Termo “Holocausto” não é prerrogativa de um episódio histórico

Mesmo sem ter citado a palavra “Holocausto” no discurso em que comparou a guerra do governo sionista de Israel contra palestinos na Faixa de Gaza com o que o nazista Adolf Hitler fez com o povo judeu, o presidente Lula conseguiu chamar a atenção do mundo e, no Brasil em particular, abriu um debate sobre o emprego do termo “holocausto” para descrever outros genocídios.

Nunca será possível determinar o total exato de mortos pelo regime nazista. Especialistas trabalham com um número entre cinco e seis milhões de judeus. Mas o dado extravagante, associado a outras características peculiares do extermínio judeu, são suficientes para que alguns defendam que o termo Holocausto seja usado exclusivamente para se referir a esse episódio trágico da história da humanidade.https://d-15806245382230693.ampproject.net/2402141842000/frame.html

Para a antropóloga Lucia Helena Rangel, esse ponto de vista está equivocado. “Os israelenses e judeus tomaram para si a palavra Holocausto como um substantivo, [como se] Holocausto fosse o que Hitler fez com os judeus. E não é bem isso. Existem muitos holocaustos”, disse em entrevista ao jornalista Luis Nassif, do GGN.

Holocausto não é prerrogativa de um episódio histórico. Todos os holocaustos são comparáveis, sim, porque eles matam das mais variadas maneiras. Fisicamente, através de guerras e embates armados; através da fome; e têm matado, atualmente, através das questões ambientais”, defendeu Lucia Helena.

Ao GGN, o historiador Flávio Henrique Cardoso criticou o que chamou de “cinismo” da população e da mídia brasileira, que supervalorizam genocídios quando estes ocorrem no Norte do Globo, esquecendo de inúmeros outros massacres praticados pelos países colonizadores em diversas partes do mundo.

“A gente precisa parar de hierarquizar genocídio. Genocídio é genocídio. Lula, quando fez a analogia, falou das semelhanças das ações do Estado de Israel com as ações dos nazistas, e há muitas semelhanças. Não dá para dizer que é a mesma coisa, mas há muitas semelhanças, pontuou.

“A história do colonialismo é a história do genocídio”

O internacionalista Bruno Huberman, especializado em colonialismo e membro de um grupo de estudo sobre conflitos internacionais, disse em entrevista ao GGN que os elementos centrais da composição dos genocídios pelo mundo são justamente o colonialismo e o racismo. “A história do colonialismo é a história do genocídio”, disparou.

Huberman citou a obra do australiano Peter Bold, que fala em “colonialismo de assentamento ou de povoamento”. Esse colonialismo é fundamentado na eliminação da população nativa de um país ou região, que pode se dar através de morte, expulsão, aculturamento, assimilação e miscigenação ou, ainda, confinamento em reservas (como no caso dos indígenas e quilombolas) ou enclaves – exatamente a situação dos palestinos na Faixa de Gaza.

Para compreender como se relacionam processos coloniais muito distintos – como o britânico nos EUA, o português e espanhol na América do Sul, ou mesmo o colonialismo israelense na Palestina – é preciso analisar a propagação de uma cultura de “desprezo pela vida da população subalterna”.

“O que a gente mais vê no Brasil desde o processo colonial é a desumanização dos povos indígenas e negros, e o mesmo se aplica no caso da Palestina. Racismo e violência motivam o genocídio. Por isso que a gente vê generais israelenses chamando palestinos de animais. Nazistas chamavam os judeus de ratos. Aqui chamam os negros de macacos. Sempre vai haver um processo de desumanização para justificar a violência mortífera. Essa necropolítica demonstra a conexão entre os diversos genocídios”, explicou.

Escravidão e massacre indígena, os holocaustos brasileiros

Flávio Cardoso, historiador e idealizado do projeto Negrociando, disse ao GGN que a história da escravidão no Brasil e no mundo já foi comparada, por organismos internacionais, ao holocausto judeu e ao bombardeamento atômico de Hiroshima-Nagasaki.

“Escravidão no Brasil foi um genocídio comparado ao holocausto e a Hiroshima. (…) Só de mortes [de escravos negros que naufragaram] no Atlântico, pelas péssimas condições da viagem, morreram 2 milhões. Isso é genocídio”, destacou.

Segundo os estudos do premiado pesquisador e escritor Laurentino Gomes, mais de 12,5 milhões de africanos foram embarcados à força para o continente americano para serem escravizados. Desse total, 40% desembarcou no Brasil, ou seja, 4,9 milhões. Quando a Lei Áurea finalmente foi assinada, existiam apenas 700 mil negros no país.

