Consciência

Você já leu A elite do atraso? É fundamental para entender as verdadeiras raízes do Brasil. Nesse livro, Jessé de Souza analisa a sociedade brasileira e afirma que a esquerda foi sequestrada pela direita por causa da análise de sociólogos, como Sérgio Buarque de Holanda, do conceito de paternalismo e patrimonialismo como elementos fundadores de nossa sociedade, o que seria a herança de uma tradição ibérica. Para ele, essa visão é uma distração do que verdadeiramente nos define: nossa história escravocrata e a corrupção da elite econômica.

Ao dar principal destaque à corrupção do Estado, que trata a coisa pública como privada, Buarque responsabilizou apenas os políticos pela corrupção; deixou, assim, a elite econômica oculta e desviou a atenção para o grupo político, que na verdade fica com a menor fatia dos recursos desviados: quem lucra muito mais com a corrupção é uma elite econômica, que tem imposto, desde o período colonial, à sociedade brasileira seus interesses particulares acima do bem comum.

Ao contrário de outros países, onde a elite se mostra um pouco mais solidária, um pouco mais generosa, menos gananciosa e predatória, a elite brasileira continua, através do seu desprezo aos pobres e negros, tentando justificar a perseguição, destruição, matança, encarceramento e desrespeito à qualquer direito que eles possam vir a reivindicar. Esse menosprezo aos menos favorecidos foi disseminado pelo falso análise de que a corrupção do pobre é semelhante a dos políticos, cunhando-se termos pejorativos como “jeitinho brasileiro”, malandragem, brasileiro preguiçoso ( porque o sujeito não quer trabalhar de graça, até a morte como na época da escravidão), por exemplo.

Outra falácia, que deve ser descontruída, o mito da “democracia racial”, inventado por Gilberto Freire, prejudica até hoje a luta pela igualdade entre negros e brancos.

Para Jessé, o uso depreciativo do termo “populismo” é uma forma de racismo disfarçado que despreza qualquer iniciativa de diminuir a miséria ou de inserir os negros à sociedade brasileira, depois de tê-los deserdado de seus bens, de sua terra natal, de sua família, de sua história, de sua identidade. A sociedade nada fez para oferecer alguma compensação (se é que isso é possível) por essa tragédia humana. Muito pelo contrário, os senhores de escravos ainda ostentam com orgulho seu passado de torturas, poder e lucro vergonhosos, da mesma forma que antes. O racismo foi institucionalizado por meio de leis que criminalizaram todas as práticas e cultura dos ex-escravos por medo de pedidos de indenização por todas as perdas infligidas aos negros.

Para esse autor, o que nos define, como povo, não é o “jeitinho brasileiro”, o qual deveria ser considerado uma forma desesperada de luta pela sobrevivência dos que foram largados à própria sorte e tiveram de se virar como podiam. Dessa forma, o tal jeitinho deveria ser visto como algo positivo, como resiliência quando praticado pelos esquecidos do poder público, que só se lembram do povo na hora de cobrar impostos sobre todo produto que ele ainda consegue consumir.

A pior corrupção que há é a da elite econômica, que sequestra o poder público para o seu benefício, mas desvia a atenção de si mesma, através dos espetáculos televisivos que miram, preferencialmente, nos políticos. Estes ficam com uma parcela muito pequena do lucro das negociatas, porque a maior parte do ganho com a corrupção fica com grandes empresários e banqueiros que conseguem se livrar dos holofotes na maioria dos casos.

Assim, o que nos define como povo é nosso passado escravocrata e o seu consequente racismo estrutural que permanece na sociedade atual, haja vista a total falta de empatia de certa elite saudosista do período anterior ao da assinatura da lei Áurea, quando não havia nenhum direito trabalhista. Os novos patrões visam ao lucro acima da dignidade humana e não se responsabilizam nem são solidários com os demais brasileiros pobres. Tal egoísmo, eles tentam justificar com os estudos de intelectuais do porte de Sérgio Buarque de Holanda. Todas as características dos brasileiros, vistas por Gilberto Freire como positivas (nossa afetividade, nossa alegria, por exemplo), em Sérgio Buarque de Holanda passaram a ser negativas. Isso é o que Jessé de Souza chama de “racismo estrutural” da nossa sociedade e explica, mas não justifica, o seguinte raciocínio: “Não merecemos nossas riquezas, não merecemos nossas grandes empresas públicas porque somos corruptos, somos inferiores, somos uma sub-raça, por isso devemos entregar tudo o que temos de valioso aos colonizadores, ao capital estrangeiro etc.”

