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Trindade

De volta à Trindade

Trirreme
Triatleta
Tricampeão
Tricolor
Trigueiro

Tripudiando
Santíssima Trindade
O pai
O filho
O espírito

Tridentes
A mãe
A filha
A carne

Tribunal

De volta à Trindade
Trindade
Trindade
Trindade
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Para uma jovem amiga que tentou se suicidar

Claudio Bertoni


Eu gostaria de ser um ninho se você fosse um passarinho
Eu gostaria de ser um lenço se você fosse um pescoço e estivesse com frio
Se você fosse música,
eu seria uma orelha
Se você fosse água,
eu seria um copo
Se você fosse a luz,
eu seria um olho
Se você fosse um pé,
eu seria uma meia
Se você fosse o mar,
eu seria uma praia
E se você ainda fosse o mar,
eu seria um peixe,
e nadaria em você
E se você fosse o mar,
eu seria sal
E se eu fosse sal,
você seria alface,
um abacate ou, pelo menos, um ovo frito
E se você fosse um ovo frito,
eu seria um pedaço de pão
E se eu fosse um pedaço de pão,
você seria manteiga ou geleia
Se você fosse geleia,
eu seria o pêssego na geleia
Se eu fosse um pêssego,
você seria uma árvore
E se você fosse uma árvore,
eu seria sua seiva
e correria em seus braços
como sangue
E se eu fosse sangue,
viveria em seu coração.

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Silêncio no Pacaembu

Já doente, Lobato não pôde comparecer ao comício do Pacaembu, em 15 de julho de 1945, que homenageou Prestes. Mas fez, de sua residência, por telefone, uma saudação ao líder comunista. Quando sua fala foi anunciada, pediu-se silêncio máximo. A voz grave do escritor foi ouvida no mais absoluto silêncio:

Tenho como dever saudar Luis Carlos Prestes porque sinceramente vejo nele uma grande esperança para o Brasil. Vejo nele um homem nitidamente marcado pelo destino. Vejo nele o único dos nossos homens que pelos seus atos e pelo amor ao próximo conseguiu elevar-se à altura de símbolo. Símbolo de quê? De uma mudança social. A nossa ordem social é um enorme canteiro em que as classes privilegiadas são as flores, e a imensa massa da maioria é apenas o esterco que engorda essas flores. Esterco doloroso e gemebundo. Nasci na classe privilegiada e nela vivi até hoje, mas o que vi de miséria silenciosa nos campos e cidades me força a repudiar uma ordem social que está contente com isso e arma-se até com armas celestes contra qualquer mudança. A nossa ordem social me é pessoalmente muito agradável, mas eu penso em mim mesmo se acaso houvesse nascido esterco. Essa visão da realidade brasileira sempre me preocupou e sempre me estragou a vida. Nada mais lógico, pois, do que meu grande interesse pelo homem que não conheço, mas acompanho desde os tempos em que um punhado de loucos lutava contra todo o poder do governo. E lutava por quê? Com que fim? Pela conquista do poder? Fácil seria isso, como foi para os companheiros que desandaram. Prestes não lutava por. Lutava contra. Contra quê? Contra a nossa ordem social tão conformada com o sistema do mundo dividido em flores e esterco. E pelo fato de sonhar com a grande mudança foi condenado a trinta anos de prisão, como pelo fato de sonhar um sonho semelhante, Jesus foi condenado a morrer na tortura. Os acontecimentos do mundo vieram libertar o nosso homem-símbolo e ei-lo hoje na mais alta posição a que um homem pode erguer-se em um país. Ei-lo na posição de força de amanhã. Na posição do homem que fatalmente será elevado ao poder e lá agirá para que o regime de flores e esterco se transforme em algo mais equitativo e humano.

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Que ave é esta?

Ontem, estava passeando pelo meu bairro com o Léo, meu cachorro e, de repente, me assustei ao me deparar com uma ave imensa comendo lixo de uma vizinha. Tal imagem me pareceu surreal, apesar de estar cada vez mais comum avistar tucanos, corujas e cobras por aqui.

