Mergulho

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A memória me abisma.

Cativa-me a liberdade.

Deleita-me a doçura.

Seu desejo me arrebata.

Assim carrego o abstrato em minha mente,

Que é o verdadeiro coração de gente

Que quer não querendo de todo,

De gente que, privada de quase tudo,

Resolveu dar só um pouco de quase nada.

Como se mergulhasse, mas volta e meia,

emergisse para respirar.

Um lapso é a minha respiração,

É meu mergulho com vísceras insufladas.

O resto é agonia e desejo de respirar aliviada.

Amoras nos muros

A meu primo Marcelo Balberde Boccuzzi

Como é difícil colher amoras!

— É muito perigoso!

Há pontas de cacos

de vidro nos muros

os quais só alguns podem pular.

Só eles podem subir

na árvore e alcançar

seus frutos maduros.

O sangue do crime

nas mãos rubras de amoras!

Ah! Quem dera ser maior e mais forte!

Os galhos do outro lado

do muro cortante alcançar!

Mas, ainda assim, precisaria enfrentar

as aranhas nas folhas escondidas,

os escorpiões, as cobras,

peçonhas esperando

mãozinhas inocentes e limpas.

Quem pode com elas?

Só eles… eles podem!

O vento bondoso derruba

as mais maduras, pesadas,

dos altos galhos que pendem do lado

de cá da muralha intransponível.

Mas seu gosto amassado, passado

O tempo estragou!

No ladrilho vermelho,

seu sumo jaz esparramado.

As tenras e frescas,

só eles podem comer.

Dia escuro, nuvens cinza-carregadas,

Cascatas de suco rolam as escadas.

_ Com ácido, limpa-se tudo!

Asas, asas, dêem-me asas para alcançá-las.

Ah! quebrar os cacos, derrubar

o muro a machadadas,

e elas, todas aqui, assim!

15 de setembro de 1998

Na Palestina: O velho, a árvore, o ônibus

À Abd Al-Hasib Atta Zaloum

Sobre o solo, jaz a carcaça do que um dia havia sido um ônibus.
Hoje, tornou-se abrigo do velho sem moradia.
As estrelas no céu velam por eles à noite.
O frio passa pelas vidraças estilhaçadas,
Vem sorrateiro seu rosto açoitar.

Sob o sol escaldante,
a sombra vem de uma árvore solitária.
O ônibus à noite e a árvore de dia
São todo o seu reino, como nem
o rei da Jordânia tem.

Assim que ficou pronta,
sua antiga casa foi demolida;
sua terra, por colonos, roubada.
Converteram seu território em "área de segurança".

Segurança pra quem,
se o velho agora vive ao relento?
Não é o velho, de humanos, rebento?
Não necessita de segurança também?
É menos humano que as crianças da escola
atrás daquela muralha, já que delas só recebe desdém?

Como a vida, que poderia ter tido, foi interrompida,
Perdeu sua costumeira esperança
e neste solo devastado só quer plantar seus olhos cansados
Para não verem mais a guerra assolar o seu lar.