Deus, nós e o Universo

ALEXEY DODSWORTH
Semana passada, descobri que a defesa de doutorado no Brasil tem peculiaridades que a tornam mais interessante do que na Itália. Meu orientador italiano adorou o sistema brasileiro. Na Itália, segundo ele, são três discussões em uma manhã, ou seja, o tempo é bem restrito. Na USP, uma manhã inteira é dedicada a uma defesa, o que permite um debate com maior profundidade. Outra peculiaridade: no Brasil, o candidato faz um [extremo] resumo para o público. Os italianos [havia outro, o prof. Pietro Omodeo, em transmissão direta] adoraram saber que o público pode assistir às defesas. Na Itália, pelo menos em Veneza, não é assim.

Segue abaixo a versão em português do resumo que apresentei para o público. Em breve a tese estará disponível na Biblioteca Virtual de Teses da USP. Agradecimentos pelas fotos: Leonardo Chioda, Ridete Pozzetti e Cledys Magnavita.

“Bom dia a todos. Primeiramente, eu gostaria de agradecer a vocês, professores, por sua gentil disposição em fazer parte desta discussão. Este é o primeiro PhD de duplo título decorrente de um acordo entre a Universidade de São Paulo e a Universidade Ca’ Foscari de Veneza, o que é para mim uma honra. Estou certo de que isso é só o começo e que iremos fortalecer cada vez mais os nossos laços acadêmicos no futuro.

Um agradecimento especial é dirigido aos meus orientadores: o professor Fabrizio Turoldo, que atravessou o oceano para estar conosco, hoje; e para o professor Renato Janine Ribeiro, por seu corajoso apoio à minha tese.

Ressalto o adjetivo “corajoso” porque, quando o assunto é filosofia, o transumanismo tende a não ser um tema lá muito bem vindo, academicamente falando. Acadêmicos tendem a ver o transumanismo como um tipo de argumento de ficção científica e, por isso, como algo pouco importante. O professor Renato, por outro lado, nunca subestimou a ficção científica. E por isso que eu quero começar citando Arthur Clarke, em vez de um filósofo tradicional.

Segundo Clarke, ‘a ficção é melhor do que a não-ficção em alguns sentidos (…) Você pode alargar a mente das pessoas, alertando-as para as possibilidades do futuro, o que é muito importante em uma época em que as coisas estão mudando rapidamente’.

Quando se diz que o transumanismo é mais ficção do que filosofia, eu concordo. Mas isso não é um demérito, muito pelo contrário. Em uma época em que o progresso técnico se desenvolve freneticamente, é importante vislumbrar consequências. Sobretudo, é importante propor modos de aumentar as chances de existência de um futuro para nossos descendentes. Em uma ampla gama de aspectos, o transumanismo é um movimento dedicado a inventar o futuro, a propor o futuro em vez de predizê-lo. Transumanistas têm um objetivo, e este pode ser resumido em uma palavra: extensão.

Quando eu comecei minha pesquisa, eu tinha a intenção de abordar a extensão da vida individual. Questões tais quais “imortalidade” e “longevidade” caminhavam para ser meus temas nucleares. Mas eu rapidamente me dei conta de que há um grande número de teses sobre estes temas. O professor Renato Janine Ribeiro certa feita, tempos atrás, disse-me: ‘não reescreva de modo chato o que alguém já escreveu brilhantemente’. Deste modo, decidi seguir seu conselho e por isso a minha tese é sobre extensão da vida, mas não sobre extensão individual da vida.

Indo direto ao ponto: minha tese é sobre a desejável sobrevivência da consciência neste universo. Não importa se esta entidade for humana ou não. O que o transumanismo quer é assegurar que o fantástico fenômeno da consciência não venha a morrer com o nosso planeta quando a hora chegar.

E esta é a razão pela qual devemos ir rumo ao céu: para aumentar as chances.

Mas por que isso é tão importante? Ocorre que, sob uma perspectiva transumanística, a consciência possui valor intrínseco. Permitam-me esclarecer algumas definições:

Uma abordagem comum para a ética é reconhecer dois tipos de valores nas coisas. O primeiro é o valor instrumental: a identificação de quão útil uma coisa é para as pessoas. O valor instrumental é sempre contingente, ou seja, ele depende do contexto. Nós podemos dizer que algo é mais valioso do que outro, instrumentalmente falando. Não há controvérsias éticas no tocante a este conceito, dado que algumas coisas são, de fato, mais valiosas que outras. Quando o assunto é valor instrumental, eventuais controvérsias serão sempre técnicas. Nós podemos discutir se uma coisa é útil ou não. Não há problemas éticos em dizer, por exemplo, que esta substância não é útil para aquela doença. Este é um julgamento técnico baseado em contexto.

Um segundo tipo de valor que às vezes se atribui a coisas é o valor intrínseco. Valor intrínseco é um conceito controverso que propõe que existem objetos no universo que merecem mais consideração independentemente de sua utilidade. Estas coisas, dizem alguns filósofos, têm um valor inerente.

É difícil entender como algo pode ter valor sem alguém que observe isso, dado que sem um observador todos os objetos são simplesmente matéria. Sob um ponto de vista religioso, humanos são valiosos por causa de Deus, que é o supremo observador. Este é um tipo de argumento que demanda fé para ser aceito. Mas nós estamos em uma discussão filosófica, não em uma discussão teológica. Deste modo, como podemos – sem apelos religiosos – defender a existência do valor intrínseco?

