Onze sinais do fascismo, segundo Umberto Eco – Outras Palavras

Por Cândido Grzybowski, no site do iBase

Segundo pensador italiano, o culto à tradição; a repulsa ao moderno; o machismo; o racismo; a guerra permanente são típicos do “fascismo eterno”. Ou seja, a ameaça já está implantada entre nós, mesmo que não siga seu nome

CRISE CIVILIZATÓRIA

Publicado 27/02/2019 às 17:47

Atualizado 27/02/2019 às 17:49

Por Cândido Grzybowski, no site do iBase

Tenho refletido e escrito sobre a perda de vitalidade da democracia. Mas acho que agora já entramos num perigoso caminho de desconstrução da democracia, uma ameaça que vem na esteira do golpe do impeachment e se expressa hoje no nosso governo híbrido, civil-militar, com sua agenda antidireitos. Claro, a institucionalidade democrática formal está mantida até aqui, mas algo por dentro vem corroendo os princípios e valores éticos e políticos vitais da democracia: o respeito incondicional da liberdade de ser, pensar e agir, a busca da maior igualdade possível, com direito à diversidade, convivendo em solidariedade coletiva e baseando tudo em ativa participação cidadã. Tais princípios constituem o substrato de qualquer democracia com potencial de transformar contradições e divergências, de potencial destrutivo, em forças construtivas de sociedades mais livres e justas.

Hoje reconheço um vírus implantado em nosso seio que pode acabar com a democracia e nos levar ao fascismo como regime político. Estamos diante de sinais inequívocos de tal vírus no campo de ideias e valores que foram se revelando e se condensaram na vitória eleitoral e nas falas do presidente e de integrantes do governo empossado. A leitura de um discurso de Umberto Eco, de 24 de abril de 1995, na Universidade de Columbia, Nova York, publicado em espanhol por Bitacora, sob o título Los 14 síntomas del fascismo eterno, me inspirou. Segundo Eco, as características típicas do “Ur-Fascismo” ou “fascismo eterno” não se enquadram num sistema, “…mas basta com que uma delas esteja presente para fazer coagular uma nebulosa fascista” (em tradução livre). Vou lembrar aqui apenas alguns dos indícios do eterno fascismo que Eco aponta e que deixo aos leitores desta minha crônica identificar as suas expressões na realidade brasileira.

Culto da tradição – como se toda a verdade já estivesse revelada há muito tempo e o que precisamos é ser fiéis a ela. O tradicionalismo é uma espécie de cartilha na disputa de hegemonia fascista sobre corações e mentes. O pensamento do principal guru dos “donos do poder”, a pregação das igrejas pentecostais e as falas – quando dizem algo – são impregnados de uma veneração da verdade já revelada em escritos sagrados e de valores espirituais mais tradicionais do cristianismo. “Deus, pátria, família e propriedade”, com a força que estão de volta como pregação, não deixam dúvida. Fascismo e fundamentalismo sempre vêm juntos.

Repulsa ao modernismo – que leva a considerar as conquistas humanas em termos de direitos e de emancipação social como perversidades da ordem natural. Nega-se, em consequência, a racionalidade e, com ela, toda a ciência e a tecnologia. Não falta gente com tal forma de pensar no governo e seus seguidores. Para eles, direitos iguais são um absurdo. Mudança climática é uma “invenção de comunistas”. E por aí vai.

Culto da ação pela ação – fazer e agir, acima de tudo. Como diz Eco, para fascistas “pensar é uma forma de castração”. Daí a atitude de suspeita à cultura, pois é vista como algo crítico. Em consequência, todo mundo intelectual é suspeito. Ainda Eco, “O maior empenho dos intelectuais fascistas oficiais consistia em acusar a cultura moderna e a intelligentsia liberal de ter abandonado os valores tradicionais”.