O racismo é o “pretexto” para justificar a venda de estatais a preços abaixo do valor de mercado. O racismo, portanto, afeta a todos os brasileiros e nos condena a perpetuar nossa escravidão e nos tornar empregados também de outras nações no mundo globalizado. Muitos ainda escravizam nos porões de suas oficinas, nas lavouras, nas mineradoras e devemos sim lutar contra isso, mas temos que ter consciência de que o racismo causa danos ao tecido social de forma tão arraigada dentro de nós que nos sentimos os últimos povos do planeta. A partir disso não percebemos a nossa própria exploração por povos que são considerados superiores, mais honestos, mais eficientes, mais puros do que nós: é o chamado complexo de vira-lata que proporciona lucros absurdos para essa elite que vê assim todo seu egoísmo, sua ganância justificadas aos próprios olhos.

O racismo estrutural está na raiz do sentimento de inferioridade em relação ao que é estrangeiro, no deslumbramento por tudo o que não somos nós mesmos. É preciso, portanto, desconstruir esse raciocínio de que somos os piores em tudo e de que é preciso fugir do Brasil na primeira oportunidade. Afinal, lá fora, o racismo não vai acabar porque fora daqui, em muitos momentos, seremos vistos como cidadãos de segunda classe por sermos “latinos”, por não falarmos o idioma nativo corretamente, por sermos estrangeiros roubando o emprego de autóctones.

As recentes reformas trabalhistas partem dessa mesma elite que se ressente de qualquer progresso na situação da classe trabalhadora, por menor que seja, como no caso dos programas sociais que pretendem diminuir a desigualdade social e a concentração de renda, cada vez mais perversa com a globalização e os juros extorsivos praticados pelos agiotas  banqueiros.

Passar o Brasil a limpo, portanto, passa por uma total revisão da nossa história, dos direitos trabalhistas, dos lucros e juros extorsivos, das oportunidades de emprego, da distribuição do espaço urbano e rural, da melhoria da educação oferecida aos negros.

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Alegria

Quando a “indesejada das gentes”
Passa a não ser tão indesejada assim?
Há um momento em que o cansaço
Vence o entusiasmo e a morte
Passa a ser almejada: por crianças, jovens e
Até por um povo inteiro!

Gente como a menina que deveria estudar,
Segura, trancada no quarto,
ao invés de se enforcar.
Ou gente que vive agora
Na miséria mais degradante,
Que se esquece, num rompante,
De seus filhos para alimentar!

Gente como os índios Kaiowás
De quem vão se lembrar
Apenas pelo nome de algum lugar:
De uma rua de um bairro de periferia.
Num mundo de arrepiar:
Vivem sem lei, sem rei e sem fé
que os protejam e acolham
tudo o que eles são.

Se permitirem, a "civilização" os extinguirá,
porém, horripilantemente,
em museus de raros espécimes, os conservará.

Mas há também gente tão inocente
que, contra todas as expectativas,
Contra todas as probabilidades
Resiste à insuportabilidade da vida.
Gente que canta, vive e sorri
E, nesse decrépito mundo,
Ainda encontra a Alegria!

 

 

Dançarinas do Grupo de Artes Performativas da Associação Chinesa de Pessoas com Deficiência exibem o seu número mais conhecido, a dança Qianshou Kuanyin, ou Bodhisattva de 1000 mãos. a dança do Buda de Mil Mãos prende a atenção de todos, pois são 21 dançarinas surdas e mudas trajadas de dourado, formando uma fila vertical e 42 braços promovem diferentes gestos simultaneamente, levando a todos a imagem do Buda de Mil Mãos, encontrada em muitas grutas da China. A dança maravilhosa foi criada por um famoso coreógrafo chinês, Zhang Jigang.
 
