Vício: O reino dos fantasmas famintos*

*Excertos da obra de Gabor Maté

A sala de parto de Beethoven

Em outra ocasião, ele me conta sobre uma aventura que teve quando jovem, numa visita à Alemanha. – Levei uma garota no Geburtszimmer de Beethoven. Recordo-me do alemão rudimentar que aprendi na infância: geboren, nascer; Zimmer, sala. – A sala de parto de Beethoven? – É, o quarto onde ele nasceu. Levei vinho, queijo, um pouco de salame e maconha. Arrombei a fechadura, entrei com a garota, toquei o piano dele e me diverti à beça. – Uau! – exclamei, erguendo as sobrancelhas em ceticismo. – Em que cidade foi isso? – Outro teste. – Bonn. – Sim, Beethoven nasceu em Bonn – murmuro. Ralph, meio maníaco de cocaína, prossegue para uma performance completamente inesperada. – Aqui vai um poema que escrevi e que você pode gostar. Chama-se “Prelúdio”. Sua recitação compassada é feita com uma voz baixa, rouca, num ritmo tão rápido que mal noto intervalos para respirar. O poema é composto por dísticos rimados em pentâmetro. Fala sobre solidão, perda, fatalismo. – Você escreveu isso? – Sim. Escrevi 500 páginas de poemas. Era minha vida. Não sei onde elas foram parar. Passei cinco anos vivendo nas ruas. Deixei meus poemas num hotel onde fiquei por uma semana. Queriam que eu pagasse 100 dólares para pegar minhas coisas de volta, e eu não tinha dinheiro. Talvez tenham vendido tudo num leilão, talvez as coisas tenham ficado com um segurança, talvez tenham jogado no lixo. Sei lá. Só me lembro de algumas partes. Minhas coisas se foram. Perdi tudo. Ralph se torna estranhamente pensativo por um instante. De repente, seu rosto se ilumina. – Você vai reconhecer esta – diz ele, e faz uma declamação rápida, num alemão que rima. Por nunca ter sido fluente no idioma, não entendo nada, mas dou um palpite otimista: – Isso parece mais Goethe do que Goebbels. – E é – confirma Ralph, triunfante. – São os últimos oito versos de Fausto. Sem pestanejar, ele recita em inglês: Tudo que é transitório É parábola apenas, Aqui se completam As insuficiências terrenas. O que não se nomeia Pelo amor vence a vida. O eterno feminino Céu acima convida. Ele recita o poema sem sua habitual intensidade apressada; sua voz soa calma e suave. Em casa naquela noite, tiro da estante Fausto, parte II, e abro na última página. Lá está: o louvor de Goethe à iluminação espiritual, à união abençoada entre o espírito humano e o princípio feminino, o amor divino. Goethe, assim como Dante em A divina comédia, representa o amor divinal como uma qualidade feminina. Acho a tradução de Goethe apresentada por Ralph, seja dele mesmo ou decorada, mais comovente que a versão que tenho em mãos. Conforme leio os belos versos do poeta alemão em minha casa confortável num bairro luxuoso e arborizado de Vancouver, é impossível não pensar que Ralph, naquele exato momento, apoiado em sua bengala, passa a noite fazendo vigília em algum canto sujo da Hastings Street, tentando conseguir sua próxima dose de cocaína. Em seu coração, ele almeja a beleza tanto quanto eu e, tanto quanto eu, necessita de amor. Se o entendi bem, Ralph deseja, acima de tudo, a união com o eterno feminino caritas – o amor divino abençoado, que salva almas. Aqui, divino não se refere a uma divindade sobrenatural acima de nós, mas à essência imortal que existe dentro de nós, através de nós, além de nós. A religião pode associá-la à crença num deus, porém a busca pela eternidade vai muito além de conceitos religiosos formais. Uma consequência da privação espiritual é o vício, e não apenas de drogas. Em conferências de medicina, é cada vez mais comum vermos palestras sobre o aspecto espiritual do vício e de seu tratamento. A forma e a gravidade do vício são moldadas por muitas influências – sociais, político-econômicas, pessoais e familiares, fisiológicas e genéticas –, porém há um vazio espiritual no âmago de todos os vícios. No caso de Serena, a mulher indígena de Kelowna, o vazio foi gerado pela violência insuportável que sofreu na infância – assunto ao qual retornarei adiante. Mas, por enquanto, basta dizer que, se eu já não tivesse notado