Paul Éluard, por Natan Schäffer — escamandro

Paul Éluard por Cartier-Bresson, 1944. Paul Éluard (1895 – 1952) resistiu. Fazendo nossa sua voz, resistimos. Deixo que, em nossa língua, o próprio Éluard comente seus poemas: “(…) e alguns outros poemas cujo sentido não deixam sombra de dúvida quanto ao objetivo visado: reencontrar a liberdade de expressão para atacar os ocupantes. Então, por toda […]

via Paul Éluard, por Natan Schäffer — escamandro

Requerer

Como pedir a uma gota de chuva que se suspenda no ar?

Como pedir, em pleno voo, às asas dos pássaros que parem de bater?

Como pedir ao vento que pare de soprar?

A um rio que pare de correr;

 

Como solicitar a um tigre faminto que não devore sua presa?

Ou requerer a um raio que interrompa seu curso,

Para não chamuscar uma árvore indefesa?

Ou pedir ao sol que pare de brilhar?

Como? Como? Como?

Só as rochas podem pedir algo assim…

Se um impulso se consegue reprimir prudentemente,

É porque não é tão ardente seu querer.

 

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Ninguém se importa

(Vladimir Santafe)

“Primeiro declarou que preferia filho morto a ter um filho gay,
Mas eu não me importei com isso,
Eu não era homossexual.

Em seguida disse que negros não servem nem pra procriar,
Mas eu não me importei com isso,
Eu também não era negro.

Aí falou que a filha nasceu mulher por causa de uma fraquejada,
Mas eu não me importei com isso,
Todo mundo fala umas besteiras.

Então declarou publicamente apoio a um torturador,
Mas eu não me importei com isso,
Eu nunca fui torturado.

Em seguida bradou que a ditadura matou foi pouco,
“Deveria ter sido uns 30 mil”,
Mas também não me importei com isso.

Seus apoiadores debocharam de uma vereadora assassinada,
Mas eu não me importei com isso,
Eu não a conhecia.

Seu parceiro afirmou acabar com 13º e férias,
Mas eu não acreditei nisso,
Pois ele nunca seria capaz.

Por fim, me prometeu armas,
No lugar de me dar emprego,
Pois assim eu estaria protegido.

Agora eles estão gritando
Que vão matar “viado”,
Agora eles estão matando
Negros a facadas,
Agora eles estão protestando
Dando tiros para o alto,
E eu continuo não me importando.

Então eles cortaram meus direitos
E me impediram de reclamar,
Aumentaram meus impostos
E me ameaçaram se eu reclamasse,
Levaram parentes e amigos,
E eu serei o próximo a quem irão levar.

Mas já é tarde,
Como eu não me importei com ninguém,
Ninguém se importa comigo”.

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