Alegria!

Alegria

Não se desesperem com as PECs no meio do caminho,

com a alta do dólar,

com a venda do Brasil,

com a perda dos salários, com a falta de trabalho

com a corrupção, com os privilégios dos políticos, dos ricos, dos magistrados

com a morte da poesia

com a vitória de um imbecil.

Não se desesperem se disserem que vocês devem ser tratadas como mercadoria,

Ou se um dia perceberem que o céu não é mais anil.

Não se desesperem com a agonia e o extermínio das crianças na Síria.

Apesar de tudo e contra tudo: ALEGRIA.

Noite Profunda

À noite, a escuridão guarda todas as coisas e o nada ao mesmo tempo.
Como quando fechamos os olhos e vemos o vazio,
ou manchas ou tudo o que podemos imaginar.
Gosto de imaginar o que há além das montanhas
E mais além e mais além e mais além
Do que posso avistar da janela do meu quarto
Ou da janela de um ônibus em movimento.
Só uma nuvem se ilumina.
Afundada no meio do mato uma casinha brilha.
Bem que poderia haver uma cidade inteira escondida atrás do morro
Para que esse casebre  não fique assim tão solitário
No escuro sem porteiras, sem cercas, sem limites.
Todos pensam nisso quando são crianças
Mas depois deixam de imaginar o que poderia haver lá,
Depois daquela montanha,
Que deve ser muito mais formidável do que o que há aqui.
Assim, sem ninguém notar,
O negrume da noite esconde o infinito no horizonte.

Jacareí, 16 de dezembro de 2013.

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18 HAICAI – A POESIA CLÁSSICA DO HYAKUNIN-ISSHU

Jogo de cartas inspirado no Hyakunin-Isshu
Jogo de cartas inspirado no Hyakunin-Isshu

Por Regina Bostulim

O Hyakunin-Isshu é uma antologia de cem wakas[1], escritos entre os séculos VII e XIII, período em que Fujiwara no Teika (1162-1241) juntou a coleção. Os poemas são cem tankas, compostos por 31 sílabas (5-7-5-7-7)[2].

Hyakunin significa cem pessoas e isshu significa poemas (sendo shu a contagem do número de poemas). O Hyakunin-Isshu é a antologia dos poemas dos cem maiores poetas do período Heian. Os poemas estão em ordem do ano 670 até 1235, ano de sua compilação.

O nobre Fujiwara no Teika, que compilou as poesias sob as ordens do imperador, viveu durante a transição do período Heian, que foi aristocrático, ao período Kamakura, de característica guerreira, dominado pelo shogunato. Mais tarde seu filho Fujiwara no Tameie efetuou uma revisão do livro. A marca deixada por Fujiwara no Teika na obra é o tanka 97, de sua autoria.

Cerca de metade das poesias têm como tema o amor, pois foram originalmente escritas como cartas de amor. Outros temas presentes são a natureza e as estações do ano. O Hyakunin Isshu (Cem poemas de 100 poetas) é tão importante para a literatura japonesa, que influenciou obras como os Contos de Gengi e os Contos de Ise. Os versos também inspiraram um jogo de cartas (karuta), que consistia em juntar os versos de cada poema.

Os poemas foram escritos por cortesãos ou por pessoas da família imperial. Nos velhos tempos, somente nobres, altos dignatários, e o clero escreviam versos. Era suposto que os pobres desconhecessem tudo sobre arte.

Porém os poemas eram amados pelo povo, que os conhecia de cor. Uma vez um rei que passava por um campo, recebeu um ramo de flores de uma camponesa que lhe disse algumas palavras. Mais tarde, o rei se deu conta de que as palavras ditas pela camponesa eram versos do Hyakunin Isshu. E a admirou pela sua perspicácia, não esperava que alguém tão simples pudesse saber de literatura.

POEMAS

Para saber mais:

PORTER, William N. A Hundred Verses from Old Japan. (The Hyakunin-isshiu).  London: Clarendon Press, 1909. Kindle edition published by Evinity Publishing Inc, 2009.

Regina Bostulim é pesquisadora do Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos de Coimbra.

[1] O waka (literalmente poema japonês), é um tipo de poesia da literatura japonesa clássica. Escrito em japonês, contrasta com a poesia conhecida como kanshi, escrita em chinês, que foi popular no período Heian.

[2] Os hai-kais, de 17 sílabas, começaram a ter proeminência no século XVII.

Leia mais no site do jornal:

Memai | Jornal de Letras e Artes Japonesas