Não aceitação do pensamento crítico – pensar criticamente é fazer distinções e isto é sinal de modernidade, pois o desacordo é base do avanço do conhecimento científico. O fascismo eterno considera a divergência como traição. Deve-se aceitar a verdade da ordem estabelecida. Daí, “escola sem partido”, sem iniciação ao pensamento crítico e a liberdade de expressão e ação.

O racismo na essência – segundo Eco, com medo da diferença, o fascismo a explora e potencializa em nome da busca e da imposição do consenso. Os e as diferentes não são bem vindos. Por isso, o fascismo eterno é essencialmente racista e xenofóbico. Daí a identificar os diferentes como criminosos a linha é reta.

O apelo aos precarizados e frustrados – todos os fascismos históricos fizeram apelo aos grupos sociais que sofrem frustração e se sentem desleixados pela política. As mudanças no mundo do trabalho, promovidas pela globalização econômica e financeira, são terreno fértil para o fascismo.

O nacionalismo como identidade social – nação como lugar de origem, com os seus símbolos. Os e as que não se identificam com isso são inimigos da nação. Portanto, devem ser excluídos. Podem ser os nascidos fora da nação, como os imigrantes, ou por se articularem com forças externas – o tal “comunismo internacional” – ou, ainda, por não se enquadrarem no padrão “normal” de nacionalidade. O nacionalismo vulgar é o cimento agregador de qualquer fascismo.

A vida como guerra permanente – no fascismo, a gente não luta pela vida, liberdade, bem viver, mas vive para lutar. A violência é aceita como regra e a busca de paz uma balela. Vencem os mais fortes, armados. Há um culto pela morte na luta.

O heroísmo como norma – o herói, um ser excepcional, sem medo da morte, está em todas as mitologias. Aqui basta lembrar a exploração feita daquele atentado em Juiz de Fora. O herói vira mito real.

O machismo como espécie de virtude – em sendo difícil a guerra permanente e a demonstração de heroísmo, o fascismo potencializa as relações de poder na questão sexual, segundo Umberto Eco. Aqui também não faltam manifestações de patriarcalismo e machismo, com intolerância com o que é considerado divergente da norma em questões sexuais. Não há lugar para a liberdade de opção sexual e de gênero.

O líder se apresenta como intérprete único da vontade comum – o povo é o seu povo, o seu entendimento do que seja o povo e sua vontade comum. Como diz Eco, estamos diante de um populismo de ficção.

Chamei atenção aqui para indícios de fascismo total apontados por Umberto Eco – não todos, para não ser enfadonho e talvez desvirtuar o que o autor quis dizer – com a preocupação de dar atenção a ideias e imaginários que estão adquirindo legitimidade mobilizadora no nosso seio. Inspirado no atualmente renegado Antônio Gramsci, exatamente pelo emergente fascismo político e cultural, penso que a conquista de hegemonia no sentido de direção intelectual e moral precede o poder do fascismo pela força estatal. Ou seja, a ameaça de fascismo já está implantada entre nós, mesmo se o regime ainda não parece ser fascista.

https://outraspalavras.net/outrasmidias/onze-sinais-do-fascismo-segundo-umberto-eco/

Terrorista fazendo gesto fascista

Driving South – Goth babe

Driving South

Hello?

Can I help you?

Would you take me out there?

Alright

And the time to go out there is now

Darling, don’t you know it’s time for another

Time for another with you?

Don’t you know it’s time for another

Time for another with you?

Lay your heads on the fading light

We’ll sleep ‘til noon and our days are kind

And only for the month of September

We would stay half alive

And only for the trees that stay green

They keep me from losing my mind

Darling, don’t you know it’s time for another

Time for another with you?

Don’t you know it’s time for another

Time for another with you?

I feel the breeze pick up and it’s time

I’ve seen my breath and I know it’s fine (it’s fine)

And only for the month of September

We would stay half alive

And only for the trees that stay green

They keep me from losing my mind

Darling, don’t you know it’s time for another

Time for another with you?

Don’t you know it’s time for another

Time for another with you?

