O calor tem cor e tem classe

Thiago Amparo na Folha/UOL

Está calor? Sim. Para todo mundo de forma igual? Não. Quantos aparelhos de ar-condicionado ou umidificador de ar você tem em casa? Em SP, apenas 210 das 5.600 escolas da rede estadual possuem sistema de refrigeração (3,7%), segundo dados oficiais; em 12 escolas em Guarulhos as paredes e telhas são de chapa de aço, superaquecidas. Você trabalha ao ar livre sob o sol ou em lugares fechados sem proteção ao calor? Você tem descanso remunerado ou possui flexibilidade de horário?

Você utiliza um transporte de qualidade, confortável e refrigerado todos os dias? Na capital paulista a média de deslocamento pela cidade é de 2h26min; em 2023, a percepção de que os ônibus estão mais cheios chegou a 27%, maior índice registrado em cinco anos pela pesquisa da Rede Nossa São Paulo. Ilhas de calor em SP, agravadas pela poluição automobilística e pela distribuição desigual de mobilidade urbana impactam mais pessoas periféricas, revelou nesta semana estudo do Instituto Peregum.

Você mora perto de um parque para se refrescar? Há 11 anos, moradores do extremo sul da periferia de SP esperam pela regulamentação do Parque dos Búfalos, em uma disputa que envolve até ameaça de morte, revelou esta Folha. Ao menos, outros quatro parques prometidos foram abandonados ou invadidos na periferia de SP, segundo o jornal Agora, em novembro de 2021. Quantas pessoas moram em sua casa por cômodo, e há circulação de ar em todos eles?

Você tem acesso a água potável em abundância? Populações negras de Belém e de Recife são as que mais sofrem de doenças transmitidas pela água (mais de 60% dos casos), revelou pesquisa do Instituto Pólis de 2022. Você ficará seguro no evento de chuvas extremas? Mesma pesquisa relevou que na capital paulista a proporção de pessoas negras em áreas passíveis de deslizamento é de 55%, concentradas nas periferias da cidade.

O calor extremo expõe ao sol as injustiças —racismo e aporofobia— climáticas. Neste que é o verão mais frio do resto de nossas vidas, está calor para quem?

Nossos verdadeiros inimigos

Em 2010, soldados estadunidenses fizeram um protesto contra o projeto imperialista dos EUA de expansão de ataques contra países pobres, mas ricos em gás e petróleo: a “guerra infinita”, que sustenta a indústria bélica com os impostos de seus cidadãos. Michael Prysner e outros 130 veteranos foram presos após esse discurso.

Como vivemos o luto?

A sociedade tem abandonado seus rituais referentes ao luto; como isso tem afetado nossa saúde mental? O psicanalista Christian Dunker em seu livro “Lutos finitos e infinitos” trata sobre o luto individual e coletivo e constata que há algo errado na forma como vivenciamos a experiência da dor. Leia no link abaixo sua entrevista sobre esse tema que apesar de ser tão relevante, é camuflado no modo de vida contemporâneo:

https://oglobo.globo.com/saude/bem-estar/noticia/2023/08/27/algo-esta-errado-na-maneira-como-temos-feito-o-luto-diz-psicanalista-christian-dunker.ghtml

O sétimo selo

Quando coisas ruins acontecem com pessoas boas

Jó precisava de simpatia mais que de conselho, por mais sensato que fosse o conselho. Haveria tempo e lugar para este último. Precisava de compaixão, da sensação de que outros participam também de sua dor, mais que de explicações teológicas sobre os caminhos de Deus. Precisava de conforto físico, de pessoas que partilhassem sua força com ele, sustentando-o em vez de condená-lo. Precisava de amigos que lhe permitissem zangar-se, chorar e desabafar alto, muito mais que de amigos que o concitassem a tornar-se um exemplo de paciência e piedade para os outros. Precisava de alguém que dissesse “Sim, o que aconteceu é terrível e não faz sentido” e não para dizer-lhe “Coragem, Jó, afinal de contas não é tão ruim”. E foi aí que os amigos falharam. A expressão “consoladores de Jó” passou a designar pessoas que desejam ajudar, porém que se mostram tão preocupadas com suas próprias necessidades e sentimentos que acabam por piorar as coisas. Contudo, os amigos de Jó sob dois aspectos procederam bem.

