Mês: agosto 2016
G1 – Raduan Nassar vence o Prêmio Camões 2016
Raduan Nassar vence o Prêmio Camões 2016
Júri destacou ‘força poética’ do escritor brasileiro, que leva R$ 399 mil.
Escritor de ‘Lavoura arcaica’ e ‘Um copo de cólera’ abandonou a literatura.
O escritor Raduan Nassar (Foto: Divulgação/Cia das Letras)O escritor brasileiro Raduan Nassar, de 80 anos, foi anunciado nesta segunda-feira (30) o vencedor do Prêmio Camões 2016. Entregue desde 1989 pelos governos de Portugal e do Brasil, o Camões é considerado um dos maiores reconhecimentos da literatura em língua portuguesa.
O anúncio do nome de Raduan Nassar, que vai levar 100 mil euros (R$ 398,8 mil), foi feito em Lisboa pelo secretário de Estado da Cultura de Portugal, Miguel Honrado.
Ao atribuir o prêmio ao autor de “Lavoura arcaica” (1975) e “Um copo de cólera” (1978), o júri destacou “a extraordinária qualidade da sua linguagem e da força poética da sua prosa”.
Nascido em 1935 em Pindorama (SP) em uma família de origem libanesa, Raduan Nassar é um dos maiores e mais cultuados escritores brasileiros do século XX. Publicou apenas três livros – o último é o volume de contos “Menina a caminho e outros textos” (1997).
Além disso disso, tem dois textos inéditos em português: o ensaio “A corrente do esforço humano”, lançado na Alemanha em 1987, e o conto “Le vieux” (“O velho”), publicado na França em 1998 como parte da antologia “Des nouvelles du Brésil”.
Nos anos 1980, abandonou a literatura e passou a trabalhar como fazendeiro – mais tarde, doou sua propriedade à Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). O autor raramente dá entrevistas ou aparece em público. Em março, Raduan Nassar participou de um evento no Palácio do Planalto, em Brasília, e discursou contra o impeachment de Dilma Rousseff.
- Raduan Nassar é semifinalista do Man Booker International Prize
- Han Kang levou Man Booker Prize de melhor romance traduzido ao inglês
- Poeta Ferreira Gullar ganhou Prêmio Camões de 2010
- Poeta português Manuel António Pina venceu Prêmio Camões 2011
- Escritor curitibano Dalton Trevisan venceu o Prêmio Camões 2012
- Escritor Mia Couto venceu o Prêmio Camões 2013
- Alberto da Costa recebeu no Rio o Prêmio Camões 2014
- Hélia Correia, escritora portuguesa, venceu o Prêmio Camões 2015
12º brasileiro a ganhar o Camões
Em nota, a organização do 28º Prêmio Camões cita que Raduan Nassar é comparado “a nomes consagrados da literatura brasileira, como Clarice Lispector e Guimarães Rosa”. Ele é o 12º brasileiro a ganhar o prêmio. Até aqui, Brasil e Portugal estavam empatados com 11 vitórias para cada.
Pelo regulamento, o Camões premia “um autor de língua portuguesa que tenha contribuído para o enriquecimento do património literário e cultural da língua comum”. O anúncio do ganhador acontece alterandamente no Brasil e em Portugal.
O júri da edição 2016 do Camões foi formado por Paula Morão, professora da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (Portugal); Pedro Mexia, escritor (Portugal); Flora Sussekind, escritora e professora da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Brasil); Sérgio Alcides do Amaral, escritor e professor da Universidade Federal de Minas Gerais (Brasil); Lourenço do Rosário, professor universitário e Reitor da Universidade Politécnica de Maputo (Moçambique); e Inocência Mata, professora universitária da Faculdade de Letras de Lisboa e da Universidade de Macau (São Tomé e Príncipe).
Renascimento
O Prêmio Camões é entregue a Raduan Nassar em um momento de “renascimento” da obra do autor no exterior. Em abril, ele foi semifinalista do Man Booker Prize International com “Um copo de cólera”.
O prêmio avalia livros do mundo inteiro publicados originalmente em outra língua que não o inglês e depois traduzidos para o idioma. A vencedora foi a sul-coreana Han Kang, com “The vegetarian”.