 

Victor Squella — escamandro

Victor Squella [1994] nascido em junho no Rio de Janeiro, onde vive atualmente, escreve e traduz. Publica, pela 7letras, seu primeiro livro, a ser lançado no dia 28/10 na Lado7 [Galeria Vitrine de Ipanema. Rua Visconde de Pirajá, 580, 3º andar]. Abaixo, alguns poemas de Escápula [7letras, 2019]. * Conto de Verão começa com […]

via Victor Squella — escamandro

XANTO|Poesia brasileira, livros da década: parte VII — escamandro

uma casa para conter o caosdez anos de poesia brasileira[2008 – 2018] Parte VII Como anunciado e, agora, dando continuidade, seguimos hoje com a série de livros escolhidos pelo professor Gustavo Sivleira Ribeiro. A quem não tenha visto os posts anteriores, vale reforçar o anúncio: os livros não estão aqui numa numeração qualitativa de lista; o […]

via XANTO|Poesia brasileira, livros da década: parte VII — escamandro

SONETO LXXXII

É BOM, amor, sentir-te perto de mim na noite,
invisível em teu sonho, seriamente noturna,
enquanto eu desenrolo minhas preocupações
como se fossem redes confundidas.

Ausente, pelos sonhos teu coração navega,
mas teu corpo assim abandonado respira
buscando-me sem ver-me, completando meu sonho
como uma planta que se duplica na sombra.

Erguida, serás outras que viverá amanhã,
mas das fronteiras perdidas na noite,
deste ser e não ser em que nos encontramos

algo fica acercando-nos na luz da vida
como se o selo da sombra assinalasse
como fogo suas secretas criaturas.

 

Pablo Neruda

O chamado ou Da redenção
O Chamado

A que está sempre alegre

Charles Baudelaire

Teu ar, teu gesto, tua fronte
São belos qual bela paisagem;
O riso brinca em tua imagem
Qual vento fresco no horizonte.

A mágoa que te roça os passos
Sucumbe à tua mocidade,
À tua flama, à claridade
Dos teus ombros e dos teus braços.

As fulgurantes, vivas cores
De tuas vestes indiscretas
Lançam no espírito dos poetas
A imagem de um balé de flores.

Tais vestes loucas são o emblema
De teu espírito travesso;
Ó louca por quem enlouqueço,
Te odeio e te amo, eis meu dilema!

Certa vez, num belo jardim,
Ao arrastar minha atonia,
Senti, como cruel ironia,
O sol erguer-se contra mim;

E humilhado pela beleza
Da primavera ébria de cor,
Ali castiguei numa flor
A insolência da Natureza.

Assim eu quisera uma noite,
Quando a hora da volúpia soa,
Às frondes de tua pessoa
Subir, tendo à mão um açoite,

Punir-te a carne embevecida,
Magoar o teu peito perdoado
E abrir em teu flanco assustado
Uma larga e funda ferida,

E, como êxtase supremo,
Por entre esses lábios frementes,
Mais deslumbrantes, mais ridentes,
Infundir-te, irmã, meu veneno!

6D VampiraXd roezlii
Insira uma legenda

O impossível carinho

Escuta, eu não quero contar-te o meu desejo
Quero apenas contar-te a minha ternura
Ah se em troca de tanta felicidade que me dás
Eu te pudesse repor
-Eu soubesse repor_
No coração despedaçado
As mais puras alegrias de tua infância!

Manuel Bandeira

A paixão de ler

Os ombros suportam o mundo

Drummond

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.

Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

 

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

 

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

Poesia III

Tirei minha Tristeza pra dançar.
Dançamos uma valsa de silêncios dolorosos,
Rodopiei por salas habitadas
Por todas as partidas prematuras
Em que ela me guiava, me girando pelos ares.

Com um nó preso bem no fundo da garganta,
Entreguei, sem luta e por cansaço,
Minhas fibras à cadência de seus passos.

Olhando bem no fundo de meus olhos, ela me dizia:
_ Eu sou sua! Você é minha!

Sobre lustres refletidos em espelhos multicores,
A Tristeza, me estreitando em seus braços,
Embalou-me numa nuvem luminosa
Onde vive a poesia.

José de Godoy

2018

Apenas palavras

As palavras são nada.

Em si, carecem de sentidos, se os gestos não as acompanharem.

Assim calar é louvável a alguns algures.

Imprudência confiar nas palavras, já que quem mente mergulha a todos em fantasia?

Sonha que a todos ludibria?

Para si, ciladas cria?

Mas não ilude plenamente: há uma gota de verdade em cada mentira.

Há um dizer exato em cada silêncio!

A palavra não poderá ser sempre friamente refreada,

Porque liberta quem a profere de sentimentos inconfessáveis.

As palavras libertam os tímidos de si mesmos,

desconfiados de revelar seu ser ao universo.

