Proposição borgeana

Você tem um pesadelo assustador com uma pessoa há muito esquecida, há muito distante, há muito perdida.

Acorda e verifica em seguida que ela viu, enquanto você dormia, uma imagem que você exibia.

Como não lembrar da proposição  borgeana: e se você sonhasse com uma flor e quando acordasse, encontrasse a mesma flor pousada sobre a sua cama?

O que você pensaria?

O que motivou esse pesadelo?

E essa estranha sincronia?

E se algo ruim estiver para acontecer com ela?

E se você sentiu medo de que algo ruim aconteça a ela?

E se você teve uma premonição?

E se ela precisar de ajuda?

E se for apenas uma situação desagradável do seu dia que lhe trouxe à memória o quão essa pessoa era desagradável?

E se, sem saber, você desejar que o pesadelo se realize?

E se você sentiu terror por não aceitar que é capaz de desejar a alguém o mal?

E se…. o pesadelo só disser algo sobre você mesmo?

A limpeza étnica da Palestina

DANIEL AVELAR
DE SÃO PAULO
27/04/2017 07h00

Israel não conseguirá manter o sistema ideológico que o sustenta para sempre. Quem faz o prognóstico é o historiador israelense Ilan Pappé.

Estamos em uma encruzilhada: as pessoas em Israel sabem do que o país fez no passado e faz no presente, mas a maioria ainda aceita isso e parece não se importar”, afirma o historiador, para quem pressões externas e “novas gerações” provocarão mudanças em Israel.

Pappé, 62, é um dos principais nomes dos chamados “novos historiadores israelenses”, grupo que analisa criticamente os eventos que levaram à fundação do Estado de Israel, em 1948, a partir do estudo de arquivos militares mantidos em sigilo até a década de 1980.

Ele escreveu o livro “A Limpeza Étnica na Palestina”, no qual argumenta que houve um processo planejado de expulsão e massacre de milhares de palestinos que viviam no território que viria a ser o Estado de Israel.

Sua hipótese contradiz a narrativa tradicional sobre o tema, segundo a qual os palestinos fugiram da região devido à guerra iniciada pelos países árabes contra Israel.

O historiador sofreu pressões e ameaças desde que publicou a obra, em 2006, e por isso hoje vive exilado no Reino Unido, onde é professor na Universidade de Exeter. Pappé, que está no Brasil para uma série de palestras de lançamento da edição brasileira da obra (ed. Sundermann), conversou com a Folha.

Leia, abaixo, trechos da entrevista.

*

Folha – Em seu livro, você defende a tese de que Israel foi fundado com base na limpeza étnica dos palestinos que viviam ali. Como seus compatriotas reagiram a essa ideia?

Ilan Pappé – No início, tentaram ignorar o livro e eu fui muito criticado, o que causou muitos problemas para mim. Aparentemente, para a academia israelense, falar que nosso país cometeu crimes contra a humanidade é cruzar uma linha vermelha.

A verdade é que as pessoas olham para os mesmos fatos com lentes diferentes. Se você vê o que aconteceu na Palestina em 1948 de uma perspectiva humanista, só se pode chegar a uma conclusão: as forças sionistas expulsaram milhares de pessoas e demoliram centenas de vilas palestinas, o que configura limpeza étnica.

Os israelenses não são os únicos a colonizar uma terra estrangeira, várias nações europeias fizeram isso no passado. Mas os israelenses são os únicos a negar o que fizeram.

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Você acredita que a sociedade israelense mudou a percepção que tem sobre si mesma nos últimos anos?

Atualmente, há mais conhecimento do que nas últimas décadas sobre os acontecimentos de 1948. A grande maioria dos israelenses sabe que milhares de palestinos foram expulsos de suas casas e que 500 vilas foram apagadas do mapa. Estamos em uma encruzilhada: as pessoas em Israel sabem do que o país fez no passado e faz no presente, mas muitos ainda aceitam isso e parecem não se importar.

Eu acredito que uma resposta global dura e mudanças de percepção na comunidade judaica ao redor do mundo são fundamentais para que Israel deixe de cometer atrocidades.

Falo com muitos israelenses jovens e vejo uma atitude diferente, mais crítica do que as gerações anteriores. Por isso, sou otimista. Penso que Israel não conseguirá manter o sistema ideológico que o sustenta para sempre.

Donald Trump já indicou possíveis mudanças na política dos EUA para Israel, como transferir a embaixada para Jerusalém. O que seu governo pode representar?

Honestamente, creio que a política dos EUA para Israel não é apenas baseada na personalidade de um presidente. Todos pensavam que Barack Obama era pró-Palestina, mas na prática ele não mudou em nada as diretrizes da política americana. Há outros fatores em jogo, como o lobby pró-Israel e o as pressões do complexo militar-industrial, que ainda vê Israel como um ativo.

Por outro lado, a sociedade civil e a comunidade judaica nos EUA nunca foram tão críticas a Israel quanto hoje. Penso que muitas coisas vão mudar nos EUA, e Trump não é a causa dessas mudanças. Talvez seja um sintoma.

