A noite dissolve os homens

Carlos Drummond de Andrade

A noite desceu. Que noite!
Já não enxergo meus irmãos.

E nem tão pouco os rumores que outrora me perturbavam.

A noite desceu.
Nas casas, nas ruas onde se combate,
nos campos desfalecidos, a noite espalhou o medo e a total incompreensão.

A noite caiu. Tremenda, sem esperança...
Os suspiros acusam a presença negra que paralisa os guerreiros.

E o amor não abre caminho na noite.
A noite é mortal, completa, sem reticências,
a noite dissolve os homens, diz que é inútil sofrer,
a noite dissolve as pátrias, apagou os almirantes cintilantes! nas suas fardas.

A noite anoiteceu tudo... O mundo não tem remédio...
Os suicidas tinham razão.

Aurora, entretanto eu te diviso,
ainda tímida, inexperiente das luzes que vais ascender
e dos bens que repartirás com todos os homens.

Sob o úmido véu de raivas, queixas e humilhações,
adivinho-te que sobes,
vapor róseo, expulsando a treva noturna.

O triste mundo fascista se decompõe ao contato de teus dedos,
teus dedos frios, que ainda se não modelaram mas que avançam na escuridão
como um sinal verde e peremptório.

Minha fadiga encontrará em ti o seu termo,
minha carne estremece na certeza de tua vinda.

O suor é um óleo suave, as mãos dos sobreviventes se enlaçam,
os corpos hirtos adquirem uma fluidez, uma inocência, um perdão simples e macio...

Havemos de amanhecer.
O mundo se tinge com as tintas da antemanhã
e o sangue que escorre é doce, de tão necessário para colorir tuas pálidas faces, aurora.

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Van Gogh, Starry Night

Adorno: A psicanálise da adesão ao fascismo — Blog da Boitempo

No contexto do dossiê especial dedicado às eleições de 2018, o Blog da Boitempo recupera um artigo fundamental do filósofo alemão Theodor Adorno. O texto não é curto e nosso tempo é escasso, mas a editoria deste Blog recomenda vivamente sua leitura.

via Adorno: A psicanálise da adesão ao fascismo — Blog da Boitempo

Tema da redação do Enem 2018: ‘manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet’

Seis professores de redação e um especialista em tecnologia comentam o tema da prova, e alertam: não vale só falar sobre ‘notícias falsas’.

Por Ana Carolina Moreno e Elida Oliveira, G1 –  

O tema da redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem 2018) é “Manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet”. A prova teve quatro textos motivadores, sendo que três deles são trechos de reportagens e um trouxe um gráfico com dados.

Duas das três reportagens citam diretamente os algoritmos e foram publicados em 2016. Um deles, “O gosto na era do algoritmo”, foi publicado em 2016 pelo jornal “El País” e escrito pelo jornalista Daniel Verdú. O outro, chamado “A silenciosa ditadura do algoritmo“, é de autoria do jornalista brasileiro Pepe Escobar.

A terceira reportagem, também de 2016, foi publicada pela BBC Future. De autoria de Tom Chatfield, o texto chama “Como a internet influencia secretamente nossas escolhas“.

O gráfico que aparece na prova de redação é um organograma de dados produzido pelo IBGE com o perfil dos usuários de internet no Brasil em 2016, com detalhes sobre o uso da internet entre homens e mulheres.

O tema da redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) foi divulgado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) no início da tarde deste domingo (5).

Os candidatos têm 5h30 para fazer o primeiro dia de provas do Enem 2018. Além da redação, são 45 questões de linguagens e outras 45 de ciências humanas.

 

Requerer

Como pedir a uma gota de chuva que se suspenda no ar?

Como pedir, em pleno voo, às asas dos pássaros que parem de bater?

Como pedir ao vento que pare de soprar?

A um rio que pare de correr;

 

Como solicitar a um tigre faminto que não devore sua presa?

Ou requerer a um raio que interrompa seu curso,

Para não chamuscar uma árvore indefesa?

Ou pedir ao sol que pare de brilhar?

Como? Como? Como?

Só as rochas podem pedir algo assim…

Se um impulso se consegue reprimir prudentemente,

É porque não é tão ardente seu querer.

 

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Ninguém se importa

(Vladimir Santafe)

“Primeiro declarou que preferia filho morto a ter um filho gay,
Mas eu não me importei com isso,
Eu não era homossexual.

Em seguida disse que negros não servem nem pra procriar,
Mas eu não me importei com isso,
Eu também não era negro.

Aí falou que a filha nasceu mulher por causa de uma fraquejada,
Mas eu não me importei com isso,
Todo mundo fala umas besteiras.

Então declarou publicamente apoio a um torturador,
Mas eu não me importei com isso,
Eu nunca fui torturado.

Em seguida bradou que a ditadura matou foi pouco,
“Deveria ter sido uns 30 mil”,
Mas também não me importei com isso.

Seus apoiadores debocharam de uma vereadora assassinada,
Mas eu não me importei com isso,
Eu não a conhecia.

Seu parceiro afirmou acabar com 13º e férias,
Mas eu não acreditei nisso,
Pois ele nunca seria capaz.

Por fim, me prometeu armas,
No lugar de me dar emprego,
Pois assim eu estaria protegido.

Agora eles estão gritando
Que vão matar “viado”,
Agora eles estão matando
Negros a facadas,
Agora eles estão protestando
Dando tiros para o alto,
E eu continuo não me importando.

Então eles cortaram meus direitos
E me impediram de reclamar,
Aumentaram meus impostos
E me ameaçaram se eu reclamasse,
Levaram parentes e amigos,
E eu serei o próximo a quem irão levar.

Mas já é tarde,
Como eu não me importei com ninguém,
Ninguém se importa comigo”.

