Um movimento genuíno pela mudança social

“A guerra é a saúde do Estado”, escreveu em um ensaio clássico o crítico social Randolph Bourne, quando os EUA ingressaram na Primeira Guerra Mundial:


“Ela automaticamente coloca em movimento, em toda a sociedade, aquelas forças irresistíveis pela uniformidade, pela cooperação apaixonada com o governo ao coagir grupos minoritários e indivíduos que não tenham o sentido de rebanho para que obedeçam… Outros valores como a criação artística, o conhecimento, a razão, a beleza, a valorização da vida são instantaneamente e quase por unanimidade sacrificados, e as classes significativas que se constituíram a si mesmas como agentes do Estado não apenas sacrificam esses valores para si, mas se engajam na coerção de todas as outras pessoas para que os sacrifiquem.”

E a intelligentsia estava a serviço das “classes significativas” da sociedade, “treinada no pragmatismo, imensamente pronta para ordens executivas de eventos, lamentavelmente despreparada para a interpretação intelectual ou para o foco idealista nos fins”.

Essas pessoas estão “alinhadas a serviço da técnica de guerra. Parece ter havido uma simpatia peculiar entre a guerra e estes homens. É como se estivessem esperando um pelo outro”.

O papel da intelligentsia técnica na tomada de decisões é predominante nas partes da economia que estão “a serviço da técnica de guerra” e intimamente ligadas ao governo, o que garante sua segurança e crescimento.

Não é de admirar, então, que a intelligentsia técnica, tipicamente, esteja comprometida com o que o sociólogo Barrington Moore, em 1968, chamou de “a solução predatória da reforma de token em casa e do imperialismo contrarrevolucionário no exterior”.

Moore ofereceu o seguinte resumo da “voz predominante dos EUA em casa e no exterior” -uma ideologia que expressa as necessidades da elite socioeconômica americana, que é proposta com várias gradações de sutileza por muitos intelectuais norte-americanos, e que ganha a adesão substancial por parte da maioria que obteve “alguma participação na sociedade afluente”:

“Você pode protestar com palavras o quanto quiser. Há apenas uma condição associada à liberdade que nós gostaríamos muito de encorajar: seus protestos podem ser tão barulhentos quanto possível, desde que continuem a ser ineficazes… Qualquer tentativa de remover seus opressores pela força é uma ameaça à sociedade civilizada e ao processo democrático… Se vocês recorrerem à força, nós vamos, se necessário, tirá-los da face da terra pela resposta comedida que faz chover fogo dos céus”.

Uma sociedade na qual esta é a voz predominante, só pode ser mantida por alguma forma de mobilização nacional, que pode variar em sua extensão desde um compromisso com recursos substanciais até uma verdadeira ameaça de uso da força e violência.

Tendo em conta as realidades da política internacional, esse compromisso pode ser mantido nos Estados Unidos apenas por uma forma de psicose nacional -uma guerra contra um inimigo que aparece em muitos disfarces: o Kremlin burocrata, o camponês asiático, o estudante latino-americano e, sem dúvida, a “guerrilha urbana” em casa.

O intelectual, tradicionalmente, fica preso entre as demandas conflitantes da verdade e do poder. Ele gosta de ver a si mesmo como um homem que procura discernir a verdade, de dizer a verdade como ele a vê e de agir –coletivamente, onde pode, e sozinho, onde deve– para se opor à injustiça e à opressão e ajudar a trazer uma ordem social melhor.

Se ele escolher este caminho, provavelmente será uma criatura solitária, ignorada ou injuriada. Se, por outro lado, usar seu talento em serviço do poder, pode alcançar prestígio e riqueza.

Ele também pode ter sucesso em persuadir a si mesmo –talvez, de vez em quando, de forma justa–  que poderá humanizar o exercício do poder pelas “classes significativas”. Talvez espere se juntar a elas ou até mesmo substituí-las no papel da gestão social, no interesse supremo da eficiência e da liberdade.

