Epônimos Divinos

Caesar van Everdingen - Four Muses and Pegasus on Parnassus - 1650
Caesar van Everdingen – Four Muses and Pegasus on Parnassus – 1650

Num insondável labirinto auricular, perdi minha língua

E em minha hélice deitaram-se doces palavras

A turbilhonar, mesmo quando as proferia sem pretensão.

 

Fui mortalmente ferida pelas oscilações de seu arco do cupido.

Escalar meu monte para em seguida se atolar

Em minhas covinhas de Vênus foi mais nefasto

Que me ferir o calcanhar de Aquiles.

 

De seu singelo céu da boca brotam,

Como de grutas escoiceadas, as águas da vida,

Aonde todas as ninfas vêm se banhar,

Nas horas quentes do dia.

 

Não me transformou em pedra por estarem

Abertas minhas meninas-dos-olhos

E, finalmente, atravessou triunfante o arco de minhas sobrancelhas.

Hilas e as Ninfas, de John William Waterhouse (1896)
Hilas e as Ninfas, de John William Waterhouse (1896)

Esta noite ainda não acabou

O espectro da moça esmagada

Não me persegue mais.

Agora é você, meu fantasma,

A me obsedar o sono.

“O Remorso de Orestes” de William Adolphe Bouguereau (1825-1905)

 

 

 

É o resquício da ira,

São as Fúrias a corroer meu crânio.

Das paixões todas

Essa é a mais voraz.

Seu fogo custa a se esgotar.

Mas como entender

que em um mesmo peito

possa se abrigar

Esse rancor e um amor verdadeiro?

24-10-2012