Destaque

Abismos

Ser o que vocês sonharam para nós
Está nos rasgando em pequenos pedaços.
E em nossa estrada, em cada curva se estendem
As cruzes de seu passado mal resolvido,
Até onde nosso olhar alcança …

Tentar nos esquivar do inevitável,
Está nos dilacerando membro por membro…

Oh criador, contemple suas criaturas
Perceba nossa imobilidade por coisas vazias
Somos assépticos
Somos ascetas
¬- Assim nada, nada pode dar errado!

Recolhemos nossos sorrisos barulhentos
Para evitar tantas ameaças à nossa pureza!
Nós nos deitamos num altar de sacrifícios
Pela nossa e por todas as gerações anteriores a nós.
Vocês precisaram dessa hecatombe
E nós aceitamos por nossa bondade.

Vivemos nas montanhas…
É o preço a pagar por nossa limpeza.
Permanecemos nas rochas inacessíveis
Aonde ainda podemos morar sem cair nos abismos.
Lá embaixo um oceano nos observa e espera…

24

Destaque

Consciência

Você já leu A elite do atraso? É fundamental para entender as verdadeiras raízes do Brasil. Nesse livro, Jessé de Souza analisa a sociedade brasileira e afirma que a esquerda foi sequestrada pela direita por causa da análise de sociólogos, como Sérgio Buarque de Holanda, do conceito de paternalismo e patrimonialismo como elementos fundadores de nossa sociedade, o que seria a herança de uma tradição ibérica. Para ele, essa visão é uma distração do que verdadeiramente nos define: nossa história escravocrata e a corrupção da elite econômica.

Ao dar principal destaque à corrupção do Estado, que trata a coisa pública como privada, Buarque responsabilizou apenas os políticos pela corrupção; deixou, assim, a elite econômica oculta e desviou a atenção para o grupo político, que na verdade fica com a menor fatia dos recursos desviados: quem lucra muito mais com a corrupção é uma elite econômica, que tem imposto, desde o período colonial, à sociedade brasileira seus interesses particulares acima do bem comum.

Ao contrário de outros países, onde a elite se mostra um pouco mais solidária, um pouco mais generosa, menos gananciosa e predatória, a elite brasileira continua, através do seu desprezo aos pobres e negros, tentando justificar a perseguição, destruição, matança, encarceramento e desrespeito à qualquer direito que eles possam vir a reivindicar. Esse menosprezo aos menos favorecidos foi disseminado pelo falso análise de que a corrupção do pobre é semelhante a dos políticos, cunhando-se termos pejorativos como “jeitinho brasileiro”, malandragem, brasileiro preguiçoso ( porque o sujeito não quer trabalhar de graça, até a morte como na época da escravidão), por exemplo.

Outra falácia, que deve ser descontruída, o mito da “democracia racial”, inventado por Gilberto Freire, prejudica até hoje a luta pela igualdade entre negros e brancos.

Para Jessé, o uso depreciativo do termo “populismo” é uma forma de racismo disfarçado que despreza qualquer iniciativa de diminuir a miséria ou de inserir os negros à sociedade brasileira, depois de tê-los deserdado de seus bens, de sua terra natal, de sua família, de sua história, de sua identidade. A sociedade nada fez para oferecer alguma compensação (se é que isso é possível) por essa tragédia humana. Muito pelo contrário, os senhores de escravos ainda ostentam com orgulho seu passado de torturas, poder e lucro vergonhosos, da mesma forma que antes. O racismo foi institucionalizado por meio de leis que criminalizaram todas as práticas e cultura dos ex-escravos por medo de pedidos de indenização por todas as perdas infligidas aos negros.

Para esse autor, o que nos define, como povo, não é o “jeitinho brasileiro”, o qual deveria ser considerado uma forma desesperada de luta pela sobrevivência dos que foram largados à própria sorte e tiveram de se virar como podiam. Dessa forma, o tal jeitinho deveria ser visto como algo positivo, como resiliência quando praticado pelos esquecidos do poder público, que só se lembram do povo na hora de cobrar impostos sobre todo produto que ele ainda consegue consumir.

A pior corrupção que há é a da elite econômica, que sequestra o poder público para o seu benefício, mas desvia a atenção de si mesma, através dos espetáculos televisivos que miram, preferencialmente, nos políticos. Estes ficam com uma parcela muito pequena do lucro das negociatas, porque a maior parte do ganho com a corrupção fica com grandes empresários e banqueiros que conseguem se livrar dos holofotes na maioria dos casos.

Assim, o que nos define como povo é nosso passado escravocrata e o seu consequente racismo estrutural que permanece na sociedade atual, haja vista a total falta de empatia de certa elite saudosista do período anterior ao da assinatura da lei Áurea, quando não havia nenhum direito trabalhista. Os novos patrões visam ao lucro acima da dignidade humana e não se responsabilizam nem são solidários com os demais brasileiros pobres. Tal egoísmo, eles tentam justificar com os estudos de intelectuais do porte de Sérgio Buarque de Holanda. Todas as características dos brasileiros, vistas por Gilberto Freire como positivas (nossa afetividade, nossa alegria, por exemplo), em Sérgio Buarque de Holanda passaram a ser negativas. Isso é o que Jessé de Souza chama de “racismo estrutural” da nossa sociedade e explica, mas não justifica, o seguinte raciocínio: “Não merecemos nossas riquezas, não merecemos nossas grandes empresas públicas porque somos corruptos, somos inferiores, somos uma sub-raça, por isso devemos entregar tudo o que temos de valioso aos colonizadores, ao capital estrangeiro etc.”