PEm primeiro lugar, eles vieram. Estou certo de que a visão do amigo na miséria lhes era dolorosa e de que eles provavelmente tiveram vontade de afastar-se e deixá-lo só. Não é agradável ver um amigo sofrer, e a maioria de nós evita de bom grado essa experiência. Ou nos afastamos de todo, de modo que quem sofre acaba por ficar isolado, com o sentimento de rejeição coroando sua tragédia, ou nos aproximamos como que evitando a razão de nossa presença ali. As visitas a hospitais e manifestações de condolências transformam-se em conversas amenas sobre o tempo, a bolsa de valores ou as notícias esportivas, assumindo um ar de irrealidade em que a preocupação mais importante no espírito de todos os presentes é deixada de lado. Os amigos de Jó pelo menos tiveram a coragem de encará-lo e enfrentar sua dor.

E, em segundo lugar, eles ouviram. Segundo o relato bíblico, sentaram-se com Jó durante muitos dias, sem nada dizer, enquanto Jó extravasava sua dor e cólera. Esta, acho eu, foi a parte mais útil da visita. Nada do que eles fizeram depois fez tanto bem a Jó. Depois de Jó haver desabafado, eles deveriam ter dito “Sim, é realmente terrível. Não sabemos como você pode suportá-lo”, em vez de se sentirem compelidos a defender Deus e a sabedoria convencional. Sua presença silenciosa deve ter sido bem mais útil ao amigo do que as longas explicações teológicas.

Podemos extrair disto uma grande lição. Há alguns anos passei por uma experiência que me ensinou alguma coisa sobre como as pessoas pioram uma situação por se censurarem a si mesmas. Certo mês de janeiro, eu tive de oficiar aos funerais, em dias sucessivos, de duas senhoras idosas de minha comunidade. Ambas morreram “cheias de dias”, como diria a Bíblia; ambas sucumbiram ao desgaste normal do organismo, depois de uma vida longa e bem vivida. Calhou de as duas casas serem próximas, de modo que pude fazer as visitas de condolências às duas famílias na mesma tarde. Na primeira casa, o filho da falecida me disse: “Se eu tivesse mandado minha mãe para a Flórida, tirando-a deste frio e desta neve, ela ainda estaria viva. Sinto-me culpado pela sua morte.” Na segunda casa, o filho da outra disse: “Se eu não tivesse insistido com minha mãe para que fosse para a Flórida, ela ainda estaria viva. A longa viagem de avião, a mudança súbita de clima foram além do que ela podia suportar. Sinto-me culpado pela sua morte.”

Quando as coisas não se desenrolam conforme gostaríamos, torna-se muito tentadora a ideia de que, se tivéssemos procedido de maneira diferente, a história teria tido um final mais feliz. Os pastores de alma sabem que, toda vez que ocorre uma morte, os sobreviventes se sentem culpados. Como a ação que empreenderam teve um desfecho desagradável, acreditam que, se tivessem feito o contrário — mantendo a mãe em casa, adiando a operação — o final seria melhor. Afinal de contas, como se poderia ter evitado o pior? Os sobreviventes sentem-se culpados por estarem ainda vivos enquanto um ser amado está morto. Sentem-se culpados ao pensarem nas palavras amáveis que nunca dirigiram a quem morreu ou pelas coisas boas que não encontraram tempo para propiciar-lhe. Na verdade, muitos dos rituais fúnebres em todas as religiões visam a ajudar os sobreviventes a libertarem-se desses sentimentos irracionais de culpa por uma tragédia que de fato não foi provocada por eles. O sentimento de culpa — “eu sou o culpado” — parece universal. Parecem existir dois sentimentos envolvidos em nossa inclinação para a culpa.

O primeiro é nossa compulsiva necessidade de acreditar que o mundo faz sentido, que há uma causa para cada efeito e uma razão para tudo o que acontece. Isto nos leva a encontrar padrões e conexões tanto onde eles realmente existem (o cigarro ocasiona o câncer pulmonar; quem lava as mãos tem poucas doenças contagiosas) quanto onde eles existem apenas em nossas mentes (meu time vence toda vez que vou ao estádio com a camisa da sorte; aquela pessoa de quem eu gosto só me vê nos dias ímpares, nunca nos dias pares, a não ser quando um feriado interrompe a sequência). Quantas superstições comuns e pessoais nasceram baseadas em que algo de bom ou ruim sucedeu logo depois de termos praticado uma ação, originando-se daí a crença de que o mesmo ocorrerá sempre que seguirmos aquele padrão de comportamento?

O segundo elemento é a noção de que nós somos a causa do que acontece, especialmente das coisas ruins. Parece muito curta a distância entre a crença de que tudo tem uma causa e a crença de que todo desastre é culpa nossa. As raízes deste sentimento podem estar em nossa infância.