Don’t you know it’s time for another

Time for another with you?

Don’t you know it’s time for another

Time for another with you?

Na lista dos mais vendidos, poeta diz que chave é desmistificar tradição

A trabalho em Campo Grande pela primeira vez, o poeta e youtuber Allan Dias Castro foi convidado para participar da 34ª Noite da Poesia nesta quinta-feira (15). Sucesso nas redes sociais e integrando a lista de livros mais vendidos do País, o escritor reforçou que seu objetivo é desmistificar a criação literária e apoiar quem é visto como “louco” por seguir seus sonhos. – CREDITO: CAMPO GRANDE NEWS

https://www.campograndenews.com.br/lado-b/artes-23-08-2011-08/na-lista-dos-mais-vendidos-poeta-diz-que-chave-e-desmistificar-tradicao

Cinco poemas de Jarid Arraes para o Setembro Amarelo by Mulheres que Escrevem in Medium

https://medium.com/mulheres-que-escrevem/cinco-poemas-de-jarid-arraes-para-o-setembro-amarelo-79941d6d59c3

mão dada

observo as linhas da minha mão
correndo águas
a linha do amor do dinheiro

qual será a linha
da loucura

o rio de traços finos
falhos
tremidos
que revelam a mente sã

ensandecida

qual será a linha da loucura
na palma da minha vida

qual será a veia herdada
vendo a marca infligida

qual será a linha
louca
que corta o rio
da minha mão

da minha mãe
por quem fui
parida

doze horas em trabalho
de partida
só pra nascer
com o carimbo da mão
em linha
enlouquecida

qual será
essa
loucura
costurada
essa linha
desmedida
essa
palma
bordada

eu olho os rios da minha mão
e enlouqueço
calada

alta ajuda

dizem que são necessários
trinta dias
para que um novo hábito
se torne rotina

dizem que o problema
é a gordura que o
açúcar refinado na
verdade que todo
açúcar que as frutas
também
tudo faz mal

e dizem que yoga
e pilates
exposições gatos cães
pássaros livres e
nadar com os golfinhos
não

a natureza se desequilibra
assim como bambeamos
movidos a ansiolíticos
e cafeína

até mesmo os que dizem
que a meditação
os parques as longas
caminhadas na praia
a água de coco o óleo
de macadâmias
as escovas
elétricas e o chás
feitos das ervas
tiradas do chão fazem
bem

até mesmo os que dizem
que todas as religiões
que a tolerância o
ecumenismo as missas
de sétimo dia as velas
os filmes nacionais
os editais o apoio
do governo a importância
dos movimentos sociais

até mesmo
os que dizem que a
indústria o consumo
as leis a punição
até os que sentem
pena

até eles dizem
que trinta dias passam
mas não habituam
a vida
em quem de nada
faz questão
.


Dora

nunca esqueço de Dora
de sua paralisia
sua cegueira
sua oposição transformada
em patologia

como os homens
amam os códigos
que catalogam a loucura
feminina

e distribuem sintomas
por cima dos
hematomas
e taças de sangria

em suas camas
forradas com mentiras
e blocos de papel
onde escrevem cárceres
onde descrevem leitos
onde Dora e eu e todas
nós
devemos deitar
em espera

nunca esqueço do caso
de Dora
da coragem sufocada
por mãos livros
por páginas
escritas por homens
como ele
com números que são
camisolas
à força
e que mais cedo ou
mais tarde
acabamos por vestir

porque em seus blocos
camas poltronas
em seus estetoscópios
eles escutam a rebeldia

porque Dora e eu e todas
nós
nos fazemos
ouvir

duas cadeiras
conte para mim
sobre como tudo anda difícil
e nem a cerveja se paga
e nem a escrita se cria
me conte

sobre os imprevistos
e as curvas fechadas
sobre os livros
abandonados
as exposições vazias
de significado

me fale sobre a rotina
que esmaga
com as palavras que
sempre as mesmas
se usa

e sobre a cidade cinza
os rios espumantes
o quilo de sal
caro
que se come
me conte

sobre as temperaturas
altas e os corações
apáticos
sobre as relações
de supermercado
os produtos
políticos

eu quero ouvir
sobre as pequenas vidas
os pequenos instantes
de vida
que ainda resistem