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Intelectuais da mídia, a força-tarefa do sistema — Blog da Boitempo

Por Dênis de Moraes / “As vozes autorizadas pela mídia estão longe de representar um leque de opções argumentativas. Embora seus discursos costumem remeter ao que, hipoteticamente, seria a “vontade geral”, na verdade se afiguram, em diversas ocasiões, como ecos do poder financeiro e do conservadorismo político, aos quais se ligam por interesses cruzados e complementares na batalha das ideias pela hegemonia cultural e moral.”

via Intelectuais da mídia, a força-tarefa do sistema — Blog da Boitempo

Por mais paternidade e menos estereótipos — Direto do Nosso Jardim

Que a reflexão e as homenagens sejam por causa da paternidade – tão necessária para o desenvolvimento das nossas crianças –, sem machismos, idealizações ou “faz de conta” Em tempos de múltiplas famílias, é difícil estabelecer um dia para a mãe e outro para o pai. Como se no restante dos dias não fossemos mães […]

via Por mais paternidade e menos estereótipos — Direto do Nosso Jardim

PATERNIDADE PERDIDA – Por que muitos pais são ausentes?

Ser pai é a mais completa expressão de masculinidade da vida. Mas para muitos homens, a vida consiste em uma busca pelo pai perdido. Sabemos que criar filhos é uma, senão a maior, experiência da vida, a maior fonte de autoconsciência, orgulho, alegria, talvez seja o maior grau de intimidade que se pode ter […]

via PATERNIDADE PERDIDA – Por que muitos pais são ausentes? — Psicólogo André Lopes Aricó – CRP 08/14628

O operário que sonhava ser poeta – parte I

In memoriam de Manir de Godoy


Era uma vez um menino meio nômade,
Que vivia entre o interior e a cidade grande.
O pai morrera de gangrena.
A mãe costureira sustentava
Com esforço seis filhos:
Eupídio , Cássio, Dirce,
Tó, Manir e Iracema!

Vendedor de doces no cinema, engraxate,
Chegou a operário de fábrica de chocolate.
Nada fantástica era a vida desse guri,
Que vivia em um cortiço no Pari.

Mas tudo mudou no dia em que encontrou
As letrinhas de metal jogadas na calçada
Que formaram o primeiro poema
do menino sentado no meio fio.
As letrinhas graciosas eram
seu único brinquedo nas horas vagas.

Um dia o dono das letras o viu e chamou pra trabalhar.
Ali, sua formação interrompida continuaria.
O menino-operário da tipografia,
Montava admirado textos de poetas e aspirantes;
Panfletos dos primeiros socialistas do país
Que viviam gravitando a sua volta.
Com muito esforço, lia de Lobato e Verne
ao Príncipe Valente e Flash Gordon,
Assim foi se alfabetizando.

No cortiço sua mãe se arriscava,
Não levava desaforo pra casa!
Engajado na causa operária,
Começou a ler obras mais sisudas
Do que as que lera numa escola em Bragança.

Considerava sincero apenas o “cavaleiro da esperança”...
Por isso, aos 16, fugiu de casa e fundou
o PC em São João da Boa Vista.
Lá via filmes do Mazzaropi,
Dormia em carros alheios,
Tocava violino na praça...




Obs.: Por coincidência ou não eu também saí de casa aos 16 anos. Um dia talvez eu consiga continuar, mas me falta inspiração no momento.

Homenagem ao meu amado pai, Manir. Quanta saudade que não cabe em mim! Procurei seguir seu último pedido feito a mim: o de escrever um poema para ele. Embora eu tenha sido, até aquele dia derradeiro, apenas uma leitora, me esforcei na tarefa, cujo resultado está muito aquém do valor desse grande homem.

 

Jaraguá1968

Meu pai me contava que, quando eu era bebê, eu ria até perder o fôlego e ficavam todos com medo de eu sufocar de tanto rir por causa de uma brincadeira do meu irmãozinho Ibsen, que imitava o som das explosões das pedreiras próximas, falando: “Peleila: bum!”

ANTOLOGIA DOS ESDRÚXULOS (FINAL DA SÉRIE)

Avatar de inbarrosoGaveta do Ivo

Também para os esdrúxulos vamos atacar em dose tripla. De todos os nomes anteriormente citados, sobraram cinco ainda sem cobertura: Othoniel Beleza, Pethion de Villar, Petrarca Maranhão, Pretextato da Silveira e Segundo Wanderley. Deixemos de lado o Pethion de Villar, cujo nome próprio (Egas Moniz Barreto de Aragão) era mais nobiliárquico do que o pseudônimo francelho que ele inventou. O Petrarca Maranhão foi selecionado para representar o Acre, na próxima antologia de poetas regionais que estamos preparando. Então vejamos os restantes: Othoniel Beleza, Pretextato da Silveira e Segundo Wanderley. Mas, antes mesmo, queremos nos desculpar junto aos leitores por não termos, até o momento, conseguido fotos confiáveis de dois dos poetas citados. Chegamos a levantar algumas hipóteses pesquisando no Google as imagens dos nomes buscados, mas concluímos (por ter havido algumas trocas) que a possibilidade de engano era grande demais e seria inconveniente apresentar uma pessoa por outra. Contamos com…

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Machado de Assis é o Autor do Mês de agosto da London Review of Books

O London Review of Books destacou Machado de Assis como o Autor do Mês de agosto. A matéria comenta os livros de poesia, de Machado de Assis, como impopulares e, em seguida, aponta para “Memórias Póstumas de Brás Cubas” como o romance que o tornou conhecido. Além disso, o periódico informa sobre a…

via Machado de Assis é o Autor do Mês de agosto da London Review of Books — Conexões Itaú Cultural