Nossos pais

Belchior

Não quero lhe falar meu grande amor
Das coisas que aprendi nos discos
Quero lhe contar como eu vivi
E tudo o que aconteceu comigo
Viver é melhor que sonhar
Eu sei que o amor é uma coisa boa
Mas também sei que qualquer canto
É menor do que a vida
De qualquer pessoa
Por isso cuidado meu bem
Há perigo na esquina
Eles venceram
E o sinal está fechado pra nós
Que somos jovens

Para abraçar seu irmão
E beijar sua menina na rua
É que se fez o seu braço
O seu lábio e a sua voz
Você me pergunta pela minha paixão
Digo que estou encantada
Com uma nova invenção
Eu vou ficar nesta cidade
Não vou voltar pro sertão
Pois vejo vir vindo no vento
Cheiro de nova estação
Eu sei de tudo na ferida viva
Do meu coração
Já faz tempo eu vi você na rua
Cabelo ao vento
Gente jovem reunida
Na parede da memória
Essa lembrança
É o quadro que dói mais
Minha dor é perceber
Que apesar de termos
Feito tudo o que fizemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Como os nossos pais
Nossos ídolos ainda são os mesmos
E as aparências
Não enganam não
Você diz que depois deles
Não apareceu mais ninguém
Você pode até dizer
Que eu ‘tô por fora
Ou então que eu ‘tô inventando
Mas é você que ama o passado
E que não vê
É você que ama o passado
E que não vê
Que o novo sempre vem
Hoje eu sei que quem me deu a ideia
De uma nova consciência e juventude
‘Tá em casa
Guardado por Deus
Contando vil metal
Minha dor é perceber
Que apesar de termos feito tudo, tudo
Tudo o que fizemos
Nós ainda somos os mesmos
E vivemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos como os nossos pais.

Compositores: Antonio Belchior
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Destaque

O apocalipse nosso de cada dia

Todos os dias é o fim do mundo de alguém:
Amores são perdidos
Impérios novos e antigos se esfacelam
Hospitais, médicos, doentes são bombardeados
Cidades arrasadas
Mulheres estupradas
Refugiados afogados
Escravos torturados
Crianças mutiladas
Atletas incinerados

Todos os dias um mundo se acaba:
Florestas são arrasadas
Doces rios doces enterrados vivos
Sob as lamas de várias Samarcos
Genocídios de todos os tipos
Contra todos os diferentes
Contra todas as minorias
Contra todos os vulneráveis, rejeitados, dissidentes,
Com todos os tipos de armas,
Empalados, estripados, degolados, eletrocutados, fuzilados,
Dizimados…

Há infinitos apocalipses diariamente.
Seu mundo acabou algumas vezes?
Até gigantes estrelas se apagam
Corpos celestes se precipitam na vastidão do nada
Do qual nem a luz escapa

Porém os astros não têm sangue, músculos,
Terminais nervosos, medula, mente.
Nada sentem, criam, aprendem
Pelo, sobre e com seu implacável fim.

Leve um instante, leve um milhão de anos,
As constelações nada sentirão diante do abismo.
Por isso, perdoe-me o poeta:
Somos algo mais que filhos do carbono e do amoníaco.
Perdoe-me o astrônomo:
“Somos feitos da mesma matéria das estrelas” e muito, muito além…

Godoy – 2017

CaronteAlmasEstigeLytovchenkoOlexandr
Caronte e as Almas no Estige de Lytovchenko Olexandr
Destaque

Manir e Cyro

São Paulo, 9 de fevereiro de 2006.