.

contato

a mente doente
tem traços e partes
de imagens
incompletas
- dizem
e a gestalt pode
ajudar
porém
todos buscamos
a cura rápida
os comprimidos
os laudos
para que sejam
validados
os momentos piores
mais eremíticos

porque todos
estamos
jogados
ao nosso pessoal
veredicto

sentamos em poltronas
cara a cara com o incógnito
e abrimos portas que
libertam
carcaças
serpentes
formigas
na boca

somos ouvidos
e punhos suados
trocamos os olhos
pela voz embargada

não você
não queria
você não
estaria ali
se não fosse
esse buraco
bem no meio
chamativo

não se preenche
morte com
vida
e talvez não
exista conteúdo
para a mente
evacuada

mas tente sentar
responder sobre pais
divórcios sobre aquele
tio que tocou
ali onde se partiram
as louças

tente juntar as imagens
infantilmente

foi aqui
aponte onde
- nessa boneca loira
aqui aqui

segura nas cordas
vocais a vontade
de correr
a tentação carnal
de abandonar-se
...

somos ouvidos

com os punhos suados
mas nossos punhos
escrevem a verdade
do mundo
a beleza civilizatória

há ainda um pouco
que segura o peso
você pode dormir
e jogar
com os pesadelos

mas levante-se
deixe os olhos pousarem
as pernas vão chacoalhar
mas um dia
cara a cara
com um ser familiar
os tendões terão descanso

tudo será outra coisa
nada novo
mas outra estrutura

uma casa com aldavras
vedada aos tios
limpa de estilhaços
um chão onde esticar
a coluna — chorar

e isso será mais
do que fora

e isso será o mais
próximo
da cura


Jarid Arraes

Nascida em Juazeiro do Norte, na região do Cariri (CE), em 12 de Fevereiro de 1991, Jarid Arraes é escritora, cordelista, poeta e autora dos livros “Um buraco com meu nome“, “As Lendas de Dandara” e “Heroínas Negras Brasileiras“. Curadora do selo literário Ferina, atualmente vive em São Paulo (SP), onde criou o Clube da Escrita Para Mulheres. Até o momento, tem mais de 60 títulos publicados em Literatura de Cordel.

Estes poemas, publicados na Mulheres que escrevem, foram escolhidos pela escritora, cordelista e poeta, Jarid Arraes, para não nos esquecermos do significado do Setembro Amarelo, mês que marca a campanha brasileira de prevenção ao suicídio, iniciada em 2015 em Brasília. É uma iniciativa do Centro de Valorização da Vida, do Conselho Federal de Medicina e da Associação Brasileira de Psiquiatria. Acreditamos que a escrita e a literatura têm um papel fundamental na conscientização e debate de questões tão importantes como esta. Caso precise de ajuda, não hesite, ligue para a CVV (188) ou procure a ajuda especializada. A saúde mental é um assunto sério e deve ser tratada com respeito e atenção. Agradecemos imensamente à Jarid Arraes por sempre abordar este tema com cuidado e seriedade.

Leia mais poemas, ensaios e entrevistas com a autora aqui:
Mulheres que Escrevem entrevista Jarid Arraes
"Eu quero que a gente olhe para essa feiura. Isso é sobre nós"
medium.com