2017 marca o 50º aniversário da Guerra dos Seis Dias. Qual a relação desse evento com o processo que você chama de limpeza étnica?

Há uma continuidade histórica. Os judeus foram para a Palestina porque precisavam fugir do genocídio na Europa, mas implementaram um projeto colonial. Para o sionismo, que considero ser o último movimento colonial, é preciso ter o máximo da Palestina com o mínimo de palestinos possível, caso contrário o projeto não consegue se concretizar.

Em 1948, expulsaram a maioria dos palestinos para, ironicamente, criar uma democracia judaica em parte do território. Em 1967, resolveram ocupar o resto da Palestina, incorporando muitos dos palestinos que haviam sido expulsos em 1948. Isso criou um problema demográfico.

Para resolver esse problema, não houve expulsões sistemáticas, mas se fez algo tão ruim quanto a limpeza étnica. Israel implementou uma ocupação militar sem conceder cidadania, negando aos palestinos o direito de decidir sobre o próprio futuro.

Isso criou o que eu chamo de “megaprisões palestinas”, com graus diferentes de liberdade. Em algumas partes da Cisjordânia se é mais livre, como se fosse uma “prisão aberta”, mas Gaza, por exemplo, é tão fechada que nem se entra mais lá, só se bombardeia.

Quando, e por que, você passou a se opor ao sionismo?

Foi um processo longo, com várias etapas. Eu queria virar um historiador e percebia que as evidências que via não batiam com a narrativa sobre Israel que era apresentada para mim.

Na universidade, eu tive um orientador árabe e, quando estudei em Oxford, pude conversar com palestinos de igual para igual. Penso que o divisor de águas nesta travessia foi a invasão israelense ao Líbano em 1982. Pela TV, eu podia ver o que meu país estava fazendo e não tinha como justificar todas aquelas atrocidades.

Eu não tenho problemas com a ideia de um Estado judeu, mas isso se torna moralmente inaceitável quando depende da expulsão e opressão sistemática dos palestinos. Tenho lutado contra isso minha vida inteira.

Penso que existe uma alternativa para essa situação. Judeus e palestinos podem viver juntos em um Estado democrático, não precisam viver em um sistema de apartheid.

Por que você apoia o BDS (campanha de boicote, desinvestimento e sanções contra Israel)?

Eu acreditava que a diplomacia e o processo de paz poderiam resolver o problema, mas passaram-se anos e a ocupação continuou. Também comecei a perceber que o problema não era a política do governo, mas a ideologia do Estado.

Por isso, passei a apoiar o BDS. Como israelense, aceitar isso era difícil para mim no começo, era o mesmo que dizer “por favor, me boicote”. Os israelenses contrários à campanha a acusam de ser antissemita ou, no caso do boicote às universidades israelenses, dizem que é um ataque à liberdade de expressão. Repetem que a solução é dialogar.

Mas a verdade é que as tentativas de diálogo anteriores fracassaram e o BDS, de algum modo, nos obriga a conversar, ainda que não seja uma conversa agradável.

Acusar o BDS de ser antissemita não é um argumento bem pensado, embora possa convencer pessoas inteligentes. Não há qualquer paralelo entre uma forma de preconceito que está aí há milhares de anos e os pedidos para que um grupo —que diz agir em nome de todos os judeus– pare de cometer violações de direitos humanos.

Eu acredito que precisamos mudar todo o vocabulário que usamos para nos referir à questão Israel/Palestina. Em vez de falar em processo de paz, devemos começar a falar em descolonização.

Isso é um grande desafio pois sabemos como ocorreram descolonizações no passado, mas não fazemos ideia do que isso significa no século 21. Palestinos vivem situações muito diferentes em Gaza, na Cisjordânia e em Israel, e também é preciso pensar no retorno dos refugiados.

Para mim, é muito inspiradora a forma como o processo de descolonização se deu na África do Sul. Esse exemplo nos mostra exatamente o que buscamos: não queremos vingança, mas reparação.

*

RAIO-X
ILAN PAPPÉ

Nascimento
Haifa (Israel), 7 de novembro de 1954

Formação
Graduação em história na Universidade Hebraica de Jerusalém e pós-doutorado na Universidade de Oxford

Ocupação
Professor da Universidade de Exeter

Principais obras
“História da Palestina Moderna: Uma Terra, Dois Povos”, “Os Palestinos Esquecidos: A História dos Palestinos em Israel” e “A Limpeza Étnica da Palestina” (ed. Sundermann)

 

O apagão da era tucana

O apagão da era tucana

O Blog da Boitempo recupera este artigo de Paulo Arantes publicado em 2001. O contexto é o da crise do apagão, ocorrida no final do último mandato de FHC.