Esse é o sinal mais explícito de que estamos invadindo mais e mais os espaços dessas espécies, por isso elas são obrigadas a se adaptar às regiões urbanas. Gestos simples, como colocar o lixo nos dias em que o caminhão de coleta passa, evitam a intoxicação de animais com nossos detritos. Mas a maioria das pessoas está c. e andando pra isso.

Fiquei intrigada para desvendar qual seria sua espécie. Parecia um gavião ou uma águia muito imponente. Ela ficou rondando o bairro até pousar numa palmeira imperial de porte igualmente majestoso e ficou observando das alturas nossa extasiada pequenês atravessando as ruas de um domingo sossegado.

Descobri que a ave é um carcará, aquele da música “carcará, pega, mata e come” que inspirava medo aos retirantes da seca no sertão. Hoje, é esse parente dos falcões que deveria nos temer.

Que São Francisco de Assis (se realmente tiver tal poder) te abençoe e te proteja de todos nós!

A Arte de Saber Ouvir

Apresentador britânico Jimmy Savile abusou de 63 pessoas em hospital

https://g1.globo.com/mundo/noticia/2015/02/apresentador-britanico-jimmy-savile-abusou-de-63-pessoas-em-hospital.html

Caridade x Justiça Social

Devemos preferir a justiça social e uma melhor distribuição de renda, realizada através de salários dignos e bons serviços públicos, à “caridade” dos ricos, através de “doações” aos vulneráveis.
Essa celebridade se aproveitou da fama, do dinheiro e usou a caridade para mascarar perversões sexuais, estuprar crianças e até doentes sedadas em hospitais os quais fingia ajudar como maqueiro e depois como angariador de fundos.
Toda sua bondade não passou de um chamariz, um pretexto para ficar próximo de vulneráveis que jamais o delataram por sua fama.

Ele foi o modelo de empreendedor social preconizado pela papisa do neoliberalismo: Margareth Tatcher. Depois que as vítimas começaram a ser ouvidas apenas pelas redes sociais, as autoridades fingiram surpresa. Ele nunca foi punido por seus crimes por personificar, na ideologia neoliberal, a solução dos problemas sociais. Esse é um preço muito alto a se pagar.

A mulher pioneira da vacinação que foi esquecida pela história

O notável progresso atingido pela imunização contra a covid-19 chamou a atenção do mundo para o brilhante papel das vacinas.

Muitos conhecem a história da descoberta da vacinação contra a varíola por Edward Jenner em Gloucestershire, na Inglaterra, cerca de 250 anos atrás. Mas poucas pessoas ouviram falar de Lady Mary Wortley Montagu – a socialite que, com seus experimentos pioneiros de inoculação, definiu as bases para a descoberta de Jenner, mas cuja contribuição foi quase totalmente esquecida.

Este ano marca o 300° aniversário dos seus extraordinários experimentos com seres humanos e oferece uma ocasião oportuna para analisar sua notável contribuição para a saúde pública.

Nascida Mary Pierrepont em 1689, ela era uma mulher vivaz e obstinada, autora de cartas e poemas, que detinha ideias progressistas sobre o papel das mulheres na sociedade. Para evitar um casamento arranjado, ela fugiu de casa com 23 anos de idade e casou-se com Edward Wortley Montagu, neto do primeiro Conde de Sandwich.

Em 1716, Edward tornou-se embaixador inglês em Istambul (ou Constantinopla, como se chamava na época), capital do Império Turco-Otomano. Foi dali que Wortley Montagu escreveu descrições vivas da vida no oriente, especialmente das mulheres turcas, cujas roupas, estilo de vida e tradições a intrigavam.

Para ler o restante da matéria:

https://www.bbc.com/portuguese/internacional-59750201

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Se não chover nem ventar

Se não chover nem ventar,
se a lua e o sol forem limpos
e houver festa pelo mar,
- ir-te-ei visitar.