Libertam um povo da opressão.

Libertam seres de sua invisibilidade.

Libertam ao revelar a descoberta e afirmação de si, a si mesmo e à humanidade.

No Polo Norte, quantos tons de branco conhecem os esquimós?

Para cada branco, uma palavra.

Para nós, só há um branco e mais nada…

Para cada coisa que há e sabemos que há, há uma palavra.

A tudo que nasce, damos um nome.

Para quem nunca viu tantos tons de brancos, se ouvir seus nomes diferentes, nem precisa se mudar para lá.

A enxergá-los, em algum momento, passará.

Assim os nomes nascem das coisas, mas o saber também nasce das palavras.

O que pensamos que é sabido de todos, mas nunca foi divulgado verbalmente, pode também deixar de haver e ser esquecido, na próxima temporada.

Se o amor verdadeiro está implícito em ações que demonstram sentimentos,

Também provas perdem seu sentido no automatismo dos gestos rotineiros.

Então, o cinismo contemporâneo nos acanha

com demonstrações de afeto e acaba por enregelar a todos de todo.

 

Você não pode mais me ouvir,

Então falo para mim mesma,

Para saber que sinto o que sinto,

Para lembrar e me aquecer

E me libertar do não-dizer:

“Não enxergamos os brancos dos esquimós nem temos nomes para eles…

Nunca pensei que talvez você não enxergasse em quantas cores era amado.

Hoje não cansaria de dizer de todas as formas possíveis,

Com quantas palavras existem: Persy, eu amo você!”

28-07-2012

rumi

Deus, nós e o Universo

ALEXEY DODSWORTH
Semana passada, descobri que a defesa de doutorado no Brasil tem peculiaridades que a tornam mais interessante do que na Itália. Meu orientador italiano adorou o sistema brasileiro. Na Itália, segundo ele, são três discussões em uma manhã, ou seja, o tempo é bem restrito. Na USP, uma manhã inteira é dedicada a uma defesa, o que permite um debate com maior profundidade. Outra peculiaridade: no Brasil, o candidato faz um [extremo] resumo para o público. Os italianos [havia outro, o prof. Pietro Omodeo, em transmissão direta] adoraram saber que o público pode assistir às defesas. Na Itália, pelo menos em Veneza, não é assim.

Segue abaixo a versão em português do resumo que apresentei para o público. Em breve a tese estará disponível na Biblioteca Virtual de Teses da USP. Agradecimentos pelas fotos: Leonardo Chioda, Ridete Pozzetti e Cledys Magnavita.

“Bom dia a todos. Primeiramente, eu gostaria de agradecer a vocês, professores, por sua gentil disposição em fazer parte desta discussão. Este é o primeiro PhD de duplo título decorrente de um acordo entre a Universidade de São Paulo e a Universidade Ca’ Foscari de Veneza, o que é para mim uma honra. Estou certo de que isso é só o começo e que iremos fortalecer cada vez mais os nossos laços acadêmicos no futuro.

Um agradecimento especial é dirigido aos meus orientadores: o professor Fabrizio Turoldo, que atravessou o oceano para estar conosco, hoje; e para o professor Renato Janine Ribeiro, por seu corajoso apoio à minha tese.

Ressalto o adjetivo “corajoso” porque, quando o assunto é filosofia, o transumanismo tende a não ser um tema lá muito bem vindo, academicamente falando. Acadêmicos tendem a ver o transumanismo como um tipo de argumento de ficção científica e, por isso, como algo pouco importante. O professor Renato, por outro lado, nunca subestimou a ficção científica. E por isso que eu quero começar citando Arthur Clarke, em vez de um filósofo tradicional.

Segundo Clarke, ‘a ficção é melhor do que a não-ficção em alguns sentidos (…) Você pode alargar a mente das pessoas, alertando-as para as possibilidades do futuro, o que é muito importante em uma época em que as coisas estão mudando rapidamente’.

Quando se diz que o transumanismo é mais ficção do que filosofia, eu concordo. Mas isso não é um demérito, muito pelo contrário. Em uma época em que o progresso técnico se desenvolve freneticamente, é importante vislumbrar consequências. Sobretudo, é importante propor modos de aumentar as chances de existência de um futuro para nossos descendentes. Em uma ampla gama de aspectos, o transumanismo é um movimento dedicado a inventar o futuro, a propor o futuro em vez de predizê-lo. Transumanistas têm um objetivo, e este pode ser resumido em uma palavra: extensão.