Flávio Cardoso chama atenção para o genocídio negro segue em curso, já que a população sofreu com o branqueamento e marginalização social. “A gênese da palavra genocídio – que significa matar povos, etnias, grupos – você vê em todos os dados do IBGE sobre o Brasil. Há um genocídio em movimento. Curiosamente, pode comparar os dados de 50 anos atrás e os dados de hoje, é sempre um grupo específico que morre mais.”

Para a antropóloga Lucia Helena Rangel, que é assessora do Conselho Indigenista Missionário, o massacre do povo e a exploração dos territórios indígenas também configuram outro holocausto brasileiro.

“Quando garimpeiros contaminam água e solo com mercúrio, isso é genocídio. Há dolo. Eles sabem que essa contaminação vai trazer problemas para a população”, disse.

Para Cardoso, é preciso alterar duas concepções sobre o termo genocídio, cujo conceito foi estabelecido pelos organismos internacionais na década de 1940. Primeiro, é preciso desmistificar a ideia de que massacres que aconteceram antes dessa data [como a escravidão nas Américas] não se enquadram como genocídio. Segundo, ampliar o crime de genocídio para condutas praticadas não só com dolo, mas também involuntariamente.

“Existe o genocídio inconsciente, ou seja, você pode praticar o genocídio sem ter intenção. E o Brasil tem vários exemplos dos dois”.

Flávio Cardoso, Lucia Helena Rangel e Bruno Huberman foram entrevistados por Luis Nassif no programa TVGGN Justiça, que é transmitido ao vivo toda sexta-feira, sempre às 18 horas.

https://jornalggn.com.br/politica/termo-holocausto-nao-e-prerrogativa-de-um-unico-episodio-historico/

Heroína

A brasileira Aracy Moebius de Carvalho Guimarães Rosa era poliglota, falava quatro idiomas: português, inglês, francês e alemão. Com a facilidade em diversas línguas, conseguiu uma nomeação no consulado brasileiro em Hamburgo, na Alemanha, onde passou a ser chefe da Seção de Passaportes.

Em 1938,entrou em vigor no Brasil a Circular Secreta 1.127, que restringia a entrada de judeus no país. Aracy ignorou a circular e continuou preparando vistos para judeus, permitindo sua entrada no Brasil. Como despachava com o cônsul geral, ela colocava os vistos entre a papelada para as assinaturas, fazendo com que ele permitisse, sem saber, a vinda de judeus para o país. Para obter a aprovação dos vistos, Aracy simplesmente deixava de pôr neles a letra “J”, que identificava quem era judeu.

Arriscando seu emprego e sua vida com esse gesto, Aracy livrou muitos judeus dos campos de concentração e da morte já certa.

Paranaense, Aracy nasceu em Rio Negro, filha de pai português e mãe alemã, ainda criança foi morar com os pais em São Paulo. Aracy foi casada com o alemão Johann Eduard Ludwig Tess, com quem teve o filho Eduardo Carvalho Tess, mas cinco anos depois se separou, indo morar com uma irmã de sua mãe na Alemanha.

Ainda na Alemanha, Aracy casou-se com João Guimarães Rosa, à época cônsul adjunto. Os dois permaneceram na Alemanha até 1942, quando o governo brasileiro rompeu relações diplomáticas com aquele país e passou a apoiar os Aliados da Segunda Guerra Mundial.

Aracy e Guimarães Rosa ficaram quatro meses sob custódia do governo alemão. Só conseguiram ser salvos porque foram trocados por diplomatas alemães.

O livro de Guimarães Rosa “Grande Sertão: Veredas”, de 1956, foi dedicado a Aracy.

Aracy foi agraciada pelo governo de Israel com o título de “Justa entre as Nações”, dado a apenas mais um brasileiro (Souza Dantas), por ter salvado a vida de muitos judeus, conseguindo que eles entrassem ilegalmente no Brasil durante o governo de Getúlio Vargas. Ela também ficou conhecida como o “Anjo de Hamburgo”.

Aracy ficou viúva em 1967 e não casou novamente. Faleceu em 28 de fevereiro de 2011, em São Paulo.

À esquerda Aracy Moebius de Carvalho Guimarães Rosa

via O “Anjo de Hamburgo”: a brasileira que salvou judeus do holocausto

No princípio era o verbo!

O mal assola a terra.

Viver torna-se um suplício;

O gosto de sangue, um vício.

Espera-se a ajuda do céu ou de irmãos para sempre.

Não se vê nada de novo no fronte, exceto no verbo.

Honra, dignidade e nobreza sempre foram

só palavras que nunca existiram.

Há no ar promessas de um porvir menos perverso,

No qual o holocausto tenha regras.

Projéteis são mais nobres que veneno!

Enquanto algo escapa entre dentes;

Há algo bem diverso nas mentes.

Assim, a sanha nunca arrefece

em frente ao altar de sacrifício.