Blog da Boitempo recupera em seu Especial Eleições 2014 este artigo de Paulo Arantes publicado originalmente no suplemento Mais! do jornal Folha de São Paulo em 27 de maio de 2001Intitulado “Extinção” – título do livro que arantes publicaria seis anos depois pela Boitempo –, o texto parte de uma carta de um leitor da Folha ao “Painel do leitor” para refletir sobre o que chama da “bancarrota do modo paulista de pensar”. O contexto é o da crise do apagão, ocorrida no final do último mandato de Fernando Henrique Cardoso, pouco antes da eleição de Lula, que daria início ao ciclo petista no Governo Federal.  Hoje, às portas da crise hídrica de São Paulo que não obstante viu a reeleição, no primeiro turno, do governador Geraldo Alckmin, do PSDB, e da disputa entre Dilma Rousseff e Aécio Neves, que já tem como pano de fundo a realidade de um congresso eleito mais conservador desde 1964, cabe repensar, através da releitura feita por Arantes da análise do pós-guerra empreendida por Adorno e Horkheimer, o que resta hoje das lições da era de Hitler, e da era de FHC.
 

[Aviso aos navegantes: O paralelo polêmico estabelecido por Arantes busca dar conta sobretudo da relação entre a autodestruição de certa tradição intelectual progressista uspiana consolidada nos anos 60 em torno do sociólogo tucano e o colapso do projeto de modernização conservadora do país posto em marcha por ele a partir da tomada do poder em 1995. Cabe ao leitor, enfim, julgar a atualidade deste “capítulo terminal” da inteligência crítica paulista, sua experiência no poder e a investida neoliberal no país.]

***
 

“Tenho 65 anos e sempre estive com a situação, com o governo. Há uns três anos, comecei a questionar o meu posicionamento. Hoje não tenho mais dúvidas: sou oposição e tenho muita vergonha deste governo. O Brasil não merece este castigo”.

Benedito M. Andrade Neto (Taubaté, SP)
 

Folha de São Paulo, “Painel do Leitor”, 12/5/2001

“Uma das lições que a era Hitler nos ensinou”, escreviam há mais de meio século Adorno e Horkheimer, “é a de como é estúpido ser inteligente”. Pensavam nos bons europeus, modernos e civilizados, que durante uma década pavimentaram a ascensão do Terceiro Reich com argumentos de lógica impecável acerca da inviabilidade de tamanha aberração. Lembravam-se por exemplo de uma conversa com um brilhante economista que lhes demonstrara por a b, com base nos interesses objetivos dos cervejeiros bávaros, que uma uniformização da Alemanha era impossível. “Depois os inteligentes disseram que o fascismo era impossível no Ocidente. Os inteligentes sempre facilitaram as coisas para os bárbaros, porque são de fato estúpidos. São os juízos bem informados e perspicazes, os prognósticos baseados na estatística e na experiência, as declarações começando com as palavras: ‘Afinal de contas, disso eu entendo’, são os statements conclusivos e sólidos que são falsos.”1

Pois bem. Noves fora os calafrios de praxe – sem falar na modesta envergadura dos pigmeus envolvidos, tanto os bem-pensantes quanto os facinorosos – , estamos em casa. Falo é claro dos inteligentes de São Paulo e de suas ramificações nacionais e internacionais de alto nível. Digamos que a estupidez da inteligência foi se tornando nos últimos tempos uma original contradição paulista. Não ignoro que a transformação da inteligência em estupidez parece ser um traço tendencial da evolução histórica e que, assim sendo, não se poderia honestamente atribuir à índole singular de um agrupamento humano o que é puro efeito de relações sociais.

Pelo sim, pelo não, até por mero instinto de sobrevivência e na condição de criatura dessa elite bem-falante e escrevente, acharia prudente, nessa quadra turbulenta da nacionalidade, pelo menos um solene pedido formal de desculpa aos brasileiros e brasileiras que há sete anos aturam entre tantas outras delicadezas de atenção social o estribilho da referida pedantocleptocracia, entoado por impressionante massa coral: Afinal de contas, disso nós entendemos! E como!

Os hierarcas do império nazi eram bárbaros e naturalmente inimigos mortais da vida do espírito. Mas há também um outro tipo de espírito que é anti-humano, insistiam nossos dois filósofos fracassomaníacos. Podemos reconhecê-lo pela sua marca de origem: a “superioridade bem-informada”. Não há por certo termo de comparação entre os grandes chefes fascistas de ontem e os comparsas tropicais de agora, de sorte que acabamos nos conformando com o tamanho bem paulista a que se reduziram antigos sonhos de suprema elegância, alta cultura e poder – este último, “sans phrase“. Assim, no lugar da tremenda camarilha teutônica, ocupa a cena o cortejo mambembe que se está vendo: o fotogênico Eduardo Jorge, o lombrosiano Jader, o schumpeteriano Mendonção e seu ídolo, o beato Serjão (que Deus o tenha no Paraíso que escolheu), o galante Ricardo Sérgio, o majestoso ACM, o brejeiro delfim de Hanover etc. etc. 2

Mas e onde se lê “espírito”, ainda por cima em alemão? Aqui sim a transposição local nos favorece plenamente. Os senhores hão de convir que, pelo menos em matéria de superioridade bem-informada, a Escola Paulista de Pensamento na qual me formei e que não posso renegar praticamente não tem rival. Pois então é isso, vistas as coisas aqui da capital do FHnistão 3.