Manir de Godoy
Recebi entre lágrimas a notícia do seu falecimento e entre lágrimas me ocorreu apenas dizer:
_ Era muito grande a expectativa do Manir, por essa viagem que ele está agora iniciando.
Sofreu muito esperando. E finalmente quando consultado por médicos, concordou em dormir. Para ele seria apenas dormir.
Para dividir comigo um fato que o consolava, ele me contou a história da barbearia do Chico Xavier.
Alguém que admirava o homem que tinha intimidade com a eternidade, descobriu onde estava o barbeiro que o servia e quando ele estaria lá. A cabeleira do Chico Xavier era uma peruca e havia um barbeiro que não cortava os cabelos que ele não tinha, mas tratava sua calva que tinha um problema dermatológico. Naquela data e hora essa pessoa que queria vê-lo adentrou a barbearia e sentado como se fosse usar os serviços dos profissionais da barba e do cabelo, ficou esperando. Em alguns minutos Chico Xavier chegou gozando dos olhares daqueles para quem ele era uma figura sagrada, e cumprimentando a todos como se os abençoasse. Sua figura era também algo bizarra, por sua peruca e seus lábios continuamente úmidos. Sentou-se na cadeira de seu barbeiro que retirou sua peruca e começou a aplicar-lhe um óleo perfumado, como se fosse mirra aplicada a um homem santo.
Criando coragem, quem esperava levantou-se e quase curvado pela reverência exagerada, pediu licença para aproximar-se dizendo:
_ Sr. Chico o senhor me dá licença de roubar-lhe um minuto? Queria apenas fazer uma pergunta.
Iniciando o diálogo que consistiria de apenas uma pergunta e uma curta resposta, disse:
_ O sr. acha mesmo que há uma vida após a morte?
Chico Xavier virando para ele a cabeça que era tratada, olhou nos olhos o seu interrogador e sorrindo disse:
_ Não meu filho, não existe outra vida após a morte: é a mesma.
Talvez a resposta sucinta, respondendo a tantos mistérios, exaustivamente examinados por Manir, o tenha comovido e movido muito. Ele me contou essa histórinha comovido como se Newton tivesse reinventado uma teoria da luz.
Menino da Rua Virgílio do Nascimento no Brás, morava com sua mãe em uma casa muito pequena nos fundos de outra casa. E havia lá um violino e uma admiração muito grande pelo concerto de Beethoven para aquele instrumento. Juntamo-nos, os amigos, como peregrinos do bairro, da noite, da devoção pelas artes e pela cultura. Sobretudo pelo Teatro.O bairro do Pari tem ainda hoje uma grande igreja, no largo que chamávamos de larguinho. Esta igreja da ordem franciscana com uma arquitetura românica, possuidora de um órgão com grandes pulmões, coroava nosso desejo de um templo para a amizade e para nossas sagradas devoções humanísticas.
Manir supria a doçura, o respeito por nós que tínhamos mais do que ele apenas uma formação mais burguesa e informada. Mas competia conosco com sua finíssima sensibilidade. E era firme quando nos censurava um ponto de vista frouxo, desatento, rude.
Era um operário gráfico e como todo gráfico, aos pés do linotipo, era informado e politizado. Admirador da esquerda que então ainda era heróica. Inocentes e ingênuos, sem as facilidades tecnológicas atuais – nem mesmo um gravadorzinho de pilha – nos satisfazíamos assobiando o Concerto para a Noite de Natal, de Corelli. Só parávamos de assobiar quando alguém
introduzia com os lábios um Albinoni. Sob a lua e a igreja. Contei ao Manir, há alguns anos atrás, que fiquei muito impressionado com o disco voador que havíamos visto na várzea de Vila Guilherme. Manir sorriu e me informou que eu não tinha visto o disco voador. Eu insistí que estava lá com ele e o Rudy. E ele me disse que eu estava enganado porque eu só sabia do fato porque eles me haviam descrito a experiência.
Tal era o partilhar de nossas emoções e a divisão que fazíamos entre nós dos acontecimentos maravilhosos. A experiência de um de nós era patrimônio de todos.