o desejo secreto de Ralph por Deus em seu recital de Goethe, o próprio Ralph o confirmaria em palavras alguns meses depois. No fundo da alma, ele anseia por se conectar intimamente com a mesma qualidade feminina que sua agressividade belicosa e desenfreada pisoteia com tanta maldade. Pouco depois, talvez na consulta seguinte, já estamos de volta ao Arbeit macht frei, ao Schmutzige Jude, ao Heil Hitler. – Enfia sua morfina no cu! – berra Ralph em sua voz árida. – Quero Ritalina, cocaína, lidocaína! Ele poderia muito bem estar gritando “Liberdade ou morte”. As drogas são a única libertação que conhece. Infecções bacterianas no sangue são complicações frequentes do uso de drogas, especialmente nas precárias condições de higiene de muitos viciados. No ano passado, Ralph foi hospitalizado e precisou tomar antibióticos fortes por via intravenosa por dois meses para curar uma sepse que poderia ter sido fatal. Já quase no fim do tratamento, vou visitá-lo em seu quarto numa das alas médicas do Vancouver Hospital. Lá encontro uma pessoa muito diferente do pseudonazista raivoso e hostil que frequentava meu consultório. Ele está deitado na maca meio inclinada, coberto com um lençol branco até a barriga. O peito magro e os braços estão desnudos. O cabelo grisalho agora exibe um corte uniforme, com uma leve tonsura acima das têmporas raspadas. Ele me cumprimenta com um aceno da mão esquerda. Começamos falando de sua saúde e seus planos após a alta. Espero ajudá-lo a encontrar uma moradia longe das drogas. A princípio, Ralph se mostra hesitante, mas acaba concordando que seria uma boa ideia não voltar para Downtown Eastside. – Fiquei feliz por você ter vindo – diz ele. – Daniel também veio. Tivemos uma conversa legal. Na época, meu filho Daniel trabalhava no departamento de saúde mental do Portland Hotel. Músico e compositor, ele visitou Ralph no hospital e os dois gravaram quase uma hora de músicas de Bob Dylan. A gravação consistia principalmente em Daniel dedilhando o violão e cantando junto com a voz rouca e desinibida de quase barítono de Ralph. Como cantor, Ralph não tem muito domínio das melodias, mas sabe captar a dimensão emocional das letras e canções de Dylan. – Pedi desculpas a Daniel pelo que falei, e peço desculpas a você também, por aquela idiotice de Arbeit macht frei. – Estou curioso. Por que você fala essas coisas? – É só uma questão de supremacia. Não acredito em nada disso. Nenhuma raça é superior. Ou todos os povos são superiores a Deus, ou nenhum é… Mas não faz diferença. São só besteiras que dão na telha dos outros. Cresci sofrendo com o Partido Nacional-Socialista, e você também, apesar de ter enfrentado o outro lado das coisas. Foi uma situação infeliz. Peço desculpas por tudo que falei contra você e seu filho. Quero muito sair logo daqui para tocar mais músicas com Daniel. – Olha, o que mais me preocupa é que essas coisas deixam você isolado. Acho que em algum momento você aprendeu que a melhor maneira de sobreviver no mundo é sendo extremamente hostil. – Deve ser isso mesmo. – Quando Ralph fica emocionalmente agitado, como agora, a pele de seu antebraço ondula como uma bolsa de bolinhas de gude. – Porque as pessoas me trataram mal e aí… aí você aprende a tratá-las mal de volta. É uma explicação… Não a única… – Isso é muito comum – digo. – Eu também sou bastante arrogante às vezes. – Beleza. Eu só queria… Tudo girava em torno das drogas. Eu não queria morfina… Eu queria lidocaína. Isso resolveria meus problemas… Eu não ficaria na fissura por nada, não ficaria atrás de nada. Ela teria amenizado tudo. Ralph embarca numa explicação extremamente complicada sobre como a lidocaína, um anestésico local, é preparado para a inalação numa mistura de bicarbonato de sódio e água destilada. O produto final é inalado por um pedaço de palha de aço. Ele descreve de modo muito específico a técnica da inalação, que, segundo me explica, deve terminar com a substância sendo lentamente expelida pelo nariz. Escuto com fascínio essa palestra extraordinária sobre psicofarmacologia aplicada.

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