Ingratidão maior nunca se viu: como pode o Brasil totalmente esclarecido pelos “intelligenti” de nossa escola ousar resplandecer sob o signo de uma calamidade triunfal? Além do mais, às vésperas de um apagão. Só pode ser obscurantismo. Afinal de contas, disso vocês não entendem nada! Prova disso, o iminente colapso energético do país, o qual precisa entender de uma vez por todas que acabou a fase de energia farta e barata no Brasil, que vivemos um processo de pós-industrialização, pelo qual já passaram economias mais modernas, conforme anunciou o diretor-geral da Agência Nacional de Petróleo, sem que ninguém tivesse chamado a polícia4. Alguma coisa no entanto estamos começando a entender. Estamos enfim reaprendendo com a era fernandina como de fato ficou brutalmente estúpido ser inteligente. Com uma diferença notável, como tudo nessa terra de varões sabedores e que vem a ser propriamente a contribuição original brasileira para o processo mundial de corrosão da inteligência. Na estupidez terminal do espírito superior com que se depararam a seu tempo Adorno e Horkheimer, quando redigiam com resignação filosófica a declaração de falência da civilização européia, explodia em todo seu esplendor a contradição inaugural da razão que comandara aquele processo em colapso, a inteligência liberal, a um tempo universal e particularista, numa palavra, “o instrumento do privilégio na igualdade”.
 

Dosagem homeopática

Na hora do apocalipse, era a ela que o fascismo estava apresentando a conta. Um ciclo histórico depois e a correspondente derrocada da era do crescimento, o pensamento que ora se extingue é de uma outra espécie. Digamos, para encurtar, da espécie que nos habituamos durante dois séculos a chamar de “progressista” ou, para ser mais específico, o lado oposto, o lado propriamente esquerdo daquela matriz original de evolução e reforma do mundo. Aqui entramos nós, o breve porém substancioso capítulo paulista do atual processo de autodestruição da inteligência brasileira, que vai assim arrematando o seu “ajuste” ao padrão global da estupidez bem-pensante. E por mais que a analogia nos repugne, é bom não esquecer a lição do apocalipse nazi, desta vez por uma autora insuspeita de fracassomania, Hannah Arendt: a descoberta da mais aterradora crueldade social germinando no processo aparentemente banal de corrupção da inteligência 5. É claro que a analogia é estritamente filosófica, apenas uma meditação acerca de um caso catastrófico de inibição da reflexão. De qualquer modo, embora a escala mundial do desastre em curso atualmente seja de meter medo, por aqui a dosagem ainda é homeopática, pelo menos do ângulo de um homem branco de classe média, constatação cujo simples enunciado já é uma ameaça. Voltando aos efeitos letais da inteligência paulista no poder, o fato intrigante é que deve ter saído de cena algo essencial que nos fazia pensar, se não for presumir demais. Seja como for, o fato é que toda uma tradição outrora crítica não só foi sugada pelo moinho satânico da estupidez inteligente, mas também passou a acionar-lhe a manivela, com o deslumbramento característico da supracitada superioridade bem-informada. Numa palavra, o que a era cardosista do esclarecimento está mostrando neste momento de glória da malandragem nacional é como se tornou apenas “bête et méchant” procurar ser inteligenterrimamente de esquerda, e isso depois de decretado pelos mesmos altos personagens o colapso da modernização, sem a qual, justamente, fica muito difícil distinguir uma explosão criativa de forças produtivas de meros serviços de corretagem. Cochilo grave para um crime ideológico quase perfeito, esse da lavagem de conceitos. Mas são derrapagens sem sujeito, diria algum espectro althusseriano, relançando a espiral do auto-engano.