E há o capítulo da Discoteca Municipal. Cabines para dois nas quais nos trancávamos para ouvir música. Manir e os duos sonatas para violino e piano de Beethoven. “A Primavera” era uma peça essencial para Manir. Eu repetia infinitamente a audição só para mim de “Dido e Enéias” de Purcell. A discoteca era um refrigério, era para a nossa fantasia, fazer arte. Maynardi ocupava a cabine sózinho para ouvir o Carnaval opus 9 de Schumann e saia comovido sem cumprimentar ninguém, em linha reta e rápida para a porta. Schumann ia com ele. Um dia convidei Violeta Abramo, violinista amadora para ouvirmos o meu Purcell. E ela me perguntou se isso não seria perder tempo e se não seria melhor ouvirmos logo Bach? Éramos os anjos do último andar do Teatro Municipal. Tão alto que se a orquestra tocasse dentro do palco não a veríamos por inteiro. Então apenas ouvíamos, ou descíamos varando portas fechadas, invadindo os andares inferiores. Vimos naquele teatro passar a cultura do século: os pianistas Rubinstein, Kempf, Badura-Skoda, Paderewsky, Brailowsky, e muitos mais; os balés de Monte Carlo, o Sadlers-Well, Jean Babille e Natalie Filipard, Serge Lifar no Espectro da Rosa, o teatro de Paul Claudel e Kafka com Jean Louis Barrault e Madeleine Renault, os balés americanos, os balés étnicos da Polonia, da Rússia, da Romênia. E, naturalmente Vitório Gassman com Seis Personagens à procura de um Autor de Pirandello, La Vedova Scaltra de Goldoni e Orestes de Alfieri. E assistimos o repertório operístico do mundo todo – alemão, francês e italiano.
Assistimos a chegada de Gianni Ratto – que nos deixou dois dias antes de Manir nos deixar – na revista Carrosello Napolitano e Maurice Vanneau no espetáculo Barrabás.
E não pagávamos por isso tudo. Servíamos – em tese – como comparsas nas temporadas líricas – graças a um agente do teatro que se chamava Aielo. Manir e eu vestidos de guardas medievais, entramos para arrancar de cena o Vitório Gassman em Orestes de Alfieri e éramos comparsas da Madame Buterfly, sendo eu o cozinheiro chinês.
Lá em cima na galeria haviam os jovens judeus que devoravam conosco o banquete da cultura. Um dia eles desapareceram quase totalmente. Haviam se decidido por um kibutz de Israel e partiram para uma viagem cujo final desconhecemos.
Na volta do Teatro Municipal, tínhamos que andar da Praça Ramos de Azevedo
até o Brás. E falávamos, criticávamos, idealizávamos, sintetizávamos, nos ilustrávamos e começávamos a nos separar no Largo da Concórdia e eu descia muitas vezes com Manir até a rua Bresser que era nossa geografia, acompanhados por Maurício Tragtenberg que corajosamente continuava a marchar até o Belém. No dia seguinte, tudo de novo, numa liturgia do conhecimento anárquico e sem método: pois não haveria faculdade que contivesse nossa capacidade para aprender. Conhecimento foi para nós a sede diária.
Manir estava impedido durante o dia porque trabalhava na Saraiva da Rua Sampson com os tipos gráficos de chumbo. Mas lia, lia muito. E sonhava música para violino. Logo mais, à noite, seria no larguinho.
Rudy morreu, Hélio foi preso durante a revolução e ensinou filosofia, Maneco fazia televisão e eu tomei um navio para a Grécia.
Nestes últimos meses estive por telefone com Manir que não queria revelar a visão do flagelo que tomara seu corpo. Me pediu que não fosse vê-lo. Apenas falávamos sobre valores aos quais dávamos crédito e seu ritornelo era a espera do imprevisível, do inominável, do destino, de uma vida que afinal seria apenas a mesma.
Deixou em nós uma memória do amor fraterno e viril. E há um segredo sobre o Manir. Ele gozou da maravilhosa dádiva que o carregou por toda a vida: ele foi o filho muito amado de sua mãe. Este milagre é gozado por alguns e serve a eles de estrutura existencial e confiança no bem e no belo.
Sua ausência já se apressou em levar consigo um pedaço dos seus amigos.
Todos nós vimos com clareza o disco voador, mesmo que poucos estivessem lá.
Dividimos tão inteiramente tudo e agora um pedaço se apaga.
Ficamos aqui nesta inexplicável e transitória peregrinação imaginando se essa viagem do Manir coincide com a definição de Chico Xavier: é a mesma.