Se o chão se cobrir de flor,
e o endereço estiver claro,
e o mundo livre de dor,
- ir-te-ei ver, amor.


Se o tempo não tiver fim,
se a terra e o céu se encontrarem
à porta do teu jardim
- espera por mim.


Cantarei minha canção
com violas de eternamente
que são de alma e em alma estão.
- De outro modo, não.

Cecília Meireles

O agro é ogro

No noticiário, vemos rotineiramente os comentaristas do setor econômico explicando os impactos da pandemia na economia em geral, mas, como a balança comercial brasileira depende da exportação de comódites, o destaque é dado para as consequências da pandemia no agronegócio.

Até agora, no Brasil, não  consegui assistir a nenhuma reportagem analisando o contrário: como o agronegócio está propiciando o surgimento desta e das próximas pandemias.

Como é meu hábito, quando a imprensa comercial/oficial não está falando, nem mostrando nada sobre um determinado assunto, procuro prestar mais atenção justamente nesses temas convenientemente “esquecidos”. Eis aqui a resenha de um livro visionário sobre esse tema, publicada no Google Books:

“Pandemia e agronegócio: doenças infecciosas, capitalismo e ciência”, de Rob Wallace, defende que os novos vírus que há alguns anos amedrontam o planeta com epidemias e pandemias são, sim, uma criação dos seres humanos. Mas, não, não estamos falando das teorias conspiratórias difundidas pelos robôs de Donald Trump ou Jair Bolsonaro, que responsabilizam laboratórios chineses especializados em guerra biológica pela origem do novo coronavírus. Para o autor, esses micro-organismos são resultado da maneira como passamos a criar animais para consumo nos últimos quarenta anos. Quem já teve a oportunidade de ir a uma granja ou a uma fazenda de porcos sabe do que estamos falando: milhares (milhões) de animais confinados, muitas vezes impedidos de dormir e comendo 24 horas por dia para engordar — e ir para o abate — cada vez mais rápido. Para quê? Para aumentar os lucros das empresas, claro, que se transformaram em grandes conglomerados. O número de animais criados para alimentação cresce quase duas vezes mais rápido que a população humana. Aves, vacas, porcos separados pelo produto a ser extraído (carne, ovos, leite), em estabelecimentos onde compartilham raça, idade e sistema biológico. E isso, para a natureza, cuja lei mais importante é o equilíbrio na diversidade, significa uma praga gigante. Uma atração inevitável para outros animais, um banquete para micro-organismos. Um experimento permanente de mutações e contágios extremos. Rob Wallace vem escrevendo sobre isso há quase vinte anos. Lançado pela primeira vez em 2015, Pandemia e agronegócio, que agora chega ao Brasil graças à parceria da Elefante com Igra Kniga, reúne artigos do autor publicados desde 2007. Nos textos, o biólogo alerta sobre as origens da Sars, da gripe aviária e da gripe suína, alertando que, se os seres humanos não modificassem a maneira como criam animais para abate, teriam que lidar, no curto prazo, com novas formas de vírus cada vez mais mortais. E aqui estamos. “Os seres humanos construíram ambientes físicos e sociais, em terra e no mar, que alteraram radicalmente os caminhos pelos quais os patógenos evoluem e se dispersam. Os patógenos, no entanto, não são meros figurantes, golpeados pelas marés da história humana. Eles também agem por vontade própria, com o perdão do antropomorfismo. Demonstram agência”, escreve Rob Wallace na introdução de Pandemia e agronegócio. Além do conteúdo integral da versão estadunidense, a edição brasileira trará os textos mais recentes do autor e de seus colaboradores sobre o atual surto de covid-19, a doença provocada pelo novo coronavírus (Sars-CoV-2) que, depois de aparecer na província de Hubei, na China, se espalhou pelo planeta, colocou boa parte do mundo em quarentena e espalhou incertezas sobre a maneira como continuaremos vivendo e habitando a Terra. Os vírus surgidos em território chinês, aliás, recebem imensa atenção de Rob Wallace no livro. Mas, longe de engrossar o coro da xenofobia que costuma vigorar nesse tipo de discussões, o autor vai às raízes do problema. “Desde a década de 1970, a produção pecuária intensiva se espalhou pelo planeta a partir de suas origens nos Estados Unidos. Nosso mundo está cercado por cidades de monoprodução de milhões de porcos e aves apinhados lado a lado, em uma ecologia quase perfeita para a evolução de várias cepas virulentas de influenza.”