Por exemplo, diante da piranhagem que foi o episódio Telebrás, algum incorruptível veterano do leninismo poderia muito bem replicar que mais vale um salto econômico arrancado a fórceps do que a grita moralista das camadas sociais sem futuro etc. Homens de ferro para os quais sou o primeiro a tirar o chapéu. (Muitos deles, com o peito coberto de medalhas, estão no governo. Continuo tirando o chapéu, desde que não me penhorem as antigas medalhas.) Nem por isso menos empulhados pela inércia de um raciocínio cujo nervo histórico se extinguiu, mas sobretudo mesmerizados pelo teatro de sombras dos operadores da nova classe que, justamente afiançados pela nobre estirpe da finada teoria crítica, vão tocando o violento trivial do “big business” como quem toma o Palácio de Inverno, agora sim, literalmente de assalto, acossados, é claro, pela guerrilha impatriótica dos atrasados. Assim se constituem os fundos secretos para uma eterna segunda rodada bolchevique, algo como foquismo na Sociedade Hípica. Aqui a matriz operacional de outra formidável invenção ideológica da era fernandina, a chamada “rebeldia a favor”. É assim que a mais crassa estupidez dos inteligentes vai fazendo a cama dos novos bárbaros, parceiros estratégicos que ingratamente caluniam em momentos de troca da guarda como agora. Nessas horas o sangue-frio materialista da velha-guarda costumava recomendar que se aprendesse com quem se vende, no que tinha toda razão. A nova hegemonia sempre anunciava a sua chegada arrematando cabeças, no geral inconformadas com o estado das artes. Pelas razões erradas, quem se vendia estava à frente dos obtusos e incorruptíveis. Estudando o caso, como numa cena brechtiana, os amigos de esquerda do progresso aprenderiam a encarar as coisas novas e ruins a partir das quais se deveria recomeçar. Estamos vendo nestes tempos cardosistas que já não é mais o caso. Não deve ser apenas por algum defeito de fabricação do personagem – o imortal inventor da rebeldia a favor – que não aprendemos nada com as suas genuflexões, embora não se possa negar a audácia de seu enorme passo adiante. Simplesmente não há mais chão para tal passo, quem nos compra não está mais desbravando nenhuma fronteira da valorização. Portanto já não faz mais diferença nenhuma distinguir, como exigia um clássico do materialismo paulista: vendeu-se, está criticando, ou vendeu-se criticando. No seu devido tempo, veremos por que a transformação histórica da inteligência em estupidez – esse o ponto, já que estaremos interessados em pesquisar a gênese paulista da “bêtise” na origem da atual derrocada da inteligência brasileira – diz respeito primordialmente ao toma lá, da cá das operações elementares de compra e venda. Mas não será preciso remontar à pré-história. Pode-se reconhecer a mesma lógica ancestral – girando como os ponteiros de um relógio no pulso de um morto – observando a espécie de reflexo condicionado daqueles que têm resposta para tudo. Amostragem relâmpago: 1) Política de terra arrasada com os petroleiros em greve? É claro, precisam aprender que estamos trocando capitalismo velho por capitalismo novo; 2) Previdência Social? Totalmente inviável, como um simples cálculo atuarial pode demonstrar, fulano traga os números; 3) Sim, nomeou um antigo torturador chefe da Polícia Federal: certamente precisou negociar coisa mais graúda. E por aí afora.
 

Física paulista dos interesses

E para trás também, caso recuemos até os primeiros sintomas dessa bancarrota do modo paulista de pensar. Vejamos por exemplo o que dizia um filósofo e colunável, enquanto transcorria em Brasília a CPI que desembocaria no impeachment do antecessor: “Ninguém é movido por interesses universais e não se pode pedir aos políticos que abdiquem do esforço pessoal de buscar o poder […]. Em vez do discurso moralista, cabe aceitar que os políticos agem por interesse privado, mas, como só podem fazer em nome do bem comum, que ele calcule seus riscos de ser pilhado em público toda vez que atuar exclusivamente em nome de seu bem particular […]. Desse modo constitui-se uma moralidade pública que comporta a infração nos seus interstícios” 6.

E ainda dizem que a coruja do filósofo só alça vôo ao fim do dia, pois esse mocho paulista madrugou com uma década de antecedência! O estudo da amostra requer entretanto o escrutínio objetivo do naturalista. Trata-se afinal de um processo sem sujeito, a rigor mecânico, como sugere o curioso símile que arremata o raciocínio: “Mesmo quando os indivíduos agem em nome do bem comum, a luta pela obtenção e manutenção do poder implica o exercício dum empuxe individual” 7. A fome de imanência que parece caracterizar esse singelo cálculo de custo/benefício parece fornecer uma excelente ilustração para aquilo que o iberista carioca Luís Werneck Vianna vem chamando de “física paulista dos interesses”, por oposição à irrazoável tendência metafísica do povo brasileiro a achar que é possível vida para além do mercado8. Além de ilustrar, é claro, no andar superior da cadeia alimentar dos bem-informados que têm resposta para tudo o vínculo arcaico entre a inteligência e as raciocinações do poder acerca das vantagens que consegue obter quando se resigna a seguir as regras do jogo. Na opinião descalibrada de Adorno e Horkheimer, que por certo andaram gazeteando os cursos de lógica.

Recordo a propósito, para voltar mais uma vez aos dois catastrofistas de Frankfurt, que talvez o sinal de alarme deles tenha começado a soar quando perceberam o que Chamberlain entendia por “ser razoável” ao reclamar das exigências de Hitler, a seu ver “unreasonables“. Numa palavra, parece que o Führer não respeitava muito a equivalência entre dar e tomar. Se oferecesse um preço justo para os territórios e populações que estava prestes a abocanhar, tudo bem. Essa a rota suicida da estupidez dos inteligentes e elegantes, cujo espírito se apaga “tão logo o poder deixa de obedecer à regra do jogo e passa à apropriação imediata”. De um ponto de vista histórico-mundial, como se dizia na esquerda hegeliana, tanto faz se se trata de um “Gauleiter”, um bicho solto de boca de fumo ou, enfim, um “investidor” atuando no ramo das privatizações. Assim sendo, se a fórmula “vendeu-se” choca e ofende, não seja por isso, troca-se por uma outra equivalente, “ajustou-se”. Por exemplo: ajustou-se gemendo (virou estadista) ou ajustou-se, está gemendo (virou existencialista).