Cyro del Nero

Pássaro azul

Charles Bukovski

há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo, fique aí, não deixarei
que ninguém o veja.

há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas eu despejo uísque sobre ele e inalo
fumaça de cigarro
e as putas e os atendentes dos bares
e das mercearias
nunca saberão que
ele está
lá dentro.

há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo,
fique aí, quer acabar
comigo?
quer foder com minha
escrita?
quer arruinar a venda dos meus livros na
Europa?

há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou bastante esperto, deixo que ele saia
somente em algumas noites
quando todos estão dormindo.
eu digo, sei que você está aí,
então não fique
triste.

depois o coloco de volta em seu lugar,
mas ele ainda canta um pouquinho
lá dentro, não deixo que morra
completamente
e nós dormimos juntos
assim
com nosso pacto secreto
e isto é bom o suficiente para
fazer um homem
chorar, mas eu não
choro, e
você?”

ONE

Poética de Botequim

wallpaper-casal-de-joaninhas-da-margarida-807 Para ninguém mais neste mundo tal imagem tem sentido e sentimento igual!

Homenagem à minha irmã Alcyone em seu aniversário.

One, one, meu Deus! Quanto amor!

Nem sei ter palavras para abarcar.

Só me resta com teu título brincar

E assim recordar tua tão séria infância.

All- começa com A de amigos que tinham

Tanta preguiça de, a palavra

justa inteira, pronunciar!

Mesmo assim: por todos os olhares,

Que atrais em todos os teus dias, és All!

Cy – só esse pedaço é igual

Ao da amada de Macunaíma;

Cy – que também virou a estrela mais

brilhante, como o todo do teu nome.

One – no final és uma, única, una,

Embora em outro idioma;

assim quis teu progenitor,

Que chamada fosses, nos dias

em que com o dom da vida nos uniu !

Ver o post original

Noite na taverna

Português: O escritor brasileiro Álvares de Az...
Português: O escritor brasileiro Álvares de Azevedo (falecido em 1852). 

Trecho da obra NOITE NA TAVERNA de Álvares de Azevedo.

MACÁRIO
Onde me levas?

SATAN
A uma orgia. Vais ler uma página da vida, cheia de sangue e de vinho—que importa?

MACÁRIO
Eu vejo-os. É uma sala fumacenta. A roda da mesa estão sentados cinco homens ébrios. Os mais revolvem-se no chão. Dormem ali mulheres desgrenhadas, umas lívidas, outras vermelhas Que noite!
How now, Horatio? you tremble, and look pale. Is not this something more than fantasy? What think you on’s? Hamlet. Ato I

JOB STERN
UMA NOITE DO SÉCULO
Bebamos! nem um canto de saudade! Morrem na embriaguez da vida as cores! Que importam sonhos, ilusões desfeitas? Fenecem como as flores!
José Bonifácio

— Silêncio! moços!! acabai com essas cantilenas horríveis! Não vedes que as mulheres dormem ébrias, macilentas como defuntos? Não sentis que o sono da embriaguez pesa negro naquelas pálpebras onde a beleza sigilou os olhares da volúpia??

—Cala-te, Johann! enquanto as mulheres dormem e Arnold—o loiro—cambaleia e adormece murmurando as canções de orgia de Tieck, que musica mais bela que o alarido da saturnal? Quando as nuvens correm negras no céu como um bando de corvos errantes, e a lua desmaia como a luz de uma lâmpada sobre a alvura de uma beleza que dorme, que melhor noite que a passada ao reflexo das tachas?

—És um louco, Bertram! não e a lua que lá vai macilenta: e o relâmpago que passe e ri de escárnio as agonies do povo que morre, aos soluços que seguem as mortalhas do cólera!

—O cólera! e que importa? Não há por ora vida bastante nas veias do homem? não borbulha a febre ainda as ondas do vinho? não reluz em todo o seu fogo a lâmpada da vida na lanterna do crânio?

—Vinho! vinho! Não vês que as taças estão vazias bebemos o vácuo, como um sonâmbulo?

—E o Fichtismo na embriguez! Espiritualista, bebe a imaterialidade da embriaguez!

—Oh! vazio meu copo esta vazio! Olá taverneira, não vês que as garrafas estão esgotadas? Não sabes, desgraçada, que os lábios da garrafa são como os da mulher: só valem beijos enquanto o fogo do vinho ou o fogo do amor os borrifa de lava?

Encontre aqui a obra completa:

http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000023.pdf

A culpa é do estuprador e não de sua vítima

Um terço dos brasileiros pensa que as culpadas pelo estupro são as vítimas que, na maioria dos casos, são mulheres e crianças.