Resenha publicada no Google Books.

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Aforismo de Simone Weil

“A BELEZA do mundo não é um atributo da própria matéria. É uma relação do mundo com nossa sensibilidade, essa sensibilidade que depende da estrutura do nosso corpo e da nossa alma.”

“MAGOAR alguém é transferir para outrem a degradação que temos em nós.”

“A beleza é a harmonia entre o acaso e o bem.”

“ATENÇÃO é a forma mais rara e pura de generosidade.”

‘Quando dois seres que não são amigos estão perto um do outro não há encontro, e quando amigos estão distantes não há separação.”

“O mais alto êxtase é a mais completa atenção.”

Simone WEIL foi uma pensadora francesa, pacifista e militante de esquerda nascida em Paris, cujas ações mostraram uma vida dedicada a busca pela justiça. Descendente de uma família judia abastada e culta, estudou filosofia na École Normale Superieure, exerceu o magistério e colaborou em jornais de esquerda. Também trabalhou como operária numa fábrica de automóveis (1934 -1935), passando a seguir a militar em movimentos anarquistas, inclusive participando com os republicanos na guerra civil espanhola (1936-1938), sem empunhar armas por causa de princípios pacifistas.

A partir de então (1938) passou a defender uma prática mística, o existencialismo cristão na linha de Kierkegaard. De volta à França, passou por Marselha e depois por Paris, onde passou a colaborar em jornais ligados à Resistência. Viajou pelos Estados Unidos (1942) e logo depois voltou a Londres, onde continuou sua luta contra o nazismo. Morreu em virtude de uma greve de fome em apoio a seus conterrâneos, em Ashford, Inglaterra. Seus principais textos foram publicados postumamente, como nas coletâneas La Pesanteur et la grâce (1947), L’Enracinement (1949) e Oppression et liberté (1963).

Nada a ser dito

São Francisco de Assis*


Quando não há nada mais a ser dito, silencia.
Quando não há mais nada a ser feito, permitas apenas ser, apenas estar e fica na companhia do teu coração e este indicará o momento apropriado para agires.
Quando a lentidão dos dias acomodar tua vontade, enlaçando-te com os nós da intranquilidade, descansa e refaz tua energia.
Não há pressa, a prioridade é que tu encontres novamente a tua essência para que tenhas presente em ti a alegria de ser e estar.
Quando o vazio instalar-se em teu peito, dando-te a sensação de angústia e esgotamento, repara tua atenção e encontra em ti mesmo a compreensão para este estado.
É necessário descobrirmo-nos em tais estados, para que estes não se transformem no desconhecido, no incontrolável.
Tudo pode ser mudado, existe sempre uma nova escolha para qualquer opção errada que tenhas feito.
Quando ouvires do teu coração que não há nenhuma necessidade em te preocupares com a vida, saibas que ele apenas quer que compreendas que nada é tão sério a ponto de te perderes para sempre da tua divindade, ficando condenado a não ver mais a luz que é tua por natureza.
Não te preocupes, se estiveres atento a ti mesmo verás que a sabedoria milenar está contigo, conduzindo-te momento a momento àquilo que realmente necessitas viver.
Confia e vai em teu caminho de paz.Nada é mais gratificante que ver alguém submergindo da escuridão apenas por haver acreditado na existência da luz.
Ela sempre esteve presente...
Era só abrir os olhos...


* Não consegui comprovar se esse texto é mesmo de São Francisco de Assis. Seja de quem for, ele me "representa" neste momento.