O intelectual que aspira a esse papel pode usar a retórica do socialismo revolucionário ou da engenharia social para o bem estar social em busca de uma “meritocracia”, na qual o conhecimento e capacidade técnica conferem poder.

Ele pode representar a si mesmo como parte de uma “vanguarda revolucionária”, abrindo o caminho para uma nova sociedade, ou como um especialista aplicando “a técnica gradativa” para a gestão de uma sociedade que pode responder aos seus problemas sem mudanças fundamentais.

Para alguns, a escolha talvez dependa de pouco mais do que uma avaliação da força relativa dos diferentes interesses sociais. Não surpreende, então, que os papéis comumente mudem; o estudante radical se torna especialista no combate à insurgência.

Suas reivindicações devem, de qualquer modo, ser vistas com desconfiança: ele está propondo uma ideologia que serve a si própria, de uma “elite meritocrática” que, na frase de Karl Marx (aplicada, neste caso, para a burguesia), define “as condições especiais de sua emancipação [como] as condições gerais através das quais a sociedade moderna pode se salvar”.

O papel de intelectuais e ativistas radicais, então, deve ser o de analisar e avaliar, de tentar persuadir e organizar, mas não de tomar o poder e o governo. Em 1904, Rosa Luxemburgo escreveu: “Historicamente, os erros cometidos por um movimento verdadeiramente revolucionário são infinitamente mais proveitosos do que a infalibilidade do Comitê Central mais inteligente”.

Estas observações são um guia útil para um intelectual radical. Elas também fornecem um antídoto refrescante ao dogmatismo tão típico do discurso à esquerda, com suas certezas áridas e fervor religioso sobre questões que são tão pouco compreendidas -a contrapartida da esquerda autodestrutiva à superficialidade presunçosa dos defensores do status quo que percebem que os seus próprios compromissos ideológicos não passam daquilo que um peixe pode perceber ao nada no mar.

Os pensadores radicais sempre deram como certo, e com toda a razão, que a ação política eficaz que ameaça os interesses sociais arraigados levará a “confrontação” e à repressão. Assim, é um sinal de falência intelectual a esquerda buscar construir “confrontos”; é uma clara indicação de que os esforços para organizar a ação social significativa falharam.

É particularmente censurável a ideia de projetar confrontos de modo a manipular os participantes inconscientes a aceitarem um ponto de vista que não nasce da experiência significativa, da verdadeira compreensão. Isso não é apenas um testemunho à irrelevância política, mas também, precisamente por ser manipuladora e coercitiva, é uma tática adequada apenas para um movimento que visa manter uma forma elitista e autoritária de organização.

As oportunidades para os intelectuais tomarem parte de um verdadeiro movimento de mudança social são muitas e variadas, e eu acho que certos princípios gerais estão claros. Os intelectuais devem estar dispostos a enfrentar os fatos e absterem-se de erigir fantasias convenientes.

Eles devem estar dispostos a realizar o trabalho intelectual árduo e sério que é necessário para uma real contribuição para o entendimento. Eles devem evitar a tentação de se unirem a uma elite repressiva e devem ajudar a criar a política de massa que vai neutralizar -e, por fim, controlar e substituir- as fortes tendências de centralização e autoritarismo que estão profundamente enraizadas, mas não são inescapáveis.

Eles devem estar preparados para enfrentar a repressão e para agir em defesa dos valores que professam. Em uma sociedade industrial avançada, existem muitas possibilidades para a participação popular ativa no controle de grandes instituições e na reconstrução da vida social.

Até certo ponto, podemos criar o futuro, em vez de meramente observar o fluxo de eventos. Dados os riscos, seria criminoso deixar passar oportunidades reais inexploradas.

Tradutor: Deborah Weinberg.

 

~ por Thaís de Godoy em 17 mar 2015.

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