Transumanistas defendem que, dentre todas as coisas existentes, aquelas dotadas de consciência são intrinsecamente valiosas. Eles sugerem que o valor intrínseco existe, mas é uma criação de seres sencientes, portanto aplicável a eles.ó

Filósofos tendem a divergir sobre quais entidades merecem ser consideradas intrinsecamente valiosas. O antropocentrismo leva em consideração que a razão é a base do valor intrínseco, portanto apenas humanos merecem ser considerados intrinsecamente valiosos. Eu discordo fortemente disso. Conforme explico em minha tese, razão e inteligência derivam da senciência, ou seja, são atributos consequenciais da senciência. Uma entidade não precisa ser racional e inteligente para saber o que é valioso para ela. A capacidade de evitar sofrimento e buscar prazer demonstra que a entidade sabe o que vale e o que não vale. Ou seja, o conceito de valor emerge com a senciência, e não importa que uma específica entidade seja incapaz de falar sobre isso. Transumanistas têm insistido nestes pontos desde meados do século passado.

Em 2017, o professor Turoldo me apresentou à obra de Hans Jonas, e eu fiquei fascinado ao constatar alguns pontos em comum entre ele e os transumanistas. Por exemplo: Jonas é claramente contra uma exclusividade antropocêntrica no que diz respeito ao valor intrínseco. Conforme o professor Turoldo escreve em seu livro ‘Bioética e Ética da Responsabilidade’ (página 9), ‘o ser vem compreendido por Jonas em um sentido teleológico, ou seja, como um ser finalisticamente orientado à própria autoconservação (…) Jonas descreve um ser que percebe a si mesmo como bom e que, por isso, quer conservar a própria existência’ [tradução minha].

Tudo considerado, pode-se dizer que Jonas está alinhado com a proposta transumanista de extensão da vida em um sentido coletivo. De acordo com os transumanistas, a vida é melhor do que a não-vida, e seres sencientes querem viver. Quanto mais felicidade, mais desejamos a vida. O telos da vida senciente não é apenas “continuar a viver”, mas continuar a viver prazerosamente.

Até aqui eu não disse algo de original. No que diz respeito a teses de doutorado, um certo grau de originalidade é esperado. Caso contrário, eu corro o risco de apenas repetir o que já foi dito antes. Uma tese filosófica deveria oferecer alguma contribuição para uma discussão específica. Mesmo que tal contribuição seja pequena. Então vamos lá:

O núcleo de minha tese está alinhado com o primeiro tópico da declaração transumanista, que diz: ‘vislumbramos a possibilidade do alargamento do potencial humano através da superação do envelhecimento, dos vieses cognitivos, do sofrimento involuntário e de nosso confinamento ao planeta Terra’ [tradução minha].

Eu tenho abordado em minhas pesquisas principalmente a superação de nosso confinamento ao planeta Terra, e o faço por uma razão filosófica muito específica: tal superação é o único modo de evitar o ‘summum malum’ (“mal supremo”, em latim). Filósofos têm definido o problema do ‘summum malum’ de várias maneiras. Talvez o mais famoso dentre todos seja Thomas Hobbes, que define que o mal supremo a ser evitado é a morte violenta.

Hans Jonas, por outro lado, discorda de Hobbes. De acordo com Jonas, o mal supremo é a extinção em massa, não a morte individual. As considerações de Hobbes estão restritas às condições do mundo em sua época. Naquele tempo, um soberano não tinha o poder de afetar o mundo inteiro em decorrência de suas decisões erradas. Atualmente, uma pessoa poderosa e louca é suficiente para danificar o planeta. Dia após dia, o progresso tecnológico empodera governos e pessoas de uma forma muito perigosa. Ao longo de sua vida, Jonas testemunhou o holocausto e a ascensão da bomba atômica, o que foi suficiente para fazê-lo entender o quanto o conceito de Hobbes de ‘mal supremo’ era pálido diante de tudo isso.

O problema que eu pus é: apesar de eu concordar com a definição de Jonas de ‘mal supremo’ como ‘extinção em massa’, eu discordo fortemente de suas ideias biogeocêntricas. Conforme vocês podem ler no primeiro capítulo de minha tese, Jonas é contra a expansão espacial. Ele escorrega em um falso dilema quando diz que nós deveríamos cuidar de nosso planeta em vez de investir tempo e dinheiro em empreendimentos espaciais. Minha tese sustenta que as declarações de Jonas contra a expansão espacial não são apenas um falso dilema, mas são também uma séria contradição de suas próprias ideias a respeito de teleologia. Deixem-me tentar demonstrar meu ponto:

Levando em conta que auto-preservação é um imperativo de acordo com o próprio Jonas, e levando em consideração que nosso planeta vai morrer mais cedo ou mais tarde, há uma contradição quando Jonas diz:

‘Vamos nos preocupar com o nosso planeta. O que quer que exista lá fora, é aqui que nosso destino será decidido. E, junto com o nosso destino, essa parte da aposta da criação que está em nossas mãos e pode tanto ser preservada quanto traída’ [tradução minha].

Logo, o núcleo do primeiro capítulo de minha tese é: de modo a expandir a existência da consciência, é necessário disseminar a vida através do universo. Se nós nos mantivermos restritos ao nosso planeta, nós iremos contra nosso impulso de autopreservação. Se nós nos mantivermos restritos ao nosso planeta, iremos certamente desaparecer. A expansão espacial não garante um futuro para a consciência, mas aumenta as chances.

Notem por favor que eu não estou falando em salvar a humanidade necessariamente, sobretudo se por ‘humanidade’ nós entendemos nossa atual forma. Para transumanistas o que importa é a consciência, seja ela natural, artificial, humana, transumana, alienígena, metade biológica e metade tecnológica etc. De acordo com transumanistas, não é a nossa forma humana que nos faz especiais, e sim a nossa consciência, e eu concordo com eles.