Exposição na Bélgica traz roupas de vítimas de estupro para romper mito de ‘culpa da mulher’ https://g1.globo.com/mundo/noticia/exposicao-na-belgica-traz-roupas-de-vitimas-de-estupro-para-romper-mito-de-culpa-da-mulher.ghtml

Carson MacCullers

Carson-kisses-MarilynEm 2017 foi o centenário do nascimento de Carson MacCullers, para homenageá-la Editoras de Portugal, Espanha e Estados Unidos reeditaram das suas obras, e o Centro Carson McCullers para Escritores e Músicos, da Universidade John Cabot, realizou em julho daquele ano, em Roma, a conferência internacional “Carson McCullers in the world”, entre outras iniciativas.

McCullers foi admirada por Tennessee Williams, Graham Greene, Charles Bukowsky, e o escritor José Rodrigues Miguéis, que a revelou ao público português e traduziu “Coração, solitário caçador”, definiu-a como “o caso mais impressionante da literatura norte-americana” dos anos de 1940-50.

Flaubert e Dostoievski são apontados como influências, mas McCullers encontrou o seu próprio lugar no estilo “Gótico Sulista”, em que também se inscrevem William Faulkner, Eudora Welty, Katherine Anne Porter ou Flannery O’Connor.

O fato é sublinhado pela editora Relógio d’Água, que prepara a edição da obra da escritora, recordando que McCullers ficou conhecida pelos seus romances – “Coração, solitário caçador”, “Reflexos nuns olhos de ouro” e “Relógio sem ponteiros” -, embora tenha sido uma notável contista, na tradição do Sul da literatura norte-americana.

Nascida a 19 de fevereiro de 1917, em Columbus, na Georgia, Lula Carson Smith morreu aos 50 anos, em Nova Iorque.

Em 1940, publicou o primeiro romance, “Coração, solitário caçador”, ‘obra-revelação’ distinguida pelo público e pela crítica, que destacou a sua “surpreendente maturidade”. Adaptada ao teatro e ao cinema (Robert Ellis Miller, 1968), foi eleito um dos cem melhores romances do século XX e encontra-se entre os 20 melhores da Modern Library da Random House.

A história se passada no sul dos Estados Unidos, durante a Grande Depressão, num cenário de pobreza e isolamento, centrada num mudo, John Singer, a quem figuras desenquadradas da sociedade confiam segredos, mas que apenas quer a atenção mas não a recebr.

O sucesso da obra seria reforçado no ano seguinte, 1941, com “Reflexos nuns olhos de ouro”, que dedica à escritora, jornalista e fotógrafa suíça Annemarie Schwarzenbach, por quem se apaixonou – um rosto que, como escreveu, iria assombrá-la o resto da vida.

A história, que também foi adaptada ao cinema (John Huston, 1957), fala das relações entre dois oficiais do exército e respectivas mulheres, explorando a tensão latente entre as “máscaras sociais” e o mundo das paixões e obsessões secretas. O tema da homossexualidade reprimida gerou escândalo, mas a obra tornou-se num livro cultuado e depressa ascendeu à categoria de ‘obra-prima’.

O dramaturgo Tennessee Williams, autor do prefácio da edição original, encontra aqui “mestria absoluta da composição e uma precisão lapidar”. Para o autor de “Noite da iguana”, esta é “uma das obras mais puras e mais eficazes que foram concebidas”, ao nível “da Guernica, de Picasso”, ou das caricaturas de Charles Addams.

Williams respondia assim à crítica que estranhava a galeria de figuras “grotescas”, “mórbidas”, “pervertidas” ou “fantásticas” das obras de McCullers, todas elas, porém, plenas de sensibilidade e delicadeza.

“A sua arte é toda de delicadeza, ternura e tons profundamente femininos”, escreveu José Rodrigues Miguéis.

“A Balada do Café Triste”, “uma das obras-primas em prosa da língua inglesa”, para Tennessee Williams, data de 1951 e descreve uma pequena povoação, apenas animada por um único café, propriedade de uma mulher forte, independente e máscula, que se apaixona por um anão corcunda, mas que vê a felicidade abalada pela saída do ex-marido da prisão.