Digamos então que a derrocada se consumou quando uma certa tradição crítica bem paulista se adaptou. Mas aí nossos incorrigíveis fracassomaníacos alemães completariam o raciocínio, lembrando que, na história natural da inteligência, sua extinção na estupidez vem a ser justamente “o dernier cri da adaptação”. E nada mais feroz que a predação dos adaptados (ainda mais quando procuram apenas sobreviver) 9. A violência pré-histórica da “globalização” em curso nada mais é do que a expressão, banalizada pelos notáveis do espírito, de mais uma rodada dessas “adaptações” próprias da derradeira civilização baseada na crueldade bem calculada do trabalho excedente 10.

Em tempo. Certamente o processo de extinção que está nos interessando identificar não é nem poderia ser unilateral. Ele também se espraiou pelo campo oposto, o mundo do trabalho, onde havia igualmente vida inteligente. A fundação absolutamente inédita de um recurso emancipatório inestimável como um Partido dos Trabalhadores que o diga. Juntamente com o “Solidarnosc” polonês, a única iniciativa anti-sistêmica em ascensão durante a década de 80, quando o império deflagrava sua contra-revolução mundial. O movimento polonês, como se há de recordar, foi o primeiro a sumir no ralo da nulidade social, e o nosso já vai apresentando sintomas alarmantes de decomposição dourada.

Com toda a razão o mesmo Luís Werneck Vianna costuma incluir na física paulista dos interesses o movimento browniano das grandes centrais sindicais aqui do pedaço – e, podemos agora acrescentar, o tipo de inteligência esperta das trocas simbólicas e materiais que lhe constitui a razão dominante. Enfim, quem não se lembrará, entre tantos outros, do lance mais do que meramente retórico de um líder sindical excluindo de uma “reforma” da Previdência, ainda por combinar com os de cima, os que nela nunca estiveram incluídos, e por isso mesmo. Faz sentido. Trata-se de uma simétrica opinião-espelho da convicção sociológica da alta tucanagem, segundo a qual o povo miúdo que descola uma aposentadoria na boca do caixa sem nunca ter integralmente contribuído durante as décadas em que se virou da mão para a boca é o primeiro fraudador da Previdência. Dialética da malandragem “oblige“? Como diria um grande lógico paulista, diante de um grafite no banheiro “todo lógico é idiota/ o professor X é lógico/ logo, o professor X é idiota”, pelo menos formalmente está correto. Seja dito em homenagem à neutralidade epistemológica que sempre distinguiu a Escola Paulista de Pensamento, o professor X era ele mesmo. Conosco é assim mesmo, os conceitos, quando são bons, como os nossos, são muito democráticos, não fazem distinção de classe.
 

