Fascismo e nazismo são de extrema direita

Por Carlos Marchi

Vamos resolver essa parada?

O fascismo foi estruturado na França pela “Action Française”, dirigida por Charles Maurras. Mas um sólido vínculo religioso impediu sua aceitação pelo povo.

A estruturação que deu certo nasceu com Benito Mussolini. Sua base doutrinária ironizava a filosofia; acreditava na ação e na violência. Procurou atrair os desempregados e fracassados na vida, iscas fáceis de discursos populistas.

Mussolini escreveu: “A ação enterrou a filosofia.” Isso era aceitável para criar uma contraposição radical ao comunismo, que se instalara na URSS e avançava na Europa.

Foi Mussolini quem criou a expressão “fascismo”. Vinha de fascio (feixe), machados usados pelos funcionários que precediam os senadores romanos e que simbolizavam a decapitação dos adversários.

Para estruturar o fascismo ele buscou ideias no campo do socialismo, de onde vinha. Mussolini dirigiu o jornal socialista “Lotta di Classe” até 1910.

A doutrina fascista indicava uma clara oposição ao socialismo. Mussolini escreveu: “Negar o bolchevismo é necessário, mas [para isso] é preciso afirmar qualquer coisa.”

Ele qualificou: dizia que a tarefa dos fascistas se resumia a uma coisa – a luta entre a nação e a antinação (a antinação eram os socialistas, é claro).

Ele precisava alcançar dois objetivos: manipular as massas populares e garantir o financiamento da imensa máquina de propaganda que iria criar (foi pioneiro no uso do rádio).

Operava com a demagogia, é claro. Consolidou os conceitos populistas, lisonjeando o “povo”, em contraposição às “massas” socialistas.

Viajava muito de avião e impôs a regra do discurso político enérgico e violento, o que era absorvido pelo “povo”.

Seu programa era a truculência para com os adversários. Sua marca principal era uma ojeriza pelas ideias liberais (na verdade, ele “tomou” o capitalismo dos liberais).

A partir do fim da Primeira Guerra, passou a receber apoio dos maiores grupos financeiros e industriais da Itália, que tinham ganho muito dinheiro com a guerra.

O apoio veio porque ele sinalizou com o fortalecimento da implantação do capitalismo monopolista.

Seu governo favoreceu tremendamente a concentração do capital nos grandes conglomerados.

E Hitler? Mussolini chegou ao poder em 1922; Hitler só chegaria em 1933.

Quem colou a expressão “socialistas” ao Partido Operário Alemão foi Hitler, com a ideia de antepor um socialismo “nacionalista” ao socialismo “internacionalista”.

Mas não havia nenhum conceito socialista nas ideias que, ademais, importou da Itália e adaptou na Alemanha.

O Partido Operário Alemão fora fundado em 1919, por Anton Drexler. Hitler o conheceu quando foi a uma reunião como espião do exército.

Acabou aderindo a ele e em 1920 assumiu a propaganda, mudando o nome para Partido Operário Alemão Nacional-Socialista.

Na época, os socialistas eram apelidados de “sozi” (de Sozialistische). Pra facilitar, começaram a chamar os Nacionais Socialistas de “nazi” (de National-Sozialistische).

Como se vê, o Partido Nazista foi estruturado como OPOSIÇÃO ao Partido Socialista. E oferecia suas ideias truculentas para favorecer a concentração do grande capital, não para “libertar as massas oprimidas”.

Mas a diferença crucial está na propriedade dos meios de produção – para os socialistas, o operariado (na prática, o Estado); para os fascistas, os grandes conglomerados privados.

Não há nada mais antagônico, pois, do que socialistas e fascistas, linhas de pensamento situados a 180º um do outro.

O resto da história a gente conhece bem.

 

O grande equívoco de Jorge Luis Borges

Videla, Borges y Sábato - 1
Ditador Videla, Borges e Sábato, em um almoço em 1976, onde os convidados teriam expressado sua preocupação com escritores presos ou desaparecidos. Em 2012, Videla admitiu que foi responsável pela morte de 8000 pessoas.