Três poemas de Jarid Arraes
nós choramos, loucas de primeira viagem
medium.com

Uma mulher negra escrevendo em busca de casa
Resgatando um conti



20 de Novembro


Autor: Lucas Vieira Aurélio / Bocaina Experience


No Vale Histórico
Quem é lembrado?
O sinhô
Ou o escravizado?
Viva quem chibatou
Ou o chibatado?
Quem comprou eu sei
E quem foi comprado?
"Um casarão de rei!"
Feito em suor sangrado
Sangue negro sagrado
Sabor? Amargo
Famílias findadas
Amistad lotado
Hoje: "vá embora"
Ontem: "venha forçado"
Angola, Benguela, Monjolo
Criança, homem, moça
Congo, Cabinda, Rebolo
Todos vindo à força
Onde cativeiro é lucro
Sincretismo é fé
Miscigenação? Estupro
Tudo pelo café
Séculos de labor
Muita dor, sem ser pago
E se a Lei Feijó vingar
cruze os negros como gado
Os últimos a abolir
E de uma maneira torta
No país da Lei de Terras
A Lei Áurea nasce morta.
"Livre" só de bens
De herança o racismo
Equidade é preciso
Igualdade é cinismo
Samba, comida e festa
Cultura negra pro mundo
"Me dá uma ajuda, sinhô"
"Vai trabalhar, vagabundo"
Onde preconceito é piada
Falta uma que diz:
O que é o que é um pontinho preto na fazenda?
É um negro sustentando o país. ✊🏾

#20denovembro #consciencianegra #zumbi #valehistorico #turismo #bocainaexperience #BXp #bocainaxp #africa #brasil #sjb #sjbarreiro

Olhos caramelo

Por trás de seus olhos caramelo,
Eu vislumbrei o segredo do mundo
Devia dar as costas e fugir
Do esplendor sinistro.
Como despertar para uma verdade insuportável?
Negando, negando, negando
Como fez aquele discípulo...

O coração da treva nos cega.

Mas a doçura desses olhos derreteu meu medo
Como um canto irresistível que arrasta àquele abismo onde toda esperança é abandonada no umbral das almas.

Então, compreendi ao menos um enigma: antes ser arrastado pelo turbilhão dos tempos
A parar impassível observando os ventos.

AMOR – POIS QUE É PALAVRA ESSENCIAL

Carlos Drummond de Andrade

Amor – pois que é palavra essencial
comece esta canção e toda a envolva.
Amor guie o meu verso, e enquanto o guia,
reúna alma e desejo, membro e vulva.

Quem ousará dizer que ele é só alma?
Quem não sente no corpo a alma expandir-se
até desabrochar em puro grito
de orgasmo, num instante de infinito?

O corpo noutro corpo entrelaçado,
fundido, dissolvido, volta à origem
dos seres, que Platão viu completados:
é um, perfeito em dois; são dois em um.

Integração na cama ou já no cosmo?
Onde termina o quarto e chega aos astros?
Que força em nossos flancos nos transporta
a essa extrema região, etérea, eterna?

Ao delicioso toque do clitóris,
já tudo se transforma, num relâmpago.
Em pequenino ponto desse corpo,
a fonte, o fogo, o mel se concentraram.

Trindade

De volta à Trindade

Trirreme
Triatleta
Tricampeão
Tricolor
Trigueiro

Tripudiando
Santíssima Trindade
O pai
O filho
O espírito

Tridentes
A mãe
A filha
A carne

Tribunal

De volta à Trindade
Trindade
Trindade
Trindade

Para uma jovem amiga que tentou se suicidar

Claudio Bertoni


Eu gostaria de ser um ninho se você fosse um passarinho
Eu gostaria de ser um lenço se você fosse um pescoço e estivesse com frio
Se você fosse música,
eu seria uma orelha
Se você fosse água,
eu seria um copo
Se você fosse a luz,
eu seria um olho
Se você fosse um pé,
eu seria uma meia
Se você fosse o mar,
eu seria uma praia
E se você ainda fosse o mar,
eu seria um peixe,
e nadaria em você
E se você fosse o mar,
eu seria sal
E se eu fosse sal,
você seria alface,
um abacate ou, pelo menos, um ovo frito
E se você fosse um ovo frito,
eu seria um pedaço de pão
E se eu fosse um pedaço de pão,
você seria manteiga ou geleia
Se você fosse geleia,
eu seria o pêssego na geleia
Se eu fosse um pêssego,
você seria uma árvore
E se você fosse uma árvore,
eu seria sua seiva
e correria em seus braços
como sangue
E se eu fosse sangue,
viveria em seu coração.