A sexualidade e a identificação de gêneros voltam a ser abordadas em “Frankie e o casamento”, primeira obra da escritora adaptada ao cinema (Fred Zinnemann, 1950), em que uma menina de 12 anos sonha com um mundo em que as pessoas pudessem livremente mudar de sexo.

Apesar do sucesso e do reconhecimento, McCullers teve uma vida limitada pela dor, pela doença e por crises de alcoolismo.

Esteve casada durante quatro anos (1937-1941) com o ex-soldado Reeves McCullers, o homem de quem herdou o nome, que disse ser o mais belo que já conhecera, e foi atormentada ao longo da vida por paixões não correspondidas por outras mulheres.

Morreu de hemorragia cerebral, a 29 de setembro de 1967.

“Todos os seus livros de terrível solidão, todos os seus livros sobre a crueldade do amor sem amor, foi tudo o que restou dela”, escreveu Charles Bukowsky.

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Heroína

A brasileira Aracy Moebius de Carvalho Guimarães Rosa era poliglota, falava quatro idiomas: português, inglês, francês e alemão. Com a facilidade em diversas línguas, conseguiu uma nomeação no consulado brasileiro em Hamburgo, na Alemanha, onde passou a ser chefe da Seção de Passaportes.

Em 1938,entrou em vigor no Brasil a Circular Secreta 1.127, que restringia a entrada de judeus no país. Aracy ignorou a circular e continuou preparando vistos para judeus, permitindo sua entrada no Brasil. Como despachava com o cônsul geral, ela colocava os vistos entre a papelada para as assinaturas, fazendo com que ele permitisse, sem saber, a vinda de judeus para o país. Para obter a aprovação dos vistos, Aracy simplesmente deixava de pôr neles a letra “J”, que identificava quem era judeu.

Arriscando seu emprego e sua vida com esse gesto, Aracy livrou muitos judeus dos campos de concentração e da morte já certa.

Paranaense, Aracy nasceu em Rio Negro, filha de pai português e mãe alemã, ainda criança foi morar com os pais em São Paulo. Aracy foi casada com o alemão Johann Eduard Ludwig Tess, com quem teve o filho Eduardo Carvalho Tess, mas cinco anos depois se separou, indo morar com uma irmã de sua mãe na Alemanha.

Ainda na Alemanha, Aracy casou-se com João Guimarães Rosa, à época cônsul adjunto. Os dois permaneceram na Alemanha até 1942, quando o governo brasileiro rompeu relações diplomáticas com aquele país e passou a apoiar os Aliados da Segunda Guerra Mundial.

Aracy e Guimarães Rosa ficaram quatro meses sob custódia do governo alemão. Só conseguiram ser salvos porque foram trocados por diplomatas alemães.

O livro de Guimarães Rosa “Grande Sertão: Veredas”, de 1956, foi dedicado a Aracy.

Aracy foi agraciada pelo governo de Israel com o título de “Justa entre as Nações”, dado a apenas mais um brasileiro (Souza Dantas), por ter salvado a vida de muitos judeus, conseguindo que eles entrassem ilegalmente no Brasil durante o governo de Getúlio Vargas. Ela também ficou conhecida como o “Anjo de Hamburgo”.

Aracy ficou viúva em 1967 e não casou novamente. Faleceu em 28 de fevereiro de 2011, em São Paulo.

À esquerda Aracy Moebius de Carvalho Guimarães Rosa

via O “Anjo de Hamburgo”: a brasileira que salvou judeus do holocausto

Diversão

Eu escuto uma música colorida
Ela invade minha mente
Eu quero dançar até amanhecer
Pra não pensar em você
Aumento o volume daquela música
Eu dedilho minhas cordas
Até meus dedos sangrarem
Quero estourar minhas caixas
Pra silenciar meus pensamentos
A paisagem desliza ao nosso lado
Correm montanhas
Os rios passam voando
Tento ler as placas do nosso destino
Porque eu ainda estou pensado em você!
As luzes da noite passam
Como fantasmas assustados pelas janelas
Eu giro, eu pulo, eu danço, eu disparo,
Eu solto um grito primitivo,
Pra esquecer você,
Pra sempre, todo dia o dia todo…

Godoy

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31-01-2019