Quando eu comecei minha pesquisa, eu tinha a intenção de abordar a extensão da vida individual. Questões tais quais “imortalidade” e “longevidade” caminhavam para ser meus temas nucleares. Mas eu rapidamente me dei conta de que há um grande número de teses sobre estes temas. O professor Renato Janine Ribeiro certa feita, tempos atrás, disse-me: ‘não reescreva de modo chato o que alguém já escreveu brilhantemente’. Deste modo, decidi seguir seu conselho e por isso a minha tese é sobre extensão da vida, mas não sobre extensão individual da vida.

Indo direto ao ponto: minha tese é sobre a desejável sobrevivência da consciência neste universo. Não importa se esta entidade for humana ou não. O que o transumanismo quer é assegurar que o fantástico fenômeno da consciência não venha a morrer com o nosso planeta quando a hora chegar.

E esta é a razão pela qual devemos ir rumo ao céu: para aumentar as chances.

Mas por que isso é tão importante? Ocorre que, sob uma perspectiva transumanística, a consciência possui valor intrínseco. Permitam-me esclarecer algumas definições:

Uma abordagem comum para a ética é reconhecer dois tipos de valores nas coisas. O primeiro é o valor instrumental: a identificação de quão útil uma coisa é para as pessoas. O valor instrumental é sempre contingente, ou seja, ele depende do contexto. Nós podemos dizer que algo é mais valioso do que outro, instrumentalmente falando. Não há controvérsias éticas no tocante a este conceito, dado que algumas coisas são, de fato, mais valiosas que outras. Quando o assunto é valor instrumental, eventuais controvérsias serão sempre técnicas. Nós podemos discutir se uma coisa é útil ou não. Não há problemas éticos em dizer, por exemplo, que esta substância não é útil para aquela doença. Este é um julgamento técnico baseado em contexto.

Um segundo tipo de valor que às vezes se atribui a coisas é o valor intrínseco. Valor intrínseco é um conceito controverso que propõe que existem objetos no universo que merecem mais consideração independentemente de sua utilidade. Estas coisas, dizem alguns filósofos, têm um valor inerente.

É difícil entender como algo pode ter valor sem alguém que observe isso, dado que sem um observador todos os objetos são simplesmente matéria. Sob um ponto de vista religioso, humanos são valiosos por causa de Deus, que é o supremo observador. Este é um tipo de argumento que demanda fé para ser aceito. Mas nós estamos em uma discussão filosófica, não em uma discussão teológica. Deste modo, como podemos – sem apelos religiosos – defender a existência do valor intrínseco?

Transumanistas defendem que, dentre todas as coisas existentes, aquelas dotadas de consciência são intrinsecamente valiosas. Eles sugerem que o valor intrínseco existe, mas é uma criação de seres sencientes, portanto aplicável a eles.ó

Filósofos tendem a divergir sobre quais entidades merecem ser consideradas intrinsecamente valiosas. O antropocentrismo leva em consideração que a razão é a base do valor intrínseco, portanto apenas humanos merecem ser considerados intrinsecamente valiosos. Eu discordo fortemente disso. Conforme explico em minha tese, razão e inteligência derivam da senciência, ou seja, são atributos consequenciais da senciência. Uma entidade não precisa ser racional e inteligente para saber o que é valioso para ela. A capacidade de evitar sofrimento e buscar prazer demonstra que a entidade sabe o que vale e o que não vale. Ou seja, o conceito de valor emerge com a senciência, e não importa que uma específica entidade seja incapaz de falar sobre isso. Transumanistas têm insistido nestes pontos desde meados do século passado.

Em 2017, o professor Turoldo me apresentou à obra de Hans Jonas, e eu fiquei fascinado ao constatar alguns pontos em comum entre ele e os transumanistas. Por exemplo: Jonas é claramente contra uma exclusividade antropocêntrica no que diz respeito ao valor intrínseco. Conforme o professor Turoldo escreve em seu livro ‘Bioética e Ética da Responsabilidade’ (página 9), ‘o ser vem compreendido por Jonas em um sentido teleológico, ou seja, como um ser finalisticamente orientado à própria autoconservação (…) Jonas descreve um ser que percebe a si mesmo como bom e que, por isso, quer conservar a própria existência’ [tradução minha].