É difícil imaginar o autor argentino como um rebelde, já que o senso comum acredita que ele era apenas um homem em sua biblioteca, um dândi alheio à política, em sua torre de marfim. Ele próprio dizia-se avesso à política e autodefiniu-se como um anarquista conservador.

Contudo, sua vida e suas escolhas polêmicas dizem o oposto. Borges foi diretor da Biblioteca Nacional entre 1955 e 1972. Por ser anti-peronista radical, o escritor foi demitido de seu cargo quando Perón assumiu seu terceiro mandato. Assim, os mais de 1000 livros doados de sua biblioteca pessoal para a Biblioteca Nacional foram “esquecidos” pelos funcionários peronistas e ficaram encaixotados por mais de 30 anos. Recentemente, uma busca tem revelado que outros livros foram doados por ele,  mas omitiram a identidade do doador. O autor “alienado” foi perseguido por suas posições políticas.

Borges tinha horror ao nazismo e às consequências da Segunda Grande Guerra. O guarda-costas de Evita Perón,  Otto Skorzeny havia sido o preferido de Hitler e de Mussolini. Otto auxiliou a fuga de vários nazistas para a Argentina com auxílio de Perón. Borges foi um forte opositor aos nazistas radicados na argentina que representavam, para ele, um perigo gravíssimo à comunidade judaica local. Por isso, Borges posicionou-se desastradamente a favor da ditadura na Argentina, acreditando que na época era a única alternativa ao peronismo. Além disso as perseguições, que sofreu por manifestar suas posições políticas em voz alta, causou uma ruptura irreconciliável com o governante populista.

Um almoço com o ditador Videla é o momento mais assustador de sua biografia, mas teria ele aprendido que a rebeldia não lhe valeria nada, apenas o desemprego? Condescendeu para não ter que fugir como outros escritores e poder escrever sem o bafo da censura em seu cangote? Foi ingênuo acreditando que dos males aquela Ditadura seria o menor? Ou foi arrivista? Enfim, só podemos constatar que a sociedade argentina não conseguiu pegar uma terceira via, criar opções políticas democráticas também por questões externas: o braço dos EUA e seu projeto para a América Latina.

No fim de sua vida, perguntaram-lhe que mensagem deixaria aos jovens, ele respondeu o seguinte: “Eu não soube administrar minha vida, então não posso dirigir a vida dos outros. Minha vida foi uma série de equívocos. Não posso dar conselhos. Ando um pouco à deriva. Quando penso no meu passado, sinto vergonha. Eu não transmito mensagens, os políticos transmitem mensagens.”

Sentiremos vergonha?

Contudo, a mensagem que podemos aprender desse terrível equívoco borgeano é o seguinte: no Brasil o ódio a certo partido político, tido como “populista”, pode nos levar ao pior dos pesadelos, já que temos assistido ao crescimento de um candidato com posicionamentos radicais, muito similares aos dos nazistas. Em seus comícios, tal candidato afirma que tornará o Brasil um país unicamente cristão e expulsará as minorias; Hitler também tentou eliminar todos os judeus ou qualquer um que fosse diferente do alemão típico, se é que isso existe. Este é Jair Bolsonaro que confessou ter recebido 200 milhões de reais em propina da JBS (dona da Friboi), além de ter planejado atentado contra o seu próprio quartel para falsamente acusar comunistas, na época em que era militar. Por isso foi expulso da corporação.

Teremos, então, uma teocracia, onde não  existirá mais o direito de professar sua fé livremente. Tal direito só pode ser defendido por um Estado laico que deveria proteger todas as religiões igualmente, inclusive o direito de não professar fé alguma. Nossa democracia, já rudimentar, está seriamente ameaçada, visto que a bancada evangélica ganha cada vez mais força, apelando para um pânico moralista ao invés de se ater às questões de interesse público que visem o bem comum. Corremos inocentemente para o abismo fazendo piadas, subestimando um homem perigoso, sem perceber que não há apanhadores no campo de centeio.

 

Godoy