Veja, abaixo, os ganhadores do Prêmio Camões:
1989 – Miguel Torga (Portugal)
1990 – Hélia Correia (Brasil)
1991 – José Craveirinha (Moçambique)
1992 – Vergílio Ferreira (Portugal)
1993 – Rachel de Queiroz (Brasil)
1994 – Jorge Amado (Brasil)
1995 – José Saramago (Portugal)
1996 – Eduardo Lourenço (Portugal)
1997 – Pepetela (Angola)
1998 – Antonio Cândido (Brasil)
1999 – Sophia de Mello Breyner Andresen (Portugal)
2000 – Autran Dourado (Brasil)
2001 – Eugénio de Andrade (Portugal)
2002 – Maria Velho da Costa (Portugal)
2003 – Rubem Fonseca (Brasil)
2004 – Agustina Bessa-Luís (Portugal)
2005 – Lygia Fagundes Telles (Brasil)
2006 – Luandino Vieira (Angola); recusou o prêmio
2007 – António Lobo Antunes (Portugal)
2008 – João Ubaldo Ribeiro (Brasil)
2009 – Arménio Vieira (Cabo Verde)
2010 – Ferreira Gullar (Brasil)
2011 – Manuel António Pina (Portugal)
2012 – Dalton Trevisan (Brasil)
2013 – Mia Couto (Moçambique)
2014 – Alberto da Costa e Silva (Brasil)
2015 – Hélia Correia (Portugal)
2016 – Raduan Nassar (Brasil)
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Consoada
Consoada
Manuel Bandeira
Quando a Indesejada das gentes chegar
(Não sei se dura ou caroável),
talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
— Alô, iniludível!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com os seus sortilégios.)
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.

CANTO DA ESTRADA ABERTA
Canto da estrada aberta
Walt Whitman
A pé e de coração leve
Eu enveredo pela estrada aberta,
Saudável, livre, o mundo à minha frente,
À minha frente o longo atalho pardo
Levando-me aonde eu queria.
Daqui em diante não peço mais boa-sorte,
Boa-sorte sou eu.
Daqui em diante não lamento mais,
Não transfiro, não careço de nada;
Nada de queixas atrás das portas,
De bibliotecas, de tristonhas críticas;
Forte e contente vou eu
Pela estrada aberta.
A terra é quanto basta:
Eu não quero as constelações mais perto
Nem um pouquinho, sei que se acham muito bem
Onde se acham, sei que são suficientes
Para os que estão em relação com elas.
(Carrego ainda aqui
os meus antigos fardos de delícias,
carrego – homens e mulheres –
carrego-os comigo por onde eu vou,
confesso que é impossível para mim
ficar sem eles: deles estou recheado
e em troca eu os recheio.)
A terra a se expandir
À esquerda e à direita,
Pintura viva – cada parte com
A luz mais adequada,
A música a se ouvir onde faz falta
E a se calar onde não é querida,
A jubilosa voz da estrada aberta,
A alegre e fresca sensação da estrada.
Ó estrada que percorro, é a mim que dizes
“não me deixes”?
Dizes “não te aventures, se me deixas
Estás perdido”?
Dizes “já estou preparada,
Bem batida e transitada,
Fica comigo”?
Ó estrada minha e de todos,
O que lhe posso dizer
É que não tenho medo de deixá-la,
Por mais que a ame: você me expressa melhor
Do que eu expresso a mim mesmo,
Você há de ser para mim
Mais do que o meu poema.
…
Allons! Nós não devemos
Ficar aqui parados, por mais doces
Que sejam estes armazéns fornidos,
Por mais conveniente
Que pareça esta casa, nós aqui
Não podemos ficar,
Por mais abrigado que seja o porto
E por mais calmas que estas águas sejam,
Aqui nós não devemos ancorar;
Por mais acolhedora
Que seja a hospitalidade que nos cerca,
Não nos é permitida desfrutá-la
Senão por bem pouco tempo.
Ouça-me! Eu vou ser franco com você:
Não ofereço velhos prêmios fáceis,
O que ofereço são novos prêmios difíceis.
Eis como hão de ser os dias que lhe podem suceder:
Você não acumulará riquezas, assim chamadas,
Distribuirá com mão pródiga
Tudo o que venha a adquirir ou ganhar,
Nem bem chegando à cidade a qual era destinado
Dificilmente se há de estabelecer
E ter alguma satisfação
sem que ouça um apelo irresistível
a de novo partir,
terá de acostumar-se às zombarias
e aos risinhos irônicos
dos que foram ficando para trás,
aos acenos de amor
que receber
você dará em resposta
somente apaixonados beijos de despedida,
e não permitirá
o abraço das pessoas que vierem
com as mãos suplicantes
em sua direção.