Tudo considerado, pode-se dizer que Jonas está alinhado com a proposta transumanista de extensão da vida em um sentido coletivo. De acordo com os transumanistas, a vida é melhor do que a não-vida, e seres sencientes querem viver. Quanto mais felicidade, mais desejamos a vida. O telos da vida senciente não é apenas “continuar a viver”, mas continuar a viver prazerosamente.

Até aqui eu não disse algo de original. No que diz respeito a teses de doutorado, um certo grau de originalidade é esperado. Caso contrário, eu corro o risco de apenas repetir o que já foi dito antes. Uma tese filosófica deveria oferecer alguma contribuição para uma discussão específica. Mesmo que tal contribuição seja pequena. Então vamos lá:

O núcleo de minha tese está alinhado com o primeiro tópico da declaração transumanista, que diz: ‘vislumbramos a possibilidade do alargamento do potencial humano através da superação do envelhecimento, dos vieses cognitivos, do sofrimento involuntário e de nosso confinamento ao planeta Terra’ [tradução minha].

Eu tenho abordado em minhas pesquisas principalmente a superação de nosso confinamento ao planeta Terra, e o faço por uma razão filosófica muito específica: tal superação é o único modo de evitar o ‘summum malum’ (“mal supremo”, em latim). Filósofos têm definido o problema do ‘summum malum’ de várias maneiras. Talvez o mais famoso dentre todos seja Thomas Hobbes, que define que o mal supremo a ser evitado é a morte violenta.

Hans Jonas, por outro lado, discorda de Hobbes. De acordo com Jonas, o mal supremo é a extinção em massa, não a morte individual. As considerações de Hobbes estão restritas às condições do mundo em sua época. Naquele tempo, um soberano não tinha o poder de afetar o mundo inteiro em decorrência de suas decisões erradas. Atualmente, uma pessoa poderosa e louca é suficiente para danificar o planeta. Dia após dia, o progresso tecnológico empodera governos e pessoas de uma forma muito perigosa. Ao longo de sua vida, Jonas testemunhou o holocausto e a ascensão da bomba atômica, o que foi suficiente para fazê-lo entender o quanto o conceito de Hobbes de ‘mal supremo’ era pálido diante de tudo isso.

O problema que eu pus é: apesar de eu concordar com a definição de Jonas de ‘mal supremo’ como ‘extinção em massa’, eu discordo fortemente de suas ideias biogeocêntricas. Conforme vocês podem ler no primeiro capítulo de minha tese, Jonas é contra a expansão espacial. Ele escorrega em um falso dilema quando diz que nós deveríamos cuidar de nosso planeta em vez de investir tempo e dinheiro em empreendimentos espaciais. Minha tese sustenta que as declarações de Jonas contra a expansão espacial não são apenas um falso dilema, mas são também uma séria contradição de suas próprias ideias a respeito de teleologia. Deixem-me tentar demonstrar meu ponto:

Levando em conta que auto-preservação é um imperativo de acordo com o próprio Jonas, e levando em consideração que nosso planeta vai morrer mais cedo ou mais tarde, há uma contradição quando Jonas diz:

‘Vamos nos preocupar com o nosso planeta. O que quer que exista lá fora, é aqui que nosso destino será decidido. E, junto com o nosso destino, essa parte da aposta da criação que está em nossas mãos e pode tanto ser preservada quanto traída’ [tradução minha].

Logo, o núcleo do primeiro capítulo de minha tese é: de modo a expandir a existência da consciência, é necessário disseminar a vida através do universo. Se nós nos mantivermos restritos ao nosso planeta, nós iremos contra nosso impulso de autopreservação. Se nós nos mantivermos restritos ao nosso planeta, iremos certamente desaparecer. A expansão espacial não garante um futuro para a consciência, mas aumenta as chances.

Notem por favor que eu não estou falando em salvar a humanidade necessariamente, sobretudo se por ‘humanidade’ nós entendemos nossa atual forma. Para transumanistas o que importa é a consciência, seja ela natural, artificial, humana, transumana, alienígena, metade biológica e metade tecnológica etc. De acordo com transumanistas, não é a nossa forma humana que nos faz especiais, e sim a nossa consciência, e eu concordo com eles.

