Querem acabar com o Programa Bolsa Família

Cuidado com o que deseja!

Ao pedir o fim do Programa Bolsa Família, empresários podem estar cometendo suicídio financeiro. Se o Governo acabar com esse Programa, vai tirar de circulação da economia R$ 27 bilhões, aí teríamos um efeito dominó de falências em todos os setores porque 14 milhões de pessoas consumiriam ainda menos, desaquecendo ainda mais a economia. Essa “compensação” para baixíssimos salários ou desemprego e “prêmio” para quem leva o filho à escola equivale só a 0,5% do PIB, em média R$ 190,00 por família (não por filho como se diz por aí*). As consequências são claras: uma “horda” de crianças famintas viria bater à porta dos ricos pedindo esmolas ao invés de ir para a escola, ou ingressariam no mercado de trabalho (talvez esse seja o plano), ou no do crime, o que é mais provável já que um aviãozinho pode ganhar até R$ 800,oo por semana. Por isso tudo, tenha cuidado! Os únicos argumentos que convencem as pessoas são os que afetam seus próprios interesses!

Scrooge
Túmulo de “Ebenezer Scrooge: Miserável (pão duro), morreu como viveu, odiado e sozinho” no livro Um conto de Natal do escritor Charles Dickens

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*As pessoas que não procuram se informar dizem que o PBF estimula a família a ter mais filhos para aumentar o benefício, no entanto o IBGE verificou que a taxa de natalidade, que em 1960 era de 6 filhos por mulher, diminuiu para 2 em 2010.

O cabresto da imprensa – Globo recebeu 6 bilhões do Governo Federal

Os rastignacs¹ do século XXI

O Governo Federal gastou R$ 13,9 bilhões com publicidade nas emissoras de televisão nos últimos 12 anos. Só a Rede Globo recebeu R$ 6 bilhões. No governo de Fernando Henrique Cardoso, a Globo recebia 49% do total destinado a publicidade, mas atualmente recebe apenas 36%:  R$ 452 milhões no último ano. Isso tudo só na televisão, sem contar os sites, as afiliadas, jornais e revistas impressas e virtuais.

Outras empresas também recebem, mas muito menos: a Veja, por exemplo, recebeu R$ 700 milhões.

Aí então né, vem uns “diogos mainardis da vida” dizer que não dependem de dinheiro público, atacando os outros de “mamar nas tetas do governo” (chavão vulgar e agressivo no estilo provinciano que eles estão tão acostumados a usar).

Esses diogos, pois há vários, têm o cinismo de dizer que são contra a intervenção do Governo na economia, a favor do livre mercado, do Estado mínimo, mas aceitam trabalhar num jornal que engorda sua receita com dinheiro público, que deveria ser usado em hospitais, escolas, segurança.

Agora entendo o porquê de vocês bajularem FHC: ele pagava muito mais (proporcionalmente falando) do que o atual governo para completar a receita da emissora onde os mainardis, rastignacs do século XXI, trabalham.

Quando o Sr. Diogo Mainardi ofendeu os nordestinos, chamando-os de bovinos, ignorantes, atrasados e que o voto deles era comprado com dinheiro público, o chamado voto de cabresto, eu tentei justificá-lo dizendo que ele havia se expressado mal num rompante momentâneo de ódio contra o resultado das urnas: a Dilma havia ganhado. Justifiquei sua atitude imaginando que talvez ele quisesse se referir apenas aos políticos nordestinos que abusavam assim do povo mais humilde.

Na verdade, esse Nordeste, que Diogo não visita há muito tempo porque teve de fugir da justiça brasileira para a Itália, mudou. Muitas empresas se mudaram para lá; a indústria automobilística, por exemplo. Muitas Universidades Federais foram construídas (no Brasil todo 18), vinícolas, resorts etc. O Programa Bolsa Família tirou milhões de crianças das ruas e levou-as às escolas, porque essa é a condição para recebê-lo. Então o cabresto está sendo retirado aos poucos conforme o nível socio-econômico aumenta. Muitas dessas crianças aprenderão a ler e um dia encontrarão na internet referências a nordestinos para algum trabalho escolar e encontrarão seu discurso raivoso e terão certeza de uma coisa: o partido que Diogo Mainardi apoiar não será o nosso, não nos representa.

Esses diogos, assim como Eugène de Rastignac, nunca pertencerão à nata europeia, nunca; serão sempre, para alguns europeus sofisticados e elitistas, um cidadão de segunda classe, um bronco, um imigrante, um refugiado, um provinciano. Assim, eu recomendo  que  ele aprenda a falar direito com as pessoas, com bons modos e bom humor. Recomendo que ele faça as pazes com os brasileiros!

Agora tenho a convicção de que precisamos tirar o cabresto da imprensa nacional.

Abaixo propagandas do Governo na imprensa privada!

Pelo fim da “Estatização” da imprensa!

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1- Eugène de Rastignac é um personagem do livro O pai Goriot do escritor francês Honoré de Balzac. Rastignac, em seu sentido comum, significa também arrivista, ambicioso que quer subir na vida a qualquer preço e pertencer a elite, que inveja. O personagem, vindo do interior, chega a Paris do século XIX disposto a vencer. Para isso segue os conselhos de Vautrin, um criminoso perigoso, que conhece na pensão onde moram. Este o aconselha a se aliar a mulheres nobres ricas a fim de obter favores de seus maridos e trama um plano para Rastignac se casar com uma rica herdeira, assassinando o irmão dela.