Jonas, ao contrário, apela para a importância de “preservarmos nossa real essência humana”, e parece bastante assustado com as possibilidades de uma pós-humanidade cosmicamente expandida. Conforme apontei em minha tese, sua contradição jaz no fato de que apesar de seu acertado entendimento a respeito da natureza do mal supremo, ele leva em consideração apenas os danos causados pelo progresso humano. Mas o fato é que na época de Jonas nós mal tínhamos noção dos danos causados por fatores cósmicos.

Pensar em nosso planeta como estável é um erro comum. Nosso planeta sofreu eventos causadores de extinção global antes, os quais foram causados por fatores extraterrestres. Nós tomamos a estabilidade planetária como algo garantido, o que é um erro perigoso.

O professor Douglas Galante, que está aqui hoje conosco, é o primeiro doutor em astrobiologia teórica no Brasil. Se vocês quiserem saber as muitas formas pelas quais a nossa vida pode ser erradicada por fatores extraterrestres, tenho certeza de que ele poderá oferecer tal informação em detalhes muito interessantes e aterradores. Ele também pode explicar a importância prática da pesquisa espacial melhor do que eu.

Em resumo, eticamente falando a minha tese está alinhada com o entendimento de Jonas sobre a natureza do mal supremo. E é exatamente por conta deste alinhamento que eu digo que Jonas contradiz a si mesmo quando ele alega que o planeta Terra é o nosso ‘destino’. A minha tese sustenta que se nós quisermos evitar o mal supremo, o planeta Terra não deveria ser entendido como um ‘destino’, mas como um ponto de partida. Permanecer apegado ao nosso ponto de partida nos conduziria à extinção em massa, eventualmente.

O segundo capítulo de minha tese é sobre metafísica. Enquanto o primeiro capítulo questiona se a vida tem uma finalidade, o segundo capítulo questiona se o universo tem finalidade. Eu começo citando o astrofísico Martyn Rees, que demonstra como nosso universo parece ser finamente ajustado de modo a criar vida. Ou seja, o nosso universo é biofílico. Mas é o próprio Rees que contra-argumenta e diz que esta peculiaridade cósmica pode muito bem ser acidental. Talvez exista uma ampla gama de universos alternativos cujas leis não permitem a existência de vida, conforme teoricamente demonstrado por físicos tais quais Hugh Everett III e David Deutsch.

Teleologia cósmica é um tema frequente em filosofia e é um dos três principais argumentos que tentam demonstrar a existência de Deus. O argumento teleológico, o qual é muito apreciado por proponentes do design inteligente, diz que deve existir uma inteligência ordenadora por trás da cena. Ainda que este tipo de argumento soe como mero pensamento desejoso, é baseado em evidências físicas de um cosmo finamente ajustado.

Mas mesmo que nós consideremos que exista uma inteligência que criou o nosso universo ‘finamente ajustado’, nada justifica que tal inteligência seja o mesmo Deus das religiões monoteísticas.

Dentre os filósofos dedicados a pensar a respeito da natureza e objetivos da criação, há dois que se destacam em minha tese: Teilhard de Chardin e Hans Jonas. O ponto em comum entre eles é que ambos defendem a ideia de um Deus que abdica de seu poder de modo a permitir a existência do universo. Por que Deus faria isso? Ambos dizem que não sabem. Em ambos os casos, nós somos apresentados a um Deus extremamente poderoso cuja imperfeição jaz no fato de que ele deseja. Por causa disso, Jonas usa a expressão ‘Eros cosmogônico’ em vez de oferecer uma narrativa cosmológica para a criação.

De acordo com Jonas, o universo é criado por um impulso desejoso, pelo auto-sacrifício divino, e não há garantia de que este ato resultará em algo bom. Por causa disso, eu digo que a cosmogonia de Jonas é uma interessante reversão da aposta de Pascal. Ou seja, é Deus quem aposta em nossa existência. Se há algum plano para o universo, sua realização depende de nós. Nós não estamos nas mãos de Deus, é o oposto: ele jaz em nossas mãos.

Por fim, mas não menos importante, eu sustento que Jonas não tem razão em seus pensamentos pessimistas acerca de um jogo divino. Se existe um Deus que joga um jogo, tal jogo tem sido jogado não apenas em um universo, mas em vastos, talvez infinitos universos alternativos, o que aumenta as chances de um cosmo bem-sucedido pleno de vida e consciência, um cosmos capaz de reproduzir a si mesmo – em uma história sem fim.”

Destaque

Poeta obscuro

Poeta obscuro,

Eu vejo você quando chora à noite
Por seus sonhos perdidos
E em sua cela sozinho, deseja dormir
E talvez sonhar.
Eu vejo quando sente o peso das injustiças
Presentes e passadas, sem conseguir mais orar.
Eu vejo você quando quer braços quentes
E abraça o vazio.
Vejo seus ombros caídos de tanto lutar.
Vejo o desespero em seus olhos nas horas fatais.
Sinto sua vertigem,
Quando o ponto sem retorno avança sutil.
Sei que você sabe que as tiranias
Sempre vão longe demais,
Não suportam alegria
E condenam ideais.
Vejo seu coração quando um obtuso pelotão
Se prepara para atirar.