O racismo é o “pretexto” para justificar a venda de estatais a preços abaixo do valor de mercado. O racismo, portanto, afeta a todos os brasileiros e nos condena a perpetuar nossa escravidão e nos tornar empregados também de outras nações no mundo globalizado. Muitos ainda escravizam nos porões de suas oficinas, nas lavouras, nas mineradoras e devemos sim lutar contra isso, mas temos que ter consciência de que o racismo causa danos ao tecido social de forma tão arraigada dentro de nós que nos sentimos os últimos povos do planeta. A partir disso não percebemos a nossa própria exploração por povos que são considerados superiores, mais honestos, mais eficientes, mais puros do que nós: é o chamado complexo de vira-lata que proporciona lucros absurdos para essa elite que vê assim todo seu egoísmo, sua ganância justificadas aos próprios olhos.

O racismo estrutural está na raiz do sentimento de inferioridade em relação ao que é estrangeiro, no deslumbramento por tudo o que não somos nós mesmos. É preciso, portanto, desconstruir esse raciocínio de que somos os piores em tudo e de que é preciso fugir do Brasil na primeira oportunidade. Afinal, lá fora, o racismo não vai acabar porque fora daqui, em muitos momentos, seremos vistos como cidadãos de segunda classe por sermos “latinos”, por não falarmos o idioma nativo corretamente, por sermos estrangeiros roubando o emprego de autóctones.

As recentes reformas trabalhistas partem dessa mesma elite que se ressente de qualquer progresso na situação da classe trabalhadora, por menor que seja, como no caso dos programas sociais que pretendem diminuir a desigualdade social e a concentração de renda, cada vez mais perversa com a globalização e os juros extorsivos praticados pelos agiotas  banqueiros.

Passar o Brasil a limpo, portanto, passa por uma total revisão da nossa história, dos direitos trabalhistas, dos lucros e juros extorsivos, das oportunidades de emprego, da distribuição do espaço urbano e rural, da melhoria da educação oferecida aos negros.

Imagem relacionada

Para que ninguém a quisesse

Porque os homens olhavam demais para a sua mulher, mandou que descesse a bainha dos vestidos e parasse de se pintar. Apesar disso, sua beleza chamava a atenção, e ele foi obrigado a exigir que eliminasse os decotes, jogasse fora os sapatos de saltos altos. Dos armários tirou as roupas de seda, da gaveta tirou todas as jóias. E vendo que, ainda assim, um ou outro olhar viril se acendia à passagem dela, pegou a tesoura e tosquiou-lhe os longos cabelos.

Agora podia viver descansado. Ninguém a olhava duas vezes, homem nenhum se interessava por ela. Esquiva como um gato, não mais atravessava praças. E evitava sair.
Tão esquiva se fez, que ele foi deixando de ocupar-se dela, permitindo que fluísse em silêncio pelos cômodos, mimetizada com os móveis e as sombras.

Uma fina saudade, porém, começou a alinhavar-se em seus dias. Não saudade da mulher. Mas do desejo inflamado que tivera por ela.

Então lhe trouxe um batom. No outro dia um corte de seda. À noite tirou do bolso uma rosa de cetim para enfeitar-lhe o que restava dos cabelos.

Mas ela tinha desaprendido a gostar dessas coisas, nem pensava mais em lhe agradar. Largou o tecido em uma gaveta, esqueceu o batom. E continuou andando pela casa de vestido de chita, enquanto a rosa desbotava sobre a cômoda.

 

COLASANTI, Marina. “Para que ninguém a quisesse”.
In: Contos de amor rasgados. Rio de Janeiro: Rocco, 1986. P. 111-2.

Resultado de imagem para charlize theron monster

Alegria

Quando a “indesejada das gentes”
Passa a não ser tão indesejada assim?
Há um momento em que o cansaço
Vence o entusiasmo e a morte
Passa a ser almejada: por crianças, jovens e
Até por um povo inteiro!

Gente como a menina que deveria estudar,
Segura, trancada no quarto,
ao invés de se enforcar.
Ou gente que vive agora
Na miséria mais degradante,
Que se esquece, num rompante,
De seus filhos para alimentar!

Gente como os índios Kaiowás
De quem vão se lembrar
Apenas pelo nome de algum lugar:
De uma rua de um bairro de periferia.
Num mundo de arrepiar:
Vivem sem lei, sem rei e sem fé
que os protejam e acolham
tudo o que eles são.

Se permitirem, a “civilização” os extinguirá,
porém, horripilantemente,
em museus de raros espécimes, os conservará.

Mas há também gente tão inocente
que, contra todas as expectativas,
Contra todas as probabilidades
Resiste à insuportabilidade da vida.
Gente que canta, vive e sorri
E, nesse decrépito mundo,
Ainda encontra a Alegria!

 

 

Dançarinas do Grupo de Artes Performativas da Associação Chinesa de Pessoas com Deficiência exibem o seu número mais conhecido, a dança Qianshou Kuanyin, ou Bodhisattva de 1000 mãos. a dança do Buda de Mil Mãos prende a atenção de todos, pois são 21 dançarinas surdas e mudas trajadas de dourado, formando uma fila vertical e 42 braços promovem diferentes gestos simultaneamente, levando a todos a imagem do Buda de Mil Mãos, encontrada em muitas grutas da China. A dança maravilhosa foi criada por um famoso coreógrafo chinês, Zhang Jigang.