Bares, cafés e clubes, a partir do século XIX, não eram apenas um ambiente para a happy hour. Eles foram o cenário onde questões políticas, filosóficas, movimentos artísticos revolucionários se espalharam. O propósito deste site é o mesmo: criar um espaço virtual para expressão livre de ideais, reflexões e sentimentos, com espírito crítico em relação a nossa Cultura.
Si
Só sai,
insana sina
o asno insano assa as asas sãs
assina só os nossos ossos ansiosos, sósias
Os sóis não são só isso?
No sono, nos sinos, nos sinais, a sós nossa sina
no sono, o siso sana nossos anos insossos!
Nos sinos, os Sis, os Sóis
os Sons são asas
Os sinais?
Nos oásis, saias são nossas asas no anis.
Elizabeth Bishop
A arte de perder não é nenhum mistério;
Tantas coisas contêm em si o acidente
De perdê-las, que perder não é nada sério.
Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
A chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Depois perca mais rápido, com mais critério:
Lugares, nomes, a escala subsequente
Da viagem não feita. Nada disso é sério.
Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
Lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Perdi duas cidades lindas. E um império
Que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.
- Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo
que eu amo) não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser mistério
por muito que pareça (Escreve!) muito sério.
(tradução de Paulo Henriques Britto)
Aqui cabe uma curiosidade: nos rascunhos de Bishop para o poema, a conclusão de One Art fica muito mais explícita, como é possível ler nesse trecho:
All that I write is false, it’s evident
The art of losing isn’t hard to master.
oh no.
anything at all anything but one’s love. (Say it: disaster.)
Tradução livre:
Tudo o que escrevi é mentira, é evidente
A arte da perda não é dificil de dominar
oh não
qualquer coisa, qualquer coisa exceto o amor de alguém.
(Mais sobre os rascunhos pode ser encontrado neste site: The Drafts of “One Art”, em inglês)
One Art
The art of losing isn’t hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.
Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn’t hard to master.
Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.
I lost my mother’s watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn’t hard to master.
I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn’t a disaster.
-Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan’t have lied. It’s evident
the art of losing’s not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.
Ainda tenho esperança de que podemos aprender, desaprender e reaprender, isto é, desconstruir o que em nossa cultura nos faz mal, e lembrar de coisas esquecidas que nos fazem bem não só individualmente, mas à nossa comunidade. Por isso, resolvi compartilhar com vocês um trecho deste excelente livro.
“A tecnologia não é uma coisa ruim. Se você souber o que deseja na vida, ela pode ajudá-lo a conseguir. Mas se você não sabe, será muito fácil para a tecnologia moldar por você seus objetivos e assumir o controle de sua vida. E, à medida que a tecnologia adquire uma melhor compreensão dos humanos, você poderia se ver servindo a ela cada vez mais, em vez de ela servir a você. Você já viu esses zumbis que vagueiam pelas ruas com o rosto grudado em seus smartphones? Você acha que eles estão controlando a tecnologia ou é a tecnologia que os está controlando? Então, você pode confiar em si mesmo? […] À medida que a biotecnologia e o aprendizado de máquina se aprimoram, ficará mais fácil manipular as mais profundas emoções e desejos, e será mais perigoso que nunca seguir seu coração. Quando a Coca-Cola, a Amazon, a Baidu ou o governo sabem como manipular seu coração e controlar seu cérebro, você ainda pode dizer qual é a diferença entre seu próprio eu e os especialistas em marketing que trabalham para eles? Para ser bem-sucedido numa tarefa tão intimidadora, você terá de trabalhar muito duro para conhecer melhor seu sistema operacional. Para saber quem você é, e o que deseja da vida. Este é o mais antigo conselho registrado: conheça a si mesmo. […] Neste exato momento os algoritmos estão observando você […] logo vão monitorar todos os seus passos […] estão se baseando em Big Data […]. Os algoritmos cuidarão de tudo […]. Se, no entanto, você quiser manter algum controle sobre sua existência pessoal e o futuro de sua vida, terá de correr mais rápido que os algoritmos […]. Para correr tão rápido, não leve muita bagagem consigo. Deixe para trás suas ilusões. Elas são pesadas demais. (Harari, Yuval Noah. 21 Lições para o Século 21. p. 328-330)
Onde até na força do verão havia tempestades de ventos e frios de crudelíssimo inverno. Fr. Luís de Sousa
São Paulo! Comoção de minha vida… Os meus amores são flores feitas de original… Arlequinal!… Traje de losangos… Cinza e ouro… Luz e bruma… Forno e inverno morno… Elegâncias sutis sem escândalos, sem ciúmes… Perfumes de Paris… Arys! Bofetadas líricas no Trianon… Algodoal!… São Paulo! Comoção de minha vida… Galicismo a berrar nos desertos da América!
Que pode uma criatura senão, entre criaturas, amar? amar e esquecer, amar e malamar, amar, desamar, amar? sempre, e até de olhos vidrados, amar?
Que pode, pergunto, o ser amoroso, sozinho, em rotação universal, senão rodar também, e amar? amar o que o mar traz à praia, o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha, é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto, o que é entrega ou adoração expectante, e amar o inóspito, o cru, um vaso sem flor, um chão de ferro, e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.
Este o nosso destino: amor sem conta, distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas, doação ilimitada a uma completa ingratidão, e na concha vazia do amor a procura medrosa, paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.