 

Manir de Godoy*

  • Eu imaginei como seria um poema escrito por meu pai, se ele estivesse vivo, em homenagem a Carlos Guedes e Federico Garcías Lorca, ambos poetas que foram presos devido a regimes totalitários que esmagam pessoas idealistas. Infelizmente, meu pai faleceu e não teve a oportunidade de conhecer a história de Carlos Guedes, um poeta com centenas de poemas sem nenhum livro publicado, um poeta torturado pelo regime militar no Brasil. Fico imaginando que meu pai e Carlos poderiam ter se tornado grandes amigos, se os seus caminhos pelo mundo tivessem se cruzado. E esse encontro de dois idealistas talvez tivesse inspirado o poema acima.

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“O Palácio”, de Kaveh Akbar, por Layla Oliveira

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Os poemas de Kaveh Akbar foram publicados em jornais como The New Yorker, Poetry, Paris Review, Best American Poetry, The New York Times, e muitos outros. Ele é o autor de duas coletâneas completas: Pilgrim Bell (Graywolf, 2021) and Calling a Wolf a Wolf (Alice James, 2017). Ganhador do Prêmio Levis Reading, múltiplos prêmios Pushcart, e Ruth Lilly and Dorothy Sargent Rosenberg Poetry Fellowship, Kaveh é o editor-fundador do Divedapper, site de entrevistas com as maiores vozes da poesia contemporânea. Nascido no Teerã, Iran, leciona na Universidade de Purdue e nos programas de baixa residência do MFA no Randolph College e Warren Wilson. O site dele é http://kavehakbar.com/#/.

Layla Gabriel de Oliveira é poeta, atriz e estudante de Letras na Universidade Federal do Paraná. Está atualmente traduzindo o livro inédito do poeta Kaveh Akbar, Pilgrim Bell, para publicação simultânea nas duas línguas…

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INSTRUÇÕES PARA ESQUIVAR O MAU TEMPO

INSTRUÇÕES PARA ESQUIVAR O MAU TEMPO
Paco Urondo

Em primeiro lugar, não se desespere e em caso de agitação não siga as regras que o furacão quererá lhe impor.
Refugie-se em casa e feche as trancas quando todos os seus estiverem a salvo.
Compartilhe o mate e a conversa com os companheiros, os beijos furtivos e as noites clandestinas com quem lhe assegure ternura.
Não deixe que a estupidez se imponha.
Defenda-se.
Contra a estética, ética.
Esteja sempre atento.
Não lhes bastará empobrecê-lo, e quererão subjugá-lo com sua própria tristeza.
Ria ostensivamente.
Tire sarro: a direita é mal comida.
Será imprescindível jantar juntos a cada dia até que a tormenta passe.
São coisas simples, mas nem por isso menos eficazes.
Diga para o lado bom dia, por favor e obrigado.
E tomar no cu quando o solicitem de cima.
Dê tudo o que tiver, mas nunca sozinho.
Eles sabem como emboscá-lo na solidão desprevenida de uma tarde.
Lembre que os artistas serão sempre nossos.
E o esquecimento será feroz com o bando de impostores que os acompanha.
Tudo vai ficar bem se você me ouvir.
Sobreviveremos novamente, estamos maduros.
Cuidemos dos garotos, que eles quererão podar.
Só é preciso se munir bem e não amesquinhar amabilidades.
Devemos ter à mão os poemas indispensáveis, o vinho tinto e o violão.
Sorrir aos nossos pais como vacina contra a angústia diária.
Ser piedosos com os amigos.
Não confundir os ingênuos com os traidores.
E, mesmo com estes, ter o perdão fácil quando voltarem com as ilusões acabadas.
Aqui ninguém sobra.
E, isto sim, ser perseverantes e tenazes, escrever religiosamente todos os dias, todas as tardes, todas as noites.
Ainda sustentados em teimosias se a fé desmoronar.
Nisso, não haverá trégua para ninguém.
A poesia dói nesses filhos da puta.

Paco Urondo (1930 – 1976) foi escritor, jornalista, poeta, militante político e guerrilheiro argentino.

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Destaque

Todo Cambia

Hoje tive grande prazer e emoção ao ouvir a música Tudo Cambia interpretada pela cantora jacareiense Vívian Pelodan e um violonista (infelizmente não sei o nome dele), ambos de talento ímpar. Estou grata por haver tanta beleza e por  pessoas que espalham lindezas como essa pelo mundo. Hoje eles se apresentam no WiFi.

Todo Cambia

Mercedes Sosa

Cambia lo superficial
Cambia también lo profundo
Cambia el modo de pensar
Cambia todo en este mundo
Cambia el clima con los años
Cambia el pastor su rebaño
Y así como todo cambia
Que yo cambie no es extraño
Cambia el mas fino brillante
De mano en mano su brillo
Cambia el nido el pajarillo
Cambia el sentir un amante
Cambia el rumbo el caminante
Aúnque esto le cause daño
Y así como todo cambia
Que yo cambie no es extraño
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia el sol en su carrera
Cuando la noche subsiste
Cambia la planta y se viste
De verde en la primavera
Cambia el pelaje la fiera
Cambia el cabello el anciano
Y así como todo cambia
Que yo cambie no es extraño
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Pero no cambia mi amor
Por mas lejo que me encuentre
Ni el recuerdo ni el dolor
De mi pueblo y de mi gente
Lo que cambió ayer
Tendrá que cambiar mañana
Así como cambio yo
En esta tierra lejana
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Pero no cambia mi amor

Pero no cambia mi amor
Por mas lejo que me encuentre
Ni el recuerdo ni el dolor
De mi pueblo y de mi gente

Lo que cambió ayer
Tendrá que cambiar mañana
Así como cambio yo
En esta tierra lejana

Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia

 

 

Enem 2019

No Enem 2019: 

A terra será plana; 

O nazismo será de esquerda; 

Em 1964, não haverá Golpe Militar; 

A Ditadura Militar será uma democracia forte; 

A Matemática começará na Bíblia; 

-O triângulo será uma quase reta; 

O aquecimento global será uma conspiração comunista; 

Os políticos serão Jesus Cristo; 

Lugar de criança será na fábrica e na lavoura;

Será muito bom para brasileiros perder todos os direitos que adquiriram pagando muitos impostos; 

Agrotóxico será ótimo para a sua saúde; 

Os índios roubarão as terras dos brancos; 

Os africanos pularão nos navios para se tornarem escravos; 

Não existirão famélicos no Brasil. 