Jonas, ao contrário, apela para a importância de “preservarmos nossa real essência humana”, e parece bastante assustado com as possibilidades de uma pós-humanidade cosmicamente expandida. Conforme apontei em minha tese, sua contradição jaz no fato de que apesar de seu acertado entendimento a respeito da natureza do mal supremo, ele leva em consideração apenas os danos causados pelo progresso humano. Mas o fato é que na época de Jonas nós mal tínhamos noção dos danos causados por fatores cósmicos.

Pensar em nosso planeta como estável é um erro comum. Nosso planeta sofreu eventos causadores de extinção global antes, os quais foram causados por fatores extraterrestres. Nós tomamos a estabilidade planetária como algo garantido, o que é um erro perigoso.

O professor Douglas Galante, que está aqui hoje conosco, é o primeiro doutor em astrobiologia teórica no Brasil. Se vocês quiserem saber as muitas formas pelas quais a nossa vida pode ser erradicada por fatores extraterrestres, tenho certeza de que ele poderá oferecer tal informação em detalhes muito interessantes e aterradores. Ele também pode explicar a importância prática da pesquisa espacial melhor do que eu.

Em resumo, eticamente falando a minha tese está alinhada com o entendimento de Jonas sobre a natureza do mal supremo. E é exatamente por conta deste alinhamento que eu digo que Jonas contradiz a si mesmo quando ele alega que o planeta Terra é o nosso ‘destino’. A minha tese sustenta que se nós quisermos evitar o mal supremo, o planeta Terra não deveria ser entendido como um ‘destino’, mas como um ponto de partida. Permanecer apegado ao nosso ponto de partida nos conduziria à extinção em massa, eventualmente.

O segundo capítulo de minha tese é sobre metafísica. Enquanto o primeiro capítulo questiona se a vida tem uma finalidade, o segundo capítulo questiona se o universo tem finalidade. Eu começo citando o astrofísico Martyn Rees, que demonstra como nosso universo parece ser finamente ajustado de modo a criar vida. Ou seja, o nosso universo é biofílico. Mas é o próprio Rees que contra-argumenta e diz que esta peculiaridade cósmica pode muito bem ser acidental. Talvez exista uma ampla gama de universos alternativos cujas leis não permitem a existência de vida, conforme teoricamente demonstrado por físicos tais quais Hugh Everett III e David Deutsch.

Teleologia cósmica é um tema frequente em filosofia e é um dos três principais argumentos que tentam demonstrar a existência de Deus. O argumento teleológico, o qual é muito apreciado por proponentes do design inteligente, diz que deve existir uma inteligência ordenadora por trás da cena. Ainda que este tipo de argumento soe como mero pensamento desejoso, é baseado em evidências físicas de um cosmo finamente ajustado.

Mas mesmo que nós consideremos que exista uma inteligência que criou o nosso universo ‘finamente ajustado’, nada justifica que tal inteligência seja o mesmo Deus das religiões monoteísticas.

Dentre os filósofos dedicados a pensar a respeito da natureza e objetivos da criação, há dois que se destacam em minha tese: Teilhard de Chardin e Hans Jonas. O ponto em comum entre eles é que ambos defendem a ideia de um Deus que abdica de seu poder de modo a permitir a existência do universo. Por que Deus faria isso? Ambos dizem que não sabem. Em ambos os casos, nós somos apresentados a um Deus extremamente poderoso cuja imperfeição jaz no fato de que ele deseja. Por causa disso, Jonas usa a expressão ‘Eros cosmogônico’ em vez de oferecer uma narrativa cosmológica para a criação.

De acordo com Jonas, o universo é criado por um impulso desejoso, pelo auto-sacrifício divino, e não há garantia de que este ato resultará em algo bom. Por causa disso, eu digo que a cosmogonia de Jonas é uma interessante reversão da aposta de Pascal. Ou seja, é Deus quem aposta em nossa existência. Se há algum plano para o universo, sua realização depende de nós. Nós não estamos nas mãos de Deus, é o oposto: ele jaz em nossas mãos.

Por fim, mas não menos importante, eu sustento que Jonas não tem razão em seus pensamentos pessimistas acerca de um jogo divino. Se existe um Deus que joga um jogo, tal jogo tem sido jogado não apenas em um universo, mas em vastos, talvez infinitos universos alternativos, o que aumenta as chances de um cosmo bem-sucedido pleno de vida e consciência, um cosmos capaz de reproduzir a si mesmo – em uma história sem fim.”