Silêncio no Pacaembu

Já doente, Lobato não pôde comparecer ao comício do Pacaembu, em 15 de julho de 1945, que homenageou Prestes. Mas fez, de sua residência, por telefone, uma saudação ao líder comunista. Quando sua fala foi anunciada, pediu-se silêncio máximo. A voz grave do escritor foi ouvida no mais absoluto silêncio:

Tenho como dever saudar Luis Carlos Prestes porque sinceramente vejo nele uma grande esperança para o Brasil. Vejo nele um homem nitidamente marcado pelo destino. Vejo nele o único dos nossos homens que pelos seus atos e pelo amor ao próximo conseguiu elevar-se à altura de símbolo. Símbolo de quê? De uma mudança social. A nossa ordem social é um enorme canteiro em que as classes privilegiadas são as flores, e a imensa massa da maioria é apenas o esterco que engorda essas flores. Esterco doloroso e gemebundo. Nasci na classe privilegiada e nela vivi até hoje, mas o que vi de miséria silenciosa nos campos e cidades me força a repudiar uma ordem social que está contente com isso e arma-se até com armas celestes contra qualquer mudança. A nossa ordem social me é pessoalmente muito agradável, mas eu penso em mim mesmo se acaso houvesse nascido esterco. Essa visão da realidade brasileira sempre me preocupou e sempre me estragou a vida. Nada mais lógico, pois, do que meu grande interesse pelo homem que não conheço, mas acompanho desde os tempos em que um punhado de loucos lutava contra todo o poder do governo. E lutava por quê? Com que fim? Pela conquista do poder? Fácil seria isso, como foi para os companheiros que desandaram. Prestes não lutava por. Lutava contra. Contra quê? Contra a nossa ordem social tão conformada com o sistema do mundo dividido em flores e esterco. E pelo fato de sonhar com a grande mudança foi condenado a trinta anos de prisão, como pelo fato de sonhar um sonho semelhante, Jesus foi condenado a morrer na tortura. Os acontecimentos do mundo vieram libertar o nosso homem-símbolo e ei-lo hoje na mais alta posição a que um homem pode erguer-se em um país. Ei-lo na posição de força de amanhã. Na posição do homem que fatalmente será elevado ao poder e lá agirá para que o regime de flores e esterco se transforme em algo mais equitativo e humano.

Que ave é esta?

Ontem, estava passeando pelo meu bairro com o Léo, meu cachorro e, de repente, me assustei ao me deparar com uma ave imensa comendo lixo de uma vizinha. Tal imagem me pareceu surreal, apesar de estar cada vez mais comum avistar tucanos, corujas e cobras por aqui.

Esse é o sinal mais explícito de que estamos invadindo mais e mais os espaços dessas espécies, por isso elas são obrigadas a se adaptar às regiões urbanas. Gestos simples, como colocar o lixo nos dias em que o caminhão de coleta passa, evitam a intoxicação de animais com nossos detritos. Mas a maioria das pessoas está c. e andando pra isso.

Fiquei intrigada para desvendar qual seria sua espécie. Parecia um gavião ou uma águia muito imponente. Ela ficou rondando o bairro até pousar numa palmeira imperial de porte igualmente majestoso e ficou observando das alturas nossa extasiada pequenês atravessando as ruas de um domingo sossegado.

Descobri que a ave é um carcará, aquele da música “carcará, pega, mata e come” que inspirava medo aos retirantes da seca no sertão. Hoje, é esse parente dos falcões que deveria nos temer.

Que São Francisco de Assis (se realmente tiver tal poder) te abençoe e te proteja de todos nós!