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Decepção: a “Sinfonia Eroica” e a política

“Ao escrever esta sinfonia Beethoven tinha pensado em Buonaparte, mas Buonaparte como Primeiro Cônsul. Naquela época, Beethoven tinha a maior estima por ele e o comparou aos máximos cônsules da antiga Roma. Não só eu, mas muitos dos amigos mais próximos de Beethoven, vimos esta sinfonia em sua mesa, lindamente copiados à mão, com a palavra “Buonaparte” inscrito no topo da página-título e “Ludwig van Beethoven” na parte inferior. …Eu fui o primeiro a dizer a notícia de que Bonaparte havia se auto-declarado imperador, quando de repente teve um acesso de fúria e exclamou, “Então ele não é mais do que um mortal comum! Agora, também, ele vai pisar no pé de todos os direitos do homem, saciando somente a sua vontade; agora ele vai pensar que é superior a todos os homens, se tornando um tirano!” Beethoven foi até a mesa, pegou a página-título, rasgou ao meio e jogou-o no chão. A página tinha de voltar a ser copiada e foi só agora que a sinfonia recebeu o título de “Sinfonia Eroica.””

Tatiana Pequeno (1979-)

escamandro

Tatiana Pequeno

Tatiana Pequeno nasceu em 1979, no Rio de Janeiro. Tem dois livros publicados: réplica das urtigas (2009) e Aceno (2014), ambos pela Oficina Raquel. Trabalha como professora de literatura na Universidade Federal Fluminense, onde coordena grupo de pesquisa sobre a relação entre corpo, gênero, sexualidades e as literaturas de língua portuguesa.

* * *

BREVE ENSAIO CONTRA A MINHA INDIFERENÇA À CRACOLÂNDIA DO JACARÉ
avanço protegida por uma película
de vidro — esta janela — por onde
filtro cegada pelo sol o bebê caído
de uma teta mirrada de mãe verde
entrando pelo coletivo e assumindo
seu desejo de transbordar tudo o
que for falta. queria escutá-la mas
havia uma transparência imanente
eu a trouxe para cá, todavia
queria que ela falasse no meu poema
ela pede centavos para não morrer
e diz a cerveja poderia me ajudar a parar
a cerveja no entanto é muito lenta
abro a bolsa…

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O autismo e os probióticos

O Ponto de Mutação e a teoria de sistemas*

Absolutamente todos os problemas atuais estão interligados e é impossível resolver um de forma decisiva sem lidar com todos.

 

“O Ponto de Mutação” é um filme de 1990, dirigido pelo cineasta Bernt Capra, e inspirado na obra homônima de seu irmão, o físico Fritjof Capra. O filme, tecnicamente, é muito simples: a fotografia e a trilha sonora têm uma qualidade boa, embora não se destaquem por serem as melhores que já se viu. A mudança de cenas é rara. Apesar disso, o filme possui um ótimo desenvolvimento, com um roteiro filosófico e muito bem escrito, que pode ser considerado um pouco denso demais para espectadores leigos.

O ponto principal da filosofia do filme talvez seja a crítica à maneira mecanicista de ver o mundo, provocada pela personagem Sonia Hoffmann, uma física desiludida por ter visto seus projetos sendo usados para fins militares, quando deveriam ajudar a medicina. Sonia critica exaustivamente esse jeito mecanicista e cartesiano de enxergar o mundo, que, apesar de já ter sido útil um dia, hoje já não nos serve mais. Ela acredita na “teoria de sistemas” – absolutamente todos os problemas atuais estão interligados, e é impossível resolver um de forma decisiva sem lidar com todos.

O cineasta deixa claro que ele mesmo é adepto dessa teoria, ao dar mais espaço à física no filme do que aos outros dois personagens principais – Jack Edwards, um político norte-americano, e Thomas Harriman, um poeta. A mensagem final do filme é que todos os problemas que enfrentamos atualmente no século XX, como a fome, o aquecimento global, a obesidade, a ameaça nuclear, guerras constantes e as desigualdades sociais e econômicas, são, na verdade, resultado de apenas uma crise: a crise de percepção, causada pela visão mecanicista de mundo, que em parte justifica a avareza e o egocentrismo. A mudança e resolução de todos esses problemas só virá quando mudarmos radicalmente nossos métodos e valores, e deixarmos de lado nossa cultura individualista e exploradora.

*A teoria de sistemas tem como base o pensamento holístico

A seguir um trecho do livro:

O Ponto de Mutação

“Perdoem-me, mas vocês, políticos, dificultam as coisas. As idéias da maioria de vocês, de direita ou de esquerda, parecem-me antiquadas e mecânicas como um relógio. Para me explicar, eu preciso retroceder até Descartes, que foi o primeiro arquiteto da visão do mundo como relógio. Uma visão mecanicista que ainda domina especialmente vocês. É como se a natureza funcionasse feito um relógio. Vocês a desmontam, a reduzem a um monte de peças simples e fáceis de entender, analisam-nas e, aí, pensam que passam a entender o todo.