Embora o ENEM não divulgue uma lista de obras de leitura obrigatória para realizar a prova, como outras instituições que aplicarm o vestibular (livro para o vestibular) , não é raro encontrar questões construídas a partir de trechos de obras literárias consagradas. Por isto, a abordagem mais comum está associada à interpretação de textos. Autores como Ariano Suassuna, Clarice Lispector, Graciliano Ramos, Machado de Assis e diversos outros se destacam entre os mais cobrados (confira abaixo).
1. Ariano Suassuna
Obra: O santo e a Porca O Santo e a Porca é uma obra escrita em 1957, com linguagem próxima à literatura de cordel e às festas populares conhecidas como Folguedos. Por meio do livro é contada a história do idoso Euricão Árabe, devoto de Santo Antônio que mantém escondida uma porca cheia de dinheiro em sua casa. Caracterizada como comédia, a obra é escrita em três atos e tem características do Movimento Armorial, cuja proposta foi criar arte erudita a partir de elementos culturais do Nordeste brasileiro.
2. Clarice Lispector
Obra: A Hora da Estrela A Hora da Estrela narra através do olhar de Rodrigo S.M., o alter-ego de Clarice Lispector, a história de Macabéa, uma jovem que partiu do sertão do Alagoas para viver no Rio de Janeiro. Apesar de aprender a datilografar, a personagem consegue um emprego ruim e leva a vida sem grandes perspectivas de futuro – um retrato da realidade que, apesar da época em que foi escrita, se mostra atual.
Obra: A Descoberta do Mundo
Em A Descoberta do Mundo, Clarice mistura realidade e ficção em forma de crônicas ao retratar diversas experiências de vida. O livro é contado através dos dias, como um diário particular. Embora apresente pessoas e personagens marcantes na vida de Clarice, a obra traz reflexões atemporais sobre comportamentos e personalidades.
3. Fernando Pessoa
Obra: O Livro do Desassossego A obra foi publicada pela primeira vez em 1982 – cerca de 50 anos após a morte do autor – e por isso é caracterizada como uma obra póstuma que não é narrada a partir do tempo cronológico. A obra compila textos avulsos do autor com características autobiográficas, introspectivas, entre outras; se aproxima do gênero de romance e traz reflexões diversas sobre a complexidade da mente de Pessoa.
Crowley e Pessoa
4. Graciliano Ramos
Obra: Vidas Secas Em Vidas Secas, Graciliano retrata uma família de retirantes nordestinos que, devido à seca que atinge a região, parte em busca de uma vida melhor. Fabiano, Sinhá Vitória, os filhos (mais velho e mais novo) e Baleia são os personagens principais da narrativa, marcada pelos poucos diálogos e pelo tempo psicológico.
5. José Saramago
Obra: Ensaio sobre a Cegueira Ensaio sobre a Cegueira é uma reflexão sobre os comportamentos humanos e a forma como as relações são construídas. No Início da narrativa, os personagens são acometidos repentinamente pela cegueira, que rapidamente se espalha pela cidade e que traz reflexões profundas sobre a essência do ser humano.
Obra: Os Poemas Possíveis Esta é a primeira obra poética de José Saramago, publicada em 1966. As produções abordam temas como fraternidade, luta e liberdade através das palavras.
6. Machado de Assis
Obra: A Causa Secreta Este é um dos famosos contos de Machado de Assis que aborda temas como a frieza e a crueldade do ser humano. A história gira em torno de personagens como o médico Garcia e Fortunato, que dedica-se aos feridos e doentes e cujo comportamento dá origem ao nome do conto.
“O real não está na saída nem na entrada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia.” Guimarães Rosa
Literatura em Travessia – criando novos caminhos é um projeto com uma série de conversas relacionadas ao segmento e o contexto atual. Pretende trazer a visão de mulheres e jovens envolvidos com o setor e que foram fortemente atingidos pelos impactos causados pela pandemia, distanciamento físico e os encerramentos de atividades literárias desde março de 2020.Elencamos 10 encontros que iremos denominar como prosas, a serem realizadas durante a FLIJ – Feira Literária de Jacareí, de 05 a 11 de dezembro, em transmissão simultânea no canal do Youtube da Secretaria Municipal de Educação, com apoio da Fundação Cultural de Jacarehy e em parceria com o Conselho Municipal de Políticas Culturais e Comissão Setorial de Literatura – Livro, Leitura, Bibliotecas.
“No discurso mora sempre uma esperança, a esperança de ser uma ponte entre dois mundos. Toda ponte realiza em seu ser um convite de travessia.”Emmanuel Carneiro LeãoVamos atravessar?
Tenho razão de sentir saudade, tenho razão de te acusar. Houve um pacto implícito que rompeste e sem te despedires foste embora. Detonaste o pacto. Detonaste a vida geral, a comum aquiescência de viver e explorar os rumos de obscuridade sem prazo sem consulta sem provocação até o limite das folhas caídas na hora de cair.
Antecipaste a hora. Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas. Que poderias ter feito de mais grave do que o ato sem continuação, o ato em si, o ato que não ousamos nem sabemos ousar porque depois dele não há nada?
Tenho razão para sentir saudade de ti, de nossa convivência em falas camaradas, simples apertar de mãos, nem isso, voz modulando sílabas conhecidas e banais que eram sempre certeza e segurança.
Sim, tenho saudades. Sim, acuso-te porque fizeste o não previsto nas leis da amizade e da natureza nem nos deixaste sequer o direito de indagar porque o fizeste, porque te foste.
Pedro Nava e Carlos Dummond de Andrade de máscara em Belo Horizonte