Os psicólogos falam do mito infantil da onipotência. O bebê pensa que o mundo existe para satisfazer as suas necessidades e que é ele quem faz com que tudo se realize. Ele acorda pela manhã e convoca o resto do mundo para suas tarefas. Chora, e alguém vem atendê-lo. Quando está com fome, alguém vem alimentá-lo; quando está molhado, aparece alguém para trocar-lhe as fraldas. Muito frequentemente, não superamos totalmente esta noção infantil de que nossos desejos fazem as coisas acontecerem.

Uma parte de nossa mente continua a acreditar que as pessoas ficam doentes porque as odiamos. Nossos pais, de fato, amiúde alimentaram essa noção. Sem perceberem como eram vulneráveis nossos egos infantis, descarregaram sobre nós seu cansaço e frustração por razões que nada tinham a ver conosco.

Empurraram-nos por nos encontrarmos em sua passagem, gritaram conosco pelos brinquedos espalhados ou pelo som alto da televisão, e nós, em nossa inocência infantil, achávamos que eles tinham razão e que nós éramos o problema. A raiva deles podia passar no momento seguinte, mas nós carregaríamos ainda as cicatrizes do sentimento de culpa, com medo de sermos repreendidos por qualquer erro que aparecesse. Anos 34 depois, quando algo não vai bem ao nosso redor, os sentimentos de nossa infância emergem e instintivamente pensamos que mais uma vez deitamos as coisas a perder.

Mesmo Jó preferiu pedir que Deus lhe provasse sua culpa a admitir que tudo não passava de um engano. Se lhe pudesse ser demonstrado que ele merecia seu destino, então pelo menos o mundo estava certo. Não haveria qualquer prazer em sofrer pelos desmandos de alguém, mas seria mais suportável do que descobrir que se vive em mundo fortuito onde as coisas acontecem sem razão.

O segredo do quadrado de Sator

Alguma coisa fez com que o quadrado de Sator, um dentre tantos palíndromos utilizados como passatempo pelos romanos, fosse considerado especial. Ele foi muito copiado, em livros, portas etc, mas seu significado original se perdeu. Estudiosos tentam reencontrá-lo há 150 anos, sem chegar a nenhuma conclusão que seja universalmente aceita.

Minha tradução livre seria “Deus mantém a roda da vida girando.”

Rio de Niterói

Parque da Cidade
tão lindos
tão tristes
tão doentes da partilha
estes trópicos
estas belas bocas ocas

enterramos nosso um terço arariboia
tão fundo no desterro da memória
que agora caminhamos sonâmbulos
arrastando amnésias dolorosas

sem rei
sem lei
sem fé,
meu bem!

Nunca outra terra foi tão invejada
Outra gente mais saudosa
jamais foi vista por ninguém.

Godoy, 3 de fevereiro de 2023.

Conselho

  • “Prudência! Quem mais corre mais tropeça.”

– Ato II – Cena III: Frei Lourenço

In Romeu e Julieta de William Shakespeare

O sábio Frei Lourenço tenta alertar os jovens amantes para não se precipitarem, para cultivar a paciência, algo tão difícil para os jovens impulsivos. Hoje, porém, com a velocidade da tecnologia e com os automatismos no uso de dispositivos eletrônicos, todos nós estamos sujeitos a rompantes, a gestos bruscos, impensados e impensáveis. Não existe mais um discreto Frei Lourenço para nos aconselhar. Temos a Literatura, pena que ninguém mais tenha paciência para a leitura, que deleita e ensina.

Convite para nascer de novo – Erasmo Carlos

Quem sabe, neste momento, você não está apenas nascendo de novo para outra vida, trocando de roupagem?! Lutou o bom combate, agora descansará em paz! Sentiremos saudades!🌹

O filme “À Meia-Luz” já denunciava o abuso psicológico nos anos 1940

  • No filme, a personagem Paula Alquist, feita por Ingrid Bergman, é manipulada por seu marido a acreditar que está enlouquecendo
  • Por Ana Claudia Paixão Atualizado em 30 jul 2021, 15h40 – Publicado em 30 jul 2021, 14h00

Ingrid Bergman ganhou seu primeiro Oscar de Melhor Atriz, em 1944, com o filme À Meia-Luz, interpretando a personagem Paula Alquist. Nele, ela é manipulada por seu marido a acreditar que está enlouquecendo, o que quase acontece.