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Mas não foi sempre assim. Não antes de Descartes. Quando ele introduziu isso, provocou uma ruptura revolucionária com a Igreja. Descartes queria saber como o mundo funcionava sem a ajuda do Papa, pois para ele, o mundo era só uma máquina. Aí Descartes ficou fascinado pela máquina do relógio e fez dele a sua principal metáfora: ‘vejo o corpo como nada mais que uma máquina’. Um homem saudável é um relógio bem-feito, e um doente, um relógio malfeito. E funciona tão bem que os cientistas passaram a acreditar que todos os seres vivos, plantas, animais, nós, não passamos de máquinas, e isto é falso. Isto tomou conta de tudo: arte, política etc.

Mas os tempos mudaram. Precisamos de uma nova maneira de entender a vida. A ciência já passou o pensamento mecanicista. Mas vocês, políticos, parecem ainda ter essa máquina dentro de suas cabeças.

A grande dívida – Bem, tomemos o problema da superpopulação. Nós não o resolveremos olhando as formas de contracepção isoladamente. Pesquisas demonstram que o contraceptivo mais eficaz são ganhos econômicos e sociais que reduziriam as famílias grandes.

Vocês sabiam que, no mundo todo, todo dia 40 mil crianças morrem de desnutrição e doenças evitáveis? Quase a todo segundo?

Mas estas curtas vidas não podem ser vistas isoladamente. Elas são parte de um sistema maior, que envolve a economia, o meio ambiente, e sobretudo à grande dívida do Terceiro Mundo.

O fardo dos empréstimos frenéticos não recai sobre quem tem contas no estrangeiro ou empresas, mas sim sobre os que já não têm nada! Há três anos, um presidente perguntou: ‘Crianças devem passar fome para pagarmos a dívida?’

Tal pergunta foi respondida na prática, e a resposta foi ‘sim’, porque, desde então, milhares de crianças do Terceiro Mundo deram a vida delas para pagar a dívida de seus países e outros milhões pagam os juros com corpos e mentes subnutridos.

O Brasil, por exemplo. Vocês sabiam que lá eles destroem a Floresta Amazônica à razão de um campo de futebol por segundo?

Por quê? Tentam pagar a dívida nacional com o gado e as terras. Nem têm tempo para vender a madeira! Põem fogo na floresta! E o desmatamento é uma das causas principais do efeito estufa na atmosfera. Enquanto isto, nós gastamos na corrida armamentista!

Como veem, vocês não podem olhar em separado os problemas globais tentando entendê-los e resolvê-los. Claro que podem consertar uma peça, mas ela vai quebrar de novo em um segundo, porque se ignorou o que se conecta a ela. Precisamos mudar tudo de uma vez, ao mesmo tempo. Os ideais, as instituições, os valores. Todas essas novas tecnologias, comunicações e banco de dados causam mais problemas do que os resolvem. A medicina, por exemplo, avançou espantosamente em tecnologia, mas o seu custo subiu igualmente. Tornou-se medicina para ricos. E a saúde pública não melhorou muito, embora pudesse melhorar se apenas mudássemos nossos hábitos alimentares.

Em vez disso, especialistas pensam em corações artificiais. Se nossa agricultura nos alimentasse melhor, em vez de desmatar a Amazônia para criar gado que tem carne vermelha e é uma das principais causas dos enfartes, talvez não gastássemos tanto dinheiro com corações artificiais. E por aí vai. São só alguns exemplos de conexões.

Outro princípio – A questão política é: ‘Como começar?’ Mudando nossa maneira de ver o mundo. Vocês ainda procuram a peça certa para consertar primeiro. Não veem que todos os problemas são fragmentos de uma só crise, uma crise de percepção.

A medicina mecanicista, por exemplo, tem tido sucesso até certo ponto, pois simplesmente bloqueia os mecanismos da doença E isso não é curar. É como na política. Apenas mudam-se os problemas de lugar. Os sistemas não encorajam a prevenção, só a intervenção.

Não quero condenar o pensamento de Descartes, mas só reconhecer suas limitações. Ver o mundo como uma máquina pode ter sido útil por 300 anos, mas essa percepção, hoje, além de errada, na verdade é nociva. Precisamos de uma nova visão do mundo. O mundo muda mais rápido que a percepção das pessoas. Não seria um grande desafio político pular o abismo, informar, permitir que nos sintamos responsáveis? O povo nem confia mais em vocês, políticos. Na última eleição, só 50% deram-se ao trabalho de votar.

A ciência moderna, a tecnologia e os negócios não fizeram o que Bacon sugeriu: torturar o nosso planeta? Não podemos mais nos esquivar. Não podemos correr o risco. As marés estão diminuindo, talvez por causa do lixo jogado na baía, ou dos fertilizantes. Lagos podem morrer, oceanos inteiros ficam poluídos, o solo, as florestas, as águas, envenenados, mortos! As coisas mudam tão rápido nas mãos do homem. A natureza se fragiliza, a chuva toma-se ácida.

Há dois grandes princípios em todo ser vivo: o masculino, que é dominador, agressivo, seja lá o que for; e o feminino, que é nutriente, gentil! Esses princípios costumavam estar equilibrados e, agora, o homem criou ferramentas e armas físicas e intelectuais para desequilibrá-los completamente! Demos ferramentas mecanicistas às pessoas sedentas de poder! Estou dizendo que vocês, homens, perderam o controle! E vocês, eu, todos nós somos as vítimas. Então qual é o risco ou o erro em darem uma chance a outro princípio?

