Pico do Jaraguá

Assim fala a lenda:

Quando as bandeiras balançavam rumo ao sertão,

Mulheres subiam ao cume

Dos joelhos do gigante adormecido

Para, de lá, despedirem-se de seus amados, brandindo lençóis,

Até que eles sumissem de suas vistas no horizonte.

 

Esperançosas de avistá-los ao longe,

Ali, elas regressavam sucessivamente,

Para dispor-se a receber cada qual seu sertanista,

Se um dia eles voltassem ao Planalto Paulista.

 

Até hoje,  porém, sobre a barriga e os joelhos do monstro,

Os lençóis surgem, em forma de nuvens que choram,

Porque as esposas e filhas e irmãs vêm ali lamentar

Eternamente a saudade dos que não puderam regressar.

Godoy. Jacareí, 03-01-2013

 

 

"Jaraguá" gravura de Evandro Carlos Jardim
“Jaraguá” gravura de Evandro Carlos Jardim

Quando eu morrer – Pauliceia Desvairada

 

English: Brazilian poet Mário de Andrade (far ...
Brazilian poet Mário de Andrade (far left) during his travel through Amazon rainforest, 1927.

 

 

Mario de Andrade

Quando eu morrer quero ficar,
Não contem aos meus inimigos,
Sepultado em minha cidade,
Saudade.

Meus pés enterrem na rua Aurora,
No Paissandu deixem meu sexo,

 

Na Lopes Chaves a cabeça
Esqueçam.

No Pátio do Colégio afundem
O meu coração paulistano:
Um coração vivo e um defunto
Bem juntos.

Escondam no Correio o ouvido
Direito, o esquerdo nos Telégrafos,
Quero saber da vida alheia,
Sereia.

O nariz guardem nos rosais,
A língua no alto do Ipiranga
Para cantar a liberdade.
Saudade…

Os olhos lá no Jaraguá
Assistirão ao que há de vir,
O joelho na Universidade,
Saudade…

As mãos atirem por aí,
Que desvivam como viveram,
As tripas atirem pro Diabo,
Que o espírito será de Deus.
Adeus.

Pico do Jaraguá, São Paulo, capital.