É sufocante ver o processo de distorção e maldade ao qual a personagem é submetida, sem poder reagir. O filme é espetacular, mas precisa de um pouco de paciência para encontrar nas plataformas, inclusive dá para assistir em Blu-Ray e DVD.

Ingrid divide as telas com Charles Boyer e Joseph Patten, dirigida por um preciso George Cukor. No original, À Meia-Luz se chama Gaslight, que, graças ao filme, é até hoje, mais de 80 anos depois, a tradução de um tipo de manipulação psicológica no qual uma pessoa consegue convencer a vítima a questionar a própria sanidade, memória ou percepções das coisas.

Você sabe o que é gaslighting?

O manipulador induz à dúvida e – paradoxalmente – à certeza da loucura, acabando com autoestima e saúde mental da vítima indefesa.

Antes de ser referência pop, Gaslight tem uma explicação técnica. Em tempos de pré-eletricidade, para se ter luz só era possível à gás, que é o que Gaslight em inglês diz. Toda a metáfora de luz, de falha na iluminação e memória faz parte da narrativa, afinal o vilão age à noite, à meia-luz.

À Meia-Luz nasceu no teatro, em Londres, em 1938, e logo foi parar na Broadway com enorme sucesso. O primeiro filme, de 1940, se encontra com facilidade no YouTube.

Nesta versão, o destaque é o espetacular austríaco Anton Walbrook, que também brilhou em Sapatinhos Vermelhos, com roteiro fiel ao texto teatral e extremamente inteligente.

O sucesso dessa produção inspirou a MGM a comprar os direitos para realizar a versão americana, praticamente suspendendo a circulação do original britânico por muitos anos.

A versão de 1944 faz algumas adaptações da história, mas mantém a premissa original. Alguns consideram a melhor e devo concordar com sua superioridade, especialmente de Ingrid Bergman, brilhantemente frágil em um papel muito difícil.

À Meia-Luz chegou a ser indicado a oito categorias no Oscar, rendendo o primeiro de Melhor Atriz para Ingrid Bergman. Muitos consideram este um dos melhores filmes de George Cukor, um diretor detalhista que destacou com maior riqueza psicológica o processo sufocante e aterrorizador de manipulação. Tanto que, desde então, se alguém quer desacreditar outra pessoa, se diz que está “gaslighting”.

Vale muito a pena ver ambos os filmes para traçar as comparações, mesmo que fosse uma época em que as mulheres não tivessem voz. Com os dois filmes, entendemos o verdadeiro significado de “don’t gaslight me”, que quer dizer “não me faça parecer louca”. Em tempos de saúde mental, os clássicos ainda nos ensinam muita coisa.

https://www.google.com/amp/s/claudia.abril.com.br/coluna/ana-claudia-paixao-hollywood-cinema-series/filme-a-meia-luz/amp/

Gal Costa – O Amor by Caetano Veloso

Talvez quem sabe um dia
Por uma alameda do zoológico
Ela também chegará

Ela que também amava os animais
Entrará sorridente assim como está
Na foto sobre a mesa

Ela é tão bonita
Ela é tão bonita que na certa
Eles a ressuscitarão

O século trinta vencerá
O coração destroçado já
Pelas mesquinharias

Agora vamos alcançar
Tudo o que não podemos amar na vida
Com o estrelar das noites inumeráveis

Ressuscita-me
Ainda que mais não seja
Por que sou poeta
E ansiava o futuro

Ressuscita-me
Lutando contra as misérias
Do cotidiano
Ressuscita-me por isso

Ressuscita-me
Quero acabar de viver o que me cabe
Minha vida
Para que não mais existam
Amores servis

Ressuscita-me
Para que ninguém mais tenha
De sacrificar-se
Por uma casa, um buraco

Ressuscita-me
Para que a partir de hoje
A partir de hoje
A família se transforme

E o pai seja pelo menos o universo
E a mãe seja no mínimo a Terra
A Terra
A Terra

Gal Costa – Chovendo na Roseira

Ai que tristeza! Eu costumava passar esta música para meus alunos, dentre muitas outras como Samba do Avião. Eu sempre preferia a interpretação dela a de todos os outros e queria que meus alunos a apreciassem como merece. Minhas aulas se tornaram muito melhores graças a esse talento sublime. Perdemos um tesouro inigualável. Tivemos muita sorte de ter vindo nesta terra tão carente de beleza e leveza. Obrigada por tudo e descanse em paz! Sentiremos saudades! Que sua passagem seja suave como as águas de Chovendo na Roseira. Te amarei pra sempre!