Precarização do trabalho

Continuando. Numa tese recente, mostrou-se como a contribuição dos assalariados para os antigos IAPs da famigerada era Vargas financiaram as estatais originárias, torradas agora para fazer o caixa do populismo cambial do primeiro mandato11. Entre elas, a Vale do Rio Doce, arrematada a preço de banana nas condições que se sabe, como compete a um Estado-corretor de “big business“12. Pois não é que também ouvi outro dia um líder sindical, com imponente folha de serviços prestados durante o auge do sindicalismo de combate do período anterior, saudar o “companheiro Benjamin” (Steinbruch mesmo) como “parceiro de primeira hora” num louvável empreendimento de “charity business“? Outro louvável “parceiro de primeira hora” (idem, ibidem) o companheiro BankBoston. Num ensaio recente, Francisco de Oliveira dá uma boa pista para rastrear, no chão material dessa outra metade da física paulista dos interesses, o correspondente processo de extinção mental, nesse caso, por motivo de extenuação na base social da espoliação 13. Com efeito, contrariando o besteirol corrente sobre a perda da centralidade do trabalho, Francisco de Oliveira não só também constata uma espantosa extensão do assalariamento, no sentido amplo do termo, sem paralelo mesmo considerando-se os anos dourados do fordismo, ampliação que se estende da mais cruenta extração de mais-valia absoluta até o trabalho não-pago do cliente de serviços que também labuta ao consumir, mas um igual aprofundamento da privatização do trabalho, entendendo-se com isso a privação de sua dimensão pública, tanto por motivo de precarização e informalização galopantes como de predação do tempo privado de “não-trabalho” pelo emprego on line da massa crescente de trabalhadores à disposição. A seu ver, esses dois movimentos tornam o velho conceito marxista de exército industrial mais atual do que nunca, desde que devidamente reinterpretado, na medida em que “praticamente todos os trabalhadores converteram-se em seus membros intermitentes/latentes pela permanente desqualificação e informalização”. Assim sendo, a fração propriamente ativa tornou-se minoritária, enquanto a fração estagnada ou lúmpen tende a crescer. Mais importante, o fundo público que se origina da relação contratual de compra e venda de força de trabalho e, quando se constitui, perde seu antigo poder de veto sobre o capital. Com isso, continua Oliveira, a mera “gestão” dos fundos públicos, tais como FAT, PIS, Pasep, FGTS, e não a sua “apropriação pública”, torna-se objetivo maior dessa fração ativa do exército industrial. Nessas condições, os membros desse núcleo preservado (e olhe lá!), convertidos em sujeitos monetários privatizados, não podem nem querem saber da massa sobrante do seu exército. Deve passar por aqui a base material dos dois lances de idiotia social referidos acima. Sobre tal base se ergue a mesma derrocada da inteligência no mundo do trabalho. É claro que Francisco de Oliveira empregou deliberadamente a expressão de Robert Kurz “sujeitos monetários”, fórmula que nesse meio tempo acabou ganhando novo conteúdo, à medida que seu autor foi reabrindo o dossiê do mundo do trabalho que precipitadamente julgara abolido. Pois, comentando o argumento bem conhecido de Richard Sennett sobre a corrosão do caráter dos indivíduos flexibilizados pela desqualificação do trabalho sob o novo capitalismo, Kurz também realça o impulso autodestrutivo que consome tais mônadas “universalmente exploradas e solitárias”, um novo universo da espoliação em que os empregados vão se tornando “manhosos e sem coesão social, que só sabem lograr seus superiores, os clientes e seus demais colegas” 14. Aqui o outro foco do ponto cego em questão. A anulação mental induzida pela privatização do trabalho atroz – como alguns autores franceses chamam a coisa – vem a ser o reverso de uma tolerância crescente com o intolerável – no caso, a injustiça abismal na sociedade polarizada de hoje. Algo como uma reação defensiva igualmente cruel ante o sofrimento que se é obrigado a infligir a si mesmo e aos outros, os que se vêem passar nas levas sucessivas de precarizados e enxotados, pelo sistema, é claro, como nos falsos juízos de atribuição que acompanham esse encasulamento no medo 15. É neste momento que se dá a esterilização da faculdade de pensar e prospera o cálculo dos experts em sobrevivência, deserto mental onde cresce apenas a crueldade social que caracteriza todo o eclipse da reflexão. Aqui voltamos ao topo dos esclarecidos. Ao niilismo da “viração” dos que embaixo moem no aspro corresponde o “saco de maldades” ou a “Wall Street quer sangue” de dois imortais mentecaptos da pedantocleptocracia fernandina.
 

O reino animal

Com uma diferença, seja dito, por assim dizer, em favor das vítimas. Como o nome indica, “bêtise” algo terá a ver com o reino animal. Refletindo sobre sua gênese, nossos dois fracassomaníacos frankfurtianos lembraram que o símbolo da inteligência é a antena do caracol.

“Diante de um obstáculo, a antena é imediatamente retirada para o abrigo protetor do corpo, ela se identifica com o todo e só muito hesitantemente ousará sair de novo como um órgão independente […]. Em seus começos, a vida intelectual é infinitamente delicada […]. O corpo é paralisado pelo ferimento físico, o espírito pelo medo. Na origem as duas coisas são inseparáveis […]. Esse primeiro olhar tateante é sempre fácil de dobrar, ele tem por trás de si a boa vontade, a frágil esperança, mas nenhuma energia constante. Tendo sido definitivamente afugentado da direção que queria tomar, o animal torna-se tímido e burro. A estupidez é uma cicatriz […]. Essas cicatrizes constituem deformações. Elas podem tornar as pessoas estúpidas no sentido de uma manifestação de deficiência, da cegueira e da impotência, quando ficam apenas estagnadas; no sentido da maldade, da teimosia e do fanatismo, quando desenvolvem um câncer em seu interior. A violência sofrida transforma a boa vontade em má” 16.

São esses os pontos cegos que no interior de um indivíduo justamente, como estamos vendo, “designam as etapas em que a esperança se imobilizou”. Porém o que se aplica aos condenados da terra – ao mesmo tempo em que reconhece a massa bestificada pela hipnose fascista na história das frustrações da espécie – não pode evidentemente valer para a indigência histórica do reino animal do espírito que se instalou na capital cultural do FHnistão. Para tal reino não haverá filosofia que encontre circunstâncias atenuantes.
Como o ser em Aristóteles, corrupção também se diz em muitos sentidos, inclusive na acepção brasileira do termo, como a seu tempo veremos, caso este folhetim continue. Ao falar em corrupção da inteligência brasileira, não me passa pela cabeça sugerir que até os maiorais de nosso falido espírito crítico estão criando rã no quintal. Primeiro porque acho que ainda não estou maluco a esse ponto, segundo, e principalmente, porque, sendo moralista, pelo menos com essas coisas não costumo brincar. Como não tive berço dialético, minha mãe estudou no “Des Oiseaux” e meu pai era udenista, peço que me relevem a estreiteza de espírito. Falha de formação, sem dúvida.