Pensamento ecológico – Toda manhã eu tento entender a linguagem da natureza: ‘As pedras falam, e eu me calo’. Gosto de escrever isso, a que eu chamo de ‘pensamento ecológico’, em oposição ao pensamento cartesiano. Gostaria de propor um novo modo de ver as coisas, que nos ajudasse a superar esta crise de percepção.

Descobri que pensar de maneira ecológica simplesmente faz mais sentido. Dá uma compreensão mais firme da realidade, dá força. Saber é poder, sim, mas no sentido de poder pessoal, e não do velho impulso masculino de ter poder sobre outros.

Foi Isaac Newton, na verdade, que o concretizou, que o transformou em teoria científica, em poder. Veneravam Newton quase como a um Deus, reduzindo todo fenômeno físico ao movimento de partículas causado pela força da gravidade. Ele conseguia descrever o efeito exato da gravidade em qualquer objeto, com equações precisas. Chamadas de Leis do Movimento, elas são o maior feito da ciência no século XVII.

Bem, nas mãos certas, ou melhor, nas mentes certas tais equações funcionavam lindamente. Eu poderia usar as leis de Newton para explicar cada movimento. Era um feito tão incrível para a época, que essas leis logo foram adoradas como a teoria correta da realidade, as leis finais da natureza.

O sonho cartesiano do mundo como uma máquina perfeita tornara-se um fato consumado. Isto trouxe inúmeros benefícios às pessoas. Elas podiam fazer coisas com as quais nem sonhavam antes. Era irresistível e, claro, a velha noção do mundo como um ser vivo, sumiu do mapa.

Lembrem-se de que todos os conceitos newtonianos baseavam-se em coisas que podiam ser vistas ou ao menos visualizadas. Mas o que estavam descobrindo neste mundo estranho e novo eram conceitos que não podiam mais ser visualizados.

Ao se depararem com os absurdos fenômenos da física atômica tiveram de admitir que não tinham uma linguagem, nem mesmo uma forma adequada de pensar nas novas descobertas. Foram obrigados a pensar em conceitos radicalmente novos. Para entender porque a matéria é tão sólida precisavam desafiar até as idéias convencionais sobre a existência da matéria, e após muitos anos de frustrações tiveram de admitir que a matéria não existe com certeza e em lugares definidos, mas sim, mostra tendência a existir. Em linguagem científica, não falamos em tendências, falamos em probabilidades. Todas as partículas subatômicas, elétrons, prótons e nêutrons, manifestam essa estranha existência entre potencialidade e realidade. Então, no nível subatômico não há objetos sólidos. Portanto o que torna a rocha sólida, vai além do poder da nossa imaginação. Não posso explicar isto visualmente a vocês, e sim usar equações. Não há metáforas possíveis. ‘Se as portas da percepção se abrissem, tudo pareceria como é’, disse William Blake.

Ética universal – A vida é um monte de padrões de probabilidades de conexões. Essas probabilidades não são probabilidades de coisas e, sim, probabilidades de conexões. Uma partícula é, essencialmente, um conjunto de relações que se estendem para se conectarem a outras coisas. Conexões de outras coisas, mas que também são conexões, e assim por diante. Na física atômica, nunca se tem objetos. A natureza essencial da matéria não está nos objetos, mas nas conexões.

A essência do acorde está nas relações. É a relação entre a duração e a frequência que compõe a melodia. As relações formam a música. As relações formam a matéria. Esta visão do universo feito de harmonia de sons e relações não é uma descoberta nova. Os físicos estão apenas provando que o que chamamos de objeto, átomo, molécula ou partícula, é só uma aproximação, uma metáfora. No nível subatômico, há uma troca contínua de matéria e energia. Somos todos parte de uma teia inseparável de relações.

Assim como a luz, muitas outras partículas de alta energia, os raios cósmicos, bombardeiam a Terra. Todas essas partículas colidem com o ar e criam mais partículas, interagem, criam e destroem outras partículas, e nós estamos no meio da dança cósmica de criação e destruição. Todos nós, todo o tempo.

Sabiam que nunca falamos de responsabilidade na universidade, nem nunca discutimos ética no meu tempo? Nunca nos ensinaram valores morais. Ninguém nos impôs a sabedoria dos índios americanos que tomavam todas as decisões pensando na sétima geração. Nunca nos ensinaram a pensar no futuro assim. A ciência pura não existe mais! O cientista não se tranca em seu laboratório e escolhe o assunto que mais o fascina. A ciência é cara e o Pentágono, que paga a maior parte dela, é que decide o que é fascinante. 70% da pesquisa científica nos EUA, atualmente, é paga pelos militares.

Partido verde – Pacifistas, ambientalistas, feministas, veteranos, eles foram todos para o Partido Verde, o que mostra que o pensamento ecológico está ficando mais forte. As pessoas veem o quadro geral, veem que as questões estão relacionadas.

Acho que lidamos com um processo histórico tão profundo que nem os americanos resistirão muito. Quando olho para o campo científico, vejo um padrão, a mesma noção holística surgindo. Pensar em processos, e não em estruturas. Isto está acontecendo nos EUA também. Quando algo toma conta do meio cientifico, espalha-se para todo o canto, quer nós gostemos, quer não.