O Brasil pode dar certo? – Renato Janine Ribeiro

Valor Econômico – 30/12/2013

Nenhum inglês rico completava a educação, nos séculos XVII e XVIII, sem o “Grand Tour”, uma longa viagem ao continente europeu para conhecer cidades e artes. (O mais ilustre dos preceptores desses moços foi o filósofo Thomas Hobbes, que assim conheceu René Descartes.). Seria bom, hoje que a Europa está ao alcance da classe média, que nossos jovens a visitassem para aprender o que é uma realidade socialmente justa. Ao menos no núcleo duro da Europa Ocidental – França, Alemanha, Benelux, Escandinávia – uma cultura basicamente socialdemocrata se implantou após a Segunda Guerra e ainda resiste, formando um modelo de sociedade até hoje insuperado, superior ao nosso e ao norte-americano.

Levantei no Facebook a questão que considero a mais relevante para o Brasil: por que países devastados, como a Alemanha de 1945, ou atrasados, como a Espanha de 1975, conseguiram “dar certo” – e nós não? As respostas racharam. Em geral, quem se situa à “esquerda” protestou contra a ideia de “dar certo”, sustentando que nem os europeus vão bem nem nós, tão mal. Já quem se diz liberal receitou reformas econômicas, como a desregulamentação da atividade empresarial (o exemplo mais comum). Entendo que essas são duas formas de não responder à pergunta mais importante sobre a sociedade brasileira.
Começo discutindo as reações mais à esquerda.

Ética e gestão, os dois pilares da boa política
 

Primeiro, o que é uma sociedade “dar certo”? Entendo:

1) um sistema de saúde eficiente e justo. Eficiente: que todos sejam atendidos bem, em prazo razoável, pelo menos para a maioria esmagadora das moléstias. Justo: ninguém receie que uma doença possa destruir sua renda ou patrimônio; a sociedade, pelo imposto (em especial, o de renda da pessoa física), cobrirá os gastos de saúde. Imaginem como esse ganho em termos de saúde melhorará as aposentadorias. Ninguém precisará passar a vida acumulando para o dia em que pagará 2 mil reais de plano de saúde, mil de remédios e ainda consultas e cirurgias.

2) uma educação de qualidade, gratuita ou quase. A importância inédita que a sociedade contemporânea atribui à educação tem duas grandes metas. Primeira: proporcionar, a todos, condições de concorrer em certa igualdade, neutralizando o bônus que a riqueza confere a alguns (e o bônus negativo que a pobreza inflige à maioria). Segunda: deixar que aflorem as mais variadas competências. Nunca houve sociedade rica e complexa como a atual. Ela precisa de competências mais variadas do que sociedades que só repetiam o passado. Hoje há mais espaço para cada um seguir sua vocação. Uma educação boa realiza vocacionalmente o indivíduo e capacita-o, se mostrar dedicação e empenho, a se projetar economicamente.

3) um transporte público bom, em grande parte – pelo menos nas maiores cidades – sobre trilhos. Na Grande Paris, mesmo no horário de pico dificilmente se gasta mais de uma hora e quinze para ir de uma ponta dos subúrbios a outra – com ou sem acidentes na rota. O transporte coletivo deve ser subsidiado, porque traz vantagens para a cidade, preservando-a da destruição operada por carros e avenidas. O Brasil é perverso: subsidia o carro privado, com isenção de impostos e construção de vias; por que não o transporte coletivo, que é mais saudável?

4) uma segurança pública decente, com policiais que respeitem o cidadão em vez de ameaçá-lo, e sejam dispostos e capacitados a apurar crimes.

Todos estes pontos associam ética e eficiência, valores e gestão. Todos tratam do que é mais justo socialmente, e do que é mais eficaz, virtude esta que geralmente associamos à economia e à administração. A fusão da ética com a eficiência é o segredo – que aguardamos – da boa governança.

Poderia falar da cultura, que aprimora qualidades humanas e capacidades profissionais, e das cadeias, que em vez de educar para o crime deveriam recuperar os detentos (como nas prisões rurais autogeridas de Minas Gerais, tema de recente reportagem do Valor), mas fico no “minimum minimorum”. No Brasil, já seria uma revolução.

Esta satisfação das necessidades dá à Europa uma tranquilidade no convívio cotidiano. Se no Brasil as pessoas furam fila e passam pelo acostamento, em parte é pela crença de que “não vai haver o suficiente para todos”: precisamos garantir o nosso, antes que a oferta se esgote. Mas, quando há bastante para todos, isso não é necessário. A vida fica melhor. O valor disso não tem preço.

Por isso, estranhei tanta gente que se diz de esquerda fechar os olhos ao desastre social que é nosso atraso nestes pontos. Os avanços petistas na inclusão social apenas tornam prioritária a construção de uma sociedade social-democrática (pouco a ver com o que propõe nosso partido de nome socialdemocrata). As faixas exclusivas de ônibus recentemente abertas em São Paulo fazem parte dessa mudança, mas que precisa ir além do emergencial – como as cotas, o elogiado Bolsa Família – e se tornar estrutural.

Estes anos, aumentou o dinheiro para os pobres consumirem, mas não houve um salto real nas funções distintivas do poder público. É paradoxal. O partido mais acusado de estatista promoveu um crescimento que beneficiou os pobres, sem tirar dos ricos. Talvez esteja se esgotando essa conciliação de classes. Talvez por isso, os conflitos sociais se tornem ásperos.

Discutirei, na semana que vem, o que a centro-direita propõe para o país dar certo.

***
Na última coluna mencionei Boulez, mas o certo era Olivier Messiaen. Peço desculpas por ter confiado demais em minha memória. Mas me deu prazer receber várias mensagens de leitores apontando o erro. O Brasil conhece melhor a música erudita do que este amador imaginava.

Renato Janine Ribeiro é professor titular de ética e filosofia política na Universidade de São Paulo.E-mail: rjanine@usp.br