Mesmo tendo sido aluno aplicado da Escola Paulista de Pensamento, ainda não consigo encarar a corrupção com suficiente isenção sociológica. Azar, estou agora morrendo na praia. Vejam só, deixei escapar na undécima hora a Astúcia da Razão em pessoa, a manobra radical do genial estadista, na formulação não menos inspirada do filósofo Ortega y Nassif: “Utilizar as armas da fisiologia para derrotar a fisiologia!”. Aplicando esse teorema do materialismo histórico em reconstrução, o fotogênico E.J. definiu-se com toda razão um lobista ao contrário17. Mas também não é dessa corrupção literal – na verdade uma metáfora fóssil – que estou falando, embora não ignore que a dita cuja é antes de tudo um sistema sem sujeito, é claro, porém com cadastro na Receita Federal. A corrupção que me interessa – a extinção da inteligência pela estupidez “crítica” – é muito mais assustadora (afinal tenho interesses profissionais no assunto), pois concerne à decomposição de uma tradição que se vai desmoralizando conforme apodrece. (Avisei que sou moralista.) Sendo assim, o estrago não é nada trivial, de fato uma hecatombe que no limite independe de eventuais traficâncias nas altas paragens do pensamento e do poder. Ou melhor, por isso mesmo interessa investigar conceitualmente, é claro… o lugar do “broker” intelectual na hora pesada em que se encontram o dono do dinheiro e o dono do poder. Ali onde circulam, nas palavras famosas de Braudel, os grandes predadores e vigora a lei da selva, deve a inteligência se corromper na forma gloriosa da mais estupenda e cruel burrice.
 

Cada vez mais do mesmo

Dada a calculada irreversibilidade das políticas de ajuste permanente como fim em si mesmo e o correspondente dano social irreparável que produzem, tudo indica que teremos cada vez mais do mesmo. Diante de uma tal escalada autodestrutiva, a constatação de que a tradição crítica brasileira não tem mais futuro é uma catástrofe menor.

Não sei se estou me fazendo entender, afinal não sou nenhuma exceção e a minha própria capacidade de pensar já deve ter se apagado faz tempo. Os paulistas no poder não são quaisquer, tampouco a desgraça mental que patrocinam. À sua própria revelia, bem entendido, conforme aprofundavam o ponto final em que chafurdamos, iam avançando, com fins apologéticos os mais rasos, nos fundos críticos acumulados pela referida tradição e, por esse caminho de autodestruição do saber herdado, convertendo ponto por ponto o que antes esclarecia e prometia libertação, no seu exato oposto conformista, como se quisessem demonstrar numa derradeira pirueta, cínica ou asnática, vá lá saber, que de fato cedo ou tarde toda Aufklärung, central ou periférica, acaba se convertendo no seu contrário.

A nova mitologia dos fatos se expressa então no autodeslumbramento com que a feroz burrice dos inteligentes se congratula consigo mesma. Porém, o espírito crítico saqueado e barateado parece se vingar quando a antiga teoria crítica passa a funcionar como uma chinfrinzinha teoria tradicional de coisa nenhuma e ainda por cima mobilizada com a pompa e circunstância dos grandes acacianos para os fins da mais trivial dominação de classe.

via O apagão da era tucana – Carta Maior

O Amor, Meu Amor

O Amor, Meu amor

Mia Couto

Nosso amor é impuro
como impura é a luz e a água
e tudo quanto nasce
e vive além do tempo.

Minhas pernas são água,
as tuas são luz
e dão a volta ao universo
quando se enlaçam
até se tornarem deserto e escuro.
E eu sofro de te abraçar
depois de te abraçar para não sofrer.

E toco-te
para deixares de ter corpo
e o meu corpo nasce
quando se extingue no teu.

E respiro em ti
para me sufocar
e espreito em tua claridade
para me cegar,
meu Sol vertido em Lua,
minha noite alvorecida.

Tu me bebes
e eu me converto na tua sede.
Meus lábios mordem,
meus dentes beijam,
minha pele te veste
e ficas ainda mais despida.

Pudesse eu ser tu
E em tua saudade ser a minha própria espera.

Mas eu deito-me em teu leito
Quando apenas queria dormir em ti.

E sonho-te
Quando ansiava ser um sonho teu.

E levito, voo de semente,
para em mim mesmo te plantar
menos que flor: simples perfume,
lembrança de pétala sem chão onde tombar.

Teus olhos inundando os meus
e a minha vida, já sem leito,
vai galgando margens
até tudo ser mar.
Esse mar que só há depois do mar.

mic-ccc11

No livro “Idades cidades divindades”