deixava de pôr neles a letra “J”, que identificava quem era judeu.

Arriscando seu emprego e sua vida com esse gesto, Aracy livrou muitos judeus dos campos de concentração e da morte já certa.

Paranaense, Aracy nasceu em Rio Negro, filha de pai português e mãe alemã, ainda criança foi morar com os pais em São Paulo. Aracy foi casada com o alemão Johann Eduard Ludwig Tess, com quem teve o filho Eduardo Carvalho Tess, mas cinco anos depois se separou, indo morar com uma irmã de sua mãe na Alemanha.

Ainda na Alemanha, Aracy casou-se com João Guimarães Rosa, à época cônsul adjunto. Os dois permaneceram na Alemanha até 1942, quando o governo brasileiro rompeu relações diplomáticas com aquele país e passou a apoiar os Aliados da Segunda Guerra Mundial.

Aracy e Guimarães Rosa ficaram quatro meses sob custódia do governo alemão. Só conseguiram ser salvos porque foram trocados por diplomatas alemães.

O livro de Guimarães Rosa “Grande Sertão: Veredas”, de 1956, foi dedicado a Aracy.

Aracy foi agraciada pelo governo de Israel com o título de “Justa entre as Nações”, dado a apenas mais um brasileiro (Souza Dantas), por ter salvado a vida de muitos judeus, conseguindo que eles entrassem ilegalmente no Brasil durante o governo de Getúlio Vargas. Ela também ficou conhecida como o “Anjo de Hamburgo”.

Aracy ficou viúva em 1967 e não casou novamente. Faleceu em 28 de fevereiro de 2011, em São Paulo.

À esquerda Aracy Moebius de Carvalho Guimarães Rosa

via O “Anjo de Hamburgo”: a brasileira que salvou judeus do holocausto

Diversão

Eu escuto uma música colorida
Ela invade minha mente
Eu quero dançar até amanhecer
Pra não pensar em você
Aumento o volume daquela música
Eu dedilho minhas cordas
Até meus dedos sangrarem
Quero estourar minhas caixas
Pra silenciar meus pensamentos
A paisagem desliza ao nosso lado
Correm montanhas
Os rios passam voando
Tento ler as placas do nosso destino
Porque eu ainda estou pensado em você!
As luzes da noite passam
Como fantasmas assustados pelas janelas
Eu giro, eu pulo, eu danço, eu disparo,
Eu solto um grito primitivo,
Pra esquecer você,
Pra sempre, todo dia o dia todo…

Godoy

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31-01-2019

O futuro já aconteceu. E o livre-arbítrio não existe | Superinteressante

Espero que estejam errados!

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Parati e Serra do Mar

via O futuro já aconteceu. E o livre-arbítrio não existe | Superinteressante

Fidel Castro e Guimarães rosa

27-11-2016

O falecimento de Fidel Castro e as discussões tão simplistas sobre esse ser tridimensional me fez relembrar muitos trechos do Grande Sertão Veredas que selecionei a seguir sobre como as pessoas e o mundo são muito mais complexos do que sonham os comentaristas das redes sociais.

“Que isso foi o que sempre me invocou, o senhor sabe: eu careço de que o bom seja bom e o ruim ruim, que dum lado esteja o preto e do outro o branco, que o feio fique bem apartado do bonito e a alegria longe da tristeza! Quero os todos pastos demarcados… Como é que posso com este mundo? Este mundo é muito misturado.”

“Quem sabe direito o que uma pessoa é? Antes sendo: julgamento é sempre defeituoso, porque o que a gente julga é o passado.”

“Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam, verdade maior. É o que a vida me ensinou. Isso que me alegra montão.”

“Todo caminho da gente é resvaloso.
Mas também, cair não prejudica demais
A gente levanta, a gente sobe, a gente volta!…
O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim:
Esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa,
Sossega e depois desinquieta.
O que ela quer da gente é coragem.
Ser capaz de ficar alegre e mais alegre no meio da alegria,
E ainda mais alegre no meio da tristeza…”

“Que o que gasta, vai gastando o diabo de dentro da gente,
aos pouquinhos, é o razoável sofrer. E a alegria de amor –
compadre meu Quelemém, diz. Família. Deveras? É, e não é. O
senhor ache e não ache. Tudo é e não é… Quase todo mais
grave criminoso feroz, sempre é muito bom marido, bom filho,
bom pai, e é bom amigo-de-seus-amigos! Sei desses. Só que tem
os depois – e Deus, junto. Vi muitas nuvens.”

Guimarães Rosa em Grande Sertão Veredas

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Marita Lorenz, a espiã da CIA que se apaixonou por Fidel Castro