Estou tentando fazê-los aceitar uma visão, mas vocês, políticos, só estão interessados na embalagem. Acho que enquanto continuar a ver as coisas nessa velha ótica patriarcal, cartesiana, newtoniana, vocês deixarão de ver o mundo como ele realmente é. Vocês, eu, todos nós precisamos de uma nova visão do mundo e de uma ciência mais abrangente para nos apoiar.

Há uma teoria surgindo agora que coloca todas as idéias ecológicas de que falamos numa estrutura científica coesa e coerente. Nós a chamamos de Teoria dos Sistemas, dos Sistemas Vivos. Todos os seres vivos, bem como os sistemas sociais e os ecossistemas. Essa teoria ajudaria muito na compreensão das ciências que lidam com a vida. Isto é ciência, e muitos cientistas, incluindo alguns prêmios Nobel, têm trabalhado nestas idéias. Isto é ciência, mas de um tipo novo. Em vez de picotar as coisas, ela olha para os sistemas vivos como um todo.

Um cartesiano olharia para uma árvore e a dissecaria, mas aí ele jamais entenderia a natureza da árvore. Um pensador de sistemas veria as trocas sazonais entre a árvore e a terra, entre a terra e o céu. Ele veria o ciclo anual que é como uma gigantesca respiração que a Terra realiza com suas florestas, dando-nos o oxigênio. O sopro da vida, ligando a Terra ao céu e nós ao Universo. Um pensador de sistemas veria a vida da árvore somente em relação à vida de toda floresta. Ele veria a árvore como o habitat de pássaros, o lar de insetos. Já se vocês, políticos, tentarem entender a árvore como algo isolado, ficariam intrigados com os milhões de frutos que produz na vida, pois só uma ou duas árvores resultarão deles. Mas se vocês virem a árvore como um membro de um sistema vivo maior, tal abundância de frutos fará sentido, pois centenas de animais e aves sobreviverão graças a eles.

Interdependência – A árvore também não sobrevive sozinha. Para tirar água do solo, ela precisa dos fungos que crescem na raiz. O fungo precisa da raiz e a raiz do fungo. Se um morrer, o outro morre também. Há milhões de relações como esta no mundo, cada uma envolvendo uma interdependência.

A teoria dos sistemas reconhece esta teia de relações, como a essência de todas as coisas vivas. Só um desinformado chamaria tal noção de ingênua ou romântica, porque a dependência comum a todos nós é um fato científico. Uma teia de relações. Sim, mas desta vez é a própria teia da vida.

A teoria dos sistemas realmente dá o perfil de uma resposta àquela questão eterna: o que é a vida?

Na linguagem dos sistemas, a resposta seria que a essência da vida é a auto-organização. E significa algo específico, também. Significa que um sistema vivo se mantém, se renova e se transcende sozinho. Um sistema vivo, embora dependa do ambiente, não é determinado por ele. Os campos de centeio nesta ilha francesa deveriam ser verdes o ano inteiro, por causa das chuvas. Mas todo verão eles ficam amarelos. Por quê? Para usar uma metáfora, cada planta se ‘lembra’ que surgiu no clima seco do sul da Ásia. Ela ‘lembra’, e nem o clima muito diferente muda este mecanismo. Ela se mantém e se organiza sozinha.

Nós, por exemplo, como todo ser vivo, nos renovamos sempre em ciclos contínuos. Bem mais rápido do que imaginam. Sabiam que o pâncreas humano substitui a maior parte de suas células a cada 24 horas? Acordamos com um pâncreas novo todos os dias e uma nova mucosa gástrica também. Nossa pele descama à razão de milhares de células por minuto. Sabiam que a maior parte do pó das nossas casas é só pele morta?

Ao mesmo tempo em que as células mortas caem, igual número se divide e forma a nova pele. Assim a vida se renova. Embora as células sejam trocadas, reconhecemos um ao outro porque o padrão de nossa organização continua o mesmo. Esta é uma das características importantes da vida: mudança estrutural contínua, mais estabilidade nos padrões de organização do sistema. E há a autotranscendência.

A auto-organização não consiste apenas nos sistemas vivos se manterem e se renovarem continuamente. Significa também que têm uma tendência a se transcenderem, a se estenderem, e a criarem novas formas. Esta, para mim, é uma das partes mais emocionantes de entender a vida A dinâmica evolutiva básica da vida não é a adaptação. É a criatividade. A criatividade é um elemento básico da evolução. Cada organismo vivo tem potencial para a criatividade, para surpreender e transcender a si mesmo. Para criar beleza também. Evolução é muito mais do que adaptação ao meio ambiente. 0 que é o meio ambiente senão um sistema vivo, que evolui e se adapta criativamente?

Então, quem se adapta a quem?

Um se adapta ao outro. Eles coevoluem. A evolução é uma dança em progresso, uma conversa em progresso. ‘Não evoluímos no planeta, evoluímos com o planeta’. Então, não seria extraordinário e poderoso se pudesse introduzir só essa idéia no diálogo político?

A questão central é a busca obsessiva do crescimento! Isso precisa parar.

Para começar, é dando importância à próxima geração e à seguinte. Foi só quando não as incluímos em nossas teorias científicas e na busca do crescimento, que colocamos toda a vida em perigo.

Pensem apenas no fato horripilante de estarmos deixando para nossos filhos o mais venenoso dos detritos: o plutônio! Ele continuará venenoso até a próxima geração, e a seguinte. Continuará venenoso por meio milhão de anos!

Nunca deveríamos ter aceitado a teoria de que saber é poder, nem a idéia de que o que é bom para a GM é bom para os EUA!

Precisamos de uma sociedade sustentável, em que nossas necessidades sejam satisfeitas sem diminuir as possibilidades da próxima geração!”

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